O livro das perguntas – Pablo Neruda

 

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O livro de perguntas de Pablo Neruda. Poesia em perguntas já viu? Flores interrogativas. E as figuras? Guarde sua tarde.

“Porque é que não ensinam a tirar mel do sol aos helicópteros?

Onde é que a lua cheia deixou
o seu saco noturno de farinha?

Se já morri e não me dei conta
a quem perguntarei a hora?

De onde tira tantas folhas
a Primavera de França?

Onde pode viver um cego
perseguido por abelhas?

Se se acabar o amarelo
com que é que vamos fazer o pão?

Porque é que as árvores escondem
o esplendor das suas raízes?

Quem ouve os remorsos
do automóvel criminoso?

Haverá algo mais triste no mundo
que um comboio imóvel na chuva?

Quantas igrejas tem o céu?

Porque não atacará o tubarão
as impávidas sereias?

Conversará o fumo com as nuvens?

É verdade que as esperanças
se devem regar com orvalho?

Que guardas na tua bossa?
perguntou o camelo à tartaruga.

E a tartaruga perguntou:
E tu, que conversas tens com as laranjas?

Terá mais folhas uma pereira
que em Busca do Tempo Perdido?

Porque se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?”

O sal da vida. trailer de livros.

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O que a Françoise Héritier faz nesse livro é quase uma canção, longa, leve. trata-se de uma frase gigante, que dura o livro inteiro e enumera um emaranhado de pequenos prazeres, e o detalhe do belo cabe em nossa imaginação. Poesia, imaginação e profundidade ao seu dispor:

“…não dar as costas para a desgraça alheia, manter a amizade como um compromisso, ficar absorvido na contemplação do trabalho de um formigueiro, andar no mato abrindo caminho entre os gafanhotos, imaginar onde dormem os miquinhos urbanos, ainda ter uma enorme chave para o portão do jardim, deixar crescer ervas daninhas entre as pedras do terraço, não dispensar a trepadeira capuchinha no jardim…”

 

Poética: Ana Cristina Cesar – trailer de livros.

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“MANCHA

Tenho 16 anos

Sou viúva

De família azul

De cabelos esvoaçantes

(e nada rebeldes)

Sou genial sob todos os pontos de vista,

Inclusive de perfil

a poesia é uma mentira, mora.

Pelo menos me tira da verdade relativa

E ativa a circulação consanguínea

A Pedra filosofal é um tanto ou quanto besta

Plutarcoplatãopauto

Plutãoturcotãopauto

Platocotãopuloplau

desisto; tenho 16 anos

e perdi-me agora rabiscando-te.”

Setembro/68

Ana Cristina César um marco, minha poetisa favorita, um debute sobre as palavras. ela, natural e nua, e eu posso através dela me esbaldar e sambar com letras bêbadas de poesia. sim, uma inspiração, e eu quero escrever como ela um dia, e ainda assim, sei que não conseguirei, obrigado Cristina, por nunca alcança-la.

Caligrafias: Natália Barros – trailer de livros

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” Lepidóptera”

Sirvo para nada alguns dias, mas , mesmo

nesses dias , estou encarregada de salvar vidas.

Especializei-me em ouvir o chamado dos insetos,

preferencialmente de borboletas

Erráticas na janela, imaginam na vidraça

múltiplas possibilidades sem saídas

Asa mole em vidro duro, tanto bate até que morre.

Se não sou eu.

Senão sou eu, senão eu,

a iludida. ”

 

Natália Barros, força poética poente potável amável. Jardineira santista, e cantora composta compositora. Não sei mais se estou lendo uma poesia ou ouvindo um canto.

“Caligrafias” é  leitura com som de pássaro.

 

meus 5 livros favoritos de 2013.

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1- Bonsai: O autor entrega na primeira linha algo que deveria ser um amortecimento, mas que nos empurra em queda livre, já que o final é literalmente revelado no começo. Queremos então ir além, e a partir daí nos deparamos com uma fluência pop e ao mesmo tempo erudita, elaborada, sóbria. Zambra é assim.

