A poetisa nômade Matilde Campilho ou como seria ou meu testamento poético.

Parece até que foi ontem, e na verdade foi. Ao conhecer os vídeopoemas de Matilde Campilho, uma carioca lisboeta dos pés incansáveis. Fiquei imaginando como seria meu testamento para a eternidade, para nunca morrer, mesmo ela, a morte, me puxar de modo brusco pelo braço direito. Quase como uma lembrança, aparece ela, uma poetisa nômade, um pouco aqui, um pouco lá. Seu livro recém lançado chama-se “Jóquei” e mistura em sua tintura, dentro de um mesmo poema, a dicção carioca e a lisboeta. Matilde é de longe a concha mais linda que eu abri nesse misterioso 2015. Matilde, me salvou por algumas horas e nem sabe, vejam o por que, entrem no barco florido que rumo em direção ao ar perfumoso e deixem cada pássaro selvagem entrar:

matilde

Não é cair: é voar com estilo

” saudade de tudo aquilo que a gente foi um dia, mas agora só existem os poemas, as mentiras dos poemas…”

 

“é que por você eu dirigia meu automóvel de uma forma muito estapafúrdia, meus pais sempre discutiam comigo porque não chegava na hora do jantar, o garoto da lojade sorvete piscava um olho quando eu chegava sozinha no balcão”

 

Honey Boo

” Os jornais usam datas estranhas em seus cabeçalhos, junto àquelas figuras de aviões e homens fardados, aparece o nome do décimo-sexto mês, mudou tudo Honey Boo”

31 de Outubro

” um dia começaram os 160 dias consecutivos de 100 graus fahrenheit em Marble Bar, Australia, dia da alegria, como tantos outros, dia do lançamento da canção “Something”, do George Harrison, dia em que há dois anos atrás chegamos a ser sete biliões aqui no mundo e eu me sentei no boteco, sentindo saudade de uma esquina só.”

 

 

Squats: veja como funcionam essas ocupações político-artísticas pelo mundo.

Você já ouviu falar dos Squats?

squats

Um squat é uma forma de agrupamento rebelde e independente, que agrega pessoas sem capital para arrendamento privado. Alguns dizem que a prática é crime, outros defendem ser um direito civil. A lógica de ocupação geralmente é dirigida à imóveis ociosos, principalmente em esfera pública. Esses coletivos são divergentes em relação a lógica capitalista, geralmente possuem um DNA anarquista e buscam implantar sistemas produtivos alheios ao mainstream, em maioria político-artísticos, dentro do local ocupado. Os posseiros dividem as tarefas domésticas de forma colaborativa e tudo funciona baseado na auto-gestão. O cotidiano cooperativo desses grupos engloba a prática gentil, com serviços abertos e gratuitos ao público: oficinas de reparação de bicicletas, aulas de soldagem para cinemas, bibliotecas ideológicas e sala de ensaios equipada de diversos instrumentos etc. Muitos dos squats ganham o aval do governo ao provarem – não sem muita resistência –  que são úteis à comunidade.

Liebig 34 – Berlim

Se intitula como um coletivo anarco-feminista, fica localizado na área de Friedrichshain próxima ao rio Straße. Ali vivem cerca de 40 pessoas, todos defendem que o uso de bicicleta é um ato político e promovem o sistema de trocas de bens matérias.

http://liebig34.blogsport.de/

liebig34

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Lista aleatória: Jared Leto, Marina Abramovic e o robô Chappie,

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1- Para quem não sabe, Jared Leto será o próximo ator a viver o personagem Coringa nos cinemas, escolha acertada, embora exista também Shia LaBeouf, que também daria conta do recado. A foto que supostamente vazou (ta cada vez mais na moda essa coisa de vazar “sem querer” algo proibidinho) pela internet é referente ao filme “O Esquadrão Suicida” que estreia só em 2016.

2- Foram divulgadas algumas estatísticas sobre o perfil das pessoas que tem protestado nas ruas nos últimos dois meses A polícia militar informou que dos 20 bilhões de protestantes que já foram as ruas, 80% eram pessoas que costumam gritar “AEEEEEE” na praça de alimentação quando alguém deixa cair a bandeja. A recomendação é: fujam pras colinas enquanto é tempo.

3 – DUBSMASH: aquele momento em que eu faço um ~T h e V o i c e~ com a cadeira – SÓ QUE AO CONTRÁRIO.

4- Pessoas que eu não gosto de sair: gente que manda voltar o copo porque tinha UMA pedra de gelo a mais.

