Karina ursa: pessoa colecionável #16

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Sempre que um filme ou novela aborda o universo feminino dentro de uma cadeia, um tipo de personagem acaba se repetindo nesse mosaico de estereótipos. A dona da cela. A dona da cela é aquela presa durona, a líder do cafofo, aquela que impõe certo respeito por sua bravura e é um pouco hostil com quem é nova no pedaço. Ela é a figura a ser conquistada quando tudo o que uma caloura tem, é um aglomerado de dias claustrofóbicos ou entediantes em um ambiente com grades. Consigo imaginar até qual crime fictício ela cometeu. Talvez uma assassina de filmes de terror-pipoca que acontecem em universidades americanas. Aquela que tira a máscara e se revela no final. Estou falando do seu ângulo mais rígido, mas não é só esse, nem de longe. Existem sorrisos marotos que desfazem o seu lado mais arisco, ela aceita o carinho de bom grado e sabe retribuir.

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Você pode chamá-la ursa. Esse é o seu nickname nos universos informais. Sua inteligência é tão exótica quanto caótica. Seu código visual pode fazer com que a gente se precipite e ache que a rigidez das cores enfatize uma possível resistência ao novo. Tim Burton tem culpa no cartório. Ela o tem como ídolo por ter sido um cara que conseguiu entrar no universo da Disney emplacando os seus traços subversivos. É ele que colore o seu jeito de se vestir. Vermelho, roxo, bordô, preto. Mas, o curioso é a falta do branco. Aquele branco gótico e pálido dos personagens mórbidos do diretor. E isso já é a fronteira da diferenciação típica de sua personalidade. Na vida e na arte, existe nela uma mania de se intrometer, de tentar mudar um processo já estabelecido, como se a água de dois rios se confrontassem inevitavelmente. É quase um jeito de manipular, de ter o controle, mesmo que parcial, sobre a realidade e a irrealidade. No fundo ela se sabe manipuladora, inclusive acidentalmente. Na arte, seus desenhos parecem não ter começo nem fim. Há um confronto visual que imprime algo próprio da sua assinatura. A ursa é aquela pessoa que gosta de interferir na mudança, marcar seu território, saber que participou da decisão, manifestar seu poder de intervenção.

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Costuma usar uma frase (“não é que…”) em seus enunciados para justificar e ao mesmo tempo denunciar a sua mania de interferência. Nesse momento ela se entrega e tudo o que realmente importa é o que vem depois do “mas”. “Não é que eu estou reclamando, mas eu acho que esse restaurante é muito caro”. “Não é que eu queira mudar a combinação inicial, mas acho que deveríamos comer sushi e não macarronada”. “Não é querendo me intrometer, mas eu acho que deveríamos nos encontrar mais aqui na minha casa, assim a gente num gasta tanto com restaurante”.  Eu poderia então dizer que a Ursa é uma radio pirata, aquela que de repente faz ruído no meio de uma transmissão das 7 melhores da Jovem Pan.

O mais divertido dessa entrevista é imaginar tudo o que eu não imagino ela fazendo. Ela usando um vestido cor de rosa, por exemplo. Ou quem sabe descobrir que ela conversa com os passarinhos todos os dias da sacada do seu apartamento (confissão real). E quem diria que ela já assistiu novelas e gostava de “quatro por quatro”. Diz que abandonou as novelas porque elas começaram a sublinhar traços exagerados de maldade do ser humano, distanciando o foco no entretenimento leve.

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Se a ursa tivesse uma terceira mão, ela passaria a bunda nos seguranças do metrô da linha amarela. Na realidade ela já faz isso, em horários de pico, gosta desses acidentes calculados, uma mão estrategicamente degustadora de “bundinhas caramelo”. Segundo ela, esse termo é uma piada interna entre amigos para designar uma bunda bem desenhada, agraciada pelas curvas que transbordam por uma calça coladinha.

Ursa gosta da frase motivacional que diz: “um passo em direção ao seu objetivo todos os dias, ao fim de um ano se transforma em 365 passos”. Das vaidades sobre os seus passos, ela se diz orgulhosa do seu emprego, das suas conquistas independentes, do crédito que atualmente recebe pelas suas habilidades de criação. Do emprego anterior carregando bandejas, guarda tendinites, rancores e amores. Aprendeu muito sobre lidar com homo sapiens famintos e também a aceitar que no mundo existem gerentes maliciosos, a ponto de se fazerem de amigos por um longo tempo e de repente te tratarem feito sucata, te jogando aos crocodilos.

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Existe apenas um requisito capaz de fazer a ursa gostar de um livro logo de cara. Ser uma HQ. A identidade visual das Hqs ativa o seu interesse. Ela é capaz de gostar até de um exemplar ruim só por ser uma história em quadrinhos. Na infância, ursa comia punhados de areia vindos de buracos na parede, gostava também de desmontar e remontar brinquedos e o seu cavaleiro do zodíaco predileto era o Shun de Andromeda. É um pouco vidrada na infância adulta, aquela de cultivar molduras infantis de personalidade. Até por isso, sua próxima tatuagem será temática, homenageando “A hora da aventura”. Acho digno, até por que, se eu fosse definir o universo de concepções subjetivas dela, seria o desse desenho. Ele traz criaturas sem eira nem beira, infantilizadas, mas ao mesmo tempo irônicas e bagunceiras. É um universo de crianças que fazem adultices que influencia os adultos a fazerem criancices.

A grande figura de admiração de ursa é a mãe-ursa. É uma figura guerreira dentro de sua luta solitária, além de instruída e muito educada. De sua mãe ela puxou o TOC da arrumação e também a mania de bater o pé na quina das coisas. Outra figura que diz muito sobre quem é a ursa é o seu cãozinho Jack Black. Ele parece meio bravo, meio ogro, mas adora brincar. É daqueles que se intrometem na conversa dos adultos com uma bolinha vermelha querendo forçar a brincadeira. É carente de cutucar o dono ou de derrubar objetos de estimação pra chamar a atenção. Nas horas vagas, Jack gosta de copular com uma lagartixa de pelúcia.

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Olhando rapidamente pra ursa, não é difícil lhe arrumar apelidos que remetam a bichinhos fofos & ferozes do universo do cinema. Eu tenho a certeza de que em outra encarnação ela foi um dos Ewox do Star Wars ou uma das criaturas do filme “Onde vivem os monstros” de Spike jonze ou uma alegoria na linha “L’Enfant Terrible” em plena fúria etílica. A pelúcia que se rebelou, a menina que era cavala na aula de educação física e arrumava briga no handebol até um dia virar discípula de Jedi. A única pessoa capaz de me convencer a ver filmes de super-herói.

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Às vezes eu dou bronca nela, ela não gosta e me aponta o sabre de luz de duas lâminas. Mas as relações humanas não acontecem no isolamento, tudo é sobre como gente se sente perto do outro, e perto dela, eu sinto uma sensação que eu não sinto com quase ninguém: sou um pouco pai. O papo está bom, mas a Ursa está cozinhando um macarrão alho e olho pra mim, e até o aspecto do macarrão é meio ogro, sabe aquela deliciosa gororoba que você taca no prato ao invés de servir? Estava delicioso, muito mesmo. E a gente se despede com um abraço giratório falando de uma próxima vez, um gancho para o próximo filme da franquia. Coming soon.