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2- O sofá laranja: A história de Susan e Sam. Elá está, ele não. Ele está, ela não. Um livro que diferencia o que é poético do que é poesia, sem querer. Um livro dividido em cartas, lindas, com palavras que são tecidos gostosos de alisar, com declarações de amor que são um dar de mãos feito da saudade de dois corpos.

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3- Pequenas delicadezas: Um livro companheiro, do tipo que nos conforta em nossos dilemas solitários, daqueles que tocam em questões pesadas e jogam luz para quem por algum motivo não quer dividir seu problema com o mundo. “Pequenas Delicadezas” é idiossincrático, pró-ativo, e sensível a nós. Cheryl Streyed merece todo amor do mundo.

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4- É duro ser cabra na Etiópia: um livro que, depois de ultrapassado um possível preconceito, te oferece colheitas maravilhosas, causa dor de risos, tristezas de ser alegre, com textos frescos, de agora, de já.

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5- @m@r : Gastar amor agora, amor já, amor de verão, que seja, que a eternidade se deposite nos minutos, que faça sol rapidinho, pra dar tempo de amor.

Manual do MIMIMI

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O “Manual do MIMIMI”  é um livro de “sincericideos” femininos. Uma compilação de textos da blogueira mais descolada da revista TPM. Lia Bock – que escreve para o “Eu lia, tu lias” -escancara verdades em uma literatura ágil, descolada, anos 10. O conteúdo também é consideravelmente interessante, pop, urgente . Lia defende pensamentos fervilhantes em  seus curtos contos.

-Ressalta que certos perrengues cotidianos vivenciados por um casal são cruciais porque desenvolvem uma intimidade não forjada  através da necessidade de se trabalhar em dupla. Um pneu furado, o alagamento causado pela máquina de lavar, ou a conta que não foi paga por esquecimento.

- Acha que o termo “namorido” é um criação moderna conveniente e  em cima do muro, já que ele traz a liberdade de um não compromisso  e ao mesmo tempo a obrigação que a palavra marido acarreta.

- Considera que amar é algo que vai além de molduras poéticas  ou de um cotidiano imaginário enfeitado. Para Lia amar é suportar. Suportar um mau cheiro, um humor abaixo de zero em  dias cinzas, ou saber que as vezes vai ter mijo na tampa da privada. Amar não é só levar o café na cama.

- Desvenda o mito de ganhar flores. Diz que não é propriamente da flor que a mulher gosta. Pouco importa se são rosas ou girassóis que estão no buque. A verdade é que o ato de se ganhar flores geralmente é um artificio usado pelos homens para surpreender. O subtexto disso geralmente quer dizer : “olha a surpresa que eu te fiz” e  não “olha como essa rosa está bonita”. Mulheres gostam de surpresas, e não precisam ser flores.

- Revela que geralmente são das amigas as declarações mais românticas e poéticas que ela recebe. Declarações essas que geralmente costumam esperar dos pares românticos. Muitas vezes essa identificação em relação a expectativa gera diversas demonstrações de afeto que acontecem através desse compartilhamento de expectativas, é quase um consolo em forma de transferência. É  um jogo de agrados solidários.

Um  manual que “pensa alto” que escancara vontades em forma de verdades. Que supera a literatura “mulherzinha” uma vez que ecoa em desabafos poéticos as indignações de dentro sem falsas fragilidades.

Mais útil que a Revista Capricho.

Delas: a peça / @m@r: o livro

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Delas tem epitáfios e surpresas. Uma reunião artística envolvendo cantos lençóis, que nos percorrem lisos, e sem armadilhas. “Há cada milágrimas sai um milagre”.

Mulheres, olhos, perigos e vozes. Camafeus perfumados. Em mim sinapses, axônios, [A]tritos.

O que querem elas? Me perguntava eu, Delas.

Querem chuvas sorridentes e luas de apartamento que nunca acabam? Querem águas que nos mimam com barulhos calmos e carinhos úmidos?

Cada coração querendo fugir em barquinhos de papel em lagos seguros das bacias amarelas de casa. Ralos que engulam tristezas que não eram lembranças; eram dores prolongadas em pleno disfarce.

