O Dia Em Que Eu Resolvi Falar Mal Dos Meus Ídolos

cobra

Hoje eu resolvi fazer algo que eu nunca sonhei, mas no fundo sempre tive vontade. Falar mal dos meus ídolos. É… Sabe aquela dorzinha que mistura um pouco de cotovelo com um pouco de orgulho ferido? Aquele seu ressentimento por não ser correspondido? Não, eles não têm absolutamente nada com isso. Nenhum nunca me destratou, ao contrário, a maioria deles foi simpática, atenciosa. É que talvez os nossos ídolos sejam um depósito de expectativa nosso que só se mantém vivo pela não mutualidade. A gente se sente mentalmente no direito de cobrá-los, e pior, ás vezes da um pouco de inveja por não sermos eles. Sim, inveja avulsa, sem o branco junto. Penso que tudo é realmente grave quando a gente finge que não tem. Uma vez que a gente assume que tem, aprendemos a lidar, a minimizar, a desconstruir, mas não hoje. Hoje eu quero despejar tudo o que penso deles, sem citá-los nominalmente e eu espero que eles nunca leiam isso, porque é um baita mico, é um atestado de adoração, é o tipo de post que eu posso apagar a qualquer momento. Não (olha a contradição). Na verdade, a esperança é que algum dia eles leiam, e saibam que existe alguém no mundo que não é indiferente a eles, é que eu acho que a aclamação é também um tipo de indiferença. Você contribui para que a pessoa se esqueça de se sentir comum. O amor devocional enquanto sentimento monolítico é extremamente superficial. O pior de tudo é que o meu egocentrismo intui que ninguém tem mais direitos autorais de admiração sobre eles do que eu. É como se eu fosse o dono do clube, mais do que os outros.

Falar mal de alguém que você admira, num blog que duas ou três pessoas leem, é apenas um exercício autoanalítico, um luxo do anônimo, uma sessão a menos de terapia. Por que eu odeio de tanto que eu amo? Esse é o pretensioso intuito do meu exercício. Botar o amor e o ódio lado a lado sem que isso comprometa alguém que está cagando pro que eu acho. Na verdade, vocês logo irão perceber que eu quase falho em minha nobre intenção. Estou fadado a amá-los, só pode.

Meu terapeuta disse uma vez que todo ídolo está fadado ao adultério do fã. Mesmo os que nos aplaudem, em algum momento irão nos abandonar. É um movimento natural. Ídolos enjoam, ainda mais se te derem muita atenção. Talvez o antídoto para não sofrer por um ídolo seja conhecê-lo melhor, ou deixá-lo bem longe de você. Aliás, foi num livro de um dos ídolos citados nesse texto, que eu achei essa frase de Groucho Marx e que resume bem como funciona a boutique da admiração platônica: “no fim, ninguém quer fazer parte de um clube que o aceite como sócio. Ser aceito é uma coisa que deixa a falta de critérios da instituição muito latente”.

Nesse texto criei a seguinte regra: ficam de fora ídolos mortos ou num patamar muito famoso e longínquo estilo Lena Dunham, Joaquin Phoenix, Xavier Dolan, Meryl Streep, Alain de Botton, ou ídolos que já me “aceitaram” em seus clubes e viraram de fato meus amigos. Citarei 5 “divindades”, lembrando que meus maiores ídolos são de carne e osso. Eu os conheço. Dei um jeito para que eles sempre se lembrem de mim, nem que seja só pelo meu avatar do Facebook. Ufa, meus ídolos sabem que eu existo. Talvez essa seja uma maneira hábil de exercer meu lado contestador em relação à religiosidade. Saber que os deuses que venero podem falhar a qualquer momento, que frequentam o banheiro, e estão a um toque da crueldade dos meus dedos – sobre as teclas.

São eles:

1-      A bela menina do acordeon.

2-      A poetisa que sente febre de cor azul.

3-      O guru dos desajustados.

4-      A maldosa blogueira descolada anti-descolados.

