Solidários X impostores: o dia em que o Facebook virou arco-íris

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Por Eduardo Benesi

Hoje, 26 de Junho de 2015, foi um dia bastante relevante para a causa LGBTQIA . A legalização da união entre pessoas do mesmo sexo nos EUA contagiou a nação Facebook. Embora alguns militantes tenham torcido o nariz por ser uma louvação “importada” dos EUA, penso que existem momentos em que macroteorias supraintelectuais devem ficar em standby e deve-se olhar pro sub-impacto gerado por ela, mal ou bem, mesmo que de forma suspeita, muita gente fez questão de se solidarizar, e não foram poucas. Nessa brincadeira de deixar a foto de perfil no rainbow mode, o que de mais curioso observei foram pessoas que há 5, 10 anos atrás frequentavam a mesma roda que eu, e reproduziam discursos homofóbicos, eram maldosas, debochavam e oprimiam da forma mais cruel quem “dava pinta”. Rodas essas que faço questão de não frequentar e ter o menor tipo de contato, mas por falta de tempo para uma boa limpeza, alguns poucos ainda estão no meu Facebook. Olhava alguns prováveis impostores e me vinha um sentimento intolerante, como se aquelas pessoas não tivessem o direito de ter mudado, mas logo me veio o gênio Alain de Botton e sua brilhante frase na mente: “Qualquer um que não se sinta envergonhado por quem era no ano passado, provavelmente não está aprendendo o suficiente.”

No título desse texto, por uma questão de compreensão e polaridade de palavras, usei a expressão impostor, mas o termo adequado para prosseguir com o meu pensamento é “cúmplice”. Sempre os vejo por todos os lados. Tóxicos. Imprevisíveis. Vão, apenas vão. Daí o perigo. Entre alguém sem caráter e alguém mau caráter, eu sempre tive mais receio do primeiro caso. Nunca sabemos o que esperar de alguém sem caráter. O cúmplice sempre se agrupa em quantidades, endossa o coro, legitima uma ordem camarada vinda de cima. Aquela frase: “quando duas pessoas concordam em tudo, uma delas está pensando pelas duas”. Conheci os primeiros cúmplices no ambiente escolar. São os que riem do líder cômico, do dono do pedaço, são eles que justificam a gozação ao dar uma risada assentida, sem contar os lamentáveis episódios em que até o professor entra na onda. A hostilidade em forma de riso parece menos culpada. São como pragas de reprodução que consentem a opressão para se protegerem, para não serem os oprimidos. Tão consideráveis quanto o soro de um creme de leite, tão autônomos quanto o coelho Sansão da Mônica, tão afetuosos que riem de toda e qualquer piada maldosa no chat do Whatsapp.

“O riso traça uma hierarquia entre aquele que ri e aquilo que é risível, como forma de desumanizá-lo. Se dizemos que é preciso refletir sobre isso, se dizemos que dói, o mínimo que aqueles que não compartilham as nossas vivências precisam fazer é escutar. Volto a dizer: “um inimigo é alguém a quem se nega o direito de contar a sua história”. Daniela Lima

Peguemos o personagem Zelig do mockumentary dirigido por Woody Allen. Um homem de comportamento camaleônico, que apresenta um estranho distúrbio. Transforma-se em todos que estão por perto. Muda de cor de pele, de feição, de comportamento. Em uma sessão de hipnose, quando perguntado sobre o motivo de seu sintoma, responde algo do tipo: “faço isso porque me sinto mais seguro”. É um anseio por aprovação, ele se adéqua ao outro para se proteger. O fato é que existem vários Zeligs por aí. Abraçam a cópia por puro desejo de aceitação. O grande problema é que dos cúmplices ninguém nunca lembra, mas hoje eu resolvi lembrar. São clientes perigosos, compram todo e qualquer discurso em que o único critério seletivo é agradar a maioria. Olhe ao redor, há cúmplices à direita e à esquerda e eu lamento pelas vezes em que fui cúmplice sem ter percebido e lamento por quem nem sabe que é. Voltando ao filme, através de um tratamento para combater seus sintomas, Zelig colateralmente vai desenvolvendo uma auto-estima demasiadamente elevada. Passa a agir com intolerância socialmente. Rejeita a razão do outro. Talvez seja assim que funcione essa divisão de extremos. O cúmplice e o reativo. Obviamente, adotar flexibilidade é um bom caminho, mas é difícil encontrar  moradia nessa diferenciação entre flexibilidade e alienação. a minha hipótese é que pensar sobre isso, talvez seja a própria morada flexível.

Penso que numa data tão cheia de significados, seja válido refletir se você realmente apoia a causa ou é apenas um oportunista que topou brincar do meme do dia. Se por acaso, você não tem nada contra gays/ desde que o seu filho não seja/ ama o pecador mas não o pecado/ desde que eles não troquem carinho em público/ desde que eles não sejam afeminados ou masculinizadas/ desde que não seja travesti/, eu sinto muito, mas você ainda não entendeu porque está vestido de arco íris.