Corpos querendo nadar juntos em taças de vinhos e poemas tintos de amores que mancham a roupa. Manchas que não saem. Hoje pode.

“Não quero estar lindo, quero que você ache lindo eu estar perto.” Diz alguém sem culpas daquelas que tem gosto de suco azedo.

Regra: nunca mais sofrer por não ser responsável pelo seu sorriso.

@m@r tem Açúcar. Duas colheres, Delas. Adoçante não, adoçante finge, simula. Quero açúcar, o açúcar cafajeste que conta mentirosas verdades. Lábios molhados que dançam e se reconhecem. Devagar pra durar. Me abandone pra depois. Agora é invasão de saliva e propostas indecentes.

Não aos binóculos. Sim aos amores que não tenham o perfil, amores xixi na tampa. Nem músculos em dia, nem francês fluente, nem 5 mil mensais mais Sodexo com reembolso. X-tudo o que não precisa dizer. Querem corações desempregados, e olhares que esbarram sem querer, e ficam, insistem mesmo quando a felicidade quer fugir.

Gastar amor agora, amor já, amor de verão, que seja, que a eternidade se deposite nos minutos, que faça sol rapidinho, pra dar tempo de amor.

Amar, de quinta feira as 21h00 no Viga espaço cênico. Amar de terno amassado e perfume que já passou. Amar com Trident na boca pra fingir que seres humanos não almoçam.

Amar a peça e o livro Dela,  @m@r Helga Bevilacqua. A mais linda “poeta de bicicleta”.

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O Sofá Laranja – Fania Szydlow Benchimol

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” Por vezes, vejo a vida repetida, capítulos enfadonhos, uma mesmice só. Por outras vezes , sinto que ela passou decidida, como se me faltassem paginas, uma vida sem brechas. História pulada. Parece ter faltado meio, mais recheio, palavras e contexto. Uma explicação. Como se houvesse um salto e sobrasse um abismo, um antes e um depois, que, diferente da leitura, não se recupera voltando as paginas.

Até amanhã,

um novo velho dia.

Susan.”

A história de Susan e Sam. Elá está, ele não. Ele está, ela não. Um livro que diferencia o que é poético do que é poesia, sem querer.

Um livro dividido em cartas, lindas, com palavras que são tecidos gostosos de alisar, com declarações de amor que são um dar de mãos feito da saudade de dois corpos.

Há suavidade no jeito do livro de se passar; ele passa feito tempo sem pressa, há espaços de instantes dentro de cada passagem, e os sentimentos parecem artesanais, a descrição dos objetos faz quase com que eles observem a vida.

As cores levam um cafuné, parecem tinta de agora, parecem diluir em frescas memórias de um cotidiano que dói. A poesia da distancia e a tristeza olhando pela janela. Uma Nova York levada ao cosmo domiciliar que suspira em cômodos e pequenos ventos de voar papel solto.

O olhar nas letras de Susan possuem a claridade das manhãs, uma paisagem de quando o sol chega,  há um assobio penoso também, de quem vê a beleza de algo e sente falta de alguém.

Tão triste e belo feito pássaro que amanhece triste cantando bonito desde cedo.

“O Sofá Laranja”. é a prova de que os objetos, mais do que ninguém, lembram sempre de tudo. objetos nos vivem.

 

Pequenas Delicadezas – Cheryl Strayed

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Uma escritora  que da conselhos afetivos baseada em suas experiências de vida para anônimos internautas aflitos. Uma troca de intimidades entre estranhos. Essa é a proposta da coletânea de interações entre Cheryl e anônimos em sua coluna no site Rumpus chamada “Dear sugar”; nela as pessoas se apresentam com adjetivos que sintetizam suas dores: “Indeciso”, “Desesperada”, “Responsável” e por aí vai. Cheryl é livre, amigável, madura de seus traumas e  inteira ao que o outro tem a dizer.

Cheguei a este livro através de uma declaração de um escritor/blogueiro que acompanho; Alex Castro dizia que Cheryl era sua diva intelectual, e que esse livro foi capaz de derrubá-lo e depois levantá-lo. Eu, fissurado que sou por indicações de pessoas confiáveis e compatíveis com meus gostos e ângulos de vida fui atrás dessa compilação  e para minha tristeza na época ele não possuía tradução para português.

