D.U.F.F e as referências que os outros dão sobre você

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Uma situação comum. Você adiciona ou é adicionado por uma pessoa desconhecida. Olha nos amigos em comum e pede “referências” pra alguém conhecido sobre essa pessoa. Eu gostaria de ser uma mosquinha para saber qual o tipo de referência é dada sobre a nova pessoa. Claro que isso diz muito sobre quem está dando as referências, e dessa pessoa podem vir os piores tipos de analogias e sinopses sobre o até então desconhecido. O currículo terceirizado é quase uma alienação parental, pode ser assustador e eu quero falar sobre ele, mesmo que isso signifique queimar meu filme.

Uma vez um amigo do acampamento, descobriu que um colega de cursinho dele havia estudado na mesma escola que eu – chamaremos o sujeito sem ser o meu amigo de “espinafre”. Naquele papo de “nossa que mundinho pequeno”  vieram então as referências sobre mim dentro da análise “sutil e bondosa” feita pelo espinafre. Tendo em vista que esse cara era um babaca e também num tinha lá uma boa sinopse no colégio (o feio, zuero, bom de briga e pega- ninguém), ele não podia fazer comentários melhores sobre mim, além do mais, a gente se conhecia apenas de vista, nunca havíamos nos falado. Ele disse ao meu amigo que eu era o “padeiro” do colégio. O cara que assava o pão (as meninas) para os garotos comerem. Talvez ele quisesse dizer que eu era o gordinho, desajeitado, mais amigo das meninas do que dos meninos e que circulava por todos os grupinhos do colégio sem pegar (quase) ninguém, mas estava sempre envolvido nas negociações como cupido, como o que segura vela, como o dono do correio elegante.

Mas não vou aqui me vitimizar demais, já que eu dei muitos beijos na boca atrás da quadra descoberta, contrariando diametralmente o tal estigma. Só que ele em partes tinha razão: eu era realmente muito mais o “amigo da galera” do que uma potencial beldade de pôster ou par pra formatura. A questão é que “ficadas” na época não eram minha prioridade, no fundo eu aprendi que elas não podiam ser minha prioridade, afinal a quem caberia o papel do padeiro? É como se eu estivesse mesmo resignado a esse papel. Aquela tarefa que vai sobrando, e acaba sendo “veladamente’ designada a alguém e misteriosamente esse alguém acaba sobrando com o tal papel nas mãos. Se essa pessoa então for idealista como eu, ela vai viciar nessa brincadeira de juntar casais e ver cenas de amor acontecendo ao vivo e a cores como se fosse um diretor vendo o próprio filme vingar. Vai se achar útil para a humanidade, porque o d.u.f.f, como todo terráqueo, quer ser alguma coisa, se sentir importante em algo, e acreditem: sempre existe alguém que se aproveita disso.

Uma vez em uma eleição da sala fiquei em décimo sétimo no ranking de meninos mais bonitos. Tinham 21 candidatos, isso quer dizer que eu era o quarto mais feio. Mas que bom que eu deixei a adolescência e fui transformando essas supostas características que me tornavam menos atraente a meu favor. Acho que além das mudanças naturais nos meus traços no pós-adolescência, a principal mudança foi interna: a confiança. Embora eu me ache bem bonito e interessante (odeio falsa modéstia), mesmo quando estou mais cheinho, e tenha trabalhado na fase adulta (teatro, terapia, cinema e amigos encorajadores) todas essas inseguranças, eu não fujo a regra da oscilação. Não é todo dia que eu me acho “o cara”, na verdade eu quase nunca me acho o cara, eu geralmente prefiro não achar nada e deixar o público elencar os adjetivos como quiserem. Mentira: às vezes eu decido o que a outra pessoa vai achar de mim antes mesmo dela achar algo e assim fecho várias portinhas.