5-      O roteirista que rouba palavras da minha boca sem ter roubado.

 

1-      A Bela do Acordeon hoje me chama de amigo. E isso às vezes me assusta. “Como ela está aqui, tão perto?” Eu a olho e fico pensando no momento em que ela vai dizer que estamos em um filme, e alguém vai interromper a cena dizendo “corta”. Já disse a ela que se eu fosse diretor, ela seria a protagonista de todos os meus filmes. Sabe alguém criativamente inteligente, interessante, surpreendente e que pra piorar tem uma fotogenia capaz de ultrapassar a foto e fazer com que o mundo real seja a imagem e não mais ela? Eu já vi os caras mais cobiçados da terra olharem uma foto dela e ficarem completamente hipnotizados. Eu acordo todos os dias pensando: “Será que tem algum post dela?” “Alguma mensagem no zapzap ou alguma chance dela me chamar pra fazer algo?” Já cheguei ao ponto de não ir a um encontro com ela pelo simples fato de dar muita bandeira com a minha empolgação pelo convite, e bancar o ridículo. O que me incomoda nela é o fato dela saber que é uma deusa, mas nunca dizer isso em alto e bom tom. Quem ousaria se autoproclamar Deus(a) no mundo da falsa modéstia? Amo e odeio a coisa dela não ser óbvia, nem ludibriada, nem vaidosa, mas ao mesmo tempo ser tudo isso. Porque ela simplesmente sabe o que ela é. Ela sabe que as escadas por onde ela passa sempre inventarão mais um degrau. Odeio, porque ela sabe. Todo diretor está fadado a se apaixonar por ela, dane-se a personagem. Em sua nuca está desenhado o infinito, e é bem a verdade. Às vezes, fico em dúvida se ela no fundo é a mulher que eu casaria ou a mulher que eu gostaria de ser. Se ela é Deusa ou se é Diva. E às vezes tento ficar longe, mesmo querendo estar muito perto. Porque ela sabe de tudo, eu entrego mesmo sem dizer e talvez a assuste essa admiração toda. Ela é um frio na barriga que eu torço para que nunca passe. Torço por ela a cada vez que a vejo na revista, no comercial de TV, na novela, no teatro, em qualquer lugar. Sabe aquele sorriso solitário que você faz quando torce de verdade por alguém? Por ela foi assim, amor a sétima vista, depois de estudarmos juntos. Foi aos poucos, e de repente, começou a crescer e crescer e crescer e não para.

 

2-      Foi num livro que a enxerguei pela primeira vez. Foi como abrir os olhos dentro de uma água azul, só que sem cloro. Sua escrita fazia curvas inesperadas, cruzamentos de palavras. Suas letras implantavam um fluxo de pensamento que eu jamais tinha tido contato. Ela me apresentou a prosa-poética. Daí fui longe, fui colher cores em cada palavra jogada ao vento. Um dia descobri seu Facebook e então passei a me declarar. Ela foi gentil. Me passou até a senha do seu documentário secreto no Vimeo. O documentário falava sobre sua poetisa predileta. Foi então que eu aprendi que todo ídolo tinha um ídolo e que essa escada era útil para quem caçava nuvens em formatos de animal ou referências abundantes. Foi ela que me apresentou Ana Cristina Cesar. Por um bom tempo interagia em minhas postagens, até um dia parar. Das coisas mais bonitas que me escreveu foi: “Eduardo, quando morei na Inglaterra, fazia exatamente isto: ia à estação de trem/ônibus/metrô e comprava uma passagem na máquina, preferencialmente a mais barata. As cidades aparentemente sem relevância – não constam nas paradas óbvias como a a histórica Cambridge, a libertina Brighton ou a industrial e generosa Manchester – se revelam, se desenham, se escrutinam. Todas as cidades, aliás, são repletas desse material cheio aos olhos e aos ouvidos, resta a nós encontrarmos a capacidade de lê-las fora dos grandes centros. Em Portsmouth, uma cidade à beira do mar, no entanto nem um pouco litorânea, a uma hora e meia de Londres, descobri mais uns tantos pássaros da Inglaterra quanto cabiam as mãos. Aliás, talvez tenha sido em Portsmouth – e não em Londres, veja só – que eu descobri que tenho mais de duas mãos”. Às vezes puxo assunto com ela por inbox, apenas para que ela solte alguma frase com cheiro de sandália Melissa e eu consiga guardá-la sem que o cheiro passe. E claro, não sei se conseguirei falar mal dela. Acho que não. Acho que ela só me irrita por ter me deixado órfão dessa poesia inesperada.

