Whiplash – em busca da perfeição

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Você já viu esse filme antes. O mocinho que supera suas armadilhas pessoais e vai além, vai fundo e longe. Ideias revisitadas são perigosas, precisam de novos acordes e sutilezas, precisam nos espetar, não sem dor, e essa perfuração deve ser precisa, para que mesmo uma pessoa leiga em jazz consiga sentir o longa em uma dimensão mais sensorial e menos teorizada.


“Whiplash: em busca da perfeição” se consagra pelas suas maneiras, por nos levar a exaustão junto de um personagem que poderia ser um de nós. Sem jeito de excepcional, sem uma beleza padronizada, sem coitadismos. Não gosto de usar a palavra visceral, mas nesse filme “dar o sangue” não é força de expressão. Ficaremos manchados de uma persistência que nos encharca de suor. Disso, asseguro, trata-se de um filme ruidosamente permeável.

Um ponto importante é que nesse tipo de história, quem faz toda diferença é o mestre- carrasco. Grandes mocinhos dependem muito de exímios vilões, é difícil um funcionar sem o outro. Depois de Miranda Priestly (de “O Diabo veste Prada”), não me lembro de ter sentido tamanha raiva como essa, pelo temido maestro Fltecher ( J.K Simmons). A interpretação do ator é genial, furiosa, intolerante, agrega sadismo e sublimação em um rosto com traços rígidos e ferventes.

A relação construída entre os dois personagens é o trunfo da câmera e da direção. Existe uma violência por parte do maestro, seus movimentos atentatórios enquanto rege geram uma tensão subjacente e não raro isso acontece nos processos artísticos. Foi inevitável trazer meu passado cênico de volta. Lembro que a melhor interpretação da minha vida aconteceu depois de uma bronca aterrorizante de um diretor bastante intenso em sua lida com atores. Ali eu encontrei como nunca antes meus sentimentos a flor da pele, a serviço do meu movimento enquanto agente do personagem.

Cenas como a do acidente ou a sequencia final – que termina em um clímax surpreendente- ensejam aquela dose de incentivo que a gente adora receber do cinema. O primeiro bom filme do ano é um pleno exercício de transpiração, cheio de cansaços e retribuições. Uma obra que vem nos relembrar que grandes gênios não se fazem nos sofás e que a vida é menos generosa com quem se protege dos desafios.