Tudo isso passou pela minha cabeça graças a um filme que vi numa tarde dessas de Cinemark na semana passada. Tudo bem que é mais um besteirol americano. Tudo bem que tem aquela velha fórmula da comédia romântica, do baile de formatura, das patricinhas que trolam os nerds. Tudo bem mais uma vez a gordinha ser a piada do filme. Não, não está tudo bem. E é por isso que esse filme me agradou, por esse leve desvio de percurso. Ele é bonitinho pela ideia, pelo tema aparentemente bobinho, mas que faz todo sentido do mundo para quem já foi um d.u.f.f ou o “padeiro”. “D.u.f.f” significadesignated ugly fat friend” ou em português claro: o/a amigx designadx feix e gordx. Aquela pessoa que até é enturmada, até é descolada, mas que as pessoas geralmente chegam perto para usá-la como ponte de conexão sexual com as amigas lindas e unânimes. E isso é um fato, não sei se por ter sido um adolescente bem inseguro e precisar chamar atenção nem que seja o cara que sai na foto com a celebridade e ganha os likes não por estar na foto, mas pela celebridade. Por muito tempo me comportei como a Marlene Mattos (a da Xuxa). Eu sempre andei com gente muito bonita, mas bonita mesmo, só que antigamente isso obedecia a um padrão limitante. Hoje eu ando com muita gente linda, mas de todos jeitos, cores e formas e eu sou uma delas, não sou mais o auxiliar (só na vida profissional), e demorei muito tempo para me livrar do papel da árvore na peça de teatro.

Mas, seria o conceito de “D.u.f.f” mais um daqueles rótulos desnecessários para sublinhar a ideia de um agrupamento dentro de uma narrativa? Acho bastante provável, mas quem sabe  às vezes dar nome aos males, não é uma forma de identificar uma mesma situação comum a um grupo e fazer com que ele se mobilize caso tal situação lhe seja incomoda? No filme, a personagem, assim como todos os duffs, não sabe que é uma, e quando descobre quais são as suas “referências” na vida social do colégio, acaba ficando magoada. Ela gosta de um menino popular, mas vive gaguejando e pagando micos quando tenta falar com ele. É então que traça um plano para deixar de ser uma duff. E a estratégia, claro, caminha para a velha adequação, aquela de atingir a expectativa do outro ao invés de gostar do que se é. E claro, da errado, já que o menino vai entrando em seu jogo, aceita jantar com ela, mas no fim das contas, ela não era o foco, era mais uma vez a potencial ponte de ligação para as amigas beldades.

É então que a moral da história se revela: ela descobre que já que é a esquisita, deveria lapidar sua esquisitisse, ser a esquisita mais interessante dentro da sua própria identidade. Trabalhar dentro das suas particularidades todo o potencial para que ela finalmente descubra algo que a gente leva anos pra aprender: “o outro gosta de quem se gosta”. Não é simples, não é fácil, mas é o que temos para hoje, para amanhã, ou para sempre. Eu demorei muito tempo para entender o que uma amiga dizia sobre eu ser uma pessoa dourada, sobre todos nós sermos pessoas douradas. Às vezes nos disfarçamos de lama para não nos mostrarmos preciosos, porque ser precioso assusta os outros e então eles passam a vida tentando nos fazer acreditar que não podemos ser dourados. Um belo dia, quando a gente limpa essa lama e aprende a discordar inclusive das normas do espelho, o ouro aparece e brilha muito, e a gente descobre que ele estava lá o tempo todo, mas a gente por medo, fingia que não.

Divertida Mente

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Vou logo contando que a Pixar se superou. Olhar qualquer elemento aparentemente supérfluo, como a articulação e o formato da boca da personagem “nojinho” é um pequeno detalhe grandioso, que se junta a tantos outros aspectos engenhosos na nova empreitada do estúdio. Uma animação carrega sempre a difícil tarefa de nos tragar em sua tentativa de humanidade, buscando conexão através de apropriações convincentes, criaturas que nos toquem e deixem vestígios, esses sim reais. O segundo obstáculo talvez seja agradar dinamicamente a sua freguesia. Criar um exército simpatizante e abrangente, lançando-se de dispositivos que impressionem não apenas a oferta mirim. A Pixar sabe disso, e não só vai se reinventando para atingir diferentes alturas etárias como também oferece sempre um drink de boas vindas: os curtas.

