E agora?

1) Não se trata mais de debochar de quem tem ido às ruas, mas de tentar entender o que essas pessoas querem de uma maneira prática além dos memes e registros caricatos de quem não sabe o que está fazendo ali. Essa multidão representa de forma legitima, gostem vocês ou não, uma indignação bastante razoável e urgente. Sim, elegeram para purgação um lado que é menos colaborativo, eu disse menos, quando o assunto é privilégio – mas será mesmo que é só por isso? Um governo desastroso que (também) por uma mãozona midiatica é o epicentro de um problema estrutural cheio de tubulações que ainda nem sabemos onde vão chegar. Apropriaram-se de figuras representativas que servem em plano simbólico como uma oferenda oportuna num ritual de guilhotina renovadora. Cabeças (nada inocentes) que estão para serem cortadas em uma hora ingrata(?), em um momento em que o pior pode vir depois. Mas já repararam que o mal pode sempre vir depois, independente da circunstância?
 
2) Ainda assim, é legal questionar as prioridades envolvidas quando o mote escancarado de uma manifestação é o da anticorrupção, ou seja, um mote que se anula por si, uma vez que todo mundo é ESTÉTICAMENTE “contra a corrupção”, inclusive os corruptos. Eu ainda não estou falando de lados, nem de santos, nem de camisas de futebol contaminadas por um símbolo de corrupção recente. Ainda não.
 
3) Penso que o que está acontecendo nesse exato momento seja o reflexo sísmico mais colateral dos Movimentos de Junho de 2013. “Cria-te corvos que te comerão os olhos”. Eles aprenderam direitinho, vocês estimularam e depois esnobaram, subestimaram, se esquivaram do diálogo, caímos num Mackenzie x USP no JUCA . Em algum momento, eu achei a palavra golpe um exagero da esquerda mimada. Mas, ser corrupto institucionalmente (liberar catraca) como resposta a corrupção num dia como o de domingo, é uma atitude no mínimo cínica e oportunista da oposição. Daí alguém vai dizer: então, onde estão os inocentes quando os réus são também os vilões da história? É essa é a questão: nesse momento a trapaça não é mais um elemento surpresa, agora são todos tentando pular do Titanic nos botes que têm pra hoje. O “golpe” já aconteceu, está acontecendo, e de ambos os lados.
 
4) Podemos continuar brincando com fotos e memes e gifs chiques? Eu assim prefiro. Prefiro porque o humor, o alívio cômico para um momento em que o clima e a tensão coletiva vêm interferindo socialmente em nossas relações é a única forma de não cairmos em uma neurose funcional. Acho inocente supor que em um evento com milhões de pessoas, tudo seguirá de maneira uniforme e não vai ter gente extrapolando e fazendo bulshitagens em nome de uma purificação política em que tudo é permitido em nome dos fins. Acho também que a expulsão de Alckmin e Aécio é um bom perímetro para que a esquerda pare de achar que tudo se trata de “choro pelo Aécio”, “amamos o Cunha” ou “creme da Victoria Secret ta uma facada com a alta do dólar então vamos voltar pra Natura”. Como diria Galvão (eca): “não existe mais time bobo nessa copa”.
 
5) Muitos dos que criticam o fla-flu de agora, cultivaram diretamente essa polarização, talvez eu, você. Como? Conversando apenas com quem concorda conosco, criticando apenas o grupo “adversário”, achando que a legitimidade da própria opinião se consolida apenas pelos likes de quem está dentro da sua tenda ideológica, alimentando a lógica dos algorítimos. E será que tem volta? Acho difícil. Tentar o diálogo tem sido uma tarefa quase impossível quando você não se veste de seleção brasileira ou usa um vermelho sem querer, e principalmente agora que o termo “isentão” entrou na moda, todos estão mais ouriçados em se posicionar antes de serem derrubados do muro. Uma saída possível é tentar se informar fora da caixinha, prestar atenção em quem está disposto a examinar criticamente o próprio lado mesmo que vá doer. Orgulho eleitoral ferido não ajuda em nada nessa hora.
 
6) Um grande equivoco da direita é medir as escolhas adversárias por uma pauta só. Quem votou na esquerda, de certo, tinha preocupações menos genéricas do que o andamento da economia, existe nesse novelo muitas minorias buscando alinhamento com propostas SUPOSTAMENTE mais justas e igualitárias e principalmente representativas diante de um congresso conservador e retrógrado. Sim, na prática não foi bem assim, mas achar que alguém vota pra apoiar corrupção por pura luxuria de caráter nessa altura do campeonato é insistir no raso, uma vez que estamos falando de uma contaminação generalizada em que não existem inocentes.
7) Acho triste que o argumento da seletividade tenha virado apenas um cabo de guerra de justificação conveniente. “Se o meu lado está pagando pelo que fez e outro AINDA não, o meu lado passa a automaticamente ser coitado e inocente”. Vocês colocam a seletividade de um equivoco sobreposta ao próprio equivoco. Seletivizar a seletividade. Bonito isso.
 “Não aperte o botão VERMELHO”. Talvez essa frase de filme nunca tenha feito tanto sentido. Mas se mudarmos o botão de cor, o perigo acaba?

SAWUBONA

A liquidez das relações, ensaiada por Bauman, faz cada vez mais sentido dentro da realidade em que vivemos. Num ano como o de 2015, cheio de crises existenciais, enxergo uma urgência em acharmos um sentido para as nossas sinapses e conexões, uma vez que o sofrimento humano é individual, mas também coletivo.
Essa campanha abrange uma grande metalinguagem: a colaboração em rede, em uma perspectiva virtual, viabilizando uma experiência de investigação presencial sobre a convivência e a possibilidade de colaboração entre comunidades. Nós vemos você! Mas, como essa troca fraternal pode acontecer?

A autoinvenção social, o eu coletivo e todos os talentos pessoais que operam pelo todo. Nessa viagem, o olhar busca um ponto significativo, que passeia entre a partilha e a reinvenção. Entender quase que de maneira antropológica como grupos completamente dissonantes conversam entre si, é um mecanismo de extrema valia para se compreender como se estabelecem os parentescos informais, seja pela gentileza ou pela sobrevivência comunitária. A intersecção de talentos que se misturam ao tempo presente para que um produto transformador aconteça.

Existem tantas maneiras de viajar, e eu acabo de descobrir mais essa: “viajar o outro por nós”, parece estranho colocado assim, mas assim pode ser, podemos ser, juntos.

Quem puder/quiser colabore com esse crowndfunding,
https://beta.benfeitoria.com/sawubona

 

O favor flutuante

Preciso de algo urgente, é o tipo de favor com data, e até por isso deixo a pessoa a vontade pra dizer não. A pessoa diz que pode, que tudo bem, ou às vezes nem isso, não diz, ou diz “tá” e você num tem certeza se ela aceitou, e pior: fica sem graça de perguntar novamente.

E então você espera, a pessoa não te da mais satisfação sobre o favor e você fica sem graça de cobrar. Pior, a pessoa nunca mais dá notícias sobre o favor e você tem que se virar nos trinta porque a demora prejudicou o seu problema mais ainda.

Então, um belo dia, você pergunta, e a pessoa da uma justificativa qualquer, aquela que não importa o por quê. Tudo o que importava era o “não” inicial, o “não” que não atrapalha ninguém, o não de “não posso” aquele que é difícil de dizer pra quem é querido, mas que é a melhor coisa que você pode fazer por quem depende de um favor com data.

