Desculpe, mudei de ideia e esqueci de avisar

recicle-se

Em um dos meus últimos textos, escrevi sobre a volubilidade e a suposta conversão vupt de quem praticava homofobia há alguns anos e de repente estava de arcoíro pagando de legal no Facebook no assunto já “obsoleto” sobre a legalização do casamento gay nos EUA. Na caixa de comentários, uma amiga me alertou sobre algo que confesso não ter refletido sobre antes: “…tem mesmo coisas que pensamos e temos vergonha de admitir,mas avisar que mudamos de opinião também é difícil”. Fiquei com isso na cabeça, visto que as Redes sociais são apenas sínteses cotidianas e que ninguém é obrigado a mandar notificações vermelhinhas pra avisar que mudou de ideia.

Nossas certezas passam diariamente por uma esteira cotidiana que nos fuzila com todo tipo de informação. Mas, como sabemos, os algoritmos de Zuckenberg “facilitam” essas direções já que as pessoas as quais lemos com frequência, aparecem mais em nosso mural, sendo assim, somos estimulados a concordar mais com quem já concordamos.

Fiquei pensando em diversas situações em que eu mudei de ideia, situações em que fui preconceituoso e que alguém interveio e me apontou um novo remo com cuidado (ou não) e me fez cantar Luka: Aceitei os meus erros, me reinventei e virei à página”.  Situações em que eu tive o direito de mudar de opinião sem avisar. Acho que expor esses pontos de virada nesse texto, facilita a compreensão de quem fica acanhado em parecer contraditório por ter se colocado nessa linha transitória. Talvez seja um pouco delicado fazer isso, mas dentro do nosso blog, na nossa casa, da pra abrir o coração e olhar no olho mágico pra ver se quem está do outro lado querendo apenas te metralhar ou está pensando de verdade sobre o seu ponto. Então vou me colocar no meio do tiroteio falando sobre algumas situações em que eu fui opressor e depois mudei de ideia, um making of dos meus preconceitos desconstruídos. Porque tão importante quanto denunciar o preconceito do outro talvez seja mostrar a ele como você se limpou de (alguns) dos seus.

Sim, eu já fui misógino.

Todo mundo deve ter um post em que já se arrependeu no Facebook, eu tenho vários. Uma vez, postei que tinha adorado um capítulo da novela “Salve Jorge” em que a personagem Vanda (Totia Meirelles)  – líder do núcleo que traficava mulheres para a Turquia – apanhava da protagonista oprimida. Tudo bem que quando um vilão toma uma surra, acaba lavando a alma do espectador, lembrando também que nesse caso, ela havia apanhado de uma mulher. Mas ainda assim, a imagem em si, remetia a uma mulher apanhando, seja lá de quem for. Desconfio até hoje que exaltar uma mulher apanhando, mesmo que de mentirinha, guarde lá no fundo, um resíduo de misoginia, da qual eu tanto tenho nojo e critico. E que bom que eu mudei de ideia, mas não avisei ninguém sobre essa minha percepção.

Sim, eu já fui capacitista.

Assistindo à segunda edição do Masterchef me peguei torcendo pela candidata que tinha apenas uma mão. Fui descobrir o que era capacitismo depois disso. Mentalmente, me veio inclusive uma piadinha bem maldosa sobre a sua condição, mas não vou reproduzi-la aqui por pura vergonha de ter pensado nela. Sim, ser politicamente correto é escolher não ser engraçado e reforçar uma agressão bem humorada, não é não pensar nesse tipo de piada, mas escolher não reproduzi-la, o pensamento é uma correnteza que às vezes ultrapassa os nossos impedimentos, mas tentar impedir, nunca é algo descartável. Tratar pessoas deficientes como não iguais, menos humanas. E não estou nem falando sobre tratar mal, mas usar aquela pessoa como um objeto de inspiração conveniente, como se você fosse simpático à causa dela por uma compaixão disfarçada de admiração. Sem perceber você pode estar tratando-a como subordinada, hierarquizando a relação subjetivamente. Olhar essas pessoas como desamparadas e decidir que elas são dependentes, assexuadas, carentes, economicamente improdutivas, fisicamente limitadas. Resumindo: é dar a mão para ajudar um cego sem que ele tenha pedido. E que bom que mudei de ideia, mas não avisei a candidata eliminada sobre isso.

Sim, eu já quis devolver uma ofensa preconceituosa com outro tipo de preconceito.