“Divertida mente” nos divide em partes e tenciona através de representações inteligentes a estrutura dos sentimentos. Estamos todos lá. A gente ri e chora do que poderíamos facilmente rejeitar – mas o que esse filme provoca é um autoabraço. É uma obra de dentro pra fora, que nos olha, pane a pane, visita nosso painel de controle rendendo a cada sentimento, mesmo que negativo, uma ternura instantânea. É um longa que não vale apenas para diferentes idades, mas para cada pessoa em diferentes fases.

Eu não pude deixar de rir o filme todo da ~tristeza~, me lembrando de amigos que são tão assim e claro, de mim quando resolvo entrar no modo bad. Eu observava o ~medo~ e pensava em seu tom elegante e atrapalhado, pensava no meu comum exercício de trocar os pés pelas mãos. Paquerava a ~alegria~ e sentia um misto de otimismo e preguiça. Sentir afeto pela ~nojinho~ e sua antipatia carismática, digna das melhores patricinhas que eu já conheci por aí e essa coisa minha de ser exigente demais – meu maior defeito segundo alguns. A raiva em modo turbo, não conseguindo segurar a meditação, mandando pro inferno as boas maneiras, ah esse também sou eu em plano trimestral. Todos interagindo e colocando cores em círculos perceptivos, as memórias, nada inofensivas. Pluripolaridade.

A mistura das sinapses, os sentimentos quando se encostam e sucumbem pela variação, o mundo abstrato, arrepiante que é. Uma lúdica sessão de terapia ou uma aula de artes da terceira série, com uma folha em branco e alguns primeiros encantos do coração. Cada um vai montando as suas ilhas de personalidade. Eduardo vive na ilha do abraço, do queijo, do carboidrato, da ansiedade, do facebook, das saudades, da amizade, do cinema, das viagens, da poesia, da Augusta, do rancorzinho e do hedonismo. E você, quais são suas ilhas? Nessa troca de ambientes, somos levados ao trem do Pensamento (trilhos da consciência), a Fábrica de Sonhos e ao Subconsciente. Eduardo vai entendendo sua eterna dúvida de quem nunca sabe bem se está de partida ou de chegada.

De uma coisa lhe asseguro: é a animação “own” mais “own” dos últimos anos.

HÁ MOTIVOS PARA ESTARDALHAÇO.

Sob O Mesmo Céu

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talvez eu me esqueça daqui a pouco desse filme. não foi grande, nem pequeno, não foi muita coisa. ponte pênsil. queda precoce. um filme que distrai e a diferença para um filme distraído: em um filme distraído dois cinemas se abrem. um dentro. um fora. penso longe daqui de perto. vaporizador. penso ontem. penso espaço penso. penso em nada. talvez até mude de assunto no meio do texto.

lendas havaianas, Bill e Emma e aquela dança que é puro recreio adulto. cenas queridinhas e os mudos diálogos, ah esses. Rachel McAdams existe de ser só ela. só ela. linda e só. Bradley. nunca entendi tudo isso de aplauso. Mas Bradley tem melhorado. tem mais olho em seu azul. Emma Stone tem passado de ano, mas notas altas, ainda não, sorry.

“Sob o mesmo céu” não me empolgou, mas gostei de a-mar de novo o Havaí. porque ele é assim. uma lenda que te puxa pra Saturno. “Huna quer dizer: Segredo, não no sentido de manter algo oculto, mas sim de descobrir um sentido mais profundo da nossa existência”. o Havaí é uma estrada em que os deuses podem ser atropelados e os vulcões revelam horóscopos pioneiros, que pulam de seus sopés.

um evento cheio de relâmpagos, duendes e correções do acaso. capim-limão e Ho’oponopono – * Sinto muito * Por favor * Me perdoe * Obrigada * Sou grata * Eu te amo *

Cameron Crowe sempre tenta me enganar e eu deixo. sempre que me convida, digo que vou. suas festas são lindas pelas promessas, mesmo as não cumpridas. toda promessa tem fogachos e colares de flores. todo filme de Crowe me faz querer ligar o som do carro depois.

aliás, meu som do carro está nas últimas, estou quase jogando no poço de fogo Halemaumau. sintomas: está velho, pisado, enferrujado, desobediente, risca todo e qualquer cd que tenha pele lisa e sempre pula a música número 11. alguém tem algum som de carro sobrando? a única exigência é que funcione. alguém me empresta? me dá? me vende preço OLX? desapega, desapega.

