Um Bonde Chamado Desejo

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Lá vem ela, loira e pálida, trazendo da rua do passado um bonde de sinos dobrados pelo romance ideal. Blanche “sempre dependeu da bondade de estranhos”. Uma serial lover, a mulher-bandeja, a fina toalha que escorrega em sua própria entrega, chora sonhos feitos de chuva de arroz.

O movimento no palco, sempre circular, o giro vital, a luz que é Sol manual e incide sob a escuridão antevendo a loucura. Toca Beirut enquanto reparo encantado nas melancores de cada figurino. Fico hipnotizado por aquele cenário que é tudo o que a mente disser. Jogar Tetris é a infância do arquiteto. Brincar de montar e desmontar. Dimensionar. Quem sabe mesmo uma casa seja muito menor do que a grandeza potencial dos seres.

Rafael Gomes, esse diretor que me alimenta do pouco-muito em tantas mínimas decisões, que sempre beiram a síntese, sem o sensacionalismo de cores e elementos, faz com que a música desafie qualquer regra temporal e caia amortecida como um vestido branco moderninho. Ele que me faz ser um crítico redundante, que me obriga sempre a elogios da melhor espécie. Sabe ser diplomata do tempo, universaliza um tema, atemporaliza um contexto , faz a colagem dos ponteiros, através apenas de uma música ou uma ousada volta de skate. Remenda os flancos temporais sem que a costura denuncie um acidente repara-dor. Abusa do menos e faz com que eu me comporte em minha loucura incontida em cores. É meu diretor de teatro predileto porque sabe fazer uma informação cheia de arabescos virar uma manchete precisa a cada linha. Um dia eu tomo coragem pra ser criativo e te convido pra uma Coca-Cola. Enquanto isso, venho até aqui e daqui não passo.

Eu já fui Stanley no teatro, e não soube controlar a sua/minha força, passei da conta, embriagado pela fúria covarde da soberania rústica do papel. Marlon Brando, Eduardo Moscovis, Eduardo eu. Quanta distância. O Eduardo do meio, o dessa peça, é quase uma sentença para que eu saiba como eu quero morrer. Quero morrer de arte. O Stanley do meio destila um olhar canibal, e uma postura (dês)lapidada da rigidez Kowalski. Não tenta imitar Brando, não teme a própria versão, ao invés de ser prótese, consegue desbastar sua brutalidade, coloca os pés sobre a mesa impingindo através de sua bazuca ocular.

Maria Luiza Mendonça, ou apenas “Maria, a louca”. Onde vende você para que eu possa comprar? Digo, comprar para ter. Sou consumista por você e sua translucidez. Enxergo-te inteira, como quem não vê neblina. O verde das veias, o coração latente de vermelho, um vermelho-abuso, uma tinta que mancha, uma atriz que é também um ateliê. Te vejo como um rascunho cheio de rabiscos caóticos, de quem prende a respiração e mergulha com elegância . Uma atriz sem fórmulas, mas que sabe de todas elas. No palco esquece estrategicamente dos arbustos intelectuais e faz com que a gente sempre se lembre de você. Não sinto saudade da Buba nem da Amanda, sinto saudade de tudo o que de você ainda virá.

E quem era Virgínia Buckowki? Agora eu sei. Formidável em sua Stella, a personagem gangorra, a mulher que se contenta com a horizontal, esquecida de tudo o que de ruim existe na crueldade vertical. Atriz aorta, uma notável porção noturna no giro de estrelas do céu do palco.

A conclusão, aquela rotação entre dois diferentes planetas, somos nós mundos que convivem e ao mesmo tempo giram em sentidos opostos. A discordância dos corpos em 180 graus. Ao fim, parte da plateia em prantos: suspiros de quem muito quis voltar de si e não pode. “Um bonde chamado desejo” é a peça que nos conta que nem tudo é o fim do trilho, às vezes é só o começo da solidão. De algum lugar, Tennessee Williams traga um charuto agradecendo por isso.

“Há todas as espécies de amor neste mundo, exceto o mesmo amor duas vezes.” Fitzgerald

Solidários X impostores: o dia em que o Facebook virou arco-íris

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Por Eduardo Benesi

Hoje, 26 de Junho de 2015, foi um dia bastante relevante para a causa LGBTQIA . A legalização da união entre pessoas do mesmo sexo nos EUA contagiou a nação Facebook. Embora alguns militantes tenham torcido o nariz por ser uma louvação “importada” dos EUA, penso que existem momentos em que macroteorias supraintelectuais devem ficar em standby e deve-se olhar pro sub-impacto gerado por ela, mal ou bem, mesmo que de forma suspeita, muita gente fez questão de se solidarizar, e não foram poucas. Nessa brincadeira de deixar a foto de perfil no rainbow mode, o que de mais curioso observei foram pessoas que há 5, 10 anos atrás frequentavam a mesma roda que eu, e reproduziam discursos homofóbicos, eram maldosas, debochavam e oprimiam da forma mais cruel quem “dava pinta”. Rodas essas que faço questão de não frequentar e ter o menor tipo de contato, mas por falta de tempo para uma boa limpeza, alguns poucos ainda estão no meu Facebook. Olhava alguns prováveis impostores e me vinha um sentimento intolerante, como se aquelas pessoas não tivessem o direito de ter mudado, mas logo me veio o gênio Alain de Botton e sua brilhante frase na mente: “Qualquer um que não se sinta envergonhado por quem era no ano passado, provavelmente não está aprendendo o suficiente.”

No título desse texto, por uma questão de compreensão e polaridade de palavras, usei a expressão impostor, mas o termo adequado para prosseguir com o meu pensamento é “cúmplice”. Sempre os vejo por todos os lados. Tóxicos. Imprevisíveis. Vão, apenas vão. Daí o perigo. Entre alguém sem caráter e alguém mau caráter, eu sempre tive mais receio do primeiro caso. Nunca sabemos o que esperar de alguém sem caráter. O cúmplice sempre se agrupa em quantidades, endossa o coro, legitima uma ordem camarada vinda de cima. Aquela frase: “quando duas pessoas concordam em tudo, uma delas está pensando pelas duas”. Conheci os primeiros cúmplices no ambiente escolar. São os que riem do líder cômico, do dono do pedaço, são eles que justificam a gozação ao dar uma risada assentida, sem contar os lamentáveis episódios em que até o professor entra na onda. A hostilidade em forma de riso parece menos culpada. São como pragas de reprodução que consentem a opressão para se protegerem, para não serem os oprimidos. Tão consideráveis quanto o soro de um creme de leite, tão autônomos quanto o coelho Sansão da Mônica, tão afetuosos que riem de toda e qualquer piada maldosa no chat do Whatsapp.

