A Idade do Serrote

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“Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo.” Freud


Após ouvir essa knew quote de um professor de Psicanálise da faculdade, eu passei a prestar atenção em como as pessoas se referiam as outras. Esse tipo de observação terceira me ajudou a traçar sinopses mais precisas em meus espaços sociais. Quando falamos de nós, tendemos a enfeitar nossos espelhos, mas quando o assunto é o outro, a gentileza tende a atravessar a rua.

A articulação do passado norteia o arranjo em prosa poética traçado por Murilo Mendes em “A Idade do serrote”. Um livro garboso, que basicamente resgata o tempo em forma de pessoas. Pessoas descritas de uma maneira que eu nunca vi. Um mundo cheio de cirandas & cirandinhas para quem gosta de escorregar para dentro dos olhos de quem bonito enxerga. A cada passar de folha branca, um sem-fim de palavras novas, descrições com cheiro de doce no fogão, humans of Juiz de Fora – que é uma linda funcionária da poesia.

Sobre como viramos um pouco daqueles que nos servem de referência, nossos mestres de vida, todos eles, inclusive aqueles que não destilam ofensas parnasianas. [Que bom que eu tenho ídolos e eles sabem]. Um livro-documento e nós, amarrados pela arte de desvendar o corpo vizinho: um gesto, um trago, um jeito de mentir, mentira fresca, quem tem? Aluga-se um pomar para escritores, rico em cheiros lambuzantes, pegadas na terra, milagres de Domingo. E as mulheres, deusas em pedestais merecidos, cada uma com seu colar, um esmalte ou um botão com cara de joaninha.

“O prazer, a sabedoria de ver, chegavam a justificar minha existência. Uma curiosidade inextinguível pelas formas me assaltava e me assalta sempre. Ver coisas, ver pessoas na sua diversidade, ver, rever, ver, rever. O olho armado me dava e continua a me dar força para a vida” pág 163

É isso, agora sei para onde vou, vou olhar à janela, ver gente passando.

Aquela Água Toda

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“Aí ela disse que o mundo era como o alfabeto, feito de vogais e consoantes. As vogais eram sons que nasciam quando o ar saía livremente pela boca. As consoantes não: os lábios, os dentes, a língua e o palato criam obstáculos à passagem do ar quando a gente as pronunciava. Eu era uma vogal e tentara passar livremente pelo portão, mas as meninas, consoantes, haviam me impedido. E se existissem apenas vogais, ou só consoantes, o mundo teria de ser escrito de outra maneira; o bonito era que podíamos fazer inúmeras combinações.”

meu último livro do ano, veio leve e tenro. “Aquela água toda” do Carrascoza derrete na boca, e estranhamente parece nos preparar para o passado. tudo o que já foi, vem de novo, sem peso, em forma de maré, pra gente ficar de bem e flutuar depois.

11 contos e um mesmo amor, que cresce daqui.

O livro das perguntas – Pablo Neruda

 

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O livro de perguntas de Pablo Neruda. Poesia em perguntas já viu? Flores interrogativas. E as figuras? Guarde sua tarde.

“Porque é que não ensinam a tirar mel do sol aos helicópteros?

Onde é que a lua cheia deixou
o seu saco noturno de farinha?

Se já morri e não me dei conta
a quem perguntarei a hora?

De onde tira tantas folhas
a Primavera de França?

Onde pode viver um cego
perseguido por abelhas?

Se se acabar o amarelo
com que é que vamos fazer o pão?

Porque é que as árvores escondem
o esplendor das suas raízes?

Quem ouve os remorsos
do automóvel criminoso?

Haverá algo mais triste no mundo
que um comboio imóvel na chuva?

Quantas igrejas tem o céu?

Porque não atacará o tubarão
as impávidas sereias?

Conversará o fumo com as nuvens?

É verdade que as esperanças
se devem regar com orvalho?

Que guardas na tua bossa?
perguntou o camelo à tartaruga.

E a tartaruga perguntou:
E tu, que conversas tens com as laranjas?

Terá mais folhas uma pereira
que em Busca do Tempo Perdido?

Porque se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?”

O sal da vida. trailer de livros.

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O que a Françoise Héritier faz nesse livro é quase uma canção, longa, leve. trata-se de uma frase gigante, que dura o livro inteiro e enumera um emaranhado de pequenos prazeres, e o detalhe do belo cabe em nossa imaginação. Poesia, imaginação e profundidade ao seu dispor:

“…não dar as costas para a desgraça alheia, manter a amizade como um compromisso, ficar absorvido na contemplação do trabalho de um formigueiro, andar no mato abrindo caminho entre os gafanhotos, imaginar onde dormem os miquinhos urbanos, ainda ter uma enorme chave para o portão do jardim, deixar crescer ervas daninhas entre as pedras do terraço, não dispensar a trepadeira capuchinha no jardim…”

 

Poética: Ana Cristina Cesar – trailer de livros.