Jurassic World

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Já estava decidido: mesmo se o filme fosse péssimo eu ainda assim iria adorá-lo. Fã é fã. Voltar à Ilha Nublar vinte e três anos depois foi empolgante e nostálgico. Ver Jurassic World finalmente funcionando fez com que tenha valido a pena eu não ter me suicidado aos 27.

Ao invés de contar no Trip Advisor, quero relatar aqui minha experiência no Jurassic World. Vish, na entrada você já recebe um mapa indicando onde está cada dinossauro na ilha. Em cada localização há um pequeno código, ao passarmos o celular por cima (através da tecnologia de realidade ampliada), toda a ficha técnica do Dino fica disponível para leitura. O atendimento no parque é simpático, acolhedor, os funcionários são sorridentes e a comida é deliciosa. A lanchonete vende “ovos de dinossauro” com chocolate dentro, pizza em forma de “pegada” de brontossauro e tem refil de refri pelo parque todo e zaz. Pra galera gourmet, tem uma food truck que vende asinha de Pterodáctilo flambada com ervas finas do período neolítico. No setor kids, as crianças podem dar volta de pônei no Tricerátops, e dar comida pro Estegossauro. Pros adultos, rola apostar corrida em cima dos Gallimimus, assistir ao Mosassauro sendo alimentado com tubarões, ver uma rinha entre Pinacossauros e interagir com um Dilofossauro em 7D. Não sei por que, mas não vi o T-Rex, parece que essa atração estava em manutenção. Li na Viagem & Turismo que ele seria substituído por um tal de Indominus Rex. Bom, espero voltar em breve a esse parque maravilhoso e inesquecível e tirar várias fotos para colocar no Facebook.

Mas agora voltando ao filme. Com os recursos que os grandes estúdios reúnem, hoje é quase uma obrigação fazer um remake ou uma continuação que sejam no mínimo competentes. Se não existir uma ideia mirabolante, faça uma auto-referência sem fingir originalidade, revisite o que deu certo, homenageie sem primarismos, não tente enganar como faz a Fanta maracujá. Foi exatamente isso. Uma gostosa sensação de resgate do primeiro filme, talvez ambos tenham estruturas praticamente iguais. Mudaram os personagens, as tiradas, a agressividade e esperteza dos dinos (atenção para os duelos), a tecnologia. Mas ainda estamos naquele filme que fala da megalomania cientifica, o homem subestimando a natureza, dois irmãos – um deles maníaco por dinossauros, – e o plot previsível que promove a desordem entre répteis e humanos.

Jurassic Park foi o Sci-fi que mais marcou minha infância. Fui uma dessas crianças seduzidas pelo talento de Spielberg em nos familiarizar com o estranhamento, mostrando que a imaginação não morde. Talvez o grande segredo do diretor seja justamente abordar o deslumbre infantil dentro de seus filmes, convidando sempre as crianças de fora a “colocarem a mão” ali dentro. Curioso é que ali, bem perto da minha cadeira havia uma família com uma criança bem pequena. Ao invés de chorar de medo dos dinossauros, aquele pequeno ficou de pé o filme todo e por diversas vezes esticava o bracinho tentando alcançar a tela para “mexer” nos répteis assustadores. Olhava aquilo e entendia o que acontecia comigo quando via ET ou Jurassic ou o motivo de sempre ficar arrepiado com a vinheta da Universal antes de um filme e olhar a vitrine da loja de brinquedos e querer todos os bonecos do filme.

