A Idade do Serrote

10428704_924973780881457_9177321358883474097_n

“Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo.” Freud


Após ouvir essa knew quote de um professor de Psicanálise da faculdade, eu passei a prestar atenção em como as pessoas se referiam as outras. Esse tipo de observação terceira me ajudou a traçar sinopses mais precisas em meus espaços sociais. Quando falamos de nós, tendemos a enfeitar nossos espelhos, mas quando o assunto é o outro, a gentileza tende a atravessar a rua.

A articulação do passado norteia o arranjo em prosa poética traçado por Murilo Mendes em “A Idade do serrote”. Um livro garboso, que basicamente resgata o tempo em forma de pessoas. Pessoas descritas de uma maneira que eu nunca vi. Um mundo cheio de cirandas & cirandinhas para quem gosta de escorregar para dentro dos olhos de quem bonito enxerga. A cada passar de folha branca, um sem-fim de palavras novas, descrições com cheiro de doce no fogão, humans of Juiz de Fora – que é uma linda funcionária da poesia.

Sobre como viramos um pouco daqueles que nos servem de referência, nossos mestres de vida, todos eles, inclusive aqueles que não destilam ofensas parnasianas. [Que bom que eu tenho ídolos e eles sabem]. Um livro-documento e nós, amarrados pela arte de desvendar o corpo vizinho: um gesto, um trago, um jeito de mentir, mentira fresca, quem tem? Aluga-se um pomar para escritores, rico em cheiros lambuzantes, pegadas na terra, milagres de Domingo. E as mulheres, deusas em pedestais merecidos, cada uma com seu colar, um esmalte ou um botão com cara de joaninha.

“O prazer, a sabedoria de ver, chegavam a justificar minha existência. Uma curiosidade inextinguível pelas formas me assaltava e me assalta sempre. Ver coisas, ver pessoas na sua diversidade, ver, rever, ver, rever. O olho armado me dava e continua a me dar força para a vida” pág 163

É isso, agora sei para onde vou, vou olhar à janela, ver gente passando.

Dois lados do amor

dois lados

“Quero desconstruir conceitos, reafirmar fés, alimentar almas, aquecer corações, sujar pés, bilhar olhares, acariciar cicatrizes e profetizar palavras. Quero garantir que rotina nenhuma, baque nenhum, estresse nenhum, me transforme em uma pessoa que não sente.”


Li isso hoje, vindo de um amigo muito consciente. Falávamos de projetos e sonhos que sofreram desvios ou ficaram dormentes por motivos de força maior e o que sobrou disso. Coloquei-me a pensar também no filme que vi ontem: “Dois lados do amor”. É um daqueles lançamentos tímidos, que entram em cartaz sem ninguém notar e que vão embora do circuito falando baixinho. A narrativa trata do lado abismal da separação, dos sonhos em cacos, do espaço incerto que existe nos recomeços. O que vem depois de quando as coisas não saem exatamente como planejamos?

A gente quer tanta coisa, e acha que tem certeza [irônico não?] e de repente não quer mais, ou não quer exatamente como queria antes, ou descobre que queria o querer dos outros. E vem aquela vontade de jogar tudo para o alto, mudar, fugir pra bem longe, exterminar nossas aflições cumulativas com alguma mudança drástica de rota. Mas o que acontece depois de uma fuga alucinada, de um ano sabático, de uma separação traumática, de uma demissão cheia de alívio? Sempre achei que me sentir desorientado em relação ao futuro era apenas uma frescura minha, como se as pessoas não tivessem essas mesmas dúvidas existenciais. Pensando em quem bancou essas mudanças citadas, me parecem mais sóbrias as pessoas que não quiseram saber o que acontece depois, as que rejeitaram respostas, as que abdicaram da certeza. As que apenas se puseram a respirar, caminhar, que abriram os poros para o trajeto percorrido, que se livraram do “dar certo” e que na estrada encontraram algo, alguém ou os dois.

O que me fisgou nesse filme foi justamente a falta de resposta para o futuro. Embora eu adore esse segmento, essa não é uma história sobre volta por cima, mas também não é uma crise existencial. Ela não explica por que as coisas não deram certo e também não revela a receita sobre como se reerguer perante uma frustração. Existe um silêncio maduro, um vazio cheio de respiro e existem pessoas completamente fragilizadas tentando pisar no chão novamente. Mas como é esse chão? É frio? Escorregadio? Sujo? Riscado? Olhar o chão e se convencer de que existem lutos que nunca passam, gastar a tristeza sem ignorá-la, negociar suas perdas com o “de agora em diante”.

“Dois lados” é sobre o exato momento em que a gente respira fundo sem saber a continuação. As interpretações competentes ditam um ritmo que nos envolve, personagens mal resolvidos e ao mesmo tempo interessantes. Todos possuem um currículo triste no olhar, mas parecem tomados por uma sabedoria sem resposta. Eles talvez entendam que a lama, mesmo liquida, não evapora.

Mapas para as Estrelas

mapa
Nunca fui muito longe com a obra de Cronenberg. É que a cada filme seu, me dou conta de que não consigo me conectar ao seu jeito de dizer, não me sinto a vontade em seu espaço diegético. Seus maneirismos não me impressionam, passam reto por mim, seguem olhando o horizonte sem ponto fixo, não há encontro. Vez ou outra, gosto de vir aqui dizer que não gostei de um filme que tenha algum diretor badalado, cheio de defensores e asseclas. Isso significa que eu posso não ter entendido, ou simplesmente que a arte nunca é unânime. Sinto-me feliz quando não consigo entender um código, uma linguagem, quando não ouço os verbos que a tela reproduz, é sinal de que a estrada ainda me reserva surpresas ou que eu sirvo para algumas estradas, para outras não.

Posso sem querer, afrontar aquele tipo de entendido que rejeita o cinema mainstream por se achar diferenciado. Eu não me sinto dono do cinema, nem dono do pedaço, sou apenas um guloso que gosta de experimentar essa arte com variados temperos e oferecer um pedaço para quem está ao lado, sem esfregar qualquer verdade com broches monolíticos. Os personagens de Cronemberg me parecem desabitados, dopados, intransmissíveis – Wasikowska e Pattinson parecem feitos para asseverar essa minha impressão. Não consigo me achar naquele universo. É algo diferente de não entender, é um desencontro, uma desconexão.

“Mapa para as estrelas” possui um tema auspicioso, mas toca em partes novas do reino do ego. É uma privada aberta mostrando o lado medíocre e mesquinho das celebridades. Vai do luxo ao lixo. Mais lixo do que luxo. Oferece um elenco mirim assustador, exótico, perigoso e um Rivotril em chamas chamado Julianne Moore. Loira, com veias a mostra, em uma interpretação aguda e fisiológica, cheia de barulhos, excrementos e chiliques.

Talvez eu continue tentando gostar de Cronenberg, convencido de que o problema não está na qualidade de suas criações, mas convencido também de que ufa, eu não sou igual a todo mundo e que tudo o que nós não gostamos é também um tipo de assinatura e só assim a gente vai entendendo nossa identidade cultural.