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“MANCHA

Tenho 16 anos

Sou viúva

De família azul

De cabelos esvoaçantes

(e nada rebeldes)

Sou genial sob todos os pontos de vista,

Inclusive de perfil

a poesia é uma mentira, mora.

Pelo menos me tira da verdade relativa

E ativa a circulação consanguínea

A Pedra filosofal é um tanto ou quanto besta

Plutarcoplatãopauto

Plutãoturcotãopauto

Platocotãopuloplau

desisto; tenho 16 anos

e perdi-me agora rabiscando-te.”

Setembro/68

Ana Cristina César um marco, minha poetisa favorita, um debute sobre as palavras. ela, natural e nua, e eu posso através dela me esbaldar e sambar com letras bêbadas de poesia. sim, uma inspiração, e eu quero escrever como ela um dia, e ainda assim, sei que não conseguirei, obrigado Cristina, por nunca alcança-la.

Caligrafias: Natália Barros – trailer de livros

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” Lepidóptera”

Sirvo para nada alguns dias, mas , mesmo

nesses dias , estou encarregada de salvar vidas.

Especializei-me em ouvir o chamado dos insetos,

preferencialmente de borboletas

Erráticas na janela, imaginam na vidraça

múltiplas possibilidades sem saídas

Asa mole em vidro duro, tanto bate até que morre.

Se não sou eu.

Senão sou eu, senão eu,

a iludida. ”

 

Natália Barros, força poética poente potável amável. Jardineira santista, e cantora composta compositora. Não sei mais se estou lendo uma poesia ou ouvindo um canto.

“Caligrafias” é  leitura com som de pássaro.

 

meus 5 livros favoritos de 2013.

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1- Bonsai: O autor entrega na primeira linha algo que deveria ser um amortecimento, mas que nos empurra em queda livre, já que o final é literalmente revelado no começo. Queremos então ir além, e a partir daí nos deparamos com uma fluência pop e ao mesmo tempo erudita, elaborada, sóbria. Zambra é assim.

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2- O sofá laranja: A história de Susan e Sam. Elá está, ele não. Ele está, ela não. Um livro que diferencia o que é poético do que é poesia, sem querer. Um livro dividido em cartas, lindas, com palavras que são tecidos gostosos de alisar, com declarações de amor que são um dar de mãos feito da saudade de dois corpos.

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3- Pequenas delicadezas: Um livro companheiro, do tipo que nos conforta em nossos dilemas solitários, daqueles que tocam em questões pesadas e jogam luz para quem por algum motivo não quer dividir seu problema com o mundo. “Pequenas Delicadezas” é idiossincrático, pró-ativo, e sensível a nós. Cheryl Streyed merece todo amor do mundo.

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4- É duro ser cabra na Etiópia: um livro que, depois de ultrapassado um possível preconceito, te oferece colheitas maravilhosas, causa dor de risos, tristezas de ser alegre, com textos frescos, de agora, de já.

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5- @m@r : Gastar amor agora, amor já, amor de verão, que seja, que a eternidade se deposite nos minutos, que faça sol rapidinho, pra dar tempo de amor.

Manual do MIMIMI

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O “Manual do MIMIMI”  é um livro de “sincericideos” femininos. Uma compilação de textos da blogueira mais descolada da revista TPM. Lia Bock – que escreve para o “Eu lia, tu lias” -escancara verdades em uma literatura ágil, descolada, anos 10. O conteúdo também é consideravelmente interessante, pop, urgente . Lia defende pensamentos fervilhantes em  seus curtos contos.

-Ressalta que certos perrengues cotidianos vivenciados por um casal são cruciais porque desenvolvem uma intimidade não forjada  através da necessidade de se trabalhar em dupla. Um pneu furado, o alagamento causado pela máquina de lavar, ou a conta que não foi paga por esquecimento.

- Acha que o termo “namorido” é um criação moderna conveniente e  em cima do muro, já que ele traz a liberdade de um não compromisso  e ao mesmo tempo a obrigação que a palavra marido acarreta.

- Considera que amar é algo que vai além de molduras poéticas  ou de um cotidiano imaginário enfeitado. Para Lia amar é suportar. Suportar um mau cheiro, um humor abaixo de zero em  dias cinzas, ou saber que as vezes vai ter mijo na tampa da privada. Amar não é só levar o café na cama.

- Desvenda o mito de ganhar flores. Diz que não é propriamente da flor que a mulher gosta. Pouco importa se são rosas ou girassóis que estão no buque. A verdade é que o ato de se ganhar flores geralmente é um artificio usado pelos homens para surpreender. O subtexto disso geralmente quer dizer : “olha a surpresa que eu te fiz” e  não “olha como essa rosa está bonita”. Mulheres gostam de surpresas, e não precisam ser flores.

