Juliana Cunha e a faísca do ódio produtivo

Sou leitor dessa moça de longa data. E isso nem é importante. O importante é que a figura Juliana Cunha me desperta uma colateretalidade esquisita, faz com que eu concorde com ela mesmo que o que ela defenda diga a respeito a mim – e não seja bom. Acho ela forçosamente polêmica, tacanha, mimada, inteligentíssima, articulada, valente. Temos amigos em comum e ouço versões diferentes sobre ela. Assim como ouvimos de Caetano Veloso. Um gênio antipático e subversivo. E  existe ela, e sua escrita maligna, intolerante, justiceira, sarcástica aos justiceiros.

Como Facundo disse dia desses, o que importa é o palco, a dramaticidade humana, isso é a graça, independente da razão, independente da razão (2 vezes)… E ela é craque nisso. É aquela pessoa que pega algo consagradinho pelos descolados, silenciosa observa os aplausos, e entra no fim da festa batendo uma palminha irônica e devagar, cheia de um veneno capaz de levar a baixo os confetes dantes ajogalhados na cerimônia. A ironia de tudo: ela é descoladinha, nas palavras, nos enfeites, na feição arisca, é uma hipster anti-hipsters; nada mais comum.

Juliana é minha grande figura de influência na internet, não por estar sempre certa, mas por me parecer altamente paradoxal e niilista, como Woddy Allen. É por essa figura que sou fascinado, essa moça que na ficção me parece uma artista anti-social, que odeia o próprio interlocutor, mas não subestima a sua importância, na verdade subestima, e pra mim essa é a graça. Aquela moça que soltava todas as suas garras no programa “Cacete armado”, que incomodava os coronéis de Salvador e as freiras de Soterópolis e que passou a incomodar a internet gourmet brasileira, com suas desconfianças de progressista radical e o seu jeito ogro de zineira blasê.

Se você for descolado e tiver muitos likes, algum dia será alvo dela, é um território inevitável e eu nem acho tão ruim assim, é como um batizado, um vestibular simbólico em que o ódio talvez tenha algo de produtivo. Imagino que ela provavelmente leria esse texto cheia de tédio, preguiça e indiferença, e isso é irrelevante. Relevante é existirem Julianas, mulheres que nos influenciam e nos fazem pensar sem pedir permissão. Existem cercadinhos interessantes na internet e isso é o que ainda me faz ficar, gosto de pisar nas terras desse cercado quase como um forasteiro abobado, esse cercado de Juliana, em que ninguém está a salvo, ninguém é unanimidade, nem Juliana.