“O riso traça uma hierarquia entre aquele que ri e aquilo que é risível, como forma de desumanizá-lo. Se dizemos que é preciso refletir sobre isso, se dizemos que dói, o mínimo que aqueles que não compartilham as nossas vivências precisam fazer é escutar. Volto a dizer: “um inimigo é alguém a quem se nega o direito de contar a sua história”. Daniela Lima

Peguemos o personagem Zelig do mockumentary dirigido por Woody Allen. Um homem de comportamento camaleônico, que apresenta um estranho distúrbio. Transforma-se em todos que estão por perto. Muda de cor de pele, de feição, de comportamento. Em uma sessão de hipnose, quando perguntado sobre o motivo de seu sintoma, responde algo do tipo: “faço isso porque me sinto mais seguro”. É um anseio por aprovação, ele se adéqua ao outro para se proteger. O fato é que existem vários Zeligs por aí. Abraçam a cópia por puro desejo de aceitação. O grande problema é que dos cúmplices ninguém nunca lembra, mas hoje eu resolvi lembrar. São clientes perigosos, compram todo e qualquer discurso em que o único critério seletivo é agradar a maioria. Olhe ao redor, há cúmplices à direita e à esquerda e eu lamento pelas vezes em que fui cúmplice sem ter percebido e lamento por quem nem sabe que é. Voltando ao filme, através de um tratamento para combater seus sintomas, Zelig colateralmente vai desenvolvendo uma auto-estima demasiadamente elevada. Passa a agir com intolerância socialmente. Rejeita a razão do outro. Talvez seja assim que funcione essa divisão de extremos. O cúmplice e o reativo. Obviamente, adotar flexibilidade é um bom caminho, mas é difícil encontrar  moradia nessa diferenciação entre flexibilidade e alienação. a minha hipótese é que pensar sobre isso, talvez seja a própria morada flexível.

Penso que numa data tão cheia de significados, seja válido refletir se você realmente apoia a causa ou é apenas um oportunista que topou brincar do meme do dia. Se por acaso, você não tem nada contra gays/ desde que o seu filho não seja/ ama o pecador mas não o pecado/ desde que eles não troquem carinho em público/ desde que eles não sejam afeminados ou masculinizadas/ desde que não seja travesti/, eu sinto muito, mas você ainda não entendeu porque está vestido de arco íris.

Divertida Mente

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Vou logo contando que a Pixar se superou. Olhar qualquer elemento aparentemente supérfluo, como a articulação e o formato da boca da personagem “nojinho” é um pequeno detalhe grandioso, que se junta a tantos outros aspectos engenhosos na nova empreitada do estúdio. Uma animação carrega sempre a difícil tarefa de nos tragar em sua tentativa de humanidade, buscando conexão através de apropriações convincentes, criaturas que nos toquem e deixem vestígios, esses sim reais. O segundo obstáculo talvez seja agradar dinamicamente a sua freguesia. Criar um exército simpatizante e abrangente, lançando-se de dispositivos que impressionem não apenas a oferta mirim. A Pixar sabe disso, e não só vai se reinventando para atingir diferentes alturas etárias como também oferece sempre um drink de boas vindas: os curtas.

“Divertida mente” nos divide em partes e tenciona através de representações inteligentes a estrutura dos sentimentos. Estamos todos lá. A gente ri e chora do que poderíamos facilmente rejeitar – mas o que esse filme provoca é um autoabraço. É uma obra de dentro pra fora, que nos olha, pane a pane, visita nosso painel de controle rendendo a cada sentimento, mesmo que negativo, uma ternura instantânea. É um longa que não vale apenas para diferentes idades, mas para cada pessoa em diferentes fases.

Eu não pude deixar de rir o filme todo da ~tristeza~, me lembrando de amigos que são tão assim e claro, de mim quando resolvo entrar no modo bad. Eu observava o ~medo~ e pensava em seu tom elegante e atrapalhado, pensava no meu comum exercício de trocar os pés pelas mãos. Paquerava a ~alegria~ e sentia um misto de otimismo e preguiça. Sentir afeto pela ~nojinho~ e sua antipatia carismática, digna das melhores patricinhas que eu já conheci por aí e essa coisa minha de ser exigente demais – meu maior defeito segundo alguns. A raiva em modo turbo, não conseguindo segurar a meditação, mandando pro inferno as boas maneiras, ah esse também sou eu em plano trimestral. Todos interagindo e colocando cores em círculos perceptivos, as memórias, nada inofensivas. Pluripolaridade.

A mistura das sinapses, os sentimentos quando se encostam e sucumbem pela variação, o mundo abstrato, arrepiante que é. Uma lúdica sessão de terapia ou uma aula de artes da terceira série, com uma folha em branco e alguns primeiros encantos do coração. Cada um vai montando as suas ilhas de personalidade. Eduardo vive na ilha do abraço, do queijo, do carboidrato, da ansiedade, do facebook, das saudades, da amizade, do cinema, das viagens, da poesia, da Augusta, do rancorzinho e do hedonismo. E você, quais são suas ilhas? Nessa troca de ambientes, somos levados ao trem do Pensamento (trilhos da consciência), a Fábrica de Sonhos e ao Subconsciente. Eduardo vai entendendo sua eterna dúvida de quem nunca sabe bem se está de partida ou de chegada.

De uma coisa lhe asseguro: é a animação “own” mais “own” dos últimos anos.

HÁ MOTIVOS PARA ESTARDALHAÇO.

Um livro que é uma peça que sou eu, que é você, que somos todas as histórias.

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Te acho paciente na forma de explicar. Mas você é prolixo para responder perguntas muito simples, você se alonga com sinônimos, é redundante, e eu acho que prolixidade não deve ser obrigatória. E eu odeio o fato de você ser monossilábica deu ter que sempre inventar o assunto que iremos conversar e ser obrigado a ouvir da sua boca que eu toco sempre no mesmo assunto de sempre. Você não faz esforço algum para que tenhamos um assunto novo e ainda me acusa de falta de originalidade. Quando sou prolixo escrevendo, não estou obrigando ninguém a ler. Mas quando você é prolixo falando, eu não posso simplesmente te interromper e pedir para que você seja mais objetivo. Você irá se ofender.