Jurassic World é um daqueles filmes que entretêm os olhos enquanto o picolé derrete esquecido nas mãos. É uma cerimônia múltipla de tributo ao passado. Não ressuscita apenas dinossauros, recrudesce também um filme e reavalia alguns privilégios: coloca nas mãos de uma mulher uma das cenas mais decisivas e heroicas da trama – essa mesma cena, que no primeiro filme é protagonizada pelo Dr Alan Grant,

Ressurreição. Ouvir um coração voltar a bater, velocirapidamente.

Últimas conversas

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Ainda não é o final, mas quando uma das últimas jovens sai da sala, Coutinho pede que ela deixe a porta aberta, porque assim deveria terminar o seu filme. Talvez seja assim que a vida acaba: algo por fechar, contas a pagar sobre a mesa, alguns rabiscos crus e a luz, ainda acesa. O diretor fazia então um contra-movimento em relação ao caráter conclusivo da ideia de passagem. Quem sai daquela sala deixa de existir aos olhos, mas as imagens perpetuam a lembrança do irreal registrado. O que foi verdade? Não sabemos, nem a imagem sabe, o que a mente produz revela apenas um fragmento consciente que não elide a dúvida.

“E quando viu de novo, porque nuns instantes ficou a ver não vendo, como quem lê a página de um livro sem se apegar às palavras – e aí se deixou no depressa-devagar da imaginação…” Carrascoza

A cadeira vazia – mostrada repetidamente – é uma célula integrante da substância do silêncio. Um personagem tão inteiro quanto um substrato de matéria viva comunicando algo. É explorado em suas “Últimas conversas” como um elemento fundamental dentro de qualquer jogo de comunicação. Não há como fugir, ele encarna um produto incomodo que ainda assim interliga uma interação. O silêncio é todo um idioma sustentado por outros canais de sentido: olhos, movimentos de mão, respiração. É, em última instância, uma forma de intimidade, legitimada ou não dentro de uma troca entre emissores.

Coutinho foi um cineasta que soube como ninguém colocar-se entre a borda e o transbordo. Ao questionar o tratado fronteiriço entre o valor do real enquanto verdade, desmentia a propaganda agasalhada pelos documentários sobre o compromisso com versões do inegável. Em uma das entrevistas, o diretor sugere explicitamente uma permissão para que o interlocutor minta, caso queira. É como se esse rompimento com a certidão autenticada dos fatos esticasse ainda mais o potencial furtivo em relação à liberdade da conversa. Um mecanismo que leva o entrevistado a duvidar de si, invalidando então o freio da retração. Isso alicerça ainda mais a criação de um fato tingido pela centelha do abstrato ao valor da fala sem o protocolo da higiene de discurso. Coutinho não queria a verdade, queria o imaginário.

O fio condutor de alguns filmes seus, parecia ganhar traçado dentro de uma ignição fluída e ao mesmo adirecional. Seu cinema parecia envolvido por um aditivo maior, como se a circunstância fosse mais importante do que seu próprio fim. Coutinho sabia se esquivar da abotoadura acadêmica, criando uma linha conceitual desgarrada de formatos adestrados, preferia turvar-se no prelúdio da dúvida, segurando o seu cigarro de forma nervosa e inclemente. O malte do seu êxito não era mensurável pelo valor de suas perguntas. Sua didática investigativa partia de uma provocação oculta e espontânea, que esvaziava a formalidade e transformava o encontro em uma agradável sala de estar. Coutinho era horizontal em sua linha de tratamento. Ao esquecer-se de si, ao se colocar como receptor periférico do discurso, dignificava a história do outro.

A composição coutiniana de tipos talvez seja toda espraiada por esses atores acidentais, fabricados pelo momento. Disso, soube recolher cacos marcantes e inesquecíveis, tão deslumbrantes quanto a assumida ficção. Em toda a sua valsa, fez com que pessoas comuns imitassem as próprias memórias. Coutinho foi a joia disfarçada de bijuteria mais valiosa que o cinema me deixou, não como um impostor. mas como um exímio domesticador de mentiras.

