Pessoa colecionável #14 Léo Fabri

 

 

 

 

 

 

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Conheci o Léo sendo atendido por ele na Livraria Cultura. Chamava-me atenção o seu figurino divertido, sua camisa com mangas estampadas com bicicletinhas e as suas incríveis referências na hora de indicar livros. Para a minha tristeza quando disse que queria uma camisa igual à dele, ele me contou que quem as fazia era sua mãe Rute, e apenas para ele e mais ninguém. Sua mãe, além de ser sua estilista pessoal é também sua companheira para assistir novelas mexicanas. Eles adoram tweetar em modo presencial, tecendo comentários humorados e debochando do cafonismo machista de cada cena.

Conto que a minha livraria predileta é a do Conjunto Nacional por causa das pessoas interessantes e daquele esqueleto de dinossauro. Ele faz uma importante revelação: “aquilo é um dragão e não um dinossauro e o nome dele é “Dragoberto””. Léo também diz que é bastante querido pelos clientes da livraria, principalmente pelas velhinhas que querem apertar sua bochecha. Desconfia que isso aconteça porque ele serve como um sinônimo da meritocracia para a classe média. É como se ele comprovasse a tese dos leitores da Veja & afins, como sendo o “negro vencedor”. Mas há também gentileza genuína. Uma cliente certa vez procurava por um Moleskine temático do Pequeno Príncipe, mas estava perdido na loja. Léo pegou o telefone da cliente para se acaso achasse. Achou não apenas um, mas dois, e reservou ambos. Quando a cliente voltou para buscar a encomenda, deu o segundo caderninho para Léo de presente. “Não foi um presente de agradecimento, foi uma pessoa agradecendo pelo carinho da outra.”

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Léo me parece metódico, possui gestos caricatos e simétricos, é quase um personagem de Wes Anderson. Por falar em cinema, ele sente saudade da revista SET, já mentiu que viu Amelie e não gosta do Nemo. Até hoje tem ressentimentos de um ex-namorado que terminou tudo por SMS. Peço uma frase sem ser da Clarice e ele cita uma do livro de Shaun Tan,“A árvore vermelha”, um dos seus prediletos: “o mundo é uma máquina surda, sem razão e sem sentido”. O grande preconceito de Léo é com quem usa Crocks. Ele se congratula Crokcofóbico assumido. Conta inclusive que uma vez deu cabo do par de crocks do irmão enquanto eles passeavam em uma praia. O irmão nunca soube como aqueles crocks sumiram, mas saberá agora na entrevista. Mas e papete? “Papete só se for do Seninha”.

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Léo não se considera um militante, gosta de olhar pros fatos e narrar a sua percepção. Ele também foi simpático à Maju, mas sabe que nem todos são Maju, muito menos do que todos os #somostodos. Muitos são #somostodosrede globo e o que mais for legal quando o Jornal Nacional disser. A construção do imaginário sempre se baseia na hegemonia padrão. Somos todos seres tentando não parecer preconceituosos, mas tentar não parecer não é não ser. Conta um episodio de uma conhecida que tinha uma filha de cinco anos que xingou a empregada de “macaca”. A mãe ao contar o episodio, disse que deu uma grande bronca na filha para que ela nunca mais fosse racista, mas em nenhum momento mencionou sua preocupação com a empregada. A partir desse pequeno recorte Léo afirma que existe um grande problema no combate ao racismo. Muitas pessoas não são sensíveis de verdade à dor de um negro, elas estão apenas preocupadas em não parecerem preconceituosas socialmente. Essa construção não é nossa, é coletiva, e a gente, sem perceber, se apropria dela.

“A construção do imaginário pode ser compreendida de maneira simples. Vá ao Google Images e jogue palavras como “bandido”, “gay”, “lésbica”, “pobre”, “rico” e você vai achar um padrão que aponta para imagens estereotipadas”. É bom lembrar que essa coletânea de imagens não foi construída por uma só pessoa. Desse conjunto de noções forma-se uma ideia generalizada, que distorce e elege figuras representativas. No ciclo de seminários “Cidades Rebeldes” que aconteceu no Sesc em São Paulo a estudiosa Maria Rita Kehl falou sobre isso e eu pesco um trecho aleatório achado na internet em que ela fala sobre o registro imaginário expresso pelos reality shows:

“O que eu chamo de violência imaginária é aquela que é consequência das configurações subjetivas narcísicas da identificação na imagem, da paranoia que essa identificação na imagem pode trazer. Porque, se eu estou identificado na imagem, se eu existo na imagem, há uma concorrência permanente pela visibilidade, e o corpo se torna muito importante.

A violência do imaginário seria essa violência produzida por uma sociedade que é organizada prioritariamente pela imagem, como é, sem dúvida, a nossa. O que se percebe na ausência de polissemia da imagem, ao menos naquela usada publicitariamente: ela não tem nenhuma abertura de sentido, ela tem um sentido muito imperativo.”

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Léo tem uma fome milenar por teatro infantil, um laço forte com literatura infantil e um pouco mais de um metro e oitenta. Peças trágicas para crianças, que tal? Seu primeiro xodó cardíaco foi “O gato malhado e andorinha sinhá” dirigida por Vladimir Capella, peça que encosta em tensões raciais em moldes alegóricos. “Outra bonita lembrança é da montagem de Branca de neve por Charles Moeller” , diz Léo enquanto vai buscar açúcar na saliva. Na literatura, sua grande perdição é a obra de J.K Rowling, autora de Harry Potter. Não só pela sua capacidade de criar todo um universo coerente em suas histórias, mas pela sua história de superação, já que passou 10 anos escrevendo. Os livros do bruxinho foram seus primeiros lidos em inglês

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Não existem níveis de cultura, existem diferentes experiências culturais. “o conhecimento deve ser uma ponte que nos liga e não um abismo que nos separa”. Léo, por exemplo, já ensinou o diretor teatral Antunes Filho a jogar Nintendo Wii. Era uma exposição na Game Play no segundo andar do Itaú Cultural, no primeiro havia uma instalação de José Celso. Léo não só ensinou Antunes a brincar dentro do jogo “Fatal Frame” como o levou a gritar descontroladamente como se fosse uma criança empolgada de 10 anos.

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Falamos de música e Léo me conta sobre um cantor gospel que é seu xará: Leonardo Gonçalves. Suas canções versam com blues, soul, bossa nova e o seu cd parece seguir uma narrativa teatral, ele praticamente narra uma história na sequencia das músicas. Sublime.

 

Conversamos sobre o tal “racismo por distração”, sobre as camadas por dentro dos equívocos cotidianos que costumamos reproduzir por palavras aparentemente inofensivas como “denegrir”. “O Brasil é racista, o mundo é racista e isso não é mais questão de preconceito, mas de conceito”. Atenta para as diversas políticas públicas regidas ao longo da nossa história em prol de imigrantes europeus em contraste com a cegueira contida na legislação de apoio aos escravos recém-libertos da África. “Fundo do poço é pouco, já chegamos ao pré-sal” diz Léo. Sobre o machismo, Léo acha que na nossa cultura as palavras de munição ofensiva possuem sempre uma relação com ao feminino e não ao caráter: “biba”, “mulherzinha”, “filho da p%$#”. Acha que “respeito é orgânico, é uma obrigação e não uma questão de adesão”.

