Quando somos iguais perante a lua.

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Poucas coisas são tão subjetivas quanto o conceito de amizade. E hoje, no “dia do amigo”, fiquei pensando num papo de Whatsapp de dias atrás com uma amiga (?). Falei que gostava do fato de ter alguém de todos os tipos para conversar, de “colecionar pessoas” e panz. Ela retrucou que não entendia essa coisa minha de ter mil amigos, que isso parecia muito impessoal, que ela tinha tipo dois amigos.

Eu respondi: “eu num tenho mil amigos. E colecionar pessoas não é o mesmo que amigos. Amigo nem sempre tem o melhor conselho. Se abrir com quem você não conhece às vezes pode acarretar muito mais intimidade do que com um amigo que você conhece há anos. É diferente esbanjar queridismo de saber que o mundo é cheio de gente que pode te ajudar sem mal te conhecer. A conexão a meu ver num precisa de rótulos. Ter amigos é uma propriedade inventada acho eu, é um cercadinho em que você deposita expectativas e negociações de espaço. Enfim, a gente inventa os requisitos pra chamar alguém de amigo…”

Disse que meu ponto de vista era um pouco desprogramado do padrão e que eu também tinha uns cinco amigos e mais um tanto de pessoas que eu poderia contar em uma situação e não em outra. Quanta gente eu já chamei de amigo e hoje num sei nem se ta casada, solteira, doente, VIVA. Mas naquele momento era o que eu sentia, era a palavra que definia aquilo, talvez num seja mais, ou como diria uma antiga amiga “tudo o que era nunca foi”. Nós vivemos em uma esteira temporal: entra gente, sai gente. E o lance é que a coleira do tempo acaba atrapalhando essa definição, já que as mudanças de espaço acontecem e geralmente e elas definem afastamentos e aproximações. E não existe isso de recusar um novo amigo porque jurou fidelidade ao outro.

Voltando a teoria do cercadinho, eu cada vez mais tenho indícios de que a subjetividade é uma (des)garantia para que a gente “rotule” alguém como amigo ou não, já que no momento em que essa pessoa avançar e descumprir as regras do seu cercadinho de expectativas estabelecidas, ela pode botar o seu posto a perder.

Ultimamente um dos meus grandes critérios para chamar alguém de amigo é ter o beneficio do não. O beneficio de furar (avisando) num dia em que eu não estou legal.  De não poder ser padrinho de casamento porque já tinha uma viagem marcada que também é muito importante pra mim. O beneficio de não ir numa colação de grau por achar boring ver um monte de playmobil recebendo um tubo de papel durante horas, para finalmente ver o playmobil que me interessa subir uma escada e também pegar esse tal tubo – e tudo durar coisa de um minuto. Acho uma verdadeira prova de amizade quem comparece a esse tipo de cerimônia, mas não acho que não ir seja o avesso disso.

Ao mesmo tempo, acho que pessoas que sempre dizem ”não”,” não posso”, “não sei” também não estão lá muito interessadas na minha companhia – e tempo não é desculpa. E eu tento, uma, duas , três vezes e depois paro de insistir. Acontece também de você adorar alguém, e essa pessoa um dia, depois de muito tempo, simplesmente te virar a cara sem mais nem menos numa festa. Se eu tenho a certeza de que não fiz absolutamente nada pra pessoa (e olha que eu sou bem paranóico com suposições), o adeus infelizmente já está implícito nesse tipo de atitude, pelo menos da minha parte. Eu deixo ir, mesmo que isso pareça orgulho. Acho que o carinho tem uma fluidez, você não tem que insistir nem implorar, ele apenas existe.

 

Diante desse conceito de (des)propriedade, eu talvez não tenha amigos e sim esteja amigo. Essas 2187 pessoas que numeram o meu placar de amigos no Facebook são apenas uma tarja imaginária sem nenhum valor concreto. É apenas um disfarce pra mostrar que eu não sou tão sozinho assim. Eu devo conhecer umas 500 pessoas dessas, o “resto” são leitores ou pessoas que leio e adicionei para ter informações privilegiadas. Dessas 500 pessoas que eu conheço, 200 delas eu devo ter visto no máximo 3 vezes: na primeira eu conheci e nas outras duas eu mudei de rota na rua para que elas não me vissem. Das 300 que sobram, 200 são colegas de Workshop, ou épocas bem legais, gente que sentou por anos na carteira de trás e até já me passou cola nas provas bimestrais. Ver como elas estão diariamente é uma forma de saber que elas ainda existem e lembrar da minha história e sem elas não há história.

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Daí sobra uns 100 malucos. Entre colegas, pessoas queridas, gente que iria ao meu enterro, gente que já tomei porre e já chamei pra reunião da Monavie. 50 delas provavelmente são pessoas que topam fazer algo em cima da hora, que não ligam pro fato deu não tomar cerveja, que apesar de diferentes de mim, topam dividir calorias e conversas comigo e sabem muito sobre quem eu sou ou acho que sou. Elas provavelmente sabem dividir uma conversa sem roubar assunto, porque ao contrario eu já devo ter dito pra elas que não gosto de monólogo, gosto de dizer e de ouvir. Desses 50, uns 30 já devem ter vindo aqui em casa e conhecido o meu quarto de marciano, e sabem de cor o nome dos meus pais.

Desses 30 existe um bioma cheio de corações telúricos e abraços de diferentes temperaturas. Quando estamos juntos somos todos iguais perante a lua. Tem primas que foram além do sangue e amigas de prédio que eu não abro mão. Tem evangélicos ponderados e musas do poli dancing. Tem potentes atrizes e ativistas do projeto Tamar. Tem fotógrafos variados e cinéfilas de All Star. Tem pedagogas feministas e historiadoras luso-brasileiras. Tem médicos carismáticos e terapeutas mackenzistas . Tem cozinheiras de acampamento e defensoras de gatos. Tem futuras mamães e poderosas xamãs. Tem amantes de cherry coke e gente de Itanhaém e de São José dos Campos.Tem fadas madrinhas e viajantes que verei no futuro. Tem comunistas fanáticas e leitores da Veja. Tem designers ariscas e mestres anciões.  Tem pera, uva, tem novela e tem cinema. E que bom…  tem gente pra eu discordar, apesar…

E tem gente que eu ainda nem conheço. É que a estrada tem esse cheiro de novo e é cheia de oferendas imprevistas para cada doravante. E é por isso eu olho pra frente, e que bom que ao lado tem sempre gente.

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