Eu amo conversar com você porque eu sinto que você realmente me ouve, me acompanha com movimentos de sobrancelha e arregala o olhar mostrando envolvimento. Eu sei que eu pago por isso, mas eu queria que você soubesse que você me ouve muito bem, e eu acho que você é assim mesmo com quem não te paga. Você tem uma voz que envolve, um timbre antipático e sensual, e você gesticula com as mãos enquanto fala, e tudo é uma dança linda, ainda mais pelo fato de você usar palavras estratégicas no meio dos seus discursos. Palavras selecionadas como em uma carta de vinhos. Há um buque que interfere na frase toda e se espalha em nós sem enjoar. É uma pena você estar tão longe. Você me desperta ideias novas, gosto de ir escrevendo mentalmente enquanto você fala, e aquela tarde mágica sempre será um cartão postal da nossa história. Uma vez te chamei de poetisa, e eu tenho a certeza disso, você seduz não só por ser linda, você também seduz enquanto fala. Eu jamais abriria mão da sua sabedoria, você diz coisas que a sua geração geralmente não diria.

Sim, tudo o que você escreve é inteligente, e bastante longo e você insere sempre uma citação, metáfora, alegoria pertinente ao assunto, mas eu às vezes me canso um pouco desse excesso. Parece que o seu pensamento borra a escrita, e você usa analogias confusas, e eu sinto falta de você escrever coisas menos rebuscadas, sem nada na frente, dando apenas a mão, sem usar luvas. Você é uma intrusa do tempo, e eu te deixo invadir minha casa, mesmo quando você me cerca com essa curiosidade discreta e ao mesmo tempo sem disfarces.  Eu amo conversar com você, talvez seja a pessoa que eu mais goste de conversar no mundo, a gente se ajuda e troca aprendizados, ninguém economiza no apoio ou no amor. Às vezes noto você tentando me copiar, e é engraçado, porque fica melecado, e você usa alguns termos difíceis e fora de hora, e acaba sendo hermético, e você se reveza em camadas de acesso ao seu pensamento que deixam o leitor um pouco sem saber para onde você está indo. Você é a prova de que uma pessoa quando escreve não necessariamente a mesma quando fala.

Prefiro você falando, mesmo sabendo que quando você não tenta ter um estilo, você escreve muito bem. Você vive se proclamando escritora, a melhor escritora, e tudo o que você escreve é tão sem impacto, você nunca é inovadora, você é só uma pessoa tentando toda hora mostrar que é inovadora. Esse livro brinca com esse fluxo tão legitimo e caótico e belo. Então resolvi misturá-lo aos meus rabiscos, sem que você saiba onde eu termino e ele começa, onde é você e onde sou eu, se é que existe alguém aqui. Você não é descolado, você é apenas uma pessoa insegura tentando o tempo todo mostrar o quanto é descolada. Você da a entender pelas suas implicâncias virtuais, que um bom escritor é principalmente aquele que tem um bom domínio gramatical. Eu discordo, acho que o bom escritor sabe rir inclusive da gramática e brincar com ela. Ser bom em Gramática quer dizer apenas que você é bom de guardar regras, e mais nada. Você tem uma mania grosseira de me interromper com o seu celular ou com alguma piada fora de hora. E isso acontece sempre. Grave não é a falta de um conselho bom. Grave é a falta do ouvido e eu percebo quando ele não está e tenho saudade de quando o nosso assunto nunca acabava.

A madrugada ia, sem hora pra voltar e estávamos ali, entretidos em alguma conversa existencialista ou alguma DR que eu inventava entre a gente só pra lua continuar nos assistindo. Agora estou lendo esse livro que também é uma peça de teatro. O livro não tem uma capa anunciando o próprio nome. Você deve abri-lo para perguntar. O livro então te obriga a puxar assunto com ele. E você pode abrir em qualquer página já que nele a conexão está na desconectividade. E embora pareçam apenas dois personagens em pensamentos que se misturam, acho que ali existem milhões de personagens. Os pensamentos são um sem fim de pessoas. Sou eu, sou você, que às vezes somos um só e vários outros. Esse livro faz parte de mim, do meu pensamento. E se eu estou aqui escrevendo o que penso, não há separação entre o que penso e o que leio. Os pensamentos não possuem números de página, nem esse livro.

Eu teria que colocar aspas aqui. Aspas. Tem uma coisa que sempre me angustiou. Eu vou tentar explicar. A nossa capacidade de reconhecimento é um espaço cognitivo muito complexo. Eu to querendo dizer que eu posso olhar pro seu rosto, como eu to fazendo agora e amanhã, por exemplo, se eu cruzar com você, eu vou poder te reconhecer. Mesmo que eu não me lembre de onde, o meu cérebro vai acessar a imagem do seu rosto e eu vou me sentir um pouco estranho quando eu perceber que acabei de reconhecer um rosto conhecido. Quando eu falo um pouco estranho, quer dizer que o seu rosto vai me tirar do estado normal de passagem, de rotina, de cotidiano emocional e eu vou acessar algum sentimento diferente de qualquer outro que eu poderia controlar. Tudo isso pelo simples fato de eu olhar pra você e reconhecer o seu rosto. Tudo isso pra falar que de acordo com a profundidade da nossa relação, a cognição do reconhecimento de um rosto aumenta. Quanto mais profunda for a nossa afinidade, mais reconhecível será o seu rosto para mim. Isso quer dizer que no meio de vinte, oitenta, cem mil pessoas, eu vou poder reconhecer o seu rosto assim que meus olhos passarem por você. Por fazer parte das categorias involuntárias da cognição. Isso quer dizer que o extremo disso, seria eu reconhecer o seu rosto em qualquer outro lugar que não seja o seu rosto. Isso quer dizer que o extremo disso, seria reconhecer o seu rosto numa parede branca, num furo nessa parede, na minha mão, numa arvore, no sapato de alguém, num prédio, numa nuvem, na lua e inclusive no rosto de qualquer outra pessoa. E é exatamente isso que sempre me angustiou, se algum dia você reconhecer o meu rosto no rosto de outra pessoa, o que eu vou fazer para você poder me reconhecer de novo? Aspas. Esse texto todo está no livro, na peça, no meu pensamento, fala do meu pai, de um ex-amor, do meu terapeuta e dos autores dele: joão dias turchi e gustavo colombini. E não à toa os autores assinam seus nomes em minúsculo. Isso pode querer dizer muita coisa, inclusive que eles não são os autores. Mas ainda assim preciso dizer o nome desse magnífico livro ou experimento ao qual me sinto cobaia. “Histórias para serem lidas em voz alta”.

 

Sob O Mesmo Céu

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talvez eu me esqueça daqui a pouco desse filme. não foi grande, nem pequeno, não foi muita coisa. ponte pênsil. queda precoce. um filme que distrai e a diferença para um filme distraído: em um filme distraído dois cinemas se abrem. um dentro. um fora. penso longe daqui de perto. vaporizador. penso ontem. penso espaço penso. penso em nada. talvez até mude de assunto no meio do texto.

lendas havaianas, Bill e Emma e aquela dança que é puro recreio adulto. cenas queridinhas e os mudos diálogos, ah esses. Rachel McAdams existe de ser só ela. só ela. linda e só. Bradley. nunca entendi tudo isso de aplauso. Mas Bradley tem melhorado. tem mais olho em seu azul. Emma Stone tem passado de ano, mas notas altas, ainda não, sorry.