Léo odeia Londres porque acha uma cidade muito parecida com São Paulo e ele não quer outra São Paulo, quer apenas São Paulo. Morou na cidade do Big Ben e trabalhou no consulado britânico e presenciou diversos episódios de preconceito linguístico, principalmente com quem vinha do Leste Europeu. Morava num bairro bem simples com uma coreana.

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Entrevistar Léo foi mais uma oportunidade para iluminar tudo aquilo que não reconheço em minhas ignorâncias de mundo, e que presente quando ele me falou desse miniconto da “Pequena vendedora de fósforos”. É ele que encerra essa conversa que pra mim foi como desvendar cada detalhe cósmico de uma sala tão cheia de surpresas e acréscimos pra minha ignição humana e que quando terminou foi como se essa linda árvore citada abaixo desvanecesse.

 “Decidiu-se: pegou outro fósforo, esfregou-o na parede e logo ela se fez transparente como se fosse de vidro. Através dela, entreviu uma sala com uma mesa posta. Sobre a toalha imaculada, brilhavam as porcelanas e os cristais. E, no centro, um pato assado, recheado de ameixas e maçãs fumegava ainda, exalando delicioso perfume. Que alegria! De repente, o pato pulou da travessa e veio rolando até ela, com o garfo e a faca enfiados nas costas. Mas… o fósforo se apagou e a parede ficou sendo de novo uma parede fria e escura.

Acendeu um terceiro fósforo e ei-la sentada debaixo de uma árvore de Natal, a mais bela, a mais rica e resplandecente que jamais vira. Nos galhos verdes, as velinhas ardiam aos milhares; fios de ouro e prata entrelaçavam-se; bolas e estrelinhas, assim iluminadas, brilhavam intensamente. Ergueu as mãos, mas… consumido o fósforo, desvaneceu-se a árvore”.

Quando somos iguais perante a lua.

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Poucas coisas são tão subjetivas quanto o conceito de amizade. E hoje, no “dia do amigo”, fiquei pensando num papo de Whatsapp de dias atrás com uma amiga (?). Falei que gostava do fato de ter alguém de todos os tipos para conversar, de “colecionar pessoas” e panz. Ela retrucou que não entendia essa coisa minha de ter mil amigos, que isso parecia muito impessoal, que ela tinha tipo dois amigos.

Eu respondi: “eu num tenho mil amigos. E colecionar pessoas não é o mesmo que amigos. Amigo nem sempre tem o melhor conselho. Se abrir com quem você não conhece às vezes pode acarretar muito mais intimidade do que com um amigo que você conhece há anos. É diferente esbanjar queridismo de saber que o mundo é cheio de gente que pode te ajudar sem mal te conhecer. A conexão a meu ver num precisa de rótulos. Ter amigos é uma propriedade inventada acho eu, é um cercadinho em que você deposita expectativas e negociações de espaço. Enfim, a gente inventa os requisitos pra chamar alguém de amigo…”

Disse que meu ponto de vista era um pouco desprogramado do padrão e que eu também tinha uns cinco amigos e mais um tanto de pessoas que eu poderia contar em uma situação e não em outra. Quanta gente eu já chamei de amigo e hoje num sei nem se ta casada, solteira, doente, VIVA. Mas naquele momento era o que eu sentia, era a palavra que definia aquilo, talvez num seja mais, ou como diria uma antiga amiga “tudo o que era nunca foi”. Nós vivemos em uma esteira temporal: entra gente, sai gente. E o lance é que a coleira do tempo acaba atrapalhando essa definição, já que as mudanças de espaço acontecem e geralmente e elas definem afastamentos e aproximações. E não existe isso de recusar um novo amigo porque jurou fidelidade ao outro.

Voltando a teoria do cercadinho, eu cada vez mais tenho indícios de que a subjetividade é uma (des)garantia para que a gente “rotule” alguém como amigo ou não, já que no momento em que essa pessoa avançar e descumprir as regras do seu cercadinho de expectativas estabelecidas, ela pode botar o seu posto a perder.

Ultimamente um dos meus grandes critérios para chamar alguém de amigo é ter o beneficio do não. O beneficio de furar (avisando) num dia em que eu não estou legal.  De não poder ser padrinho de casamento porque já tinha uma viagem marcada que também é muito importante pra mim. O beneficio de não ir numa colação de grau por achar boring ver um monte de playmobil recebendo um tubo de papel durante horas, para finalmente ver o playmobil que me interessa subir uma escada e também pegar esse tal tubo – e tudo durar coisa de um minuto. Acho uma verdadeira prova de amizade quem comparece a esse tipo de cerimônia, mas não acho que não ir seja o avesso disso.

Ao mesmo tempo, acho que pessoas que sempre dizem ”não”,” não posso”, “não sei” também não estão lá muito interessadas na minha companhia – e tempo não é desculpa. E eu tento, uma, duas , três vezes e depois paro de insistir. Acontece também de você adorar alguém, e essa pessoa um dia, depois de muito tempo, simplesmente te virar a cara sem mais nem menos numa festa. Se eu tenho a certeza de que não fiz absolutamente nada pra pessoa (e olha que eu sou bem paranóico com suposições), o adeus infelizmente já está implícito nesse tipo de atitude, pelo menos da minha parte. Eu deixo ir, mesmo que isso pareça orgulho. Acho que o carinho tem uma fluidez, você não tem que insistir nem implorar, ele apenas existe.

 

Diante desse conceito de (des)propriedade, eu talvez não tenha amigos e sim esteja amigo. Essas 2187 pessoas que numeram o meu placar de amigos no Facebook são apenas uma tarja imaginária sem nenhum valor concreto. É apenas um disfarce pra mostrar que eu não sou tão sozinho assim. Eu devo conhecer umas 500 pessoas dessas, o “resto” são leitores ou pessoas que leio e adicionei para ter informações privilegiadas. Dessas 500 pessoas que eu conheço, 200 delas eu devo ter visto no máximo 3 vezes: na primeira eu conheci e nas outras duas eu mudei de rota na rua para que elas não me vissem. Das 300 que sobram, 200 são colegas de Workshop, ou épocas bem legais, gente que sentou por anos na carteira de trás e até já me passou cola nas provas bimestrais. Ver como elas estão diariamente é uma forma de saber que elas ainda existem e lembrar da minha história e sem elas não há história.

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Daí sobra uns 100 malucos. Entre colegas, pessoas queridas, gente que iria ao meu enterro, gente que já tomei porre e já chamei pra reunião da Monavie. 50 delas provavelmente são pessoas que topam fazer algo em cima da hora, que não ligam pro fato deu não tomar cerveja, que apesar de diferentes de mim, topam dividir calorias e conversas comigo e sabem muito sobre quem eu sou ou acho que sou. Elas provavelmente sabem dividir uma conversa sem roubar assunto, porque ao contrario eu já devo ter dito pra elas que não gosto de monólogo, gosto de dizer e de ouvir. Desses 50, uns 30 já devem ter vindo aqui em casa e conhecido o meu quarto de marciano, e sabem de cor o nome dos meus pais.

