Transparent

transp

“Então, você está dizendo que vai se vestir de mulher o tempo todo agora?”, pergunta um dos filhos ao personagem principal. “Não, querido. Durante toda a minha vida eu venho ‘me vestindo’ de homem. Essa sou eu”.

Guardo com zelo a palavra “genial”. No meu lote de superlativos, “genial” tem muita força e carece de critérios cuidadosos enquanto atribuição. Não seria hiperbólico dizer “genial” de boca cheia quando falo da série “Transparent”. Entre as reflexões sobre o diferente, um pianinho regendo os acontecimentos. Às vezes, a música atravessa o concreto de um plano e invade os outros, passeia feito um vento curioso. Adoro quando uma canção perpassa diversos núcleos, como se olhasse pra dentro de cada personagem, com alguma ternura.

Falo também da absurda interpretação fulgurante de Jeffrey Tambor. E de uma atriz-achado: Gaby Hoffman e a sua disponibilidade – aquele tipo que depois de interpretar, lambe os dedos pra não desperdiçar existência. As questões de gênero e das identidades em pleno fluxo de reflexão, tocando no poder opressivo das Metaestruturas e trazendo a tona diálogos antes sufocados. Sobre quando a verdade deixa de ser refém dos imperativos corporais. Um exame sutil e necessário feito para quem questiona as normatividades impostas pelo senso comum. Um retrato sobre espaços subjetivos, que por não serem nossos, deveríamos respeitar.

Chegou o momento em que um Globo de Ouro levanta alguma relevância.

A teoria de tudo

teoria de

Descoberta sem pressa, abraço sem tempo, sorriso sem futuro. Um espaço em que, um lugar onde, um colar para. Tudo diante do instante. Não espere por. Livre-se de. Olhe bem para. Olhe como nunca. Olhe sem nem pensar nos portantos. Eu queria um mundo maior, onde coubesse esse ministério de tudo o que eu tenho e me esqueci de rotular. Eu queria desenhar o amor em lápis grafite, só pra dizer que tudo era mais simples, e nem precisava das cores, nem mesmo o vermelho. Agora consigo trazer aqui, todas as receitas que não deram certo, e foram injustiçadas pela obrigação franzina da geometria, pelas leis da forma. O doce que se desmanchou e eu joguei fora. O gosto era tão bom e eu não sabia. O gosto era melhor do que se desse certo, como na receita da revista.


Essa fissura pelo que é a verdade. Dizem que ela não dói dentro da água. Há sal e é quente aqui – nas lágrimas. As melhores coisas, eu aprendi de tarde, sem aula, sem professor, sem relógio. Jogue fora o relógio. Guardei o seu instante direitinho, o que eu tenho aqui, nem da pra explicar. Uma fortuna feita de retratos luminosos.. Você pode voar e a qualquer momento. Eu deixo. Eu amo. Eu deixo você sorrir, mesmo longe daqui. A grama foi sempre mais verde entre nós. Agora eu entendo. Estar perto pode ser longe. Seu sorriso é sua palavra mais bonita. Eu poderia morrer agora, em um cochilo doce, sem algema, com essa liberdade que nunca impede. Era isso. O hiato. Eu nunca cheguei até aí, porque a distancia é só uma equação das nuvens, jogue fora o relógio.

Moro em seu peito, sem te obrigar, sem ser corrupto, sem esmagar. Você pronunciava o macio em cada mensagem. Eram mil teorias. Eu não via o elenco de assombrações que os outros tanto alertavam. Era tudo tão solto em cada movimento ou milagre que prometia não vingar. E você sobreviveu e eu não soube como retribuir. Mas tinha uma estranha certeza – sem nenhuma certeza – de que a vida nos misturou para que tudo fosse bom, para que nosso elo fosse uma rua extensa cheia de portões abertos pra gente se esquecer das bodas. Stephen & Jane, enquanto durou.

“A Teoria de tudo” é um sorriso sem trucagem. A explosão contida do afago, em meio aos números mais herméticos. Um triângulo sem culpados, um relógio despedaçado. Uma endobiografia cheirosa, que cava o nosso jardim e desperta regadores. Me perdoe a ciência, mas essa obra é mais sobre Eddie Redmayne do que Stephen Hawking.

Estou de mãos dadas com esse filme, e não quero mais soltar.

Birdman

birdman
Abre aspas. Eu sou o homem pássaro, muito em breve não mais. Enxergo a fama como um vidro embaçado. Asas não voam, fazem voar. Aplaudam a minha solidão. Sou sempre nublado enquanto o amor não diz que chegou. Que prazer esse bando de rostos sem rosto, gritando o meu nome. Não parem. Quero roubar esses sorrisos cegos só pra mim. Não sou de emprestar, quero tudo o que restar no prato, inclusive a faca, as palmas, os arabescos.
Ostracismo é exílio ou esquecimento? Fui descoberto com a faca no bolso, fiquei de pé na ponta afiada, onde ninguém se importa. Prefiro o gosto do ar suave e a força da poeira que encosta e não dói. Estou aqui, jogado no camarim, cansado de ser tanto, sem ser. Sou pouco e sou menos, mas às vezes peço alpiste ou elogios, sou viciado em (com)paixão.

