E agora?

1) Não se trata mais de debochar de quem tem ido às ruas, mas de tentar entender o que essas pessoas querem de uma maneira prática além dos memes e registros caricatos de quem não sabe o que está fazendo ali. Essa multidão representa de forma legitima, gostem vocês ou não, uma indignação bastante razoável e urgente. Sim, elegeram para purgação um lado que é menos colaborativo, eu disse menos, quando o assunto é privilégio – mas será mesmo que é só por isso? Um governo desastroso que (também) por uma mãozona midiatica é o epicentro de um problema estrutural cheio de tubulações que ainda nem sabemos onde vão chegar. Apropriaram-se de figuras representativas que servem em plano simbólico como uma oferenda oportuna num ritual de guilhotina renovadora. Cabeças (nada inocentes) que estão para serem cortadas em uma hora ingrata(?), em um momento em que o pior pode vir depois. Mas já repararam que o mal pode sempre vir depois, independente da circunstância?
 
2) Ainda assim, é legal questionar as prioridades envolvidas quando o mote escancarado de uma manifestação é o da anticorrupção, ou seja, um mote que se anula por si, uma vez que todo mundo é ESTÉTICAMENTE “contra a corrupção”, inclusive os corruptos. Eu ainda não estou falando de lados, nem de santos, nem de camisas de futebol contaminadas por um símbolo de corrupção recente. Ainda não.
 
3) Penso que o que está acontecendo nesse exato momento seja o reflexo sísmico mais colateral dos Movimentos de Junho de 2013. “Cria-te corvos que te comerão os olhos”. Eles aprenderam direitinho, vocês estimularam e depois esnobaram, subestimaram, se esquivaram do diálogo, caímos num Mackenzie x USP no JUCA . Em algum momento, eu achei a palavra golpe um exagero da esquerda mimada. Mas, ser corrupto institucionalmente (liberar catraca) como resposta a corrupção num dia como o de domingo, é uma atitude no mínimo cínica e oportunista da oposição. Daí alguém vai dizer: então, onde estão os inocentes quando os réus são também os vilões da história? É essa é a questão: nesse momento a trapaça não é mais um elemento surpresa, agora são todos tentando pular do Titanic nos botes que têm pra hoje. O “golpe” já aconteceu, está acontecendo, e de ambos os lados.
 
4) Podemos continuar brincando com fotos e memes e gifs chiques? Eu assim prefiro. Prefiro porque o humor, o alívio cômico para um momento em que o clima e a tensão coletiva vêm interferindo socialmente em nossas relações é a única forma de não cairmos em uma neurose funcional. Acho inocente supor que em um evento com milhões de pessoas, tudo seguirá de maneira uniforme e não vai ter gente extrapolando e fazendo bulshitagens em nome de uma purificação política em que tudo é permitido em nome dos fins. Acho também que a expulsão de Alckmin e Aécio é um bom perímetro para que a esquerda pare de achar que tudo se trata de “choro pelo Aécio”, “amamos o Cunha” ou “creme da Victoria Secret ta uma facada com a alta do dólar então vamos voltar pra Natura”. Como diria Galvão (eca): “não existe mais time bobo nessa copa”.
 
5) Muitos dos que criticam o fla-flu de agora, cultivaram diretamente essa polarização, talvez eu, você. Como? Conversando apenas com quem concorda conosco, criticando apenas o grupo “adversário”, achando que a legitimidade da própria opinião se consolida apenas pelos likes de quem está dentro da sua tenda ideológica, alimentando a lógica dos algorítimos. E será que tem volta? Acho difícil. Tentar o diálogo tem sido uma tarefa quase impossível quando você não se veste de seleção brasileira ou usa um vermelho sem querer, e principalmente agora que o termo “isentão” entrou na moda, todos estão mais ouriçados em se posicionar antes de serem derrubados do muro. Uma saída possível é tentar se informar fora da caixinha, prestar atenção em quem está disposto a examinar criticamente o próprio lado mesmo que vá doer. Orgulho eleitoral ferido não ajuda em nada nessa hora.
 
6) Um grande equivoco da direita é medir as escolhas adversárias por uma pauta só. Quem votou na esquerda, de certo, tinha preocupações menos genéricas do que o andamento da economia, existe nesse novelo muitas minorias buscando alinhamento com propostas SUPOSTAMENTE mais justas e igualitárias e principalmente representativas diante de um congresso conservador e retrógrado. Sim, na prática não foi bem assim, mas achar que alguém vota pra apoiar corrupção por pura luxuria de caráter nessa altura do campeonato é insistir no raso, uma vez que estamos falando de uma contaminação generalizada em que não existem inocentes.
7) Acho triste que o argumento da seletividade tenha virado apenas um cabo de guerra de justificação conveniente. “Se o meu lado está pagando pelo que fez e outro AINDA não, o meu lado passa a automaticamente ser coitado e inocente”. Vocês colocam a seletividade de um equivoco sobreposta ao próprio equivoco. Seletivizar a seletividade. Bonito isso.
 “Não aperte o botão VERMELHO”. Talvez essa frase de filme nunca tenha feito tanto sentido. Mas se mudarmos o botão de cor, o perigo acaba?