Desses 30 existe um bioma cheio de corações telúricos e abraços de diferentes temperaturas. Quando estamos juntos somos todos iguais perante a lua. Tem primas que foram além do sangue e amigas de prédio que eu não abro mão. Tem evangélicos ponderados e musas do poli dancing. Tem potentes atrizes e ativistas do projeto Tamar. Tem fotógrafos variados e cinéfilas de All Star. Tem pedagogas feministas e historiadoras luso-brasileiras. Tem médicos carismáticos e terapeutas mackenzistas . Tem cozinheiras de acampamento e defensoras de gatos. Tem futuras mamães e poderosas xamãs. Tem amantes de cherry coke e gente de Itanhaém e de São José dos Campos.Tem fadas madrinhas e viajantes que verei no futuro. Tem comunistas fanáticas e leitores da Veja. Tem designers ariscas e mestres anciões.  Tem pera, uva, tem novela e tem cinema. E que bom…  tem gente pra eu discordar, apesar…

E tem gente que eu ainda nem conheço. É que a estrada tem esse cheiro de novo e é cheia de oferendas imprevistas para cada doravante. E é por isso eu olho pra frente, e que bom que ao lado tem sempre gente.

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Desculpe, mudei de ideia e esqueci de avisar

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Em um dos meus últimos textos, escrevi sobre a volubilidade e a suposta conversão vupt de quem praticava homofobia há alguns anos e de repente estava de arcoíro pagando de legal no Facebook no assunto já “obsoleto” sobre a legalização do casamento gay nos EUA. Na caixa de comentários, uma amiga me alertou sobre algo que confesso não ter refletido sobre antes: “…tem mesmo coisas que pensamos e temos vergonha de admitir,mas avisar que mudamos de opinião também é difícil”. Fiquei com isso na cabeça, visto que as Redes sociais são apenas sínteses cotidianas e que ninguém é obrigado a mandar notificações vermelhinhas pra avisar que mudou de ideia.

Nossas certezas passam diariamente por uma esteira cotidiana que nos fuzila com todo tipo de informação. Mas, como sabemos, os algoritmos de Zuckenberg “facilitam” essas direções já que as pessoas as quais lemos com frequência, aparecem mais em nosso mural, sendo assim, somos estimulados a concordar mais com quem já concordamos.

Fiquei pensando em diversas situações em que eu mudei de ideia, situações em que fui preconceituoso e que alguém interveio e me apontou um novo remo com cuidado (ou não) e me fez cantar Luka: Aceitei os meus erros, me reinventei e virei à página”.  Situações em que eu tive o direito de mudar de opinião sem avisar. Acho que expor esses pontos de virada nesse texto, facilita a compreensão de quem fica acanhado em parecer contraditório por ter se colocado nessa linha transitória. Talvez seja um pouco delicado fazer isso, mas dentro do nosso blog, na nossa casa, da pra abrir o coração e olhar no olho mágico pra ver se quem está do outro lado querendo apenas te metralhar ou está pensando de verdade sobre o seu ponto. Então vou me colocar no meio do tiroteio falando sobre algumas situações em que eu fui opressor e depois mudei de ideia, um making of dos meus preconceitos desconstruídos. Porque tão importante quanto denunciar o preconceito do outro talvez seja mostrar a ele como você se limpou de (alguns) dos seus.

Sim, eu já fui misógino.

Todo mundo deve ter um post em que já se arrependeu no Facebook, eu tenho vários. Uma vez, postei que tinha adorado um capítulo da novela “Salve Jorge” em que a personagem Vanda (Totia Meirelles)  – líder do núcleo que traficava mulheres para a Turquia – apanhava da protagonista oprimida. Tudo bem que quando um vilão toma uma surra, acaba lavando a alma do espectador, lembrando também que nesse caso, ela havia apanhado de uma mulher. Mas ainda assim, a imagem em si, remetia a uma mulher apanhando, seja lá de quem for. Desconfio até hoje que exaltar uma mulher apanhando, mesmo que de mentirinha, guarde lá no fundo, um resíduo de misoginia, da qual eu tanto tenho nojo e critico. E que bom que eu mudei de ideia, mas não avisei ninguém sobre essa minha percepção.

Sim, eu já fui capacitista.

Assistindo à segunda edição do Masterchef me peguei torcendo pela candidata que tinha apenas uma mão. Fui descobrir o que era capacitismo depois disso. Mentalmente, me veio inclusive uma piadinha bem maldosa sobre a sua condição, mas não vou reproduzi-la aqui por pura vergonha de ter pensado nela. Sim, ser politicamente correto é escolher não ser engraçado e reforçar uma agressão bem humorada, não é não pensar nesse tipo de piada, mas escolher não reproduzi-la, o pensamento é uma correnteza que às vezes ultrapassa os nossos impedimentos, mas tentar impedir, nunca é algo descartável. Tratar pessoas deficientes como não iguais, menos humanas. E não estou nem falando sobre tratar mal, mas usar aquela pessoa como um objeto de inspiração conveniente, como se você fosse simpático à causa dela por uma compaixão disfarçada de admiração. Sem perceber você pode estar tratando-a como subordinada, hierarquizando a relação subjetivamente. Olhar essas pessoas como desamparadas e decidir que elas são dependentes, assexuadas, carentes, economicamente improdutivas, fisicamente limitadas. Resumindo: é dar a mão para ajudar um cego sem que ele tenha pedido. E que bom que mudei de ideia, mas não avisei a candidata eliminada sobre isso.

Sim, eu já quis devolver uma ofensa preconceituosa com outro tipo de preconceito.

Dia desses vi uma reportagem sobre uma troca de farpas desnecessária em algum desses portais de fofoca. A jornalista Fabiola Reipert publicou uma nota maldosa dizendo que a atriz Sophia Abraão estava apostando na carreira de cantora porque não tinha engrenado como atriz. Furiosa, a atriz chamou Fabíola de gorda em seu Twitter. Fiquei bastante enfurecido pela declaração gordofóbica da atriz e armei um tweet provocativo dizendo: “Sophia gordofóbica Abraão, baixa a bola porque quem nasceu pra Malhação jamais chegara aos pés do cigano Igor.” Nessa humorada frase eu estava dizendo que uma mulher bonita no padrão do senso comum estava fadada a participar de uma novelinha adolescente por conta da sua superficialidade. Não sei se fiz bem em não mandar esse tweet, mas na dúvida preferi não ser uma dessas pessoas que ataca a incompetência política de Dilma colando adesivos de deboche machista no carro ou responde ao racismo da torcedora do Grêmio chamando-a de puta. Não sei se foi bom mudar de ideia, mas ninguém soube desse meu tweet.

Sim, eu já fui lesbofóbico.

Uma amiga me contou que depois de muito tempo, tinha se descoberto/aceitado lésbica. Esse fato causou nela uma transformação visual, ela deixou de gostar de batom e roupas de estereótipo feminino porque percebia que adotar novos códigos visuais a ajudava a ser notada em ambientes com mulheres que se interessavam por mulheres. E eu super dei força, apoiei, mas soltei um comentário desnecessário: “Nossa que bacana tudo isso, mas você não vai ficar tipo Tamy né?” E como eu me arrependo de ter dito isso, como se ela não tivesse o direito de adotar o visual que bem entendesse, como se eu tivesse algum direito em opinar sobre a sua identidade – no como ela se sente. E que bom que eu mudei de ideia, e eu torço para que ela leia isso como um pedido de desculpas.

Sim, eu já fui machista.

Na viagem que fiz ao Havaí, conheci uma linda loira brasileira chamada Lívia que me contou que trabalhava como advogada. Eu, quase que de supetão, achando que aquilo era um elogio disse: “Nossa, uma mulher tão linda trabalhando de advogada, por que você não tenta ser modelo.”? Nesse caso, logo em seguida, me dei conta do que havia dito sem pensar, e logo pedi desculpas a ela. Foi uma declaração infeliz e leviana, eu fetichizei a figura de uma mulher negando nela suas outras capacidades além da sua aparência.  Mas foi maravilhoso me dar conta disso logo em seguida. Mostrou que eu estava desenvolvendo a capacidade de me policiar, de voltar atrás, de enxergar como algumas estruturas funcionavam na minha mente sem que eu percebesse. E que bom que eu mudei de ideia, mas nesse caso, deu tempo de avisar a Lívia sobre isso.