O tipo de demanda que precisava do favor e não da promessa. Nos últimos meses me prejudiquei por diversos episódios assim, de gente que prometeu por prometer, ou porque não soube como dizer não ( eu entendo essa parte, oh se entendo) e que me prejudicou mais por ter dito sim. O sim que é sagrado, o sim que não flutua. Precisar do outro, tão bom quanto difícil.

O ato de pedir demanda toda uma arte, mas dizer sim também é, e isso precisa de comprometimento, não do favor displicente.

Mais amor POR FAVOR.

Juliana Cunha e a faísca do ódio produtivo

Sou leitor dessa moça de longa data. E isso nem é importante. O importante é que a figura Juliana Cunha me desperta uma colateretalidade esquisita, faz com que eu concorde com ela mesmo que o que ela defenda diga a respeito a mim – e não seja bom. Acho ela forçosamente polêmica, tacanha, mimada, inteligentíssima, articulada, valente. Temos amigos em comum e ouço versões diferentes sobre ela. Assim como ouvimos de Caetano Veloso. Um gênio antipático e subversivo. E  existe ela, e sua escrita maligna, intolerante, justiceira, sarcástica aos justiceiros.

Como Facundo disse dia desses, o que importa é o palco, a dramaticidade humana, isso é a graça, independente da razão, independente da razão (2 vezes)… E ela é craque nisso. É aquela pessoa que pega algo consagradinho pelos descolados, silenciosa observa os aplausos, e entra no fim da festa batendo uma palminha irônica e devagar, cheia de um veneno capaz de levar a baixo os confetes dantes ajogalhados na cerimônia. A ironia de tudo: ela é descoladinha, nas palavras, nos enfeites, na feição arisca, é uma hipster anti-hipsters; nada mais comum.

Juliana é minha grande figura de influência na internet, não por estar sempre certa, mas por me parecer altamente paradoxal e niilista, como Woddy Allen. É por essa figura que sou fascinado, essa moça que na ficção me parece uma artista anti-social, que odeia o próprio interlocutor, mas não subestima a sua importância, na verdade subestima, e pra mim essa é a graça. Aquela moça que soltava todas as suas garras no programa “Cacete armado”, que incomodava os coronéis de Salvador e as freiras de Soterópolis e que passou a incomodar a internet gourmet brasileira, com suas desconfianças de progressista radical e o seu jeito ogro de zineira blasê.

Se você for descolado e tiver muitos likes, algum dia será alvo dela, é um território inevitável e eu nem acho tão ruim assim, é como um batizado, um vestibular simbólico em que o ódio talvez tenha algo de produtivo. Imagino que ela provavelmente leria esse texto cheia de tédio, preguiça e indiferença, e isso é irrelevante. Relevante é existirem Julianas, mulheres que nos influenciam e nos fazem pensar sem pedir permissão. Existem cercadinhos interessantes na internet e isso é o que ainda me faz ficar, gosto de pisar nas terras desse cercado quase como um forasteiro abobado, esse cercado de Juliana, em que ninguém está a salvo, ninguém é unanimidade, nem Juliana.

 

Hoje é segunda-feira, dia de efeito Gregório.

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Toda segunda observo um fenômeno interessante no meu feice. O efeito Gregório. De tardinha, vejo 5 ou 6 compartilhamentos de sua coluna da Folha de inicio de semana. Confesso que mais interessante do que qualquer sacadinha dele, é o impacto que os seus textos superestimados (eu acho) causam na minha timeline. É o “chupa” abre-alas da semana, é a simbólica bateção de panela silenciosa da esquerda festiva.

Seus textos são usados como verdades de esfregar na cara, é como se ele aliviasse o vão de insegurança de um núcleo ideológico altamente vigiado por todos os lados, a esquerda que vira e mexe é botada em cheque pela contradição, a esquerda que não pode nem sonhar com a Flórida ou em usar em público o seu iphone (é que pega mal). Gregório Duvivier é como um dublê político da classe média progressista. Ousa por saber que tem palmas garantidas, e defende um enquadramento confortável, o do privilegiado que aceita negociar: não abra mão de tudo o que é seu, mas aceite discutir a inclusão do outro no seu frigobar. Como ele mesmo disse uma vez: ele não quer deixar de ser rico, ele quer que todos sejam ricos.

Mais engraçado ainda são os apelidamentos dados ao coral de canto gregoriano, dando um tom teen ao sentido difuso dessa reunião ideológica. Esquerda uber, esquerda ciclovia, esquerda Hypness, esquerda gourmet, esquerderia. Fico então imaginando alguma intervenção na Feira Plana do ano que vem. Um duelo de esgrima com espadas vermelhas que acendem com luz natural, em cima de uma slackline. Eu, obvio, estarei lá reforçando alguma estatística hostil da direita Constantina, vendendo zines – quase baratos – com fotos de Gregorio chupando paletas cubanas. Na crise, o negócio é ser politizado e fofo, mas a preço justo.

Inicialmente, isso pode parecer uma crítica ao Gregório, mas é um pouco além disso. Aos leitores mais apressados, isso não é um ataque de um vira-casaca. Posso estar aqui tentando ridicularizar algo que também é comum a mim. No fundo sou eu me olhando de fora. Faço isso que vocês fazem. Repito a sequencia, compartilho e consumo Gregório, Willys, Brum, Sakamoto e Laerte. Ah, e eu também dei voto crítico no PT no segundo turno, sem ser petista. Mas a questão é pensar que essa reunião em torno de um fio condutor não deixa de ser curiosa e até mesmo engraçada.

O fato é que todos nós, diante de um espelho, somos capazes das caretas mais ridículas, e nesse post faço esse exercício parcial de distanciamento apenas usando Gregório como um mártir. Ando com preguiça de me explicar em posts mais polêmicos, mas aos ofendidos, não é um post sobre o Gregório, mas sobre caretas engraçadas pro espelho. É como se eu me olhasse tirando caca de nariz sozinho no elevador, só que horas depois, no vídeo da câmera de segurança. Olhar de fora a sua própria imagem interagindo com o espelho, tentem isso, pode ser mais divertido (e ridículo) do que parece. “Put some farofa”.

Quando somos iguais perante a lua.

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Poucas coisas são tão subjetivas quanto o conceito de amizade. E hoje, no “dia do amigo”, fiquei pensando num papo de Whatsapp de dias atrás com uma amiga (?). Falei que gostava do fato de ter alguém de todos os tipos para conversar, de “colecionar pessoas” e panz. Ela retrucou que não entendia essa coisa minha de ter mil amigos, que isso parecia muito impessoal, que ela tinha tipo dois amigos.

Eu respondi: “eu num tenho mil amigos. E colecionar pessoas não é o mesmo que amigos. Amigo nem sempre tem o melhor conselho. Se abrir com quem você não conhece às vezes pode acarretar muito mais intimidade do que com um amigo que você conhece há anos. É diferente esbanjar queridismo de saber que o mundo é cheio de gente que pode te ajudar sem mal te conhecer. A conexão a meu ver num precisa de rótulos. Ter amigos é uma propriedade inventada acho eu, é um cercadinho em que você deposita expectativas e negociações de espaço. Enfim, a gente inventa os requisitos pra chamar alguém de amigo…”

Disse que meu ponto de vista era um pouco desprogramado do padrão e que eu também tinha uns cinco amigos e mais um tanto de pessoas que eu poderia contar em uma situação e não em outra. Quanta gente eu já chamei de amigo e hoje num sei nem se ta casada, solteira, doente, VIVA. Mas naquele momento era o que eu sentia, era a palavra que definia aquilo, talvez num seja mais, ou como diria uma antiga amiga “tudo o que era nunca foi”. Nós vivemos em uma esteira temporal: entra gente, sai gente. E o lance é que a coleira do tempo acaba atrapalhando essa definição, já que as mudanças de espaço acontecem e geralmente e elas definem afastamentos e aproximações. E não existe isso de recusar um novo amigo porque jurou fidelidade ao outro.