Sou filho da fome. Mordo com carinho e arranco o seu medo apenas por hoje. Sou sempre o narrador, que tosse a culpa e a lamparina pelo bico. Me vejam daqui de cima. Vou pular. Ameaço pular. Fotografem isso, mas se eu morrer, não estarei aqui para ver as manchetes. Volto então a viver, desço de escada. Sorriso um, sorriso dois, sorriso três. Podemos tirar outra foto? O sorriso sete não ficou bom.

Forjo um sequestro. A recompensa é me levar embora. Serei esquecido. Já decidi. As vaias, só elas me salvam desse monstro engolidor de dejetos e ciladas. Só a vaia é sincera. Elogio é só um tipo gostoso de solidão. Um rastro do medíocre. Os felinos nunca me elogiam, é amor sincero, me protegem da ilusão insistente de tudo aquilo que dizem que eu sou. É só o que dizem. O público atribui os adjetivos. Infeliz de quem inventou os adjetivos. Adjetivos são mísseis.

Me tragam de volta. Mas sem asas. Sei voar sem rodinhas. Quero gatos, muitos gatos. Gatos sobrevivem vezes sete. Tragam um salto para que eu cresça, só um pouco, para que não me vejam, prometo não pisar nos gatos. Esse texto é uma cortina se fechando. Quando tudo acabar, quero ser desconhecido, quero a castidade. As aspas são o meu disfarce. Assinarei como um autor desconhecido. Fecha aspas.

Assinado: autor desconhecido. [alívio].

“Birdman” é só um pássaro caído no chão, parem de olhar pro céu.

 

Grandes Olhos

timbur

Estava eu, pronto para achincalhar Tim Burton. Foram algumas chances, alguns anos, alguns filmes medianos. Tinha decidido no alto da minha sentença desgostosa que Tim passava por uma fase de gradação descendente em relação a sua obra. Meus “Grandes olhos” não viam Tim na tela. Onde estavam aquelas cores com jeito de tristeza? Onde estavam os trejeitos de Johnny Deep? Onde estava a morte? Estaria o cinema de Tim em processo de alacridade? Estaria ele finalmente sorrindo para nós?


Eu que sou meio niilista, meio religioso, sentei na cadeira do Bristol e percebi que a projeção apresentava problemas técnicos – ou quem sabe efeitos colaterais regidos pelo Realismo-Fantástico ? A tela tremia o tempo todo. Ler as legendas me trazia a sensação de um simulador, daqueles que nos deixam com o estômago invertido. Uma funcionaria entrou na sala avisando que aquele problema não seria solucionado naquele momento e quem quisesse, poderia deixar o filme e reembolsar o valor do ingresso. Eu que acredito plenamente no cinema enquanto entidade, preferi pensar que aquilo era parte do pacote, uma circunstância não aleatória, um mimo metafísico, que misturado ao filme, traria uma dimensão nova, vertiginosa, um mal-estar providencial. Um filme não é só um emaranhado de imagens. É o comportamento da plateia, é o meu atraso, é o meu dia que foi antes, é o meu humor, é um incêndio que poderia acontecer, mas não aconteceu. O cinema bate junto com outros órgãos nossos, é impossível isolá-lo desse funcionamento.

Era uma historinha simples, sem rodeios. A imagem poluída por um retrô, irritantemente agradável. São Francisco em cores irônicas e um Havaí exuberante, bem do jeito que ele é. Amy Adams e Christoph Waltz dando conta do recado, uma narrativa linear, sem riscos, sem novidades, sem surpresas. Eu esperava por algum grande momento, alguma grande virada, alguma grande epifania. Não veio. Era só isso. O filme era só isso.

Horas depois senti uma sensação esquisita, de sufoco, uma claustrofobia ao ar livre, sem multidão, sem lugar fechado, apenas eu, um arcabouço algemado a uma prisão abstrata. Lembrei-me de Margareth Ulbrich, a protagonista da história. Uma mulher insegura, fragilizada e ao mesmo tempo uma artista brilhante, que passa grande parte da trama aprisionada por uma mentira com a qual foi condizente. Suas pinturas possuem um padrão: crianças pintadas com olhos esbugalhados e desproporcionais. Olhos fugidios, querendo saltar da imagem a qualquer momento. Talvez os “Grandes Olhos” fossem os do próprio Tim, pedindo socorro por sua involução enquanto artista provedor. O mal estar passou, a revolta também, mas o cinema ainda palpitava em mim como um formigamento involuntário.

Quem sabe se o cinema não é apenas essa obrigação do gostei/não gostei? Quem sabe se o cinema é uma sequela sem explicação? Esse cinema que me sublinha e me avisa. Esse cinema que é quase uma premonição tirando a roupa frente ao espelho-tela. Esse cinema que me faz aprender que nós também somos responsáveis pelas histórias que não nos tocam. Esse cinema que nos avisa sobre quem éramos, e a gente se despede, sem nem perceber.