Sim, eu já fui elitista.

Eu trabalhava como garçom no Outback e atendi um casal em que o namorado pediu a namorada em casamento oferecendo um chocolate Cacau Show. Achei aquilo cafona e na cozinha soltei o seguinte comentário: “Afe, um cliente pediu a namorada em casamento com um bombom Cacau show, pelo amor, dá algo da Kopenhagen ou num dá nada.” Na hora uma amiga chamada Pérola <3, me censurou e disse que não via problema nisso, que nem todo mundo tinha dinheiro pra comprar um chocolate da kopenhagen. Fiquei bravo com ela na hora, e disse que eu estava me referindo à qualidade do chocolate, mas cá pra nós, não, eu não estava. E que bom que eu mudei de ideia, mas não avisei à Pérola.

Sim eu já fui elitista, de novo.

Mais uma vez a grata experiência que tive como garçom me ajudou a enxergar outro valor torto que eu tinha. Disse a uma amiga que odiava quando um cliente tratava as pessoas feito empregada doméstica. E minha amiga replicou: “Mas qual o problema de ser empregada doméstica?” Primeira reação: fiquei bravo com a minha amiga. Obviamente, a pessoa que te censura sempre vai parecer uma estraga prazer. É muito comum usarmos o termo “secretaria do lar”, “ajudante”, “a moça que trabalha em casa” para minimizar a “gravidade” de ser uma empregada. Talvez seja pelo preconceito que se tem com o trabalho braçal no Brasil que remete inconscientemente a um trabalho “menos digno”, algo que no período colonial “não era tarefa de branco.” O termo empregada foi ganhando uma conotação negativa ao longo do tempo, mas se você isolar o termo sem pensar em seus desdobramentos, ele remete apenas a alguém que responde à um empregador, que no caso é você. Outra hipótese é a censura inconsciente, como se você soubesse do descaso com que muitas empregadas são tratadas e de certa forma aplique a tal gravidade no termo “empregada” como se o termo justificasse a ação e não o contrário. E que bom que eu mudei de ideia, mas não deu pra avisar a Mariana.

Sim, eu fui elitista há duas semanas atrás.

Com a morte do cantor Cristiano Araújo, muitas pessoas fizeram posts engraçadinhos sobre não conhecerem o cantor. Muitas delas, estavam dizendo apenas isso e eu num vejo problema em quem não o conhecia, mas muitas outras estavam sendo um tanto irônicas em uma leitura das entrelinhas dessa afirmação. É como se o fato delas não o conhecerem fosse um atestado de superioridade cultural, como se a cegueira sobre o mundo da música popular fosse uma tarja de descontaminação em relação ao que é tido pela elite como “não cool”. Eu não postei nada a respeito disso, mas dei like em muitas publicações sobre quem não sabia quem era o cantor. E eu não posso aqui apontar quem foi irônico e quem não, mas não existe apenas o post contaminado, existe também o like contaminado. E eu que vivo defendendo a democracia musical, me dei conta de que o meu like tinha malícia sim. E que bom que eu mudei de ideia, mas é melhor nem avisar, tenho medo de fãs violentos.

Sim, eu já julguei quem mudou de ideia.

Uma amiga fervorosamente militante de várias causas de esquerda e que já contribuiu diversas vezes para que eu mudasse de ideia sobre algo, inicialmente defendeu Marina Silva na eleição para presidente e depois, diante de algumas atitudes e posturas da candidata voltou atrás e fez um post em que a criticava, “justificando” a sua mudança de ponto de vista. Essa mesma amiga, também achava o Lobão legal, espontâneo, mas ele começou a dizer muita abobrinha publicamente e logicamente ela mudou de ideia. Inicialmente pensei: “Bom, ela é daquelas que mostram certa independência dos consensos unânimes, mas se ela é tão segura do que pensa, qual é a dela em querer mudar de ideia e ainda se justificar publicamente? Depois, refleti um pouco mais e pensei que eram justamente pessoas como ela que me agradavam em postura. Capazes de olhar pro outro lado sem contaminação, capazes de criticar também o próprio lado e principalmente: sabem voltar atrás. E que bom que eu mudei de ideia sobre quem muda de ideia.

Tenho uma amiga que possui um corpo que destoa do padrão, mas que vive reproduzindo discursos gordofóbicos, e ninguém conta a ela as piadinhas que fazem sobre o seu corpo sem que ela saiba. Eu escolho não contar, escolho não ser o porta voz de algo que vai entristecê-la. Você pode defender alguém sem contar a essa pessoa, acho isso um favor genuíno que você faz a quem gosta, prefiro mostrar como eu mudei de ideia sobre o assunto (já que eu sempre vivi brigando com a balança) ao invés de portar o veneno até ela. Mesmo sabendo que pelas costas ela me critica, que ela me acha chato, insistente, que ela sente preguiça do meu discurso (que ironicamente defende ela também), mesmo que ela nunca saiba que além de agressora é também a vítima.

 

Esse texto não é apologético ao preconceito, ele visa mostrar quando as minhas válvulas giraram, assim como aconteceu, acontece e vai acontecer com as suas. Citei aqui algumas situações sutis em que me dei conta de como funcionam os preconceitos que ultrapassam o meu filtro de mansinho e são inocentemente lançados no meu cotidiano. Claro que eu já reproduzi diversos discursos aos quais eu mesmo sou o oprimido, o preconceito é sempre feito de hospedeiros, e ninguém está livre de ser um, mesmo sendo a parte agredida. E ao longo da vida vou descobrir vários outros, e vou passar vergonha, e alguém vai me avisar, ou por sorte lerei sobre ele em algum texto, e eu vou fazer questão de olhar pra ele, mesmo que não na frente de quem me avisou. O eu já “fui” também é pura proteção minha, é um medo de voltar a ter, porque às vezes eles voltam e eu espero estar preparado para perceber, e enfrentar de novo e depois de novo se preciso for.

 

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Os Cavalos Islandeses e As Mentiras Que o Espelho Conta

OS CAVALOS ISLANDESES E AS MENTIRAS QUE O ESPELHO CONTA

Por Eduardo Benesi

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Não, sei se você já ouviu falar dos cavalos islandeses. São lindos e possuem franjas charmosas. [Esse post não é sobre zoofilia.]

Sempre que me perguntam o que é um hipster respondo que é um cara que tem uma estranha doença: sempre que entra em uma loja, olha item por item, e se deslumbra por tudo, mas sem querer, escolhe levar justamente algo que não está à venda. Desilusão amorosa com objetos. Existe.

Será que os cavalos islandeses sonham com outros tipos de cavalos?

Você que já entendeu que as pessoas mais interessantes do mundo geralmente estão sentadas naqueles botecos sujinhos, e se recusa a entrar porque falta água na cidade e ninguém lavou as mãos. Não, não é por isso. É apenas pela vitrine de salgados que exibe uma coxinha de anteontem e ao lado, um ovo intacto, com a casca.

Há uma lei na Islândia que proíbe a importação de cavalos de outros países. Lá existem cavalos islandeses e uma lagoa azul.