“Sob o mesmo céu” não me empolgou, mas gostei de a-mar de novo o Havaí. porque ele é assim. uma lenda que te puxa pra Saturno. “Huna quer dizer: Segredo, não no sentido de manter algo oculto, mas sim de descobrir um sentido mais profundo da nossa existência”. o Havaí é uma estrada em que os deuses podem ser atropelados e os vulcões revelam horóscopos pioneiros, que pulam de seus sopés.

um evento cheio de relâmpagos, duendes e correções do acaso. capim-limão e Ho’oponopono – * Sinto muito * Por favor * Me perdoe * Obrigada * Sou grata * Eu te amo *

Cameron Crowe sempre tenta me enganar e eu deixo. sempre que me convida, digo que vou. suas festas são lindas pelas promessas, mesmo as não cumpridas. toda promessa tem fogachos e colares de flores. todo filme de Crowe me faz querer ligar o som do carro depois.

aliás, meu som do carro está nas últimas, estou quase jogando no poço de fogo Halemaumau. sintomas: está velho, pisado, enferrujado, desobediente, risca todo e qualquer cd que tenha pele lisa e sempre pula a música número 11. alguém tem algum som de carro sobrando? a única exigência é que funcione. alguém me empresta? me dá? me vende preço OLX? desapega, desapega.

Jurassic World

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Já estava decidido: mesmo se o filme fosse péssimo eu ainda assim iria adorá-lo. Fã é fã. Voltar à Ilha Nublar vinte e três anos depois foi empolgante e nostálgico. Ver Jurassic World finalmente funcionando fez com que tenha valido a pena eu não ter me suicidado aos 27.

Ao invés de contar no Trip Advisor, quero relatar aqui minha experiência no Jurassic World. Vish, na entrada você já recebe um mapa indicando onde está cada dinossauro na ilha. Em cada localização há um pequeno código, ao passarmos o celular por cima (através da tecnologia de realidade ampliada), toda a ficha técnica do Dino fica disponível para leitura. O atendimento no parque é simpático, acolhedor, os funcionários são sorridentes e a comida é deliciosa. A lanchonete vende “ovos de dinossauro” com chocolate dentro, pizza em forma de “pegada” de brontossauro e tem refil de refri pelo parque todo e zaz. Pra galera gourmet, tem uma food truck que vende asinha de Pterodáctilo flambada com ervas finas do período neolítico. No setor kids, as crianças podem dar volta de pônei no Tricerátops, e dar comida pro Estegossauro. Pros adultos, rola apostar corrida em cima dos Gallimimus, assistir ao Mosassauro sendo alimentado com tubarões, ver uma rinha entre Pinacossauros e interagir com um Dilofossauro em 7D. Não sei por que, mas não vi o T-Rex, parece que essa atração estava em manutenção. Li na Viagem & Turismo que ele seria substituído por um tal de Indominus Rex. Bom, espero voltar em breve a esse parque maravilhoso e inesquecível e tirar várias fotos para colocar no Facebook.

Mas agora voltando ao filme. Com os recursos que os grandes estúdios reúnem, hoje é quase uma obrigação fazer um remake ou uma continuação que sejam no mínimo competentes. Se não existir uma ideia mirabolante, faça uma auto-referência sem fingir originalidade, revisite o que deu certo, homenageie sem primarismos, não tente enganar como faz a Fanta maracujá. Foi exatamente isso. Uma gostosa sensação de resgate do primeiro filme, talvez ambos tenham estruturas praticamente iguais. Mudaram os personagens, as tiradas, a agressividade e esperteza dos dinos (atenção para os duelos), a tecnologia. Mas ainda estamos naquele filme que fala da megalomania cientifica, o homem subestimando a natureza, dois irmãos – um deles maníaco por dinossauros, – e o plot previsível que promove a desordem entre répteis e humanos.

Jurassic Park foi o Sci-fi que mais marcou minha infância. Fui uma dessas crianças seduzidas pelo talento de Spielberg em nos familiarizar com o estranhamento, mostrando que a imaginação não morde. Talvez o grande segredo do diretor seja justamente abordar o deslumbre infantil dentro de seus filmes, convidando sempre as crianças de fora a “colocarem a mão” ali dentro. Curioso é que ali, bem perto da minha cadeira havia uma família com uma criança bem pequena. Ao invés de chorar de medo dos dinossauros, aquele pequeno ficou de pé o filme todo e por diversas vezes esticava o bracinho tentando alcançar a tela para “mexer” nos répteis assustadores. Olhava aquilo e entendia o que acontecia comigo quando via ET ou Jurassic ou o motivo de sempre ficar arrepiado com a vinheta da Universal antes de um filme e olhar a vitrine da loja de brinquedos e querer todos os bonecos do filme.

Jurassic World é um daqueles filmes que entretêm os olhos enquanto o picolé derrete esquecido nas mãos. É uma cerimônia múltipla de tributo ao passado. Não ressuscita apenas dinossauros, recrudesce também um filme e reavalia alguns privilégios: coloca nas mãos de uma mulher uma das cenas mais decisivas e heroicas da trama – essa mesma cena, que no primeiro filme é protagonizada pelo Dr Alan Grant,

Ressurreição. Ouvir um coração voltar a bater, velocirapidamente.

O Dia Em Que Eu Resolvi Falar Mal Dos Meus Ídolos

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Hoje eu resolvi fazer algo que eu nunca sonhei, mas no fundo sempre tive vontade. Falar mal dos meus ídolos. É… Sabe aquela dorzinha que mistura um pouco de cotovelo com um pouco de orgulho ferido? Aquele seu ressentimento por não ser correspondido? Não, eles não têm absolutamente nada com isso. Nenhum nunca me destratou, ao contrário, a maioria deles foi simpática, atenciosa. É que talvez os nossos ídolos sejam um depósito de expectativa nosso que só se mantém vivo pela não mutualidade. A gente se sente mentalmente no direito de cobrá-los, e pior, ás vezes da um pouco de inveja por não sermos eles. Sim, inveja avulsa, sem o branco junto. Penso que tudo é realmente grave quando a gente finge que não tem. Uma vez que a gente assume que tem, aprendemos a lidar, a minimizar, a desconstruir, mas não hoje. Hoje eu quero despejar tudo o que penso deles, sem citá-los nominalmente e eu espero que eles nunca leiam isso, porque é um baita mico, é um atestado de adoração, é o tipo de post que eu posso apagar a qualquer momento. Não (olha a contradição). Na verdade, a esperança é que algum dia eles leiam, e saibam que existe alguém no mundo que não é indiferente a eles, é que eu acho que a aclamação é também um tipo de indiferença. Você contribui para que a pessoa se esqueça de se sentir comum. O amor devocional enquanto sentimento monolítico é extremamente superficial. O pior de tudo é que o meu egocentrismo intui que ninguém tem mais direitos autorais de admiração sobre eles do que eu. É como se eu fosse o dono do clube, mais do que os outros.