5 – Pessimismos: daqui 5 ou 10 anos veremos Lucas Jagger twittando por aí

6- O melhor do filme Chappie ( aquele do robô ): a assaltante hipster que adota o robô como mãe. Pela única vez na vida, recomendo que um filme seja visto dublado, vocês irão entender quando assistirem.

7 – As melhores coisas que acontecem em São Paulo são as que a gente improvisa e inventa um nome pra foto não ficar sem legenda, tipo exposição de dinossauros (esqueletos e bonequinhos) no ap do seu amigo maluco.

8- Achei sensacional a notícia de que Caça-Fantasmas 3 será protagonizado por quatro mulheres, e o mais empolgante é que uma delas será Melissa Mccarthy. \o/

9 – Como foi a experiência Marina Abramovic no Terra Comunal? Monitores treinados via anúncio no “Ta afim de um freela”, vestidos de Ninjas do BBB, sugerem técnicas de interação com cristais e com o silêncio. A intenção é das melhores, mas quando estou em São Paulo, nem por um minuto eu consigo esquecer que estou em São Paulo. Não, acho que o problema não é com a instalação, é comigo mesmo.

10 – Tweet pra posteridade:  “Você odeia tudo o que não entende. E não entende nada porque odeia tudo.  Amigo, a vida não lhe deve tapete vermelho. Se esforce “, Léo Jaime.

Força Maior

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Um semi-acidente que revela através de uma pequena atitude instintiva, o lado frágil dos papéis normativos nas relações de gênero. “Força Maior” é daqueles filmes que nos oferecem um serviço completo, categórico em termos de técnica, argumento e atuações. A avalanche em forma de metáfora rege os acontecimentos e descompartimenta a até então vida mais ou menos do casal Ebba e Thomas.

As atitudes resistentes de Thomas em se assumir vulnerável desconstroem um tabu valioso: homens também sentem medo. Colocando o protótipo da valentia masculina em cheque, o diretor consegue através de um experimento hipotético desmistificar a capa do super herói. Nessa hora, quem rouba a cena é Ebba, a esposa, que começa a questionar suas expectativas e transborda temas urgentes de forma polida, o machismo, tanto masculino quanto feminino é trabalhado então com sutileza e maestria, não há exagero, existem fatos e fragilidades. E talvez seja esse o grande tema do filme sueco: a fragilidade. A cena do ataque de choro é ambígua, patética e ridiculamente bem explorada. Ali a avalanche emocional, antes implodida, não mais consegue sustentar as aparências.

A Câmera nesse longa é impiedosa e detalhista, explora incansavelmente o potencial do branco. Um branco arisco, que burla a sua fama pacata e traféga lampejando o frio dos corpos, exige reações, não se contenta com a plenitude de seu papel. Um branco com flexões sonoras: os pequenos barulhos vindos da neve dos Alpes funcionam como um anúncio de que algo pode estar errado. Um branco que quase rouba pra si o enervado azul do céu ou dos olhos do protagonista

Os personagens secundários interferem na trama de forma incisiva, ali, naquele miolo sem muita perspectiva, são eles que de forma mais arejada, mexem com o rumo da neve volante, e através de uma terapia em grupo espontânea, acabam nos incluindo sugestivamente. É um tribunal que desencoraja nossa hipocrisia, já que o vilão da história, é na verdade uma construção estabelecida socialmente. Alheia a essas regras implícitas, existe a lei de sobrevivência que desmancha qualquer simulação, quando o pânico assume o comando a tal coragem pode se esconder atrás do primeiro muro.

O cinema escandinavo me ganha cada vez mais, por saber fechar qualquer saída de emergência para soluções fáceis dentro de uma reflexão complexa . “Força Maior” é uma estrutura valiosa porque investiga sentimentos intimidantes e é capaz de com uma cena, questionar todo um tutorial moral. As perguntas espetam a mente. Quais são as suas verdadeiras prioridades em um momento de perigo? Você ou os seus? Em uma situação limite, a quem você salvaria primeiro? Não, nenhuma resposta é válida depois desse filme, aliás, UM SENHOR FILME.

Frank

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Caro Frank, depois de nutrir-me do processo musical dos “Chinchillas”, não pude deixar de lhe escrever essa carta [estou sorrindo como quem se convida para entrar]. A linha de composição em meio ao suplemento da quietude, me parece uma espécie de distensão necessária ao artista. Morder as ideias, não sem medo, e fazer costuras quando a insanidade nos rasga. Talvez por dentro dessa máscara, e da imagem amorfa residente em seu interior, exista uma grande alegoria de pretensa solidez, que nos envolve e ao mesmo tempo nos oculta.