As maravilhas

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O pensamento rústico, as raízes etruscas, colorindo de inocência o verde da Toscana. Um pedaço de terra isolado pela riqueza da simplicidade. Naquele contexto de família, viver junto confere um significado tátil, colado pelo calor, quase como o mel e a sua textura peganhenta.

Gelsomina, a abelha mais velha, assume a dianteira como mãe-designada das situações colaborativas. Produtiva, capaz de visitar dez flores por minuto em busca de mel e pólen. Mas ela quer ir embora para uma nova colmeia, mesmo que volte logo após. Por instantes, escapa despercebida em algum vão de briluz inventado, ensaia o dia de seu voo nupcial. Quando triste, chora abelhas, talvez versões menores de seus pedaços mais sensíveis. Para conseguir salvar seu País das maravilhas, precisa escolher enfrentar o símbolo patriarcal (talvez o seu Jaguadarte), percebido como a face imperativa, controladora e atuante em seu universo.

“As maravilhas” é todo esse irrealismo que da pra inventar entre uma tessitura e um acidente, entre um vento inesperado e o olhar fugidio do camelo solitário, preso ao gira-gira. A audácia dos sonhos feita de um arranjo em cores com néctar. Nesse filme, a nossa capacidade de imaginar cresce e ultrapassa os limites de qualquer instante pré-sugerido, da pra ir longe, mesmo aqui. Uma transição tão saudável e vital quanto levar as abelhas até as flores e não as flores até as abelhas. Sutileza que altera a propriedade gustativa do mel.

Precisamos de momentos desdobrantes, amarelos, com asas. Abelhas sabem olhar o sol.

Cake

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Fiquei contente por ela. Não gosto muito do seu trabalho, mas dessa vez ela fez diferente, me capturou com precisão, botou alma e me fez concordar que o Oscar sofre de grave miopia. Que bela construção a de Jennifer Aniston. A convincente apatia sem vaidade, a postura ereta/decumbente, distribuída em dois planos específicos (deitada e de pé), e principalmente a forma de administrar o contraste entre a dor física e a emocional.

“Cake” promove um rompimento preciso na confusão de se colocar a tristeza como sinônimo de depressão. Mostra justamente a depressão como um estágio avançado da melancolia. Um processo que envolve inércia, desinteresse e indiferença. O tal fundo do poço não é feito de água lacrimal, mas de um espaço de profundo vazio. Um abismo (des)constituído de um completo nada. Ali, a esperança já se encontra obsoleta, nenhum motivo parece mais suficiente. Não é levantar-se da cama triste, é pior, é não querer se levantar.

Através da acidez niilista, das atitudes malcriadas, e das averiguações sobre o suicídio de uma conhecida, vamos entendendo quem é Claire e qual é a sua frequência emocional. Nem tão odiosa, mas nem um pouco amável. Uma mulher que passou por um grande trauma – acertadamente insinuado de diversas maneiras sem explorar nossas lágrimas –, que vive dopada por remédios tranquilizantes e parece despedir-se aos poucos de si. O filme a todo tempo sugere indícios de que um provável suicídio da protagonista pode acontecer, e aí outro paradigma é examinado: a regra do “quem quer se suicidar não avisa, se mata de uma vez” é revista. Assim como a personagem, muitos suicidas pedem ajuda antes de cometerem a ação, inclusive usando o recurso da ameaça. Esses sinais não necessariamente são explícitos, eles podem ser sutís, indiretos, simbólicos.

A expressão “exercer empatia” nunca foi tão repetida/exigida internet adentro, e nesse filme, uma observação generosa pode ser um bom exercício para quem tem aquele egocentrismo dimensional de sempre importantizar os próprios problemas e subestimar o problema do outro.Olhar para Claire não como alguém que se faz de vítima, mas como um ser humano sufocado por um vazio incontrolável. Desmontar aquela máxima de que depressão só é de verdade quando é a nossa. Ao contrário do que tenho lido, o mérito desse longa não é apenas a atuação de Aniston. É também a coadjuvante mexicana (Adriana Barraza), ou aquela enternecedora e edificante cena no trilho do trem.