Você que almeja o emprego dos sonhos imaginando uma sala multicolorida com mesa de ping-pong federada e a foto do aniversariante do dia com um doodle temático. Você que deveria abraçar a hipótese do emprego dos sonhos ser um subchefe legal que te deixe sair mais cedo pra ir ao show do Sissor Sisters. Ou um job que te permita viajar por um mês esquecendo-se do mundo, comendo glúten sem culpa. Pode ser também aquele em que você encontra amigos tão diferentes de você e que ainda assim você quer dividir o mesmo sofá, todo mundo apertadinho, pra caber o amor até as bordas reminiscentes.

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Na Islândia é cultivada uma dinastia purista de equinos que vigora desde os tempos Vikings, isso quer dizer mais de 1k de anos.

Você que é tão capaz de quebrar poemas e de discursar sobre as variedades do amor. Você que não ultrapassa a tela e não interrompe a cena, você que respeita todos os filmes até o fim. Na verdade, você mente que foi até o fim de todos os filmes. O aborto cultural. Aborta filmes e livros no meio, ou mesmo na décima página. Você que fica triste até passar. Eu não. Eu dou skip depois dos 5 segundos no Youtube e desligo na cara do Telemarketing quando passo pelos 5 segundos mudos iniciais da ligação. Você que jamais desligaria na cara da Paola Oliveira ou do Aaron Johnson.

 

Na Islândia existem mais de 80k cavalos desse nipe. Para cada 4 habitantes da Islândia existe um cavalo islandês.

Você que já ouviu frases como “Você é a pessoa mais bonita que eu já vi na vida”. Você que finge tão bem na foto que consegue até não parecer o Marlon Brando e se ofende quando alguém diz que você está redondamente enganado, por conta do “redondamente”.  Você que só venera ídolos que pisem em você e que quando te notam, tomam um pé na bunda. Você que só apaixona por placas narcísicas com um X de proibido. Você que jamais será frio o bastante para seduzir pelo olhar, ao invés, sorri oferecendo vantagens e finais infelizes.  Você que quando mexe nos cabelos deixa flocos de neve caírem ao invés de admitir que são caspas e não aspas.

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Os cavalos islandeses lembram pôneis e caso sejam exportados, nunca mais podem voltar ao país natal. Os cavalos islandeses são viajantes apenas de ida.

Você que compraria uma sandália Melissa apenas para ficar cheirando sem pé nenhum. Você que é rigoroso com pés. Não suporta unhas pretas, carcomidas, ou roídas. Você que desconfia de que existe gente que rói os dedos dos pés. Você que acaba de ler o livro da Beber e descobriu que foram as gaivotas inventoras do bolero. Você que prefere deixar a lagartixas irem. Você que levou um fora da menina do ICQ porque literalmente escorregou na merda na hora do vamuvê. Você que faz caretas ridículas para se olhar no espelho do elevador.

Os cavalos islandeses possuem um caráter dócil, um temperamento amável e são extremamente macios para trotar.

Você que se entope do mundo soft, venera a luz negra mais que a luz do sol. Você que se derrete quando o coração de celofane dobra com o calor da palma das mãos. Você que nunca fraturou um só osso. Você que é capaz dos elogios mais criativos, mas que carrega uma teoria de que as pessoas possuem um lado inverso equivalente à face feel good. Você que, portanto, seria capaz de ofender alguém sem dar tempo para que o inimigo se recupere ou levante do chão, mas que prefere não pegar em armas. Você que não entendeu muito bem o filme Querelle.

Os cavalos islandeses por isolamento geográfico são proibidos de cruzar com cavalos de outras raças.

Você que odeia que os outros digam que aeroporto virou rodoviária, mas acha selfie um equivoco-zinho brega do ego. Você que rejeita o queijo branco por sua textura indecisa e que nunca conta pra ninguém que é um anti-herói oculto por óculos nerds. Você que disfarça a avareza com a desculpa das coleções e não sabe abrir vinhos. Você que adora o arroz com feijão do Giraffas.

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Você que fica a espera dos cavalos islandeses, montados por figuras utópicas. Empregos islandeses. Amores islandeses. Gente islandesa. Hábitos islandeses. Cavalos islandeses. Você que usa a desculpa da raridade. 

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Um Bonde Chamado Desejo

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Lá vem ela, loira e pálida, trazendo da rua do passado um bonde de sinos dobrados pelo romance ideal. Blanche “sempre dependeu da bondade de estranhos”. Uma serial lover, a mulher-bandeja, a fina toalha que escorrega em sua própria entrega, chora sonhos feitos de chuva de arroz.

O movimento no palco, sempre circular, o giro vital, a luz que é Sol manual e incide sob a escuridão antevendo a loucura. Toca Beirut enquanto reparo encantado nas melancores de cada figurino. Fico hipnotizado por aquele cenário que é tudo o que a mente disser. Jogar Tetris é a infância do arquiteto. Brincar de montar e desmontar. Dimensionar. Quem sabe mesmo uma casa seja muito menor do que a grandeza potencial dos seres.

Rafael Gomes, esse diretor que me alimenta do pouco-muito em tantas mínimas decisões, que sempre beiram a síntese, sem o sensacionalismo de cores e elementos, faz com que a música desafie qualquer regra temporal e caia amortecida como um vestido branco moderninho. Ele que me faz ser um crítico redundante, que me obriga sempre a elogios da melhor espécie. Sabe ser diplomata do tempo, universaliza um tema, atemporaliza um contexto , faz a colagem dos ponteiros, através apenas de uma música ou uma ousada volta de skate. Remenda os flancos temporais sem que a costura denuncie um acidente repara-dor. Abusa do menos e faz com que eu me comporte em minha loucura incontida em cores. É meu diretor de teatro predileto porque sabe fazer uma informação cheia de arabescos virar uma manchete precisa a cada linha. Um dia eu tomo coragem pra ser criativo e te convido pra uma Coca-Cola. Enquanto isso, venho até aqui e daqui não passo.

Eu já fui Stanley no teatro, e não soube controlar a sua/minha força, passei da conta, embriagado pela fúria covarde da soberania rústica do papel. Marlon Brando, Eduardo Moscovis, Eduardo eu. Quanta distância. O Eduardo do meio, o dessa peça, é quase uma sentença para que eu saiba como eu quero morrer. Quero morrer de arte. O Stanley do meio destila um olhar canibal, e uma postura (dês)lapidada da rigidez Kowalski. Não tenta imitar Brando, não teme a própria versão, ao invés de ser prótese, consegue desbastar sua brutalidade, coloca os pés sobre a mesa impingindo através de sua bazuca ocular.

Maria Luiza Mendonça, ou apenas “Maria, a louca”. Onde vende você para que eu possa comprar? Digo, comprar para ter. Sou consumista por você e sua translucidez. Enxergo-te inteira, como quem não vê neblina. O verde das veias, o coração latente de vermelho, um vermelho-abuso, uma tinta que mancha, uma atriz que é também um ateliê. Te vejo como um rascunho cheio de rabiscos caóticos, de quem prende a respiração e mergulha com elegância . Uma atriz sem fórmulas, mas que sabe de todas elas. No palco esquece estrategicamente dos arbustos intelectuais e faz com que a gente sempre se lembre de você. Não sinto saudade da Buba nem da Amanda, sinto saudade de tudo o que de você ainda virá.