 

3-      Ele é uma força da natureza. Possui seguidores e anti-seguidores. Faz as pessoas abrirem a tampa do egoísmo, e quem aceita a dor, consegue dar a descarga. Ele defende as minorias, tenta uma vida minimalista, e possui um mecenato que contribui com as despropriedades libertadoras de seus textos. Ele é estúpido, mesmo escrevendo com tanta gentileza. Usa uma linguagem tão simples e clara que tudo o que ele quer dizer ganha uma calculada sofisticação. Não há vestido de gala nem poesia em suas frases, mas ao mesmo tempo, há um mundo todo sendo libertado em seu modo de refletir, é um estado de soltura, e algumas mil outras epifanias colaterais. Com ele aprendi que chamar alguém de pseudointelectual é o tipo de acusação que queima não a vítima, mas o emissor. Ele também escreve textos em que se autodeprecia, colocando-se como tudo de pior que um ser humano pode acometer dentro de suas vaidades. É uma ironia da ironia. Por mais que aquilo pareça uma anti-propaganda que catapulta o leitor a acatá-la como ironia, ele é mesmo aquilo tudo. Todos aqueles absurdos que ele diz que é, ele no fundo pensa que não é, mas é, e sabe disso (sim, é confuso esse caminho de 3 curvas). Ele é vaidoso, sabe do seu poder de influência, e articula com maestria uma junção dos desajustados. Possui um clube de ovelhas negras. Eu diria que são as pessoas mais interessantes do universo. Eu e ele já nos conhecemos pessoalmente. Estive com ele em um sítio mágico entre Rio e São Paulo e em lindas casas coloridas de São Paulo. Tenho a sensação de que ele me despreza um pouco. Talvez seja apenas a minha vontade de que ele um dia citasse algo meu, ou fosse menos indiferente a minha admiração. Mas, acho que sei o que é. Somos parecidos na vaidade, e isso já é um bom motivo. Um peixe beta nunca pode dividir o mesmo aquário com outro. A grande lembrança que eu guardo dele, é um jogo de Ping-Pong em que ele ganhou todos os sets de mim. Apenas eu e ele, e o barulho das bolinhas pingando. A cada pingo, eu dizia coisas que ele não ouvia, mas eu estava feliz por estar ali interagindo com o meu ídolo, em meio a onomatopeias de um inocente joguinho de meia hora. Desconfio até que eu tenha entregado o jogo meio que de propósito, por pura louvação ao adversário. Mas disso, nunca saberei. Só sei que ele é um dos heróis da minha vida, e eu o odeio um pouco por isso.

 

 