Falar mal de alguém que você admira, num blog que duas ou três pessoas leem, é apenas um exercício autoanalítico, um luxo do anônimo, uma sessão a menos de terapia. Por que eu odeio de tanto que eu amo? Esse é o pretensioso intuito do meu exercício. Botar o amor e o ódio lado a lado sem que isso comprometa alguém que está cagando pro que eu acho. Na verdade, vocês logo irão perceber que eu quase falho em minha nobre intenção. Estou fadado a amá-los, só pode.

Meu terapeuta disse uma vez que todo ídolo está fadado ao adultério do fã. Mesmo os que nos aplaudem, em algum momento irão nos abandonar. É um movimento natural. Ídolos enjoam, ainda mais se te derem muita atenção. Talvez o antídoto para não sofrer por um ídolo seja conhecê-lo melhor, ou deixá-lo bem longe de você. Aliás, foi num livro de um dos ídolos citados nesse texto, que eu achei essa frase de Groucho Marx e que resume bem como funciona a boutique da admiração platônica: “no fim, ninguém quer fazer parte de um clube que o aceite como sócio. Ser aceito é uma coisa que deixa a falta de critérios da instituição muito latente”.

Nesse texto criei a seguinte regra: ficam de fora ídolos mortos ou num patamar muito famoso e longínquo estilo Lena Dunham, Joaquin Phoenix, Xavier Dolan, Meryl Streep, Alain de Botton, ou ídolos que já me “aceitaram” em seus clubes e viraram de fato meus amigos. Citarei 5 “divindades”, lembrando que meus maiores ídolos são de carne e osso. Eu os conheço. Dei um jeito para que eles sempre se lembrem de mim, nem que seja só pelo meu avatar do Facebook. Ufa, meus ídolos sabem que eu existo. Talvez essa seja uma maneira hábil de exercer meu lado contestador em relação à religiosidade. Saber que os deuses que venero podem falhar a qualquer momento, que frequentam o banheiro, e estão a um toque da crueldade dos meus dedos – sobre as teclas.

São eles:

1-      A bela menina do acordeon.

2-      A poetisa que sente febre de cor azul.

3-      O guru dos desajustados.

4-      A maldosa blogueira descolada anti-descolados.

5-      O roteirista que rouba palavras da minha boca sem ter roubado.

 

1-      A Bela do Acordeon hoje me chama de amigo. E isso às vezes me assusta. “Como ela está aqui, tão perto?” Eu a olho e fico pensando no momento em que ela vai dizer que estamos em um filme, e alguém vai interromper a cena dizendo “corta”. Já disse a ela que se eu fosse diretor, ela seria a protagonista de todos os meus filmes. Sabe alguém criativamente inteligente, interessante, surpreendente e que pra piorar tem uma fotogenia capaz de ultrapassar a foto e fazer com que o mundo real seja a imagem e não mais ela? Eu já vi os caras mais cobiçados da terra olharem uma foto dela e ficarem completamente hipnotizados. Eu acordo todos os dias pensando: “Será que tem algum post dela?” “Alguma mensagem no zapzap ou alguma chance dela me chamar pra fazer algo?” Já cheguei ao ponto de não ir a um encontro com ela pelo simples fato de dar muita bandeira com a minha empolgação pelo convite, e bancar o ridículo. O que me incomoda nela é o fato dela saber que é uma deusa, mas nunca dizer isso em alto e bom tom. Quem ousaria se autoproclamar Deus(a) no mundo da falsa modéstia? Amo e odeio a coisa dela não ser óbvia, nem ludibriada, nem vaidosa, mas ao mesmo tempo ser tudo isso. Porque ela simplesmente sabe o que ela é. Ela sabe que as escadas por onde ela passa sempre inventarão mais um degrau. Odeio, porque ela sabe. Todo diretor está fadado a se apaixonar por ela, dane-se a personagem. Em sua nuca está desenhado o infinito, e é bem a verdade. Às vezes, fico em dúvida se ela no fundo é a mulher que eu casaria ou a mulher que eu gostaria de ser. Se ela é Deusa ou se é Diva. E às vezes tento ficar longe, mesmo querendo estar muito perto. Porque ela sabe de tudo, eu entrego mesmo sem dizer e talvez a assuste essa admiração toda. Ela é um frio na barriga que eu torço para que nunca passe. Torço por ela a cada vez que a vejo na revista, no comercial de TV, na novela, no teatro, em qualquer lugar. Sabe aquele sorriso solitário que você faz quando torce de verdade por alguém? Por ela foi assim, amor a sétima vista, depois de estudarmos juntos. Foi aos poucos, e de repente, começou a crescer e crescer e crescer e não para.

 

2-      Foi num livro que a enxerguei pela primeira vez. Foi como abrir os olhos dentro de uma água azul, só que sem cloro. Sua escrita fazia curvas inesperadas, cruzamentos de palavras. Suas letras implantavam um fluxo de pensamento que eu jamais tinha tido contato. Ela me apresentou a prosa-poética. Daí fui longe, fui colher cores em cada palavra jogada ao vento. Um dia descobri seu Facebook e então passei a me declarar. Ela foi gentil. Me passou até a senha do seu documentário secreto no Vimeo. O documentário falava sobre sua poetisa predileta. Foi então que eu aprendi que todo ídolo tinha um ídolo e que essa escada era útil para quem caçava nuvens em formatos de animal ou referências abundantes. Foi ela que me apresentou Ana Cristina Cesar. Por um bom tempo interagia em minhas postagens, até um dia parar. Das coisas mais bonitas que me escreveu foi: “Eduardo, quando morei na Inglaterra, fazia exatamente isto: ia à estação de trem/ônibus/metrô e comprava uma passagem na máquina, preferencialmente a mais barata. As cidades aparentemente sem relevância – não constam nas paradas óbvias como a a histórica Cambridge, a libertina Brighton ou a industrial e generosa Manchester – se revelam, se desenham, se escrutinam. Todas as cidades, aliás, são repletas desse material cheio aos olhos e aos ouvidos, resta a nós encontrarmos a capacidade de lê-las fora dos grandes centros. Em Portsmouth, uma cidade à beira do mar, no entanto nem um pouco litorânea, a uma hora e meia de Londres, descobri mais uns tantos pássaros da Inglaterra quanto cabiam as mãos. Aliás, talvez tenha sido em Portsmouth – e não em Londres, veja só – que eu descobri que tenho mais de duas mãos”. Às vezes puxo assunto com ela por inbox, apenas para que ela solte alguma frase com cheiro de sandália Melissa e eu consiga guardá-la sem que o cheiro passe. E claro, não sei se conseguirei falar mal dela. Acho que não. Acho que ela só me irrita por ter me deixado órfão dessa poesia inesperada.