E quem era Virgínia Buckowki? Agora eu sei. Formidável em sua Stella, a personagem gangorra, a mulher que se contenta com a horizontal, esquecida de tudo o que de ruim existe na crueldade vertical. Atriz aorta, uma notável porção noturna no giro de estrelas do céu do palco.

A conclusão, aquela rotação entre dois diferentes planetas, somos nós mundos que convivem e ao mesmo tempo giram em sentidos opostos. A discordância dos corpos em 180 graus. Ao fim, parte da plateia em prantos: suspiros de quem muito quis voltar de si e não pode. “Um bonde chamado desejo” é a peça que nos conta que nem tudo é o fim do trilho, às vezes é só o começo da solidão. De algum lugar, Tennessee Williams traga um charuto agradecendo por isso.

“Há todas as espécies de amor neste mundo, exceto o mesmo amor duas vezes.” Fitzgerald

Solidários X impostores: o dia em que o Facebook virou arco-íris

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Por Eduardo Benesi

Hoje, 26 de Junho de 2015, foi um dia bastante relevante para a causa LGBTQIA . A legalização da união entre pessoas do mesmo sexo nos EUA contagiou a nação Facebook. Embora alguns militantes tenham torcido o nariz por ser uma louvação “importada” dos EUA, penso que existem momentos em que macroteorias supraintelectuais devem ficar em standby e deve-se olhar pro sub-impacto gerado por ela, mal ou bem, mesmo que de forma suspeita, muita gente fez questão de se solidarizar, e não foram poucas. Nessa brincadeira de deixar a foto de perfil no rainbow mode, o que de mais curioso observei foram pessoas que há 5, 10 anos atrás frequentavam a mesma roda que eu, e reproduziam discursos homofóbicos, eram maldosas, debochavam e oprimiam da forma mais cruel quem “dava pinta”. Rodas essas que faço questão de não frequentar e ter o menor tipo de contato, mas por falta de tempo para uma boa limpeza, alguns poucos ainda estão no meu Facebook. Olhava alguns prováveis impostores e me vinha um sentimento intolerante, como se aquelas pessoas não tivessem o direito de ter mudado, mas logo me veio o gênio Alain de Botton e sua brilhante frase na mente: “Qualquer um que não se sinta envergonhado por quem era no ano passado, provavelmente não está aprendendo o suficiente.”

No título desse texto, por uma questão de compreensão e polaridade de palavras, usei a expressão impostor, mas o termo adequado para prosseguir com o meu pensamento é “cúmplice”. Sempre os vejo por todos os lados. Tóxicos. Imprevisíveis. Vão, apenas vão. Daí o perigo. Entre alguém sem caráter e alguém mau caráter, eu sempre tive mais receio do primeiro caso. Nunca sabemos o que esperar de alguém sem caráter. O cúmplice sempre se agrupa em quantidades, endossa o coro, legitima uma ordem camarada vinda de cima. Aquela frase: “quando duas pessoas concordam em tudo, uma delas está pensando pelas duas”. Conheci os primeiros cúmplices no ambiente escolar. São os que riem do líder cômico, do dono do pedaço, são eles que justificam a gozação ao dar uma risada assentida, sem contar os lamentáveis episódios em que até o professor entra na onda. A hostilidade em forma de riso parece menos culpada. São como pragas de reprodução que consentem a opressão para se protegerem, para não serem os oprimidos. Tão consideráveis quanto o soro de um creme de leite, tão autônomos quanto o coelho Sansão da Mônica, tão afetuosos que riem de toda e qualquer piada maldosa no chat do Whatsapp.

“O riso traça uma hierarquia entre aquele que ri e aquilo que é risível, como forma de desumanizá-lo. Se dizemos que é preciso refletir sobre isso, se dizemos que dói, o mínimo que aqueles que não compartilham as nossas vivências precisam fazer é escutar. Volto a dizer: “um inimigo é alguém a quem se nega o direito de contar a sua história”. Daniela Lima

Peguemos o personagem Zelig do mockumentary dirigido por Woody Allen. Um homem de comportamento camaleônico, que apresenta um estranho distúrbio. Transforma-se em todos que estão por perto. Muda de cor de pele, de feição, de comportamento. Em uma sessão de hipnose, quando perguntado sobre o motivo de seu sintoma, responde algo do tipo: “faço isso porque me sinto mais seguro”. É um anseio por aprovação, ele se adéqua ao outro para se proteger. O fato é que existem vários Zeligs por aí. Abraçam a cópia por puro desejo de aceitação. O grande problema é que dos cúmplices ninguém nunca lembra, mas hoje eu resolvi lembrar. São clientes perigosos, compram todo e qualquer discurso em que o único critério seletivo é agradar a maioria. Olhe ao redor, há cúmplices à direita e à esquerda e eu lamento pelas vezes em que fui cúmplice sem ter percebido e lamento por quem nem sabe que é. Voltando ao filme, através de um tratamento para combater seus sintomas, Zelig colateralmente vai desenvolvendo uma auto-estima demasiadamente elevada. Passa a agir com intolerância socialmente. Rejeita a razão do outro. Talvez seja assim que funcione essa divisão de extremos. O cúmplice e o reativo. Obviamente, adotar flexibilidade é um bom caminho, mas é difícil encontrar  moradia nessa diferenciação entre flexibilidade e alienação. a minha hipótese é que pensar sobre isso, talvez seja a própria morada flexível.

Penso que numa data tão cheia de significados, seja válido refletir se você realmente apoia a causa ou é apenas um oportunista que topou brincar do meme do dia. Se por acaso, você não tem nada contra gays/ desde que o seu filho não seja/ ama o pecador mas não o pecado/ desde que eles não troquem carinho em público/ desde que eles não sejam afeminados ou masculinizadas/ desde que não seja travesti/, eu sinto muito, mas você ainda não entendeu porque está vestido de arco íris.

Divertida Mente

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Vou logo contando que a Pixar se superou. Olhar qualquer elemento aparentemente supérfluo, como a articulação e o formato da boca da personagem “nojinho” é um pequeno detalhe grandioso, que se junta a tantos outros aspectos engenhosos na nova empreitada do estúdio. Uma animação carrega sempre a difícil tarefa de nos tragar em sua tentativa de humanidade, buscando conexão através de apropriações convincentes, criaturas que nos toquem e deixem vestígios, esses sim reais. O segundo obstáculo talvez seja agradar dinamicamente a sua freguesia. Criar um exército simpatizante e abrangente, lançando-se de dispositivos que impressionem não apenas a oferta mirim. A Pixar sabe disso, e não só vai se reinventando para atingir diferentes alturas etárias como também oferece sempre um drink de boas vindas: os curtas.

“Divertida mente” nos divide em partes e tenciona através de representações inteligentes a estrutura dos sentimentos. Estamos todos lá. A gente ri e chora do que poderíamos facilmente rejeitar – mas o que esse filme provoca é um autoabraço. É uma obra de dentro pra fora, que nos olha, pane a pane, visita nosso painel de controle rendendo a cada sentimento, mesmo que negativo, uma ternura instantânea. É um longa que não vale apenas para diferentes idades, mas para cada pessoa em diferentes fases.