Voltando a teoria do cercadinho, eu cada vez mais tenho indícios de que a subjetividade é uma (des)garantia para que a gente “rotule” alguém como amigo ou não, já que no momento em que essa pessoa avançar e descumprir as regras do seu cercadinho de expectativas estabelecidas, ela pode botar o seu posto a perder.

Ultimamente um dos meus grandes critérios para chamar alguém de amigo é ter o beneficio do não. O beneficio de furar (avisando) num dia em que eu não estou legal.  De não poder ser padrinho de casamento porque já tinha uma viagem marcada que também é muito importante pra mim. O beneficio de não ir numa colação de grau por achar boring ver um monte de playmobil recebendo um tubo de papel durante horas, para finalmente ver o playmobil que me interessa subir uma escada e também pegar esse tal tubo – e tudo durar coisa de um minuto. Acho uma verdadeira prova de amizade quem comparece a esse tipo de cerimônia, mas não acho que não ir seja o avesso disso.

Ao mesmo tempo, acho que pessoas que sempre dizem ”não”,” não posso”, “não sei” também não estão lá muito interessadas na minha companhia – e tempo não é desculpa. E eu tento, uma, duas , três vezes e depois paro de insistir. Acontece também de você adorar alguém, e essa pessoa um dia, depois de muito tempo, simplesmente te virar a cara sem mais nem menos numa festa. Se eu tenho a certeza de que não fiz absolutamente nada pra pessoa (e olha que eu sou bem paranóico com suposições), o adeus infelizmente já está implícito nesse tipo de atitude, pelo menos da minha parte. Eu deixo ir, mesmo que isso pareça orgulho. Acho que o carinho tem uma fluidez, você não tem que insistir nem implorar, ele apenas existe.

 

Diante desse conceito de (des)propriedade, eu talvez não tenha amigos e sim esteja amigo. Essas 2187 pessoas que numeram o meu placar de amigos no Facebook são apenas uma tarja imaginária sem nenhum valor concreto. É apenas um disfarce pra mostrar que eu não sou tão sozinho assim. Eu devo conhecer umas 500 pessoas dessas, o “resto” são leitores ou pessoas que leio e adicionei para ter informações privilegiadas. Dessas 500 pessoas que eu conheço, 200 delas eu devo ter visto no máximo 3 vezes: na primeira eu conheci e nas outras duas eu mudei de rota na rua para que elas não me vissem. Das 300 que sobram, 200 são colegas de Workshop, ou épocas bem legais, gente que sentou por anos na carteira de trás e até já me passou cola nas provas bimestrais. Ver como elas estão diariamente é uma forma de saber que elas ainda existem e lembrar da minha história e sem elas não há história.

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Daí sobra uns 100 malucos. Entre colegas, pessoas queridas, gente que iria ao meu enterro, gente que já tomei porre e já chamei pra reunião da Monavie. 50 delas provavelmente são pessoas que topam fazer algo em cima da hora, que não ligam pro fato deu não tomar cerveja, que apesar de diferentes de mim, topam dividir calorias e conversas comigo e sabem muito sobre quem eu sou ou acho que sou. Elas provavelmente sabem dividir uma conversa sem roubar assunto, porque ao contrario eu já devo ter dito pra elas que não gosto de monólogo, gosto de dizer e de ouvir. Desses 50, uns 30 já devem ter vindo aqui em casa e conhecido o meu quarto de marciano, e sabem de cor o nome dos meus pais.

Desses 30 existe um bioma cheio de corações telúricos e abraços de diferentes temperaturas. Quando estamos juntos somos todos iguais perante a lua. Tem primas que foram além do sangue e amigas de prédio que eu não abro mão. Tem evangélicos ponderados e musas do poli dancing. Tem potentes atrizes e ativistas do projeto Tamar. Tem fotógrafos variados e cinéfilas de All Star. Tem pedagogas feministas e historiadoras luso-brasileiras. Tem médicos carismáticos e terapeutas mackenzistas . Tem cozinheiras de acampamento e defensoras de gatos. Tem futuras mamães e poderosas xamãs. Tem amantes de cherry coke e gente de Itanhaém e de São José dos Campos.Tem fadas madrinhas e viajantes que verei no futuro. Tem comunistas fanáticas e leitores da Veja. Tem designers ariscas e mestres anciões.  Tem pera, uva, tem novela e tem cinema. E que bom…  tem gente pra eu discordar, apesar…

E tem gente que eu ainda nem conheço. É que a estrada tem esse cheiro de novo e é cheia de oferendas imprevistas para cada doravante. E é por isso eu olho pra frente, e que bom que ao lado tem sempre gente.

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Desculpe, mudei de ideia e esqueci de avisar

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Em um dos meus últimos textos, escrevi sobre a volubilidade e a suposta conversão vupt de quem praticava homofobia há alguns anos e de repente estava de arcoíro pagando de legal no Facebook no assunto já “obsoleto” sobre a legalização do casamento gay nos EUA. Na caixa de comentários, uma amiga me alertou sobre algo que confesso não ter refletido sobre antes: “…tem mesmo coisas que pensamos e temos vergonha de admitir,mas avisar que mudamos de opinião também é difícil”. Fiquei com isso na cabeça, visto que as Redes sociais são apenas sínteses cotidianas e que ninguém é obrigado a mandar notificações vermelhinhas pra avisar que mudou de ideia.

Nossas certezas passam diariamente por uma esteira cotidiana que nos fuzila com todo tipo de informação. Mas, como sabemos, os algoritmos de Zuckenberg “facilitam” essas direções já que as pessoas as quais lemos com frequência, aparecem mais em nosso mural, sendo assim, somos estimulados a concordar mais com quem já concordamos.

Fiquei pensando em diversas situações em que eu mudei de ideia, situações em que fui preconceituoso e que alguém interveio e me apontou um novo remo com cuidado (ou não) e me fez cantar Luka: Aceitei os meus erros, me reinventei e virei à página”.  Situações em que eu tive o direito de mudar de opinião sem avisar. Acho que expor esses pontos de virada nesse texto, facilita a compreensão de quem fica acanhado em parecer contraditório por ter se colocado nessa linha transitória. Talvez seja um pouco delicado fazer isso, mas dentro do nosso blog, na nossa casa, da pra abrir o coração e olhar no olho mágico pra ver se quem está do outro lado querendo apenas te metralhar ou está pensando de verdade sobre o seu ponto. Então vou me colocar no meio do tiroteio falando sobre algumas situações em que eu fui opressor e depois mudei de ideia, um making of dos meus preconceitos desconstruídos. Porque tão importante quanto denunciar o preconceito do outro talvez seja mostrar a ele como você se limpou de (alguns) dos seus.

Sim, eu já fui misógino.