 

3-      Ele é uma força da natureza. Possui seguidores e anti-seguidores. Faz as pessoas abrirem a tampa do egoísmo, e quem aceita a dor, consegue dar a descarga. Ele defende as minorias, tenta uma vida minimalista, e possui um mecenato que contribui com as despropriedades libertadoras de seus textos. Ele é estúpido, mesmo escrevendo com tanta gentileza. Usa uma linguagem tão simples e clara que tudo o que ele quer dizer ganha uma calculada sofisticação. Não há vestido de gala nem poesia em suas frases, mas ao mesmo tempo, há um mundo todo sendo libertado em seu modo de refletir, é um estado de soltura, e algumas mil outras epifanias colaterais. Com ele aprendi que chamar alguém de pseudointelectual é o tipo de acusação que queima não a vítima, mas o emissor. Ele também escreve textos em que se autodeprecia, colocando-se como tudo de pior que um ser humano pode acometer dentro de suas vaidades. É uma ironia da ironia. Por mais que aquilo pareça uma anti-propaganda que catapulta o leitor a acatá-la como ironia, ele é mesmo aquilo tudo. Todos aqueles absurdos que ele diz que é, ele no fundo pensa que não é, mas é, e sabe disso (sim, é confuso esse caminho de 3 curvas). Ele é vaidoso, sabe do seu poder de influência, e articula com maestria uma junção dos desajustados. Possui um clube de ovelhas negras. Eu diria que são as pessoas mais interessantes do universo. Eu e ele já nos conhecemos pessoalmente. Estive com ele em um sítio mágico entre Rio e São Paulo e em lindas casas coloridas de São Paulo. Tenho a sensação de que ele me despreza um pouco. Talvez seja apenas a minha vontade de que ele um dia citasse algo meu, ou fosse menos indiferente a minha admiração. Mas, acho que sei o que é. Somos parecidos na vaidade, e isso já é um bom motivo. Um peixe beta nunca pode dividir o mesmo aquário com outro. A grande lembrança que eu guardo dele, é um jogo de Ping-Pong em que ele ganhou todos os sets de mim. Apenas eu e ele, e o barulho das bolinhas pingando. A cada pingo, eu dizia coisas que ele não ouvia, mas eu estava feliz por estar ali interagindo com o meu ídolo, em meio a onomatopeias de um inocente joguinho de meia hora. Desconfio até que eu tenha entregado o jogo meio que de propósito, por pura louvação ao adversário. Mas disso, nunca saberei. Só sei que ele é um dos heróis da minha vida, e eu o odeio um pouco por isso.

 

 

4-      Eu sou meio obcecado pelo que essa menina escreve. Tem sempre uma ponta cortante em seus textos. Ela nunca está à direita, mas jamais deixa que alguém palpite em qual esquerda ela deve estar, parece ter um pouco de preguiça dos modismos mercadológicos da turma do desapego gourmet. Sua escrita tem algo de maldoso, niilista, mal-humorado. É como se ela fizesse bem a quem lê, sem ser minimamente gentil. Ela nunca faz cafuné em seus textos, mas jamais levanta a voz para provocar. Parece alguém que não sente nada e então, pode falar de tudo. É uma sabedoria parcial que derruba até os seus fiéis. Uma vez ela respondeu a um leitor estúpido dizendo que escritor não era SAC, foi aí que eu entendi que existem leitores que se sentem clientes, querem ler de você coisas que os confortem, e quando isso não acontece, muitos te atacam como se estivessem amparados pelo PROCON, como se o “produto” que você forneceu estivesse vencido. Quando ela está de “bom-humor” faz questão de devolver ofensas ao hater desavisado que avança os dentes em sua timeline. Ela é a pessoa mais descolada que existe, mas tem horror aos descolados. Tem um cãozinho tão lindo e tão solitário no olhar, que às vezes me parece que tudo o que realmente lhe importa no mundo, é ele, além de Woody Allen. Ela nunca facilita os consensos de esquerda. Vai achar uma brecha pra ferir o aplaudido. Esse é o seu jeitinho de brincar, ela espera que todos concordem e vai lá, no meio da festa e derruba o castelo com um sorriso gelado. Ela devia ser aquela criança que estoura a bolinha de sabão antes que a própria bolinha estoure por si. Ela escreve sobre qualquer coisa muito bem. Política, cinema, amenidades. Me ensina que ser generalista permite que as pessoas não te procurem por assuntos específicos, mas que elas enxerguem o próprio escritor. Ela é quem eu procuro na escrita quando quero que alguém me de um soco no estômago sem usar as mãos. Às vezes , eu me lamento por ela não ser apenas minha. Por ela ter como fãs, outros ídolos meus, como o cantor Thiago Pethit. Eu a odeio, mas daria o meu Box do Almodóvar para que ela fosse minha amiga. Quem sabe um dia. Quem sabe nunca!

 

 