Aquele lindo retiro verde onde tudo acontece, amplifica a alquimia possível do trajeto da poeira que se torna dourada [ nesse momento, meu olhar está deslocado para o musgo gelado que encosta o lago e as ideias que de lá brotam].Quem experimenta a sensibilidade está mais perto da deidade, mas também da sombra. A solidão que transcende a superficialidade é um isolamento que independe de numerais bovinos, é um cofre de difícil acesso, lidar com ela exige certo desapego. Acho que isso vem do medo de sabermos que só chegamos lá sozinhos, sem placas ou anestésicos.

O artista que se enxerga no próprio esconderijo deve saber destrancá-lo, ao contrário, fica confinado em um reduto sem janelas, nem portas, o sol do lado de fora não reage ao soneto e um estado de sufoco acaba por trancar a lucidez, o resultado é a cova da implosão. O artista precisa da voz, nem tanto da garganta, é a voz capaz de atravessar a loucura. A arte exposta é uma nudez, e por cima do seu pescoço acredito nessas mil sensações que nem a ausência de máscara revelaria, o segredo está no oeste do peito.

O grande trunfo de toda tentativa experimental é sustentar a heterodoxia. Existe a fortuna de quem consegue agregar a identidade sem rendição, e existe aquele que precisa se assumir produto, para que seu circo arrecade os louros do vazio que se disfarça de sucesso. Mas e nós quando selvagens? Como desviar os dentes e não subestimar o lado medíocre da mesa ao lado: jovens contam proezas uns aos outros para provarem o quanto são bons na medida da casca. Como desenvolver imunidade a essa troca de blasfêmias entre justiceiros e justiceiros, todos mergulhados em uma frigideira com óleo quente, vendendo feridas fritas a si mesmos. Olhando de longe, são todos antagonistas em busca de significados [ou certificados], todos com toda e nenhuma razão.

Encerro por aqui, dizendo que quero bem você – confesso que jamais me imaginei escrevendo uma carta a um personagem, mas sei que você existe. Quero bem a Michael Fassbender por se superar como ator e nos convencer de que a tradução do sentimento não se restringe ao idioma da muleta facial. E também a Maggie Gyllenhaal que nunca foi tão exuberante no ofício de amazona arisco-elegante. Hoje sei que tudo acontece quando a mão se entrega a massa ou quando a atenção desatenta fisga a verdade de um lapso. De resto somos todos aspirantes – alguns ostentam certificados.

“Frank”: uma película prestando homenagem à loucura produtiva. Não é bem sobre uma máscara, mas sobre um CORAÇÃO À MOSTRA, não sem dor.

Club Sandwich

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ano passado estava na Mostra e o esnobei, mas o cinema sabe corrigir esses desencontros. aderindo à uma sugestão altamente confiável, me dei esse filme de aniversário. não tenho o hábito de conversar no cinema, mas dessa vez rompi com os meus bons modos: a conversa paralela era inevitavelmente um efeito colateral.


“as vozes não saem das rachaduras, estragulam-se” – Rogério Pereira.
na ausência de trilha, os efeitos sonoros tornavam-se maiúsculos. nos longos espaços de silêncio, o barulho verbalizava com a imagem feito arroz e feijão. ali, naquele hotel, com cinco hóspedes e algumas moscas, o silêncio é um tufão ruidoso. ele entrega o conflito nuclear que se inicía com a chegada da menina “intrusa”.

a dinâmica dos diálogos e adereços, desenvolvida com artifícios de interação, seja em baixo d’água ou na conversa que se estabelece entre os fones de ouvido. a cama como elemento simbólico que sugere pulsões. o protetor solar, que em uma inteligente repetição de cena, parece um bastão passado de forma desgostosa de mãe para nora.

a câmera [que tem aquele TOC da simetria] é higiênica e estuda cada impacto anaclítico do subtexto. no fundo, são dois filmes acontecendo, sugestões e mais sugestões, a entrelinha evolui e a palavra “mãe” não é mencionada. o menino ora cede a nova namoradinha, ora, sem perceber, se entrega ao pacto umbilical. uma disputa entre as duas fica evidente no shot em que os três jogam baralho na cama, olhares que se repelem em pleno confonto.

“Club Sandwich” fala de um tipo de separação comum e ao mesmo tempo espinhosa. nos lembra de que cada olhar tem a chave da própria casa. tudo rema com propósito, é um filme sem grotões, epitomizado pela economia e pelo não-dito. o tema edipiano mostrado sem o veneno escandalizante. é a arte dando uma mãozinha aos terapeutas.

prefiro achar que 2015 ainda mal começou, para esperar filmes tão valiosos como essa preciosidade mexicana. agora sim, VALENDO