D.U.F.F e as referências que os outros dão sobre você

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Uma situação comum. Você adiciona ou é adicionado por uma pessoa desconhecida. Olha nos amigos em comum e pede “referências” pra alguém conhecido sobre essa pessoa. Eu gostaria de ser uma mosquinha para saber qual o tipo de referência é dada sobre a nova pessoa. Claro que isso diz muito sobre quem está dando as referências, e dessa pessoa podem vir os piores tipos de analogias e sinopses sobre o até então desconhecido. O currículo terceirizado é quase uma alienação parental, pode ser assustador e eu quero falar sobre ele, mesmo que isso signifique queimar meu filme.

Uma vez um amigo do acampamento, descobriu que um colega de cursinho dele havia estudado na mesma escola que eu – chamaremos o sujeito sem ser o meu amigo de “espinafre”. Naquele papo de “nossa que mundinho pequeno”  vieram então as referências sobre mim dentro da análise “sutil e bondosa” feita pelo espinafre. Tendo em vista que esse cara era um babaca e também num tinha lá uma boa sinopse no colégio (o feio, zuero, bom de briga e pega- ninguém), ele não podia fazer comentários melhores sobre mim, além do mais, a gente se conhecia apenas de vista, nunca havíamos nos falado. Ele disse ao meu amigo que eu era o “padeiro” do colégio. O cara que assava o pão (as meninas) para os garotos comerem. Talvez ele quisesse dizer que eu era o gordinho, desajeitado, mais amigo das meninas do que dos meninos e que circulava por todos os grupinhos do colégio sem pegar (quase) ninguém, mas estava sempre envolvido nas negociações como cupido, como o que segura vela, como o dono do correio elegante.

Mas não vou aqui me vitimizar demais, já que eu dei muitos beijos na boca atrás da quadra descoberta, contrariando diametralmente o tal estigma. Só que ele em partes tinha razão: eu era realmente muito mais o “amigo da galera” do que uma potencial beldade de pôster ou par pra formatura. A questão é que “ficadas” na época não eram minha prioridade, no fundo eu aprendi que elas não podiam ser minha prioridade, afinal a quem caberia o papel do padeiro? É como se eu estivesse mesmo resignado a esse papel. Aquela tarefa que vai sobrando, e acaba sendo “veladamente’ designada a alguém e misteriosamente esse alguém acaba sobrando com o tal papel nas mãos. Se essa pessoa então for idealista como eu, ela vai viciar nessa brincadeira de juntar casais e ver cenas de amor acontecendo ao vivo e a cores como se fosse um diretor vendo o próprio filme vingar. Vai se achar útil para a humanidade, porque o d.u.f.f, como todo terráqueo, quer ser alguma coisa, se sentir importante em algo, e acreditem: sempre existe alguém que se aproveita disso.

Uma vez em uma eleição da sala fiquei em décimo sétimo no ranking de meninos mais bonitos. Tinham 21 candidatos, isso quer dizer que eu era o quarto mais feio. Mas que bom que eu deixei a adolescência e fui transformando essas supostas características que me tornavam menos atraente a meu favor. Acho que além das mudanças naturais nos meus traços no pós-adolescência, a principal mudança foi interna: a confiança. Embora eu me ache bem bonito e interessante (odeio falsa modéstia), mesmo quando estou mais cheinho, e tenha trabalhado na fase adulta (teatro, terapia, cinema e amigos encorajadores) todas essas inseguranças, eu não fujo a regra da oscilação. Não é todo dia que eu me acho “o cara”, na verdade eu quase nunca me acho o cara, eu geralmente prefiro não achar nada e deixar o público elencar os adjetivos como quiserem. Mentira: às vezes eu decido o que a outra pessoa vai achar de mim antes mesmo dela achar algo e assim fecho várias portinhas.

Tudo isso passou pela minha cabeça graças a um filme que vi numa tarde dessas de Cinemark na semana passada. Tudo bem que é mais um besteirol americano. Tudo bem que tem aquela velha fórmula da comédia romântica, do baile de formatura, das patricinhas que trolam os nerds. Tudo bem mais uma vez a gordinha ser a piada do filme. Não, não está tudo bem. E é por isso que esse filme me agradou, por esse leve desvio de percurso. Ele é bonitinho pela ideia, pelo tema aparentemente bobinho, mas que faz todo sentido do mundo para quem já foi um d.u.f.f ou o “padeiro”. “D.u.f.f” significadesignated ugly fat friend” ou em português claro: o/a amigx designadx feix e gordx. Aquela pessoa que até é enturmada, até é descolada, mas que as pessoas geralmente chegam perto para usá-la como ponte de conexão sexual com as amigas lindas e unânimes. E isso é um fato, não sei se por ter sido um adolescente bem inseguro e precisar chamar atenção nem que seja o cara que sai na foto com a celebridade e ganha os likes não por estar na foto, mas pela celebridade. Por muito tempo me comportei como a Marlene Mattos (a da Xuxa). Eu sempre andei com gente muito bonita, mas bonita mesmo, só que antigamente isso obedecia a um padrão limitante. Hoje eu ando com muita gente linda, mas de todos jeitos, cores e formas e eu sou uma delas, não sou mais o auxiliar (só na vida profissional), e demorei muito tempo para me livrar do papel da árvore na peça de teatro.

Mas, seria o conceito de “D.u.f.f” mais um daqueles rótulos desnecessários para sublinhar a ideia de um agrupamento dentro de uma narrativa? Acho bastante provável, mas quem sabe  às vezes dar nome aos males, não é uma forma de identificar uma mesma situação comum a um grupo e fazer com que ele se mobilize caso tal situação lhe seja incomoda? No filme, a personagem, assim como todos os duffs, não sabe que é uma, e quando descobre quais são as suas “referências” na vida social do colégio, acaba ficando magoada. Ela gosta de um menino popular, mas vive gaguejando e pagando micos quando tenta falar com ele. É então que traça um plano para deixar de ser uma duff. E a estratégia, claro, caminha para a velha adequação, aquela de atingir a expectativa do outro ao invés de gostar do que se é. E claro, da errado, já que o menino vai entrando em seu jogo, aceita jantar com ela, mas no fim das contas, ela não era o foco, era mais uma vez a potencial ponte de ligação para as amigas beldades.

É então que a moral da história se revela: ela descobre que já que é a esquisita, deveria lapidar sua esquisitisse, ser a esquisita mais interessante dentro da sua própria identidade. Trabalhar dentro das suas particularidades todo o potencial para que ela finalmente descubra algo que a gente leva anos pra aprender: “o outro gosta de quem se gosta”. Não é simples, não é fácil, mas é o que temos para hoje, para amanhã, ou para sempre. Eu demorei muito tempo para entender o que uma amiga dizia sobre eu ser uma pessoa dourada, sobre todos nós sermos pessoas douradas. Às vezes nos disfarçamos de lama para não nos mostrarmos preciosos, porque ser precioso assusta os outros e então eles passam a vida tentando nos fazer acreditar que não podemos ser dourados. Um belo dia, quando a gente limpa essa lama e aprende a discordar inclusive das normas do espelho, o ouro aparece e brilha muito, e a gente descobre que ele estava lá o tempo todo, mas a gente por medo, fingia que não.