A espuma dos dias

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Falávamos eu e uma amiga dia desses sobre um tal “amor com sabor de fruta mordida” cantado por Cazuza. Fiquei com isso na cabeça porque era algo que eu não conseguia pincelar no imaginário, mas que pra mim tinha um sentido dolorosamente poético. enquanto assistia ao belíssimo ~Espuma dos dias~ eu finalmente trazia pra mais perto de mim um significado mais visual dessa ideia. Vi na tela algo como uma maçã do amor que ia perdendo o corante do seu vermelho-abre-alas, vítima das mordidas impiedosas do tempo. O filme é simplesmente um “felizes para sempre” as avessas, se decompõe, colore e depois definha.Isso é mostrado em cores levianas que seguem o curso das emoções e vão perdendo a graça, o nome, o aroma, uma revolução silenciosa.

o diretor Gondry -que tem publicidade no jeito de fazer- engatou uma engenhoca surrealista com jeito de ToyArt e junto trouxe uma caixa de especialidades com os atores mais carismáticos do cinema francês de agora, mirabolantes efeitos especiais propositalmente amadores e uma vitrola com o melhor do jazz bebop dos núcleos artísticos saudosos que habitavam os cafés de Paris. Era lugar comum, para os adeptos ao “Amelismo” -como eu- esperarmos um “Amelie Poulain a paisana” e foi diferente disso: era o sol derretendo, a lua indo ao chão, era poesia dando em árvores, eram minhas expectativas em pleno desmanche-paçoca.

Senti um beliscão antagonizando o amor e o capital, um amor sem botox, bonito, [in]feliz, onírico, subversivo, existencialista e atraente. Amor de FAVORITAR.