O “self forgiveness” tratado com altivez e cuidado. Um filme em seu todo, sincero e comovente. Eu daria mil chances, porque sim, mexeu.

Força Maior

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Um semi-acidente que revela através de uma pequena atitude instintiva, o lado frágil dos papéis normativos nas relações de gênero. “Força Maior” é daqueles filmes que nos oferecem um serviço completo, categórico em termos de técnica, argumento e atuações. A avalanche em forma de metáfora rege os acontecimentos e descompartimenta a até então vida mais ou menos do casal Ebba e Thomas.

As atitudes resistentes de Thomas em se assumir vulnerável desconstroem um tabu valioso: homens também sentem medo. Colocando o protótipo da valentia masculina em cheque, o diretor consegue através de um experimento hipotético desmistificar a capa do super herói. Nessa hora, quem rouba a cena é Ebba, a esposa, que começa a questionar suas expectativas e transborda temas urgentes de forma polida, o machismo, tanto masculino quanto feminino é trabalhado então com sutileza e maestria, não há exagero, existem fatos e fragilidades. E talvez seja esse o grande tema do filme sueco: a fragilidade. A cena do ataque de choro é ambígua, patética e ridiculamente bem explorada. Ali a avalanche emocional, antes implodida, não mais consegue sustentar as aparências.

A Câmera nesse longa é impiedosa e detalhista, explora incansavelmente o potencial do branco. Um branco arisco, que burla a sua fama pacata e traféga lampejando o frio dos corpos, exige reações, não se contenta com a plenitude de seu papel. Um branco com flexões sonoras: os pequenos barulhos vindos da neve dos Alpes funcionam como um anúncio de que algo pode estar errado. Um branco que quase rouba pra si o enervado azul do céu ou dos olhos do protagonista

Os personagens secundários interferem na trama de forma incisiva, ali, naquele miolo sem muita perspectiva, são eles que de forma mais arejada, mexem com o rumo da neve volante, e através de uma terapia em grupo espontânea, acabam nos incluindo sugestivamente. É um tribunal que desencoraja nossa hipocrisia, já que o vilão da história, é na verdade uma construção estabelecida socialmente. Alheia a essas regras implícitas, existe a lei de sobrevivência que desmancha qualquer simulação, quando o pânico assume o comando a tal coragem pode se esconder atrás do primeiro muro.

O cinema escandinavo me ganha cada vez mais, por saber fechar qualquer saída de emergência para soluções fáceis dentro de uma reflexão complexa . “Força Maior” é uma estrutura valiosa porque investiga sentimentos intimidantes e é capaz de com uma cena, questionar todo um tutorial moral. As perguntas espetam a mente. Quais são as suas verdadeiras prioridades em um momento de perigo? Você ou os seus? Em uma situação limite, a quem você salvaria primeiro? Não, nenhuma resposta é válida depois desse filme, aliás, UM SENHOR FILME.

Frank

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Caro Frank, depois de nutrir-me do processo musical dos “Chinchillas”, não pude deixar de lhe escrever essa carta [estou sorrindo como quem se convida para entrar]. A linha de composição em meio ao suplemento da quietude, me parece uma espécie de distensão necessária ao artista. Morder as ideias, não sem medo, e fazer costuras quando a insanidade nos rasga. Talvez por dentro dessa máscara, e da imagem amorfa residente em seu interior, exista uma grande alegoria de pretensa solidez, que nos envolve e ao mesmo tempo nos oculta.


Aquele lindo retiro verde onde tudo acontece, amplifica a alquimia possível do trajeto da poeira que se torna dourada [ nesse momento, meu olhar está deslocado para o musgo gelado que encosta o lago e as ideias que de lá brotam].Quem experimenta a sensibilidade está mais perto da deidade, mas também da sombra. A solidão que transcende a superficialidade é um isolamento que independe de numerais bovinos, é um cofre de difícil acesso, lidar com ela exige certo desapego. Acho que isso vem do medo de sabermos que só chegamos lá sozinhos, sem placas ou anestésicos.