Todo mundo deve ter um post em que já se arrependeu no Facebook, eu tenho vários. Uma vez, postei que tinha adorado um capítulo da novela “Salve Jorge” em que a personagem Vanda (Totia Meirelles)  – líder do núcleo que traficava mulheres para a Turquia – apanhava da protagonista oprimida. Tudo bem que quando um vilão toma uma surra, acaba lavando a alma do espectador, lembrando também que nesse caso, ela havia apanhado de uma mulher. Mas ainda assim, a imagem em si, remetia a uma mulher apanhando, seja lá de quem for. Desconfio até hoje que exaltar uma mulher apanhando, mesmo que de mentirinha, guarde lá no fundo, um resíduo de misoginia, da qual eu tanto tenho nojo e critico. E que bom que eu mudei de ideia, mas não avisei ninguém sobre essa minha percepção.

Sim, eu já fui capacitista.

Assistindo à segunda edição do Masterchef me peguei torcendo pela candidata que tinha apenas uma mão. Fui descobrir o que era capacitismo depois disso. Mentalmente, me veio inclusive uma piadinha bem maldosa sobre a sua condição, mas não vou reproduzi-la aqui por pura vergonha de ter pensado nela. Sim, ser politicamente correto é escolher não ser engraçado e reforçar uma agressão bem humorada, não é não pensar nesse tipo de piada, mas escolher não reproduzi-la, o pensamento é uma correnteza que às vezes ultrapassa os nossos impedimentos, mas tentar impedir, nunca é algo descartável. Tratar pessoas deficientes como não iguais, menos humanas. E não estou nem falando sobre tratar mal, mas usar aquela pessoa como um objeto de inspiração conveniente, como se você fosse simpático à causa dela por uma compaixão disfarçada de admiração. Sem perceber você pode estar tratando-a como subordinada, hierarquizando a relação subjetivamente. Olhar essas pessoas como desamparadas e decidir que elas são dependentes, assexuadas, carentes, economicamente improdutivas, fisicamente limitadas. Resumindo: é dar a mão para ajudar um cego sem que ele tenha pedido. E que bom que mudei de ideia, mas não avisei a candidata eliminada sobre isso.

Sim, eu já quis devolver uma ofensa preconceituosa com outro tipo de preconceito.

Dia desses vi uma reportagem sobre uma troca de farpas desnecessária em algum desses portais de fofoca. A jornalista Fabiola Reipert publicou uma nota maldosa dizendo que a atriz Sophia Abraão estava apostando na carreira de cantora porque não tinha engrenado como atriz. Furiosa, a atriz chamou Fabíola de gorda em seu Twitter. Fiquei bastante enfurecido pela declaração gordofóbica da atriz e armei um tweet provocativo dizendo: “Sophia gordofóbica Abraão, baixa a bola porque quem nasceu pra Malhação jamais chegara aos pés do cigano Igor.” Nessa humorada frase eu estava dizendo que uma mulher bonita no padrão do senso comum estava fadada a participar de uma novelinha adolescente por conta da sua superficialidade. Não sei se fiz bem em não mandar esse tweet, mas na dúvida preferi não ser uma dessas pessoas que ataca a incompetência política de Dilma colando adesivos de deboche machista no carro ou responde ao racismo da torcedora do Grêmio chamando-a de puta. Não sei se foi bom mudar de ideia, mas ninguém soube desse meu tweet.

Sim, eu já fui lesbofóbico.

Uma amiga me contou que depois de muito tempo, tinha se descoberto/aceitado lésbica. Esse fato causou nela uma transformação visual, ela deixou de gostar de batom e roupas de estereótipo feminino porque percebia que adotar novos códigos visuais a ajudava a ser notada em ambientes com mulheres que se interessavam por mulheres. E eu super dei força, apoiei, mas soltei um comentário desnecessário: “Nossa que bacana tudo isso, mas você não vai ficar tipo Tamy né?” E como eu me arrependo de ter dito isso, como se ela não tivesse o direito de adotar o visual que bem entendesse, como se eu tivesse algum direito em opinar sobre a sua identidade – no como ela se sente. E que bom que eu mudei de ideia, e eu torço para que ela leia isso como um pedido de desculpas.

Sim, eu já fui machista.

Na viagem que fiz ao Havaí, conheci uma linda loira brasileira chamada Lívia que me contou que trabalhava como advogada. Eu, quase que de supetão, achando que aquilo era um elogio disse: “Nossa, uma mulher tão linda trabalhando de advogada, por que você não tenta ser modelo.”? Nesse caso, logo em seguida, me dei conta do que havia dito sem pensar, e logo pedi desculpas a ela. Foi uma declaração infeliz e leviana, eu fetichizei a figura de uma mulher negando nela suas outras capacidades além da sua aparência.  Mas foi maravilhoso me dar conta disso logo em seguida. Mostrou que eu estava desenvolvendo a capacidade de me policiar, de voltar atrás, de enxergar como algumas estruturas funcionavam na minha mente sem que eu percebesse. E que bom que eu mudei de ideia, mas nesse caso, deu tempo de avisar a Lívia sobre isso.

Sim, eu já fui elitista.

Eu trabalhava como garçom no Outback e atendi um casal em que o namorado pediu a namorada em casamento oferecendo um chocolate Cacau Show. Achei aquilo cafona e na cozinha soltei o seguinte comentário: “Afe, um cliente pediu a namorada em casamento com um bombom Cacau show, pelo amor, dá algo da Kopenhagen ou num dá nada.” Na hora uma amiga chamada Pérola <3, me censurou e disse que não via problema nisso, que nem todo mundo tinha dinheiro pra comprar um chocolate da kopenhagen. Fiquei bravo com ela na hora, e disse que eu estava me referindo à qualidade do chocolate, mas cá pra nós, não, eu não estava. E que bom que eu mudei de ideia, mas não avisei à Pérola.

Sim eu já fui elitista, de novo.

Mais uma vez a grata experiência que tive como garçom me ajudou a enxergar outro valor torto que eu tinha. Disse a uma amiga que odiava quando um cliente tratava as pessoas feito empregada doméstica. E minha amiga replicou: “Mas qual o problema de ser empregada doméstica?” Primeira reação: fiquei bravo com a minha amiga. Obviamente, a pessoa que te censura sempre vai parecer uma estraga prazer. É muito comum usarmos o termo “secretaria do lar”, “ajudante”, “a moça que trabalha em casa” para minimizar a “gravidade” de ser uma empregada. Talvez seja pelo preconceito que se tem com o trabalho braçal no Brasil que remete inconscientemente a um trabalho “menos digno”, algo que no período colonial “não era tarefa de branco.” O termo empregada foi ganhando uma conotação negativa ao longo do tempo, mas se você isolar o termo sem pensar em seus desdobramentos, ele remete apenas a alguém que responde à um empregador, que no caso é você. Outra hipótese é a censura inconsciente, como se você soubesse do descaso com que muitas empregadas são tratadas e de certa forma aplique a tal gravidade no termo “empregada” como se o termo justificasse a ação e não o contrário. E que bom que eu mudei de ideia, mas não deu pra avisar a Mariana.

Sim, eu fui elitista há duas semanas atrás.