5-      Ele talvez tenha escrito a carta mais triste e linda dita em uma peça de teatro. Ganhou-me assim. Dizendo tudo o que eu diria, mas que eu nunca tive a ideia de dizer. Ele inventa quem eu sou, e mesmo quando não sou, eu me torno o que ele pensa. Minha mais profunda satisfação é saber que sempre que ele assistir Joaquin Phoenix possivelmente se lembrará de mim. Ele, assim como eu, sabe do que Joaquin é capaz. Tudo começou no dia em que mandei minha crítica do filme “Her” em seu inbox. Depois disso, diversas sincronicidades aconteceram entre nós, sempre envolvendo algo relacionado a Joaquin. Dos maiores micos que eu já paguei na vida, foi abordá-lo no meio de uma balada para dizer o quanto era seu fã. Eu estava bêbado e ele me chamou pra entrar na roda dele e eu me recusei por excesso de timidez instantânea – mais uma vez por medo de parecer ridículo. Nunca vou me esquecer de outra balada em que ele estava de DJ convidado, usando óculos escuros de armação amarela na cabine de som. Talvez tenha sido a melhor playlist da minha vida. Ele botou Roberto Carlos, Sixpense none the richer e Cardigans. Eu sempre achei Roberto Carlos tão brega quanto Romero Britto, mas ele me fez mudar de ideia – pura massa de manobra. Como um alienado obediente, passei a chamar Roberto de Rei. Seu jeito de escrever tem uma espontaneidade técnica e ao mesmo tempo infantil. Ele é a única pessoa capaz de decidir se eu vou ou não gostar de um filme antes de assisti-lo. É quase uma profecia. Todos os filmes que ele amou eu também amei. Todos os que ele odiou eu odiei depois. Não, não deve ser coincidência. Além de ser o roteirista indie do momento, ele está dirigindo ninguém menos do que Maria Luiza Mendonça fazendo uma releitura de “Um bonde chamado desejo”, aquela atriz deliciosamente maluca, que eu nunca mais vi na televisão, mas que considero uma das 3 melhores do Brasil. Só não sei se eu sempre amei Maria Luiza, ou passei a amá-la depois que ele passou a dirigi-la. O que mais me irrita nele é a sensação dele ter me roubado sensações futuras. Que eu ainda não conheço. Sabe quando alguém teve uma grande ideia e você tem quase certeza que você deveria ter tido essa grande ideia?

 

Meio ateu, meio cinéfilo.

Tenho essa mania de desenvolver diálogos munidos de perguntas nas interações sociais. Deve ser essa minha mania de querer saber o que cada um pensa, achar reflexões, referências. Há alguns dias, recebi um questionário de 7 perguntas de uma amiga por inbox, e resolvi respondê-lo de forma pública para que os meus três ou quatro leitores do blog possam me conhecer mais um pouco, e também porque eu adorei as perguntas, que são meio que baseadas nas histórias que eu escrevo. Talvez por vaidade, ou por adorar realizar e responder entrevistas. Seguem as perguntas e as minhas respostas.

1)      Aprendeu a nadar?

Sim, e sei boiar como ninguém – com o auxílio de infláveis aquáticos, a coisa fica ainda mais divertida. =D

 

2)      Os “amigos-imaginários” crescem com a pessoa?

Não sei bem, O Rodrigo, meu amigo imaginário, sumiu do mapa pra nunca mais. Na verdade, eu não me lembro dele, isso é um inventário da infância vindo dos meus pais. Mas eu amo o fato dele (talvez) ter “existido”. Assim como se um dia eu virar um niilista insuportável, ainda assim assistirei “Nosso lar” e “Chico Xavier” só pra lembrar dos meus pais. Esse resgate, creio eu, independe de religião.

 

3)      Tuas amigas são todas mulherões?

Todas, sem exceção. Se existe algo em comum entre elas, é isso. São seres aos quais me inspiro, que me ensinam sobre partes sensíveis preciosas do ser humano. São elas que me acolhem nos piores pesadelos. Tanto é que 75% das minhas amizades são mulheres. E eu só pretendo que esse número cresça.

 

4)      O filme da vida?

Os cinéfilos vão debochar, porque é bem previsível, mas não tem como não dizer que é Amelie. É um filme–portal pro meu casamento com o cinema. Com ele, e uma disciplina que tive na faculdade, descobri que poderia ter vários pares de olhos. Eu parei de olhar apenas pra tela, olhei pra mim, pras cores, pras sinestesias e pequenos prazeres. A vida ganhou uma nova cor e eu fiquei com fome de cinema. Fora que o Fred Mattos me disse uma vez que eu era quase um alterego dela, quase. E ele dissecou isso muito bem nessa crítica genial feita pro Favoritei.

 

5) Guilty pleasure que não contou no texto oficial

Uhm, tem muitos. Mas um deles foi já ter pedido autógrafo pra Elaine – vencedora do “No Limite 1” no shopping e ainda perguntar o que ela fez com o prêmio. Isso, na época do reality show. Tipo, num conto isso pras pessoas, só agora tomei coragem. Ufa!

 

6)  Do you see dead people?

Não que eu me lembre. Gostaria muito, até pra dar um jeito no meu lado niilista que vive me amolando. E, veja bem, eu pratico minha religiosidade, frequento xamã, centro espírita, mas sou cheio de dúvidas e momentos de cetiscismo. Minha fé é um pouco estranha, aliás não existe meia fé né? Acho que eu a busco, como um cinéfilo tentando embarcar em um filme, mas que não consegue ignorar algumas falhas de roteiro.

 

7) Se a “pátria educadora” fossemos todos nós, qual seria a tua parte?

A minha parte seria justamente o meu projeto de vida, que graças ao apoio de fadas e amigos queridos está em plena forma. Acho que a cultura mobiliza o olhar porque transporta realidades aos olhos sem que você precise vivenciá-las fisicamente. E apresentar isso pra diversos nichos de Educação formal e informal seria o meu dedinho de ajuda. Eu gostaria que a cultura se difundisse de forma a quebrar as estruturas mais elitistas, lembrando que eu vivo essa quebra também em âmbito pessoal, é um processo simultâneo e isso é um exercício maravilhoso.  Quero ajudar no acesso e escambo de diferentes realidades através da imersão cultural . Não acho utopia, penso ser possível difundir conhecimento, empatia e poder reflexivo através de introduções que aconteçam de maneira respeitosa e empática, olhando de forma peculiar pra cada um. Quero que um aluno não seja bombardeado por fórmulas funcionais e unifocais, que visem apenas o ingresso à Universidade. Eu, por exemplo, me interessei pela escrita quando passei a brincar com ela, depois de formado. Foi algo facultativo, foi uma escolha desinteressada. E aí fui me apaixonando, espiando aqui, ali, colecionando palavras, me adequando à Gramática (até hoje estou) e criando o meu estilo (se que isso existe). Por isso eu jamais vou fazer pouco da minha (des)formação como Pedagogo. Ela diz respeito a quem eu sou, e não ao profissional que eu sou. Uma Faculdade de Humanas tem esse poder, e eu devo muito as pessoas que conheci por lá, e algumas disciplinas que eu tive. De lá eu saí mais poeta do que pedagogo, e não me queixo.

Os efeitos colaterais da ida ao TEDxWoman- SP, uma semana depois

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Antes de publicar o texto no blog – que me parecia inconcluso-, resolvi jogá-lo dentro de um grupo fechado de Facebook, em que eu sentisse segurança em debater, já que as pessoas ali não possuíam o terrível comportamento hater, de ler o primeiro parágrafo, engolir a reflexão sem mastigar e atirar xingamentos gratuitos ao meu dilema. Tentei ser o mais honesto possível, recebi boas respostas desse oráculo, nenhuma que tenha sanado completamente os meus anseios, mas depois da oferta de opiniões que tive, ficou mais fácil lidar com o “episódio”. Apenas lembrando que fiz pequenas alterações de pronome e de palavras, já que ele tinha sido feito as pressas, sem o intuito de apreciação.

