Letícia: pessoa colecionável #15

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Uma bruta aventura em versos, os da autosabotagem. Ainda está cedo, então me estico na cama para não olhar na cara do tempo. Adormeço de ansiedade prolixa. Acordo atrasado e ela já está lá me esperando, cheia de frases que ainda não sabe.  Atraso imperdoável: 40 minutos. Conto a verdade para ela e para mim. Que como quase todo elemento da espécie humana, eu minto sobre atrasos e calculo mal a relação trajeto x tempo. Vou dando margens falsas para que a vítima se acalme, mas quem não está calmo sou. Com medo de que ela, sei lá, vá embora. Então, grito aos remadores que avancem num vocabulário mudo. “Autosabotagem é o mal do século, a verdadeira ruína humana” diria ela, alguns tambores mais tarde.

Letícia acaba de voltar de um encontro de roteiro em Fortaleza com Hilton Lacerda, o exótico e ousado diretor do melhor filme queer do Brasil nos últimos anos-luz: Tatuagem. Enquanto a sorte de cinéfilos sonha em conhecer aquele diretor, meu sonho de conhecer ela é tudo o que importa dentro dessa embarcação junina. Entro no sarau dos Parlapatões e estico os braços para que ela me veja. Pholia e cortejo. Primeiro um beijo na mão direita, depois um abraço de esparramar o Royal das paletas. “Muito prazer, sou seu secretário”. É chegado o instante disfórico. A mulher que rouba frases, rouba canapés em reuniões da esquerda festiva, rouba pequenos objetos que derramam das ingênuas cascatas dos distraídos. Ela vai me indicar um filme coreano chamado “The Chaser”. Prometo que assistirei com Skittles na boca.

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Ela já morou com estranhos. Teve um dia de outono em que alguém trouxe um peru congelado de 4,99. Uma galinhada inesqueçuda. Distraio-me olhando seu urso polar pendurado no pescoço. Quero roubá-lo. Tudo nesse cleptoencontro é sobre roubos e gestos moles. Ela me conta como se libertou dos roubos do tempo. Perder a noção dele foi melhor que rosnar. “ ou você liga o foda-se ou enlouquece”. Mas se pudesse voltar a uma época, qual seria? 1910. Tempo em que existia o cinematografo, o ancestral da filmadora. Era um modo de entretenimento pago para dizer ao público o que as pessoas não tinham a coragem de dizer.

Me ensina um truque sobre como roubar um coração por algumas horas e depois devolver pelo correio. Seduzir é um tipo de insistência que precisa romper a casca do tempo. Desarmar alguém é ir longe, sem perspectiva de final. Vá fundo, converse sem marcar no cronômetro, estique, conte uma dor, e deixe o flavour do incerto ir quebrando o escudo de remoque. Um bom sexo pode acontecer se você conversar com alguém até que se gastem as possibilidades da partida, até que na hora em que tudo o que um pode dizer ao outro é tchau, mas esse tudo, de repente se prolonga por um olhar psicótico. Um rouba calor do outro. O sexo existe em qualquer lugar, agora, ali, em todo canto de cortinas rasgadas, inclusive em Stardust – o planeta Bowie. Mediunidade sexual é saber enxergar hormônios voadores. Teorias selvagens por aerosol. Em Tambaú também tudo disso acontece. Praia nudista, mamonas abundantes e monjas de olhos verdes, sem colírio.

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(Ah, pela primeira vez encontro alguém que também já foi ao Kit Kat Club. Toca aqui.)

(uma lata cai é ela não consegue esticar sua terceira mão para pegar)

Pergunto onde mora o maior amor do mundo. E ela diz que no “passado”. Com susto, digo que me forço a odiar o passado. Acho que o melhor remédio do mundo é rasgar o calendário em pedaços sem volta em frente a uma vela acesa. Ela diz que o passado é um retoque confortável. Que os melhores namoros que teve são aqueles que já acabaram. Já a realidade, essa cheira ao podre da culatra. É um desverde ao contrário essa memória. Verde é o presente, e só voltando casas no tabuleiro o rubor aparece na puberdade idosa do fruto atraente. Não há amores tão bons quanto os que já passaram. É tudo tão lindo, que resolvo presenteá-la com a mais linda declaração de amor ao azul (não) vista pelos meus epicentros. É de Paulo Mendes Campos.

“Quando o cego disse que queria viver em um lugar cuja temperatura oscilasse entre quinze e vinte graus e onde o céu todos os dias fosse azul, ninguém na sala sentiu vontade de sorrir. Nem cheguei a sentir um arrepio de tristeza. Ele falou com a voz clara e cheia de sentido. Entendemos de repente um espaço emocional extraordinário, que desconhecíamos. Céu azul não conhece fronteira de sombra; céu azul é indispensável antes de tudo aos cegos; azul do céu não é cor, mas uma qualidade do mundo, uma luminosidade apreensível por todos os sentidos, fragrância, convivência mais delicada, concerto de sons, transparência do universo.