O artista que se enxerga no próprio esconderijo deve saber destrancá-lo, ao contrário, fica confinado em um reduto sem janelas, nem portas, o sol do lado de fora não reage ao soneto e um estado de sufoco acaba por trancar a lucidez, o resultado é a cova da implosão. O artista precisa da voz, nem tanto da garganta, é a voz capaz de atravessar a loucura. A arte exposta é uma nudez, e por cima do seu pescoço acredito nessas mil sensações que nem a ausência de máscara revelaria, o segredo está no oeste do peito.

O grande trunfo de toda tentativa experimental é sustentar a heterodoxia. Existe a fortuna de quem consegue agregar a identidade sem rendição, e existe aquele que precisa se assumir produto, para que seu circo arrecade os louros do vazio que se disfarça de sucesso. Mas e nós quando selvagens? Como desviar os dentes e não subestimar o lado medíocre da mesa ao lado: jovens contam proezas uns aos outros para provarem o quanto são bons na medida da casca. Como desenvolver imunidade a essa troca de blasfêmias entre justiceiros e justiceiros, todos mergulhados em uma frigideira com óleo quente, vendendo feridas fritas a si mesmos. Olhando de longe, são todos antagonistas em busca de significados [ou certificados], todos com toda e nenhuma razão.

Encerro por aqui, dizendo que quero bem você – confesso que jamais me imaginei escrevendo uma carta a um personagem, mas sei que você existe. Quero bem a Michael Fassbender por se superar como ator e nos convencer de que a tradução do sentimento não se restringe ao idioma da muleta facial. E também a Maggie Gyllenhaal que nunca foi tão exuberante no ofício de amazona arisco-elegante. Hoje sei que tudo acontece quando a mão se entrega a massa ou quando a atenção desatenta fisga a verdade de um lapso. De resto somos todos aspirantes – alguns ostentam certificados.

“Frank”: uma película prestando homenagem à loucura produtiva. Não é bem sobre uma máscara, mas sobre um CORAÇÃO À MOSTRA, não sem dor.

Club Sandwich

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ano passado estava na Mostra e o esnobei, mas o cinema sabe corrigir esses desencontros. aderindo à uma sugestão altamente confiável, me dei esse filme de aniversário. não tenho o hábito de conversar no cinema, mas dessa vez rompi com os meus bons modos: a conversa paralela era inevitavelmente um efeito colateral.


“as vozes não saem das rachaduras, estragulam-se” – Rogério Pereira.
na ausência de trilha, os efeitos sonoros tornavam-se maiúsculos. nos longos espaços de silêncio, o barulho verbalizava com a imagem feito arroz e feijão. ali, naquele hotel, com cinco hóspedes e algumas moscas, o silêncio é um tufão ruidoso. ele entrega o conflito nuclear que se inicía com a chegada da menina “intrusa”.

a dinâmica dos diálogos e adereços, desenvolvida com artifícios de interação, seja em baixo d’água ou na conversa que se estabelece entre os fones de ouvido. a cama como elemento simbólico que sugere pulsões. o protetor solar, que em uma inteligente repetição de cena, parece um bastão passado de forma desgostosa de mãe para nora.

a câmera [que tem aquele TOC da simetria] é higiênica e estuda cada impacto anaclítico do subtexto. no fundo, são dois filmes acontecendo, sugestões e mais sugestões, a entrelinha evolui e a palavra “mãe” não é mencionada. o menino ora cede a nova namoradinha, ora, sem perceber, se entrega ao pacto umbilical. uma disputa entre as duas fica evidente no shot em que os três jogam baralho na cama, olhares que se repelem em pleno confonto.

“Club Sandwich” fala de um tipo de separação comum e ao mesmo tempo espinhosa. nos lembra de que cada olhar tem a chave da própria casa. tudo rema com propósito, é um filme sem grotões, epitomizado pela economia e pelo não-dito. o tema edipiano mostrado sem o veneno escandalizante. é a arte dando uma mãozinha aos terapeutas.

prefiro achar que 2015 ainda mal começou, para esperar filmes tão valiosos como essa preciosidade mexicana. agora sim, VALENDO