O título nos remete a autoajuda – aquela com 10 passos para o pote de ouro no fim do arco-íris – mas não se engane; há sim algo de colaborativo e sentimental no livro, mas o que o torna interessante é a habilidade e bom-senso da autora em suas respostas pacientes, honestas, práticas, preenchidas com bom senso. Ao citar fatos de sua própria experiência  de mundo, que nos traz pra perto, emociona e gera uma pronta identificação, porque se assume como uma auto-didata de vida,  que não se especializou em dar conselhos, e isso aconteceu como consequência da demanda alheia em relação as resoluções corajosas e sensatas de sua trajetória.

Um livro companheiro, do tipo que nos conforta em nossos dilemas solitários, daqueles que tocam em questões pesadas e jogam luz para quem por algum motivo não quer dividir seu problema com o mundo. “Pequenas Delicadezas” é idiossincrático, pró-ativo, e sensível a nós. É um porta-soluções, é um espelho munido de palavras e compaixão; que nos trata como pessoas únicas, que mostra a universalidade da dor com uma dignidade rara, é um ouvido de papel.

É duro ser cabra na Etiópia – Maitê Proença

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“Estranho mesmo é a gente não se incomodar de viver encaixotada. Dormimos dentro de uma caixa, na insônia perambulamos pelas caixas anexas, umas quadradas, outras compridas e retangulares.

Retiramos comida de uma caixa gelada e entupimos o bucho c/ o que houver dentro. Voltamos para a caixa sonífera e sofremos com pesadelos. De manhã nos enfiamos dentro de um caixote de onde saímos molhados porque de cima nos escorreu água.

Nossas caixas particulares ficam muitas vezes nas alturas, de forma que , se resolvermos dar um passeio lá fora, só utilizando uma caixa de pequena que sobe e desce da rua p/ o caixotão íntimo e vice-versa. Pelas ruas deslizamos em caixas c/ compartimentos onde passaremos o dia trabalhando. Depois volta-se para a caixa intima através da caixa c/rodas, sobe-se através da caixinha que suspende e entra-se na caixa intima novamente. Todos os dias de caixa em caixa , surpreende-me que mais gente , a fim de encerrar suas vidas quadradas , não se atire em voo livre pelas aberturas de suas caixas. De qualquer forma, não resolveria, acabariam num caixão.

e já que falamos de estranhices, insiro aqui esta reflexão sobre o sono que nada tem a ver com cidades, o tema deste bloco, e por isso torna tudo mais estranho. é que a gente já nasceu acostumado com a situação e não pensa no assunto.

Eu não queria assustar vocês, mas não é estranhíssimo dormir?

Está todo mundo na maior agitação durante o dia e quando o Sol vai embora adotamos a posição horizontal e mergulhamos em um estado de catalepsia.

A coisa fica ainda mais estranha se imaginamos a cidade com as ruas vazias de madrugada e os prédios como beliches gigantes; todo mundo em sua caminha, um em cima do outro, aparentemente inofensivos.

Mas, depois, acordamos e nos atracamos a nossa rotina como se nada tivesse acontecido. Como assim? acabamos de viver uma incrível cena dramática , ficcional, e nada?

não tinha que ter pelo menos, sei lá, um belo ritual tribal entre uma coisa e outra? ”

 

Esse conto se chama “ Beliches Gigantes” e é assinado por Ione Valadares. Ione foi só um dos escritores, internautas e mestres literários que arriscaram a escrita e colaboraram enviando textos, com limites de 1500 caracteres, para um site elaborado pela atriz global Maitê Proença feito com o propósito de investigar talentos literários de maneira anônima e sem prévias nomeações nobres. Além do tamanho limitado a atriz pedia para que houvesse no espirito do texto algum tipo de humor.

Um livro que, depois de ultrapassado um possível preconceito, te oferece colheitas maravilhosas, causa dor de risos, tristezas de ser alegre, com textos frescos, de agora, de já.