Nos dias cinzentos, o mundo é mais opaco e mais áspero, as pessoas falam com um timbre mais rouco e aflito; os pássaros não cantam; a brisa é mais úmida, o ar mais pesado.

O cego desejava que todos os dias fossem azuis, precisava dos dias azuis mais do que nós, os distraídos na multiplicidade do mundo, dispersados em tantas sensações supérfluas. Um poeta disse que deus é azul. Não creio. Mas creio nos poetas. Creio no azul. Creio nos cegos.”

Como implodir os parnasianos? Jogue uma bomba no liquidificador e jamais fique sabendo da pesquisa de personalidade mais terrível já feita. Pessoas só se moldam até os 27, depois não se alteram mais psicologicamente. Pesquisas hipocondríacas. Estaríamos todos viciados nelas? Não. A ciência é esse caldo de experimentos que se confrontam e se contradizem. Ufa! A inteligência é apenas um móvel útil. Estamos no papo petisco & pinga, um bar na Praça Roosenvelt. – Mas e São Paulo? A São Paulo dela é um Minotauro. Cidade que atrai, contrai, machuca, é cheia de labirintos, sedutora de Tezeus. Entre eles, uma espada mágica e algum desvelo. Digo eu que São Paulo é a cidade dos anti-heróis. Nós, ela, eu, adoramos o tal “coeficiente de ficção”, a diferença: aprendo a expressão naquele momento. Quase conto que o Sebo “Chama De Uma Vela” fechará dia 12/07, mas deixo pra lá.

Ela antigamente assistia novelas, mas quando a dramaturgia televisiva começou a querer imitar o cinema, se perdeu. Mas e João Emanuel Carneiro? “Bom, ele é uma ótima companhia” casmurra ela. Mas e a menina de Salvador que eu tanto amo ler/sou stalker e que eu sei que você também conhece? Bom, ela ficou muito famosa em Salvador vendendo fanzines a granel na porta do colégio de freira. Depois virou militante de um partido comunista. Nos conhecemos  quando ela se mudou para SP e precisava de um caminhão de mudança. Ela anunciou na internet e eu Indiquei um amigo meu que fez um precinho joia. O que você acha dela? Acho uma pessoa arguta. O que é arguta? Pessoa inteligente e contraditória que sabe polemizar colocando a oposição de suas ideias para duelar num ring.

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A resposta mais incrível vem da pergunta mais pacata. “O que é felicidade pra você?”. “Felicidade é uma novela das 18h com a Maitê Proença que passou em 1996, escrita pelo ManoelCarlos.” Qual o seu guilty pleasure? “Seriados policiais de quinta categoria”. Melhor série da vida? “Twin Peaks”. Por quê? “Porque o assassino é o monstro que existe em todos nós”. Os filmes da vida dela? “E o vento levou”. Já viu 55 vezes. Mas por quê? “Porque sempre que eu vejo a aura épica construída nesse filme eu penso se as pessoas conseguem fazer isso, eu consigo fazer qualquer coisa”. “Os desajustados”. Mas por quê? Porque a Marlin Monroe era o símbolo da neurose humana, completamente angustiada pela imagem de musa que criou-se em cima dela. Fatuidade.

Conto a ela que sinto um tico de inveja dessa coisa de quem trabalha com cinema & ta sempre viajando & nas horas vagas ainda faz poesia. Digo que quero entrar nessa dança das cadeiras, mas que me sinto como a criança tola, que sobra sonâmbula enquanto os outros sentam vangloriosos. Ela me responde com otimismo: “No cinema as pessoas amam muito”. De repente a TV do bar é ligada no futebol num volume que provoca um efeito mute na nossa conversa. Peço para continuarmos no escadão em frente, compro esse prolongamento com um brigadeiro gigante de três tostões. Dividimos. Ela morde. Eu mordo. Mordemos. O resto, deixo dobrado aos Verdugos.

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Ela tem hora, e vai pegar o metrô República. Foi divertido. Tive medo de assustá-la e senti aquela culpa de quando é bom. Sou um ser esgrandalhado e isso é engraçado sem que eu force, mas ao mesmo tempo isso me torna docemente inofensivo, talvez frágil. Contei a ela segredos que só a terapia ouviu, fui picareta, fiz promessas com cartas de copas, incluindo um quadro do meu avô, já quase oferecendo também um diário de Susan Sontag. Fiz um tudo para impressionar, ser tal, albergar. Ela me contou sobre os efeitos psicoativos da Rua Rego Freitas. Percebeu que eu tinha medos e hipermetropia, não subestimou. Contei mais segredos medievais sobre o amarelo das piscinas. Foi um papo cheio de desatinos, folclores e espectros indiscretos. Ainda tenho um vale pizza do Mancini que eu prometo pra próxima vez quando estiver com meu brim pardo – quando contarei sobre o meu passado striper. Chantagem calórica antes de partir pro cinemão e depois rezar um missa.