Dia desses vi uma reportagem sobre uma troca de farpas desnecessária em algum desses portais de fofoca. A jornalista Fabiola Reipert publicou uma nota maldosa dizendo que a atriz Sophia Abraão estava apostando na carreira de cantora porque não tinha engrenado como atriz. Furiosa, a atriz chamou Fabíola de gorda em seu Twitter. Fiquei bastante enfurecido pela declaração gordofóbica da atriz e armei um tweet provocativo dizendo: “Sophia gordofóbica Abraão, baixa a bola porque quem nasceu pra Malhação jamais chegara aos pés do cigano Igor.” Nessa humorada frase eu estava dizendo que uma mulher bonita no padrão do senso comum estava fadada a participar de uma novelinha adolescente por conta da sua superficialidade. Não sei se fiz bem em não mandar esse tweet, mas na dúvida preferi não ser uma dessas pessoas que ataca a incompetência política de Dilma colando adesivos de deboche machista no carro ou responde ao racismo da torcedora do Grêmio chamando-a de puta. Não sei se foi bom mudar de ideia, mas ninguém soube desse meu tweet.

Sim, eu já fui lesbofóbico.

Uma amiga me contou que depois de muito tempo, tinha se descoberto/aceitado lésbica. Esse fato causou nela uma transformação visual, ela deixou de gostar de batom e roupas de estereótipo feminino porque percebia que adotar novos códigos visuais a ajudava a ser notada em ambientes com mulheres que se interessavam por mulheres. E eu super dei força, apoiei, mas soltei um comentário desnecessário: “Nossa que bacana tudo isso, mas você não vai ficar tipo Tamy né?” E como eu me arrependo de ter dito isso, como se ela não tivesse o direito de adotar o visual que bem entendesse, como se eu tivesse algum direito em opinar sobre a sua identidade – no como ela se sente. E que bom que eu mudei de ideia, e eu torço para que ela leia isso como um pedido de desculpas.

Sim, eu já fui machista.

Na viagem que fiz ao Havaí, conheci uma linda loira brasileira chamada Lívia que me contou que trabalhava como advogada. Eu, quase que de supetão, achando que aquilo era um elogio disse: “Nossa, uma mulher tão linda trabalhando de advogada, por que você não tenta ser modelo.”? Nesse caso, logo em seguida, me dei conta do que havia dito sem pensar, e logo pedi desculpas a ela. Foi uma declaração infeliz e leviana, eu fetichizei a figura de uma mulher negando nela suas outras capacidades além da sua aparência.  Mas foi maravilhoso me dar conta disso logo em seguida. Mostrou que eu estava desenvolvendo a capacidade de me policiar, de voltar atrás, de enxergar como algumas estruturas funcionavam na minha mente sem que eu percebesse. E que bom que eu mudei de ideia, mas nesse caso, deu tempo de avisar a Lívia sobre isso.

Sim, eu já fui elitista.

Eu trabalhava como garçom no Outback e atendi um casal em que o namorado pediu a namorada em casamento oferecendo um chocolate Cacau Show. Achei aquilo cafona e na cozinha soltei o seguinte comentário: “Afe, um cliente pediu a namorada em casamento com um bombom Cacau show, pelo amor, dá algo da Kopenhagen ou num dá nada.” Na hora uma amiga chamada Pérola <3, me censurou e disse que não via problema nisso, que nem todo mundo tinha dinheiro pra comprar um chocolate da kopenhagen. Fiquei bravo com ela na hora, e disse que eu estava me referindo à qualidade do chocolate, mas cá pra nós, não, eu não estava. E que bom que eu mudei de ideia, mas não avisei à Pérola.

Sim eu já fui elitista, de novo.

Mais uma vez a grata experiência que tive como garçom me ajudou a enxergar outro valor torto que eu tinha. Disse a uma amiga que odiava quando um cliente tratava as pessoas feito empregada doméstica. E minha amiga replicou: “Mas qual o problema de ser empregada doméstica?” Primeira reação: fiquei bravo com a minha amiga. Obviamente, a pessoa que te censura sempre vai parecer uma estraga prazer. É muito comum usarmos o termo “secretaria do lar”, “ajudante”, “a moça que trabalha em casa” para minimizar a “gravidade” de ser uma empregada. Talvez seja pelo preconceito que se tem com o trabalho braçal no Brasil que remete inconscientemente a um trabalho “menos digno”, algo que no período colonial “não era tarefa de branco.” O termo empregada foi ganhando uma conotação negativa ao longo do tempo, mas se você isolar o termo sem pensar em seus desdobramentos, ele remete apenas a alguém que responde à um empregador, que no caso é você. Outra hipótese é a censura inconsciente, como se você soubesse do descaso com que muitas empregadas são tratadas e de certa forma aplique a tal gravidade no termo “empregada” como se o termo justificasse a ação e não o contrário. E que bom que eu mudei de ideia, mas não deu pra avisar a Mariana.