Com a morte do cantor Cristiano Araújo, muitas pessoas fizeram posts engraçadinhos sobre não conhecerem o cantor. Muitas delas, estavam dizendo apenas isso e eu num vejo problema em quem não o conhecia, mas muitas outras estavam sendo um tanto irônicas em uma leitura das entrelinhas dessa afirmação. É como se o fato delas não o conhecerem fosse um atestado de superioridade cultural, como se a cegueira sobre o mundo da música popular fosse uma tarja de descontaminação em relação ao que é tido pela elite como “não cool”. Eu não postei nada a respeito disso, mas dei like em muitas publicações sobre quem não sabia quem era o cantor. E eu não posso aqui apontar quem foi irônico e quem não, mas não existe apenas o post contaminado, existe também o like contaminado. E eu que vivo defendendo a democracia musical, me dei conta de que o meu like tinha malícia sim. E que bom que eu mudei de ideia, mas é melhor nem avisar, tenho medo de fãs violentos.

Sim, eu já julguei quem mudou de ideia.

Uma amiga fervorosamente militante de várias causas de esquerda e que já contribuiu diversas vezes para que eu mudasse de ideia sobre algo, inicialmente defendeu Marina Silva na eleição para presidente e depois, diante de algumas atitudes e posturas da candidata voltou atrás e fez um post em que a criticava, “justificando” a sua mudança de ponto de vista. Essa mesma amiga, também achava o Lobão legal, espontâneo, mas ele começou a dizer muita abobrinha publicamente e logicamente ela mudou de ideia. Inicialmente pensei: “Bom, ela é daquelas que mostram certa independência dos consensos unânimes, mas se ela é tão segura do que pensa, qual é a dela em querer mudar de ideia e ainda se justificar publicamente? Depois, refleti um pouco mais e pensei que eram justamente pessoas como ela que me agradavam em postura. Capazes de olhar pro outro lado sem contaminação, capazes de criticar também o próprio lado e principalmente: sabem voltar atrás. E que bom que eu mudei de ideia sobre quem muda de ideia.

Tenho uma amiga que possui um corpo que destoa do padrão, mas que vive reproduzindo discursos gordofóbicos, e ninguém conta a ela as piadinhas que fazem sobre o seu corpo sem que ela saiba. Eu escolho não contar, escolho não ser o porta voz de algo que vai entristecê-la. Você pode defender alguém sem contar a essa pessoa, acho isso um favor genuíno que você faz a quem gosta, prefiro mostrar como eu mudei de ideia sobre o assunto (já que eu sempre vivi brigando com a balança) ao invés de portar o veneno até ela. Mesmo sabendo que pelas costas ela me critica, que ela me acha chato, insistente, que ela sente preguiça do meu discurso (que ironicamente defende ela também), mesmo que ela nunca saiba que além de agressora é também a vítima.

 

Esse texto não é apologético ao preconceito, ele visa mostrar quando as minhas válvulas giraram, assim como aconteceu, acontece e vai acontecer com as suas. Citei aqui algumas situações sutis em que me dei conta de como funcionam os preconceitos que ultrapassam o meu filtro de mansinho e são inocentemente lançados no meu cotidiano. Claro que eu já reproduzi diversos discursos aos quais eu mesmo sou o oprimido, o preconceito é sempre feito de hospedeiros, e ninguém está livre de ser um, mesmo sendo a parte agredida. E ao longo da vida vou descobrir vários outros, e vou passar vergonha, e alguém vai me avisar, ou por sorte lerei sobre ele em algum texto, e eu vou fazer questão de olhar pra ele, mesmo que não na frente de quem me avisou. O eu já “fui” também é pura proteção minha, é um medo de voltar a ter, porque às vezes eles voltam e eu espero estar preparado para perceber, e enfrentar de novo e depois de novo se preciso for.

 

coração

 

 

Os Cavalos Islandeses e As Mentiras Que o Espelho Conta

OS CAVALOS ISLANDESES E AS MENTIRAS QUE O ESPELHO CONTA

Por Eduardo Benesi

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Não, sei se você já ouviu falar dos cavalos islandeses. São lindos e possuem franjas charmosas. [Esse post não é sobre zoofilia.]

Sempre que me perguntam o que é um hipster respondo que é um cara que tem uma estranha doença: sempre que entra em uma loja, olha item por item, e se deslumbra por tudo, mas sem querer, escolhe levar justamente algo que não está à venda. Desilusão amorosa com objetos. Existe.

Será que os cavalos islandeses sonham com outros tipos de cavalos?

Você que já entendeu que as pessoas mais interessantes do mundo geralmente estão sentadas naqueles botecos sujinhos, e se recusa a entrar porque falta água na cidade e ninguém lavou as mãos. Não, não é por isso. É apenas pela vitrine de salgados que exibe uma coxinha de anteontem e ao lado, um ovo intacto, com a casca.

Há uma lei na Islândia que proíbe a importação de cavalos de outros países. Lá existem cavalos islandeses e uma lagoa azul.

Você que almeja o emprego dos sonhos imaginando uma sala multicolorida com mesa de ping-pong federada e a foto do aniversariante do dia com um doodle temático. Você que deveria abraçar a hipótese do emprego dos sonhos ser um subchefe legal que te deixe sair mais cedo pra ir ao show do Sissor Sisters. Ou um job que te permita viajar por um mês esquecendo-se do mundo, comendo glúten sem culpa. Pode ser também aquele em que você encontra amigos tão diferentes de você e que ainda assim você quer dividir o mesmo sofá, todo mundo apertadinho, pra caber o amor até as bordas reminiscentes.

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Na Islândia é cultivada uma dinastia purista de equinos que vigora desde os tempos Vikings, isso quer dizer mais de 1k de anos.

Você que é tão capaz de quebrar poemas e de discursar sobre as variedades do amor. Você que não ultrapassa a tela e não interrompe a cena, você que respeita todos os filmes até o fim. Na verdade, você mente que foi até o fim de todos os filmes. O aborto cultural. Aborta filmes e livros no meio, ou mesmo na décima página. Você que fica triste até passar. Eu não. Eu dou skip depois dos 5 segundos no Youtube e desligo na cara do Telemarketing quando passo pelos 5 segundos mudos iniciais da ligação. Você que jamais desligaria na cara da Paola Oliveira ou do Aaron Johnson.

 

Na Islândia existem mais de 80k cavalos desse nipe. Para cada 4 habitantes da Islândia existe um cavalo islandês.

Você que já ouviu frases como “Você é a pessoa mais bonita que eu já vi na vida”. Você que finge tão bem na foto que consegue até não parecer o Marlon Brando e se ofende quando alguém diz que você está redondamente enganado, por conta do “redondamente”.  Você que só venera ídolos que pisem em você e que quando te notam, tomam um pé na bunda. Você que só apaixona por placas narcísicas com um X de proibido. Você que jamais será frio o bastante para seduzir pelo olhar, ao invés, sorri oferecendo vantagens e finais infelizes.  Você que quando mexe nos cabelos deixa flocos de neve caírem ao invés de admitir que são caspas e não aspas.

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Os cavalos islandeses lembram pôneis e caso sejam exportados, nunca mais podem voltar ao país natal. Os cavalos islandeses são viajantes apenas de ida.

Você que compraria uma sandália Melissa apenas para ficar cheirando sem pé nenhum. Você que é rigoroso com pés. Não suporta unhas pretas, carcomidas, ou roídas. Você que desconfia de que existe gente que rói os dedos dos pés. Você que acaba de ler o livro da Beber e descobriu que foram as gaivotas inventoras do bolero. Você que prefere deixar a lagartixas irem. Você que levou um fora da menina do ICQ porque literalmente escorregou na merda na hora do vamuvê. Você que faz caretas ridículas para se olhar no espelho do elevador.