Eu não pude deixar de rir o filme todo da ~tristeza~, me lembrando de amigos que são tão assim e claro, de mim quando resolvo entrar no modo bad. Eu observava o ~medo~ e pensava em seu tom elegante e atrapalhado, pensava no meu comum exercício de trocar os pés pelas mãos. Paquerava a ~alegria~ e sentia um misto de otimismo e preguiça. Sentir afeto pela ~nojinho~ e sua antipatia carismática, digna das melhores patricinhas que eu já conheci por aí e essa coisa minha de ser exigente demais – meu maior defeito segundo alguns. A raiva em modo turbo, não conseguindo segurar a meditação, mandando pro inferno as boas maneiras, ah esse também sou eu em plano trimestral. Todos interagindo e colocando cores em círculos perceptivos, as memórias, nada inofensivas. Pluripolaridade.

A mistura das sinapses, os sentimentos quando se encostam e sucumbem pela variação, o mundo abstrato, arrepiante que é. Uma lúdica sessão de terapia ou uma aula de artes da terceira série, com uma folha em branco e alguns primeiros encantos do coração. Cada um vai montando as suas ilhas de personalidade. Eduardo vive na ilha do abraço, do queijo, do carboidrato, da ansiedade, do facebook, das saudades, da amizade, do cinema, das viagens, da poesia, da Augusta, do rancorzinho e do hedonismo. E você, quais são suas ilhas? Nessa troca de ambientes, somos levados ao trem do Pensamento (trilhos da consciência), a Fábrica de Sonhos e ao Subconsciente. Eduardo vai entendendo sua eterna dúvida de quem nunca sabe bem se está de partida ou de chegada.

De uma coisa lhe asseguro: é a animação “own” mais “own” dos últimos anos.

HÁ MOTIVOS PARA ESTARDALHAÇO.

Um livro que é uma peça que sou eu, que é você, que somos todas as histórias.

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Te acho paciente na forma de explicar. Mas você é prolixo para responder perguntas muito simples, você se alonga com sinônimos, é redundante, e eu acho que prolixidade não deve ser obrigatória. E eu odeio o fato de você ser monossilábica deu ter que sempre inventar o assunto que iremos conversar e ser obrigado a ouvir da sua boca que eu toco sempre no mesmo assunto de sempre. Você não faz esforço algum para que tenhamos um assunto novo e ainda me acusa de falta de originalidade. Quando sou prolixo escrevendo, não estou obrigando ninguém a ler. Mas quando você é prolixo falando, eu não posso simplesmente te interromper e pedir para que você seja mais objetivo. Você irá se ofender.

Eu amo conversar com você porque eu sinto que você realmente me ouve, me acompanha com movimentos de sobrancelha e arregala o olhar mostrando envolvimento. Eu sei que eu pago por isso, mas eu queria que você soubesse que você me ouve muito bem, e eu acho que você é assim mesmo com quem não te paga. Você tem uma voz que envolve, um timbre antipático e sensual, e você gesticula com as mãos enquanto fala, e tudo é uma dança linda, ainda mais pelo fato de você usar palavras estratégicas no meio dos seus discursos. Palavras selecionadas como em uma carta de vinhos. Há um buque que interfere na frase toda e se espalha em nós sem enjoar. É uma pena você estar tão longe. Você me desperta ideias novas, gosto de ir escrevendo mentalmente enquanto você fala, e aquela tarde mágica sempre será um cartão postal da nossa história. Uma vez te chamei de poetisa, e eu tenho a certeza disso, você seduz não só por ser linda, você também seduz enquanto fala. Eu jamais abriria mão da sua sabedoria, você diz coisas que a sua geração geralmente não diria.

Sim, tudo o que você escreve é inteligente, e bastante longo e você insere sempre uma citação, metáfora, alegoria pertinente ao assunto, mas eu às vezes me canso um pouco desse excesso. Parece que o seu pensamento borra a escrita, e você usa analogias confusas, e eu sinto falta de você escrever coisas menos rebuscadas, sem nada na frente, dando apenas a mão, sem usar luvas. Você é uma intrusa do tempo, e eu te deixo invadir minha casa, mesmo quando você me cerca com essa curiosidade discreta e ao mesmo tempo sem disfarces.  Eu amo conversar com você, talvez seja a pessoa que eu mais goste de conversar no mundo, a gente se ajuda e troca aprendizados, ninguém economiza no apoio ou no amor. Às vezes noto você tentando me copiar, e é engraçado, porque fica melecado, e você usa alguns termos difíceis e fora de hora, e acaba sendo hermético, e você se reveza em camadas de acesso ao seu pensamento que deixam o leitor um pouco sem saber para onde você está indo. Você é a prova de que uma pessoa quando escreve não necessariamente a mesma quando fala.

Prefiro você falando, mesmo sabendo que quando você não tenta ter um estilo, você escreve muito bem. Você vive se proclamando escritora, a melhor escritora, e tudo o que você escreve é tão sem impacto, você nunca é inovadora, você é só uma pessoa tentando toda hora mostrar que é inovadora. Esse livro brinca com esse fluxo tão legitimo e caótico e belo. Então resolvi misturá-lo aos meus rabiscos, sem que você saiba onde eu termino e ele começa, onde é você e onde sou eu, se é que existe alguém aqui. Você não é descolado, você é apenas uma pessoa insegura tentando o tempo todo mostrar o quanto é descolada. Você da a entender pelas suas implicâncias virtuais, que um bom escritor é principalmente aquele que tem um bom domínio gramatical. Eu discordo, acho que o bom escritor sabe rir inclusive da gramática e brincar com ela. Ser bom em Gramática quer dizer apenas que você é bom de guardar regras, e mais nada. Você tem uma mania grosseira de me interromper com o seu celular ou com alguma piada fora de hora. E isso acontece sempre. Grave não é a falta de um conselho bom. Grave é a falta do ouvido e eu percebo quando ele não está e tenho saudade de quando o nosso assunto nunca acabava.

A madrugada ia, sem hora pra voltar e estávamos ali, entretidos em alguma conversa existencialista ou alguma DR que eu inventava entre a gente só pra lua continuar nos assistindo. Agora estou lendo esse livro que também é uma peça de teatro. O livro não tem uma capa anunciando o próprio nome. Você deve abri-lo para perguntar. O livro então te obriga a puxar assunto com ele. E você pode abrir em qualquer página já que nele a conexão está na desconectividade. E embora pareçam apenas dois personagens em pensamentos que se misturam, acho que ali existem milhões de personagens. Os pensamentos são um sem fim de pessoas. Sou eu, sou você, que às vezes somos um só e vários outros. Esse livro faz parte de mim, do meu pensamento. E se eu estou aqui escrevendo o que penso, não há separação entre o que penso e o que leio. Os pensamentos não possuem números de página, nem esse livro.