Semana passada estive na TEDx Woman que aconteceu num auditório dentro do MASP e me vi em uma situação um tanto confusa. O evento era dedicado exclusivamente a mulheres inovadoras nas mais diversas áreas, todas com histórias inspiradoras, apontando para um mesmo fio condutor: empoderamento feminino. Em um dos depoimentos me aconteceu algo curioso. Subiu ao palco uma moça chamada Clarice Chwartzmann, fundadora do projeto “A Churrasqueira”. Movida pela vontade de desconstruir mais um paradigma machista na linha “lugar de mulher é no vinagrete e não na churrasqueira” a palestrante contou sobre seu objetivo de “ensinar mulheres a aprenderem os segredos e mistérios da arte do verdadeiro churrasco”. Segundo ela, sua atividade visava também à confraternização, união e informalidade, desenvolvendo para isso, algumas atividades, cursos e serviços.

Na hora das palmas, me veio um nó na cabeça, e um bloqueio motor. Ao mesmo tempo em que aquela mulher levantava mais um símbolo de encorajamento, eu não pude ignorar o fator “churrasco”. (Antes de prosseguir, quero frisar que não sou vegetariano, mas não gosto muito de carne. Não como de forma alguma carne branca (frango, peixe) e muito, muito raramente como carne vermelha. Talvez fosse cômodo abraçar essa militância, mas seria um pouco hipócrita da minha parte). Eu não consegui bater palma por me sentir incomodado com o conflito que embaralhava a minha mente. Não poderia bater meia palma pelo lado feminista, e dar meia vaia pela parte do churrasco. Então, fiquei com as mãos em repouso. Ali eu percebi que a minha atitude não foi exatamente um protesto, foi uma espécie de moralismo.

A minha questão aqui, não é sobre as palmas em si, ou sobre a escolha das minhas militâncias, mas sobre a nossa autovigília. Não sei se já aconteceu com vocês, mas às vezes é natural questionarmos nossos paradoxos, do tipo ter um discurso de esquerda e imaginar seu amiguinho liberal julgando de forma leviana o fato de você ir ao shopping comprar um caderno. E essa caça aos paradoxos acontece o tempo todo, não que eu a ache ruim, ela faz com que a gente se questione, reflita e principalmente regule nossas autocobranças para um nível saudável (ou não), porque sim, nós falhamos e caímos em contradição em algum momento. Tenho pensado muito sobre a solidariedade seletiva, e nessa hora me vêm grupos oprimidos que abraçam uma militância, mas reproduzem outros tipos de opressão, muitos sem perceber. Por exemplo: um gay que é racista, uma feminista que é gordofóbica, um negro que descrimina um nordestino. Muitas vezes, inclusive, esse “conflito angular” é usado como argumento de invalidação por algum privilegiado opressor. É louco pensar que uma pessoa oprimida pode não só comprar e reproduzir o próprio discurso que a oprime, mas também reproduzir outros. Obviamente eles não estão ilesos de sentirem preconceito e isso não os tornam indignos de suas militâncias. Disso tudo me surgem uma série de perguntas: Do que é feito esse medo da contradição? Um medo de não ser tão convincente socialmente ou apenas um autoexame para identificar nossos autoenganos? Como o exercício de reflexão sobre a solidariedade seletiva pode fazer com que minorias se interseccionam ? Como as pessoas lidam com as próprias contradições? Como as pessoas lidam com o outro caçando as suas contradições?

As respostas mais interessantes que recebi no grupo foram:

“Para mim, pelo menos, parece muito simples: a contradição faz parte da nossa essência. Impossível sermos totalmente “coerentes”. Quem é a “consciência superior” que nos indica o que é “certo” e o que é “errado”? Por exemplo, quem seria a “autoridade” que poderia apontar para sua palestrante: “Tá certo você ser feminista, mas tá errado promover o churrasco”? Essa busca da “verdade absoluta”, da “moral perfeita”, é um câncer, uma desgraça que leva às piores coisas. Só podemos mudar se formos contraditórios.
Não quero me estender muito, porque ando de saco cheio com o mundo. Eu diria apenas: relaxe! Seja honesto consigo mesmo, procure ser o melhor possível dentro do que você considera correto. E esteja sempre disposto a ouvir, analisar, pensar, raciocinar, sentir, emocionar-se e, por fim, mudar essa noção de “certo” quando você achar que é o caso de mudar”.

Outro membro também fez essa análise muito cuidadosa:

“Nós somos egocêntricos e narcisistas.
Nós seres humanos. E por aprendermos desde criança que devemos estar sempre certos, nosso cérebro dá um nó quando nos encontramos nesse ponto.

Fato é, não há como não ser contraditório em algum ponto da vida.
Porém a “utilidade” desse fator varia.
Acho que demanda uma certa lucidez pra perceber que se está sendo contraditório, mas nem todas as pessoas tem medo disso. Algumas pessoas mudam de paradigma mais facilmente que outras, e essa capacidade de identificar contradições é mais do que necessária pra essas pessoas como ferramenta de adaptação social.

A contradição entre ideologia e ação (se é pela ideologia que tu se baseia) sempre vai dar um pequeno conflito de pensamento, gerando incômodo até esse conflito ser resolvido (no exemplo que você deu, até você decidir que o feminismo era um fator social e merece a palma, ou que você iria se recusar a bater palma pra churrasco, uma coisa que não tem contribuição social tão potente, tanto faz). A saída mais lógica é abrir uma exceção, hierarquizar as regras ou, claro, mudá-las.
Tudo depende da importância que você dá a essas regras.

Mas essa importância é uma coisa inconsciente, você não valoriza mais conceito x ou y por motivos lógicos, e por isso não é simples pro indivíduo exceptuar/hierarquizar/mudar uma coisa que lhe ajuda a pautar as suas ações porque essa coisa não é consciente

Deu pra sacar?

Pensei nisso durante o final de semana, e se você está acostumado a burlar as próprias regras (ou esgarça-las, forçando seus limites),esse tratamento de contradições dentro de você se torna mais fácil,ou menos incômodo (comigo é assim).”

Depois de toda essa ruminação, me senti a vontade em dividir esse texto aqui, inclusive com as opiniões mais sensatas, sem citar o nome das pessoas que opinaram pelo simples fato delas terem vindo de um grupo fechado. Espero que ele tenha alguma serventia a mais alguém, além de mim.