Os cavalos islandeses possuem um caráter dócil, um temperamento amável e são extremamente macios para trotar.

Você que se entope do mundo soft, venera a luz negra mais que a luz do sol. Você que se derrete quando o coração de celofane dobra com o calor da palma das mãos. Você que nunca fraturou um só osso. Você que é capaz dos elogios mais criativos, mas que carrega uma teoria de que as pessoas possuem um lado inverso equivalente à face feel good. Você que, portanto, seria capaz de ofender alguém sem dar tempo para que o inimigo se recupere ou levante do chão, mas que prefere não pegar em armas. Você que não entendeu muito bem o filme Querelle.

Os cavalos islandeses por isolamento geográfico são proibidos de cruzar com cavalos de outras raças.

Você que odeia que os outros digam que aeroporto virou rodoviária, mas acha selfie um equivoco-zinho brega do ego. Você que rejeita o queijo branco por sua textura indecisa e que nunca conta pra ninguém que é um anti-herói oculto por óculos nerds. Você que disfarça a avareza com a desculpa das coleções e não sabe abrir vinhos. Você que adora o arroz com feijão do Giraffas.

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Você que fica a espera dos cavalos islandeses, montados por figuras utópicas. Empregos islandeses. Amores islandeses. Gente islandesa. Hábitos islandeses. Cavalos islandeses. Você que usa a desculpa da raridade. 

Você – espelho mEu.

mEu.

Eu.

eu.

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Solidários X impostores: o dia em que o Facebook virou arco-íris

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Por Eduardo Benesi

Hoje, 26 de Junho de 2015, foi um dia bastante relevante para a causa LGBTQIA . A legalização da união entre pessoas do mesmo sexo nos EUA contagiou a nação Facebook. Embora alguns militantes tenham torcido o nariz por ser uma louvação “importada” dos EUA, penso que existem momentos em que macroteorias supraintelectuais devem ficar em standby e deve-se olhar pro sub-impacto gerado por ela, mal ou bem, mesmo que de forma suspeita, muita gente fez questão de se solidarizar, e não foram poucas. Nessa brincadeira de deixar a foto de perfil no rainbow mode, o que de mais curioso observei foram pessoas que há 5, 10 anos atrás frequentavam a mesma roda que eu, e reproduziam discursos homofóbicos, eram maldosas, debochavam e oprimiam da forma mais cruel quem “dava pinta”. Rodas essas que faço questão de não frequentar e ter o menor tipo de contato, mas por falta de tempo para uma boa limpeza, alguns poucos ainda estão no meu Facebook. Olhava alguns prováveis impostores e me vinha um sentimento intolerante, como se aquelas pessoas não tivessem o direito de ter mudado, mas logo me veio o gênio Alain de Botton e sua brilhante frase na mente: “Qualquer um que não se sinta envergonhado por quem era no ano passado, provavelmente não está aprendendo o suficiente.”

No título desse texto, por uma questão de compreensão e polaridade de palavras, usei a expressão impostor, mas o termo adequado para prosseguir com o meu pensamento é “cúmplice”. Sempre os vejo por todos os lados. Tóxicos. Imprevisíveis. Vão, apenas vão. Daí o perigo. Entre alguém sem caráter e alguém mau caráter, eu sempre tive mais receio do primeiro caso. Nunca sabemos o que esperar de alguém sem caráter. O cúmplice sempre se agrupa em quantidades, endossa o coro, legitima uma ordem camarada vinda de cima. Aquela frase: “quando duas pessoas concordam em tudo, uma delas está pensando pelas duas”. Conheci os primeiros cúmplices no ambiente escolar. São os que riem do líder cômico, do dono do pedaço, são eles que justificam a gozação ao dar uma risada assentida, sem contar os lamentáveis episódios em que até o professor entra na onda. A hostilidade em forma de riso parece menos culpada. São como pragas de reprodução que consentem a opressão para se protegerem, para não serem os oprimidos. Tão consideráveis quanto o soro de um creme de leite, tão autônomos quanto o coelho Sansão da Mônica, tão afetuosos que riem de toda e qualquer piada maldosa no chat do Whatsapp.

“O riso traça uma hierarquia entre aquele que ri e aquilo que é risível, como forma de desumanizá-lo. Se dizemos que é preciso refletir sobre isso, se dizemos que dói, o mínimo que aqueles que não compartilham as nossas vivências precisam fazer é escutar. Volto a dizer: “um inimigo é alguém a quem se nega o direito de contar a sua história”. Daniela Lima

Peguemos o personagem Zelig do mockumentary dirigido por Woody Allen. Um homem de comportamento camaleônico, que apresenta um estranho distúrbio. Transforma-se em todos que estão por perto. Muda de cor de pele, de feição, de comportamento. Em uma sessão de hipnose, quando perguntado sobre o motivo de seu sintoma, responde algo do tipo: “faço isso porque me sinto mais seguro”. É um anseio por aprovação, ele se adéqua ao outro para se proteger. O fato é que existem vários Zeligs por aí. Abraçam a cópia por puro desejo de aceitação. O grande problema é que dos cúmplices ninguém nunca lembra, mas hoje eu resolvi lembrar. São clientes perigosos, compram todo e qualquer discurso em que o único critério seletivo é agradar a maioria. Olhe ao redor, há cúmplices à direita e à esquerda e eu lamento pelas vezes em que fui cúmplice sem ter percebido e lamento por quem nem sabe que é. Voltando ao filme, através de um tratamento para combater seus sintomas, Zelig colateralmente vai desenvolvendo uma auto-estima demasiadamente elevada. Passa a agir com intolerância socialmente. Rejeita a razão do outro. Talvez seja assim que funcione essa divisão de extremos. O cúmplice e o reativo. Obviamente, adotar flexibilidade é um bom caminho, mas é difícil encontrar  moradia nessa diferenciação entre flexibilidade e alienação. a minha hipótese é que pensar sobre isso, talvez seja a própria morada flexível.

Penso que numa data tão cheia de significados, seja válido refletir se você realmente apoia a causa ou é apenas um oportunista que topou brincar do meme do dia. Se por acaso, você não tem nada contra gays/ desde que o seu filho não seja/ ama o pecador mas não o pecado/ desde que eles não troquem carinho em público/ desde que eles não sejam afeminados ou masculinizadas/ desde que não seja travesti/, eu sinto muito, mas você ainda não entendeu porque está vestido de arco íris.