Eu teria que colocar aspas aqui. Aspas. Tem uma coisa que sempre me angustiou. Eu vou tentar explicar. A nossa capacidade de reconhecimento é um espaço cognitivo muito complexo. Eu to querendo dizer que eu posso olhar pro seu rosto, como eu to fazendo agora e amanhã, por exemplo, se eu cruzar com você, eu vou poder te reconhecer. Mesmo que eu não me lembre de onde, o meu cérebro vai acessar a imagem do seu rosto e eu vou me sentir um pouco estranho quando eu perceber que acabei de reconhecer um rosto conhecido. Quando eu falo um pouco estranho, quer dizer que o seu rosto vai me tirar do estado normal de passagem, de rotina, de cotidiano emocional e eu vou acessar algum sentimento diferente de qualquer outro que eu poderia controlar. Tudo isso pelo simples fato de eu olhar pra você e reconhecer o seu rosto. Tudo isso pra falar que de acordo com a profundidade da nossa relação, a cognição do reconhecimento de um rosto aumenta. Quanto mais profunda for a nossa afinidade, mais reconhecível será o seu rosto para mim. Isso quer dizer que no meio de vinte, oitenta, cem mil pessoas, eu vou poder reconhecer o seu rosto assim que meus olhos passarem por você. Por fazer parte das categorias involuntárias da cognição. Isso quer dizer que o extremo disso, seria eu reconhecer o seu rosto em qualquer outro lugar que não seja o seu rosto. Isso quer dizer que o extremo disso, seria reconhecer o seu rosto numa parede branca, num furo nessa parede, na minha mão, numa arvore, no sapato de alguém, num prédio, numa nuvem, na lua e inclusive no rosto de qualquer outra pessoa. E é exatamente isso que sempre me angustiou, se algum dia você reconhecer o meu rosto no rosto de outra pessoa, o que eu vou fazer para você poder me reconhecer de novo? Aspas. Esse texto todo está no livro, na peça, no meu pensamento, fala do meu pai, de um ex-amor, do meu terapeuta e dos autores dele: joão dias turchi e gustavo colombini. E não à toa os autores assinam seus nomes em minúsculo. Isso pode querer dizer muita coisa, inclusive que eles não são os autores. Mas ainda assim preciso dizer o nome desse magnífico livro ou experimento ao qual me sinto cobaia. “Histórias para serem lidas em voz alta”.

 

Sob O Mesmo Céu

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talvez eu me esqueça daqui a pouco desse filme. não foi grande, nem pequeno, não foi muita coisa. ponte pênsil. queda precoce. um filme que distrai e a diferença para um filme distraído: em um filme distraído dois cinemas se abrem. um dentro. um fora. penso longe daqui de perto. vaporizador. penso ontem. penso espaço penso. penso em nada. talvez até mude de assunto no meio do texto.

lendas havaianas, Bill e Emma e aquela dança que é puro recreio adulto. cenas queridinhas e os mudos diálogos, ah esses. Rachel McAdams existe de ser só ela. só ela. linda e só. Bradley. nunca entendi tudo isso de aplauso. Mas Bradley tem melhorado. tem mais olho em seu azul. Emma Stone tem passado de ano, mas notas altas, ainda não, sorry.

“Sob o mesmo céu” não me empolgou, mas gostei de a-mar de novo o Havaí. porque ele é assim. uma lenda que te puxa pra Saturno. “Huna quer dizer: Segredo, não no sentido de manter algo oculto, mas sim de descobrir um sentido mais profundo da nossa existência”. o Havaí é uma estrada em que os deuses podem ser atropelados e os vulcões revelam horóscopos pioneiros, que pulam de seus sopés.

um evento cheio de relâmpagos, duendes e correções do acaso. capim-limão e Ho’oponopono – * Sinto muito * Por favor * Me perdoe * Obrigada * Sou grata * Eu te amo *

Cameron Crowe sempre tenta me enganar e eu deixo. sempre que me convida, digo que vou. suas festas são lindas pelas promessas, mesmo as não cumpridas. toda promessa tem fogachos e colares de flores. todo filme de Crowe me faz querer ligar o som do carro depois.

aliás, meu som do carro está nas últimas, estou quase jogando no poço de fogo Halemaumau. sintomas: está velho, pisado, enferrujado, desobediente, risca todo e qualquer cd que tenha pele lisa e sempre pula a música número 11. alguém tem algum som de carro sobrando? a única exigência é que funcione. alguém me empresta? me dá? me vende preço OLX? desapega, desapega.

Jurassic World

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Já estava decidido: mesmo se o filme fosse péssimo eu ainda assim iria adorá-lo. Fã é fã. Voltar à Ilha Nublar vinte e três anos depois foi empolgante e nostálgico. Ver Jurassic World finalmente funcionando fez com que tenha valido a pena eu não ter me suicidado aos 27.

Ao invés de contar no Trip Advisor, quero relatar aqui minha experiência no Jurassic World. Vish, na entrada você já recebe um mapa indicando onde está cada dinossauro na ilha. Em cada localização há um pequeno código, ao passarmos o celular por cima (através da tecnologia de realidade ampliada), toda a ficha técnica do Dino fica disponível para leitura. O atendimento no parque é simpático, acolhedor, os funcionários são sorridentes e a comida é deliciosa. A lanchonete vende “ovos de dinossauro” com chocolate dentro, pizza em forma de “pegada” de brontossauro e tem refil de refri pelo parque todo e zaz. Pra galera gourmet, tem uma food truck que vende asinha de Pterodáctilo flambada com ervas finas do período neolítico. No setor kids, as crianças podem dar volta de pônei no Tricerátops, e dar comida pro Estegossauro. Pros adultos, rola apostar corrida em cima dos Gallimimus, assistir ao Mosassauro sendo alimentado com tubarões, ver uma rinha entre Pinacossauros e interagir com um Dilofossauro em 7D. Não sei por que, mas não vi o T-Rex, parece que essa atração estava em manutenção. Li na Viagem & Turismo que ele seria substituído por um tal de Indominus Rex. Bom, espero voltar em breve a esse parque maravilhoso e inesquecível e tirar várias fotos para colocar no Facebook.

Mas agora voltando ao filme. Com os recursos que os grandes estúdios reúnem, hoje é quase uma obrigação fazer um remake ou uma continuação que sejam no mínimo competentes. Se não existir uma ideia mirabolante, faça uma auto-referência sem fingir originalidade, revisite o que deu certo, homenageie sem primarismos, não tente enganar como faz a Fanta maracujá. Foi exatamente isso. Uma gostosa sensação de resgate do primeiro filme, talvez ambos tenham estruturas praticamente iguais. Mudaram os personagens, as tiradas, a agressividade e esperteza dos dinos (atenção para os duelos), a tecnologia. Mas ainda estamos naquele filme que fala da megalomania cientifica, o homem subestimando a natureza, dois irmãos – um deles maníaco por dinossauros, – e o plot previsível que promove a desordem entre répteis e humanos.

Jurassic Park foi o Sci-fi que mais marcou minha infância. Fui uma dessas crianças seduzidas pelo talento de Spielberg em nos familiarizar com o estranhamento, mostrando que a imaginação não morde. Talvez o grande segredo do diretor seja justamente abordar o deslumbre infantil dentro de seus filmes, convidando sempre as crianças de fora a “colocarem a mão” ali dentro. Curioso é que ali, bem perto da minha cadeira havia uma família com uma criança bem pequena. Ao invés de chorar de medo dos dinossauros, aquele pequeno ficou de pé o filme todo e por diversas vezes esticava o bracinho tentando alcançar a tela para “mexer” nos répteis assustadores. Olhava aquilo e entendia o que acontecia comigo quando via ET ou Jurassic ou o motivo de sempre ficar arrepiado com a vinheta da Universal antes de um filme e olhar a vitrine da loja de brinquedos e querer todos os bonecos do filme.

Jurassic World é um daqueles filmes que entretêm os olhos enquanto o picolé derrete esquecido nas mãos. É uma cerimônia múltipla de tributo ao passado. Não ressuscita apenas dinossauros, recrudesce também um filme e reavalia alguns privilégios: coloca nas mãos de uma mulher uma das cenas mais decisivas e heroicas da trama – essa mesma cena, que no primeiro filme é protagonizada pelo Dr Alan Grant,

Ressurreição. Ouvir um coração voltar a bater, velocirapidamente.