Sim, eu fui elitista há duas semanas atrás.

Com a morte do cantor Cristiano Araújo, muitas pessoas fizeram posts engraçadinhos sobre não conhecerem o cantor. Muitas delas, estavam dizendo apenas isso e eu num vejo problema em quem não o conhecia, mas muitas outras estavam sendo um tanto irônicas em uma leitura das entrelinhas dessa afirmação. É como se o fato delas não o conhecerem fosse um atestado de superioridade cultural, como se a cegueira sobre o mundo da música popular fosse uma tarja de descontaminação em relação ao que é tido pela elite como “não cool”. Eu não postei nada a respeito disso, mas dei like em muitas publicações sobre quem não sabia quem era o cantor. E eu não posso aqui apontar quem foi irônico e quem não, mas não existe apenas o post contaminado, existe também o like contaminado. E eu que vivo defendendo a democracia musical, me dei conta de que o meu like tinha malícia sim. E que bom que eu mudei de ideia, mas é melhor nem avisar, tenho medo de fãs violentos.

Sim, eu já julguei quem mudou de ideia.

Uma amiga fervorosamente militante de várias causas de esquerda e que já contribuiu diversas vezes para que eu mudasse de ideia sobre algo, inicialmente defendeu Marina Silva na eleição para presidente e depois, diante de algumas atitudes e posturas da candidata voltou atrás e fez um post em que a criticava, “justificando” a sua mudança de ponto de vista. Essa mesma amiga, também achava o Lobão legal, espontâneo, mas ele começou a dizer muita abobrinha publicamente e logicamente ela mudou de ideia. Inicialmente pensei: “Bom, ela é daquelas que mostram certa independência dos consensos unânimes, mas se ela é tão segura do que pensa, qual é a dela em querer mudar de ideia e ainda se justificar publicamente? Depois, refleti um pouco mais e pensei que eram justamente pessoas como ela que me agradavam em postura. Capazes de olhar pro outro lado sem contaminação, capazes de criticar também o próprio lado e principalmente: sabem voltar atrás. E que bom que eu mudei de ideia sobre quem muda de ideia.

Tenho uma amiga que possui um corpo que destoa do padrão, mas que vive reproduzindo discursos gordofóbicos, e ninguém conta a ela as piadinhas que fazem sobre o seu corpo sem que ela saiba. Eu escolho não contar, escolho não ser o porta voz de algo que vai entristecê-la. Você pode defender alguém sem contar a essa pessoa, acho isso um favor genuíno que você faz a quem gosta, prefiro mostrar como eu mudei de ideia sobre o assunto (já que eu sempre vivi brigando com a balança) ao invés de portar o veneno até ela. Mesmo sabendo que pelas costas ela me critica, que ela me acha chato, insistente, que ela sente preguiça do meu discurso (que ironicamente defende ela também), mesmo que ela nunca saiba que além de agressora é também a vítima.

 

Esse texto não é apologético ao preconceito, ele visa mostrar quando as minhas válvulas giraram, assim como aconteceu, acontece e vai acontecer com as suas. Citei aqui algumas situações sutis em que me dei conta de como funcionam os preconceitos que ultrapassam o meu filtro de mansinho e são inocentemente lançados no meu cotidiano. Claro que eu já reproduzi diversos discursos aos quais eu mesmo sou o oprimido, o preconceito é sempre feito de hospedeiros, e ninguém está livre de ser um, mesmo sendo a parte agredida. E ao longo da vida vou descobrir vários outros, e vou passar vergonha, e alguém vai me avisar, ou por sorte lerei sobre ele em algum texto, e eu vou fazer questão de olhar pra ele, mesmo que não na frente de quem me avisou. O eu já “fui” também é pura proteção minha, é um medo de voltar a ter, porque às vezes eles voltam e eu espero estar preparado para perceber, e enfrentar de novo e depois de novo se preciso for.

 

coração