O Dia Em Que Eu Resolvi Falar Mal Dos Meus Ídolos

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Hoje eu resolvi fazer algo que eu nunca sonhei, mas no fundo sempre tive vontade. Falar mal dos meus ídolos. É… Sabe aquela dorzinha que mistura um pouco de cotovelo com um pouco de orgulho ferido? Aquele seu ressentimento por não ser correspondido? Não, eles não têm absolutamente nada com isso. Nenhum nunca me destratou, ao contrário, a maioria deles foi simpática, atenciosa. É que talvez os nossos ídolos sejam um depósito de expectativa nosso que só se mantém vivo pela não mutualidade. A gente se sente mentalmente no direito de cobrá-los, e pior, ás vezes da um pouco de inveja por não sermos eles. Sim, inveja avulsa, sem o branco junto. Penso que tudo é realmente grave quando a gente finge que não tem. Uma vez que a gente assume que tem, aprendemos a lidar, a minimizar, a desconstruir, mas não hoje. Hoje eu quero despejar tudo o que penso deles, sem citá-los nominalmente e eu espero que eles nunca leiam isso, porque é um baita mico, é um atestado de adoração, é o tipo de post que eu posso apagar a qualquer momento. Não (olha a contradição). Na verdade, a esperança é que algum dia eles leiam, e saibam que existe alguém no mundo que não é indiferente a eles, é que eu acho que a aclamação é também um tipo de indiferença. Você contribui para que a pessoa se esqueça de se sentir comum. O amor devocional enquanto sentimento monolítico é extremamente superficial. O pior de tudo é que o meu egocentrismo intui que ninguém tem mais direitos autorais de admiração sobre eles do que eu. É como se eu fosse o dono do clube, mais do que os outros.

Falar mal de alguém que você admira, num blog que duas ou três pessoas leem, é apenas um exercício autoanalítico, um luxo do anônimo, uma sessão a menos de terapia. Por que eu odeio de tanto que eu amo? Esse é o pretensioso intuito do meu exercício. Botar o amor e o ódio lado a lado sem que isso comprometa alguém que está cagando pro que eu acho. Na verdade, vocês logo irão perceber que eu quase falho em minha nobre intenção. Estou fadado a amá-los, só pode.

Meu terapeuta disse uma vez que todo ídolo está fadado ao adultério do fã. Mesmo os que nos aplaudem, em algum momento irão nos abandonar. É um movimento natural. Ídolos enjoam, ainda mais se te derem muita atenção. Talvez o antídoto para não sofrer por um ídolo seja conhecê-lo melhor, ou deixá-lo bem longe de você. Aliás, foi num livro de um dos ídolos citados nesse texto, que eu achei essa frase de Groucho Marx e que resume bem como funciona a boutique da admiração platônica: “no fim, ninguém quer fazer parte de um clube que o aceite como sócio. Ser aceito é uma coisa que deixa a falta de critérios da instituição muito latente”.

Nesse texto criei a seguinte regra: ficam de fora ídolos mortos ou num patamar muito famoso e longínquo estilo Lena Dunham, Joaquin Phoenix, Xavier Dolan, Meryl Streep, Alain de Botton, ou ídolos que já me “aceitaram” em seus clubes e viraram de fato meus amigos. Citarei 5 “divindades”, lembrando que meus maiores ídolos são de carne e osso. Eu os conheço. Dei um jeito para que eles sempre se lembrem de mim, nem que seja só pelo meu avatar do Facebook. Ufa, meus ídolos sabem que eu existo. Talvez essa seja uma maneira hábil de exercer meu lado contestador em relação à religiosidade. Saber que os deuses que venero podem falhar a qualquer momento, que frequentam o banheiro, e estão a um toque da crueldade dos meus dedos – sobre as teclas.

São eles:

1-      A bela menina do acordeon.

2-      A poetisa que sente febre de cor azul.

3-      O guru dos desajustados.

4-      A maldosa blogueira descolada anti-descolados.

5-      O roteirista que rouba palavras da minha boca sem ter roubado.

 

1-      A Bela do Acordeon hoje me chama de amigo. E isso às vezes me assusta. “Como ela está aqui, tão perto?” Eu a olho e fico pensando no momento em que ela vai dizer que estamos em um filme, e alguém vai interromper a cena dizendo “corta”. Já disse a ela que se eu fosse diretor, ela seria a protagonista de todos os meus filmes. Sabe alguém criativamente inteligente, interessante, surpreendente e que pra piorar tem uma fotogenia capaz de ultrapassar a foto e fazer com que o mundo real seja a imagem e não mais ela? Eu já vi os caras mais cobiçados da terra olharem uma foto dela e ficarem completamente hipnotizados. Eu acordo todos os dias pensando: “Será que tem algum post dela?” “Alguma mensagem no zapzap ou alguma chance dela me chamar pra fazer algo?” Já cheguei ao ponto de não ir a um encontro com ela pelo simples fato de dar muita bandeira com a minha empolgação pelo convite, e bancar o ridículo. O que me incomoda nela é o fato dela saber que é uma deusa, mas nunca dizer isso em alto e bom tom. Quem ousaria se autoproclamar Deus(a) no mundo da falsa modéstia? Amo e odeio a coisa dela não ser óbvia, nem ludibriada, nem vaidosa, mas ao mesmo tempo ser tudo isso. Porque ela simplesmente sabe o que ela é. Ela sabe que as escadas por onde ela passa sempre inventarão mais um degrau. Odeio, porque ela sabe. Todo diretor está fadado a se apaixonar por ela, dane-se a personagem. Em sua nuca está desenhado o infinito, e é bem a verdade. Às vezes, fico em dúvida se ela no fundo é a mulher que eu casaria ou a mulher que eu gostaria de ser. Se ela é Deusa ou se é Diva. E às vezes tento ficar longe, mesmo querendo estar muito perto. Porque ela sabe de tudo, eu entrego mesmo sem dizer e talvez a assuste essa admiração toda. Ela é um frio na barriga que eu torço para que nunca passe. Torço por ela a cada vez que a vejo na revista, no comercial de TV, na novela, no teatro, em qualquer lugar. Sabe aquele sorriso solitário que você faz quando torce de verdade por alguém? Por ela foi assim, amor a sétima vista, depois de estudarmos juntos. Foi aos poucos, e de repente, começou a crescer e crescer e crescer e não para.

 

2-      Foi num livro que a enxerguei pela primeira vez. Foi como abrir os olhos dentro de uma água azul, só que sem cloro. Sua escrita fazia curvas inesperadas, cruzamentos de palavras. Suas letras implantavam um fluxo de pensamento que eu jamais tinha tido contato. Ela me apresentou a prosa-poética. Daí fui longe, fui colher cores em cada palavra jogada ao vento. Um dia descobri seu Facebook e então passei a me declarar. Ela foi gentil. Me passou até a senha do seu documentário secreto no Vimeo. O documentário falava sobre sua poetisa predileta. Foi então que eu aprendi que todo ídolo tinha um ídolo e que essa escada era útil para quem caçava nuvens em formatos de animal ou referências abundantes. Foi ela que me apresentou Ana Cristina Cesar. Por um bom tempo interagia em minhas postagens, até um dia parar. Das coisas mais bonitas que me escreveu foi: “Eduardo, quando morei na Inglaterra, fazia exatamente isto: ia à estação de trem/ônibus/metrô e comprava uma passagem na máquina, preferencialmente a mais barata. As cidades aparentemente sem relevância – não constam nas paradas óbvias como a a histórica Cambridge, a libertina Brighton ou a industrial e generosa Manchester – se revelam, se desenham, se escrutinam. Todas as cidades, aliás, são repletas desse material cheio aos olhos e aos ouvidos, resta a nós encontrarmos a capacidade de lê-las fora dos grandes centros. Em Portsmouth, uma cidade à beira do mar, no entanto nem um pouco litorânea, a uma hora e meia de Londres, descobri mais uns tantos pássaros da Inglaterra quanto cabiam as mãos. Aliás, talvez tenha sido em Portsmouth – e não em Londres, veja só – que eu descobri que tenho mais de duas mãos”. Às vezes puxo assunto com ela por inbox, apenas para que ela solte alguma frase com cheiro de sandália Melissa e eu consiga guardá-la sem que o cheiro passe. E claro, não sei se conseguirei falar mal dela. Acho que não. Acho que ela só me irrita por ter me deixado órfão dessa poesia inesperada.