- Revela que geralmente são das amigas as declarações mais românticas e poéticas que ela recebe. Declarações essas que geralmente costumam esperar dos pares românticos. Muitas vezes essa identificação em relação a expectativa gera diversas demonstrações de afeto que acontecem através desse compartilhamento de expectativas, é quase um consolo em forma de transferência. É  um jogo de agrados solidários.

Um  manual que “pensa alto” que escancara vontades em forma de verdades. Que supera a literatura “mulherzinha” uma vez que ecoa em desabafos poéticos as indignações de dentro sem falsas fragilidades.

Mais útil que a Revista Capricho.

Delas: a peça / @m@r: o livro

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Delas tem epitáfios e surpresas. Uma reunião artística envolvendo cantos lençóis, que nos percorrem lisos, e sem armadilhas. “Há cada milágrimas sai um milagre”.

Mulheres, olhos, perigos e vozes. Camafeus perfumados. Em mim sinapses, axônios, [A]tritos.

O que querem elas? Me perguntava eu, Delas.

Querem chuvas sorridentes e luas de apartamento que nunca acabam? Querem águas que nos mimam com barulhos calmos e carinhos úmidos?

Cada coração querendo fugir em barquinhos de papel em lagos seguros das bacias amarelas de casa. Ralos que engulam tristezas que não eram lembranças; eram dores prolongadas em pleno disfarce.

Corpos querendo nadar juntos em taças de vinhos e poemas tintos de amores que mancham a roupa. Manchas que não saem. Hoje pode.

“Não quero estar lindo, quero que você ache lindo eu estar perto.” Diz alguém sem culpas daquelas que tem gosto de suco azedo.

Regra: nunca mais sofrer por não ser responsável pelo seu sorriso.

@m@r tem Açúcar. Duas colheres, Delas. Adoçante não, adoçante finge, simula. Quero açúcar, o açúcar cafajeste que conta mentirosas verdades. Lábios molhados que dançam e se reconhecem. Devagar pra durar. Me abandone pra depois. Agora é invasão de saliva e propostas indecentes.

Não aos binóculos. Sim aos amores que não tenham o perfil, amores xixi na tampa. Nem músculos em dia, nem francês fluente, nem 5 mil mensais mais Sodexo com reembolso. X-tudo o que não precisa dizer. Querem corações desempregados, e olhares que esbarram sem querer, e ficam, insistem mesmo quando a felicidade quer fugir.

Gastar amor agora, amor já, amor de verão, que seja, que a eternidade se deposite nos minutos, que faça sol rapidinho, pra dar tempo de amor.

Amar, de quinta feira as 21h00 no Viga espaço cênico. Amar de terno amassado e perfume que já passou. Amar com Trident na boca pra fingir que seres humanos não almoçam.

Amar a peça e o livro Dela,  @m@r Helga Bevilacqua. A mais linda “poeta de bicicleta”.

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O Sofá Laranja – Fania Szydlow Benchimol

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” Por vezes, vejo a vida repetida, capítulos enfadonhos, uma mesmice só. Por outras vezes , sinto que ela passou decidida, como se me faltassem paginas, uma vida sem brechas. História pulada. Parece ter faltado meio, mais recheio, palavras e contexto. Uma explicação. Como se houvesse um salto e sobrasse um abismo, um antes e um depois, que, diferente da leitura, não se recupera voltando as paginas.

Até amanhã,

um novo velho dia.

Susan.”

A história de Susan e Sam. Elá está, ele não. Ele está, ela não. Um livro que diferencia o que é poético do que é poesia, sem querer.

Um livro dividido em cartas, lindas, com palavras que são tecidos gostosos de alisar, com declarações de amor que são um dar de mãos feito da saudade de dois corpos.

Há suavidade no jeito do livro de se passar; ele passa feito tempo sem pressa, há espaços de instantes dentro de cada passagem, e os sentimentos parecem artesanais, a descrição dos objetos faz quase com que eles observem a vida.

As cores levam um cafuné, parecem tinta de agora, parecem diluir em frescas memórias de um cotidiano que dói. A poesia da distancia e a tristeza olhando pela janela. Uma Nova York levada ao cosmo domiciliar que suspira em cômodos e pequenos ventos de voar papel solto.

O olhar nas letras de Susan possuem a claridade das manhãs, uma paisagem de quando o sol chega,  há um assobio penoso também, de quem vê a beleza de algo e sente falta de alguém.

Tão triste e belo feito pássaro que amanhece triste cantando bonito desde cedo.

“O Sofá Laranja”. é a prova de que os objetos, mais do que ninguém, lembram sempre de tudo. objetos nos vivem.