Joquei – Matilde Campilho

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Talvez você tenha razão Matilde: o ace no Ping-Pong talvez seja a e-x-a-t-a definição do amor. A bolinha pinga na superfície do oponente sem encontrar resistência, relutância, ela ultrapassa o escudo sem permissão. Mesmo que o oponente tente, a velocidade do golpe parece aliada ao mistério do ar e não há o que fazer, a raquete resiste em vão. Os olhos perderam para o inevitável da distração.

Seu livro Jóquei possui a calmaria dos portos de chegada, há um novo registro no quebrar de regras ou de ondas. Um pensamento que mal se acaba e já é sobreposto por outro, que vem com pressa calma, tintando e bordando com capricho um atropelamento gentil e irregular. Anacolutos que acendem diversas tomadas de percepção, não sabemos quando você volta atrás, nem como você atravessou a rua. Você está onde seu corpo foi, como alguém que se assiste sem entender as regras de trânsito, como um cinema sem edição nem paradeiro. Ou uma criança que conta uma história sem organizar o fluxo de ideias, sem tomar cuidado para que o outro se sinta confortável como ouvinte.

Talvez a vida possa ser engraçada como um teste de Nicolas Cage para fazer o Batman, não sei. Sei apenas que as ondas mais inesperadas atacam nossos rostos quando ainda estamos nos recuperando do ultimo caldo. Estamos ainda de olhos fechados e o sal marrom invade nossas narinas e pirateia o controle nasal. Enquanto isso, Lisboa e Rio de Janeiro se beijam em um banco sem encosto, a três quadras do Arpoador. Alguns presenciam a cena enquanto outros apenas passam sem nem perceber a rima, estão entretidos com a liquidação de frutas cultivadas com métodos da América Central. Sei que o observador é também observado por alguém. Alguém que sabe dos fiapos de roupa residuais esquecidos em umbigos artesianos.

Matilde, quero lhe confidenciar um segredo. Não sei cortar frutas muito pequenas. Tento ser artista com a faca, mas ela sempre rouba partes aproveitáveis e reduz a extração das fatias uteis ao paladar. Uma fruta sem meu corte poderia ser muito maior. Eu jogo partes importantes fora e tenho dó, sinto culpa, estrago tudo com violência. Passei a vida prestando atenção no que me diziam sobre o lado difícil, foi assim que nunca soube nada sobre o fácil. O fácil talvez tenha um gosto de kiwi amarelo, não sei, estou chutando. Fácil é pensar que você talvez nem exista.

Eu uso muito a palavra talvez, porque gosto da incerteza. Usar talvez é  talvez uma forma de dizer que posso mudar de ideia e que eu não decido pelas coisas, elas é que se decidem enquanto as observo. Talvez seja o meu disfarce de humilde. Esse disfarce me deixa mudar de ideia, é mais leve do que a certeza. A certeza nos agarra e não quer soltar, exige que a gente brigue por ela e eu não gosto de tomar murros de graça. Um murro na cara é como uma tatuagem que a gente se arrepende. O talvez tem um pouco de surpresa dentro, é uma porta encostada, da pra desviar do murro. Ter certeza pode ser apenas uma pirraça moral, é pra quem não confia num inocente portão e prefere morar em um condomínio por achar que o mundo anda perigoso demais.

Outra coisa é que as canetas sempre acabam na minha mão. Sabe o último ato da última tinta? Aquela que falha no meio do rasbico. Depois que uma caneta acaba, sempre tentamos reanimá-la e então rabiscamos o branco sem enxergar o caminho da tentativa, mas ficam cicatrizes no papel. A vida é cheia desses papeis com riscos legitimados pela força e não pela tinta. Mas será que achar que as canetas sempre acabam em mim não é um tipo de mania de perseguição? Sei apenas que reparo bem em qual palavra a caneta acaba, isso talvez seja mais revelador do que a minha Lua em Leão. Quando a tinta para de sangrar e o azul cessa no papel, parece que algo se cala como uma tosse de interrupção, talvez essa seja a grande vírgula do escritor. E tenho mais indagações. Por que as professoras do colégio usam canetas de tinta vermelha para corrigir as provas? Não seria algo sádico fazer observações hostis com cores passionais? Como se a cor do sangue ameaçasse o pobre do aluno, como se o vermelho tivesse uma permissão imperativa sobre o azul. Talvez exista uma hierarquia no mundo das cores sem que a gente saiba. Não sei. Talvez. No mundo humano, isso acontece, as pessoas infelizmente inventam isso para a cor de pele. Aliás, a cor de pele é a cor mais preconceituosa da cartela do lápis de cor.

Seu livro me desperta uma amnésia e uma dissimulação pra lá de interessante. Muitas vezes eu finjo que entendi o que você quis dizer e eu sei que você me perdoa por isso. Nos livros isso é permitido. Um livro não tem uma caixa de comentários com gente mal educada sem noções básicas de interpretação de texto. Já na parte da amnésia existe também uma porção de coisas que não sei, aprendo e esqueço de novo, como a tartaruga do Nemo. As regras do impedimento no futebol por exemplo. Eu sempre sei, mas na hora h esqueço e jamais conseguirei explicar para alguém por mais fácil que isso seja. E eu não quero saber como é o certo, eu posso aprender quando necessário e então esquecer depois. Existem palavras que a gente sabe o que querem dizer sem que a gente saiba explicá-las. Eu não sei nenhum poema de cor, mas tenho aqui dentro uma coleção deles, e isso importa mais pra mim, me importa a sensação da epifania e não o que ela é.

Jóquei é até então o maior alvoroço literário do meu ano, é do tipo que só vai parar em mãos de gente especial. E eu pouco me importo se você for apenas mais um ser cheio de ego lendo mais um elogio entre tantos sentado na privada matinal. Fingir que você não existe me acalma um tanto e disso finjo que não existo também. A beleza da literatura está nesse cruzamento de inexistências, é um duelo sem mãos. Em algum lugar do espaço-tempo a gente se encosta, mesmo sem existir, sem que eu te agradeça por nada, sem amor com nota fiscal, e isso talvez seja a própria filosofia do amor. Talvez.