 

3-      Ele é uma força da natureza. Possui seguidores e anti-seguidores. Faz as pessoas abrirem a tampa do egoísmo, e quem aceita a dor, consegue dar a descarga. Ele defende as minorias, tenta uma vida minimalista, e possui um mecenato que contribui com as despropriedades libertadoras de seus textos. Ele é estúpido, mesmo escrevendo com tanta gentileza. Usa uma linguagem tão simples e clara que tudo o que ele quer dizer ganha uma calculada sofisticação. Não há vestido de gala nem poesia em suas frases, mas ao mesmo tempo, há um mundo todo sendo libertado em seu modo de refletir, é um estado de soltura, e algumas mil outras epifanias colaterais. Com ele aprendi que chamar alguém de pseudointelectual é o tipo de acusação que queima não a vítima, mas o emissor. Ele também escreve textos em que se autodeprecia, colocando-se como tudo de pior que um ser humano pode acometer dentro de suas vaidades. É uma ironia da ironia. Por mais que aquilo pareça uma anti-propaganda que catapulta o leitor a acatá-la como ironia, ele é mesmo aquilo tudo. Todos aqueles absurdos que ele diz que é, ele no fundo pensa que não é, mas é, e sabe disso (sim, é confuso esse caminho de 3 curvas). Ele é vaidoso, sabe do seu poder de influência, e articula com maestria uma junção dos desajustados. Possui um clube de ovelhas negras. Eu diria que são as pessoas mais interessantes do universo. Eu e ele já nos conhecemos pessoalmente. Estive com ele em um sítio mágico entre Rio e São Paulo e em lindas casas coloridas de São Paulo. Tenho a sensação de que ele me despreza um pouco. Talvez seja apenas a minha vontade de que ele um dia citasse algo meu, ou fosse menos indiferente a minha admiração. Mas, acho que sei o que é. Somos parecidos na vaidade, e isso já é um bom motivo. Um peixe beta nunca pode dividir o mesmo aquário com outro. A grande lembrança que eu guardo dele, é um jogo de Ping-Pong em que ele ganhou todos os sets de mim. Apenas eu e ele, e o barulho das bolinhas pingando. A cada pingo, eu dizia coisas que ele não ouvia, mas eu estava feliz por estar ali interagindo com o meu ídolo, em meio a onomatopeias de um inocente joguinho de meia hora. Desconfio até que eu tenha entregado o jogo meio que de propósito, por pura louvação ao adversário. Mas disso, nunca saberei. Só sei que ele é um dos heróis da minha vida, e eu o odeio um pouco por isso.

 

 

4-      Eu sou meio obcecado pelo que essa menina escreve. Tem sempre uma ponta cortante em seus textos. Ela nunca está à direita, mas jamais deixa que alguém palpite em qual esquerda ela deve estar, parece ter um pouco de preguiça dos modismos mercadológicos da turma do desapego gourmet. Sua escrita tem algo de maldoso, niilista, mal-humorado. É como se ela fizesse bem a quem lê, sem ser minimamente gentil. Ela nunca faz cafuné em seus textos, mas jamais levanta a voz para provocar. Parece alguém que não sente nada e então, pode falar de tudo. É uma sabedoria parcial que derruba até os seus fiéis. Uma vez ela respondeu a um leitor estúpido dizendo que escritor não era SAC, foi aí que eu entendi que existem leitores que se sentem clientes, querem ler de você coisas que os confortem, e quando isso não acontece, muitos te atacam como se estivessem amparados pelo PROCON, como se o “produto” que você forneceu estivesse vencido. Quando ela está de “bom-humor” faz questão de devolver ofensas ao hater desavisado que avança os dentes em sua timeline. Ela é a pessoa mais descolada que existe, mas tem horror aos descolados. Tem um cãozinho tão lindo e tão solitário no olhar, que às vezes me parece que tudo o que realmente lhe importa no mundo, é ele, além de Woody Allen. Ela nunca facilita os consensos de esquerda. Vai achar uma brecha pra ferir o aplaudido. Esse é o seu jeitinho de brincar, ela espera que todos concordem e vai lá, no meio da festa e derruba o castelo com um sorriso gelado. Ela devia ser aquela criança que estoura a bolinha de sabão antes que a própria bolinha estoure por si. Ela escreve sobre qualquer coisa muito bem. Política, cinema, amenidades. Me ensina que ser generalista permite que as pessoas não te procurem por assuntos específicos, mas que elas enxerguem o próprio escritor. Ela é quem eu procuro na escrita quando quero que alguém me de um soco no estômago sem usar as mãos. Às vezes , eu me lamento por ela não ser apenas minha. Por ela ter como fãs, outros ídolos meus, como o cantor Thiago Pethit. Eu a odeio, mas daria o meu Box do Almodóvar para que ela fosse minha amiga. Quem sabe um dia. Quem sabe nunca!

 

 

5-      Ele talvez tenha escrito a carta mais triste e linda dita em uma peça de teatro. Ganhou-me assim. Dizendo tudo o que eu diria, mas que eu nunca tive a ideia de dizer. Ele inventa quem eu sou, e mesmo quando não sou, eu me torno o que ele pensa. Minha mais profunda satisfação é saber que sempre que ele assistir Joaquin Phoenix possivelmente se lembrará de mim. Ele, assim como eu, sabe do que Joaquin é capaz. Tudo começou no dia em que mandei minha crítica do filme “Her” em seu inbox. Depois disso, diversas sincronicidades aconteceram entre nós, sempre envolvendo algo relacionado a Joaquin. Dos maiores micos que eu já paguei na vida, foi abordá-lo no meio de uma balada para dizer o quanto era seu fã. Eu estava bêbado e ele me chamou pra entrar na roda dele e eu me recusei por excesso de timidez instantânea – mais uma vez por medo de parecer ridículo. Nunca vou me esquecer de outra balada em que ele estava de DJ convidado, usando óculos escuros de armação amarela na cabine de som. Talvez tenha sido a melhor playlist da minha vida. Ele botou Roberto Carlos, Sixpense none the richer e Cardigans. Eu sempre achei Roberto Carlos tão brega quanto Romero Britto, mas ele me fez mudar de ideia – pura massa de manobra. Como um alienado obediente, passei a chamar Roberto de Rei. Seu jeito de escrever tem uma espontaneidade técnica e ao mesmo tempo infantil. Ele é a única pessoa capaz de decidir se eu vou ou não gostar de um filme antes de assisti-lo. É quase uma profecia. Todos os filmes que ele amou eu também amei. Todos os que ele odiou eu odiei depois. Não, não deve ser coincidência. Além de ser o roteirista indie do momento, ele está dirigindo ninguém menos do que Maria Luiza Mendonça fazendo uma releitura de “Um bonde chamado desejo”, aquela atriz deliciosamente maluca, que eu nunca mais vi na televisão, mas que considero uma das 3 melhores do Brasil. Só não sei se eu sempre amei Maria Luiza, ou passei a amá-la depois que ele passou a dirigi-la. O que mais me irrita nele é a sensação dele ter me roubado sensações futuras. Que eu ainda não conheço. Sabe quando alguém teve uma grande ideia e você tem quase certeza que você deveria ter tido essa grande ideia?