4-      Eu sou meio obcecado pelo que essa menina escreve. Tem sempre uma ponta cortante em seus textos. Ela nunca está à direita, mas jamais deixa que alguém palpite em qual esquerda ela deve estar, parece ter um pouco de preguiça dos modismos mercadológicos da turma do desapego gourmet. Sua escrita tem algo de maldoso, niilista, mal-humorado. É como se ela fizesse bem a quem lê, sem ser minimamente gentil. Ela nunca faz cafuné em seus textos, mas jamais levanta a voz para provocar. Parece alguém que não sente nada e então, pode falar de tudo. É uma sabedoria parcial que derruba até os seus fiéis. Uma vez ela respondeu a um leitor estúpido dizendo que escritor não era SAC, foi aí que eu entendi que existem leitores que se sentem clientes, querem ler de você coisas que os confortem, e quando isso não acontece, muitos te atacam como se estivessem amparados pelo PROCON, como se o “produto” que você forneceu estivesse vencido. Quando ela está de “bom-humor” faz questão de devolver ofensas ao hater desavisado que avança os dentes em sua timeline. Ela é a pessoa mais descolada que existe, mas tem horror aos descolados. Tem um cãozinho tão lindo e tão solitário no olhar, que às vezes me parece que tudo o que realmente lhe importa no mundo, é ele, além de Woody Allen. Ela nunca facilita os consensos de esquerda. Vai achar uma brecha pra ferir o aplaudido. Esse é o seu jeitinho de brincar, ela espera que todos concordem e vai lá, no meio da festa e derruba o castelo com um sorriso gelado. Ela devia ser aquela criança que estoura a bolinha de sabão antes que a própria bolinha estoure por si. Ela escreve sobre qualquer coisa muito bem. Política, cinema, amenidades. Me ensina que ser generalista permite que as pessoas não te procurem por assuntos específicos, mas que elas enxerguem o próprio escritor. Ela é quem eu procuro na escrita quando quero que alguém me de um soco no estômago sem usar as mãos. Às vezes , eu me lamento por ela não ser apenas minha. Por ela ter como fãs, outros ídolos meus, como o cantor Thiago Pethit. Eu a odeio, mas daria o meu Box do Almodóvar para que ela fosse minha amiga. Quem sabe um dia. Quem sabe nunca!

 

 

5-      Ele talvez tenha escrito a carta mais triste e linda dita em uma peça de teatro. Ganhou-me assim. Dizendo tudo o que eu diria, mas que eu nunca tive a ideia de dizer. Ele inventa quem eu sou, e mesmo quando não sou, eu me torno o que ele pensa. Minha mais profunda satisfação é saber que sempre que ele assistir Joaquin Phoenix possivelmente se lembrará de mim. Ele, assim como eu, sabe do que Joaquin é capaz. Tudo começou no dia em que mandei minha crítica do filme “Her” em seu inbox. Depois disso, diversas sincronicidades aconteceram entre nós, sempre envolvendo algo relacionado a Joaquin. Dos maiores micos que eu já paguei na vida, foi abordá-lo no meio de uma balada para dizer o quanto era seu fã. Eu estava bêbado e ele me chamou pra entrar na roda dele e eu me recusei por excesso de timidez instantânea – mais uma vez por medo de parecer ridículo. Nunca vou me esquecer de outra balada em que ele estava de DJ convidado, usando óculos escuros de armação amarela na cabine de som. Talvez tenha sido a melhor playlist da minha vida. Ele botou Roberto Carlos, Sixpense none the richer e Cardigans. Eu sempre achei Roberto Carlos tão brega quanto Romero Britto, mas ele me fez mudar de ideia – pura massa de manobra. Como um alienado obediente, passei a chamar Roberto de Rei. Seu jeito de escrever tem uma espontaneidade técnica e ao mesmo tempo infantil. Ele é a única pessoa capaz de decidir se eu vou ou não gostar de um filme antes de assisti-lo. É quase uma profecia. Todos os filmes que ele amou eu também amei. Todos os que ele odiou eu odiei depois. Não, não deve ser coincidência. Além de ser o roteirista indie do momento, ele está dirigindo ninguém menos do que Maria Luiza Mendonça fazendo uma releitura de “Um bonde chamado desejo”, aquela atriz deliciosamente maluca, que eu nunca mais vi na televisão, mas que considero uma das 3 melhores do Brasil. Só não sei se eu sempre amei Maria Luiza, ou passei a amá-la depois que ele passou a dirigi-la. O que mais me irrita nele é a sensação dele ter me roubado sensações futuras. Que eu ainda não conheço. Sabe quando alguém teve uma grande ideia e você tem quase certeza que você deveria ter tido essa grande ideia?