Pepi Luci Bom

pepiluci

Mostra, meu filme 15.

A moça avisa no microfone: – infelizmente a projeção vai demorar 10 minutos pra começar porque o rolo do filme, de tão velho, rasgou. “Rasgar” talvez seja a palavra certa para definir o primeiro longa exibido comercialmente por Almodóvar, depois de sua fase Super 8. ~Pepi Luci Bom e outras garotas de montão~ é uma comédia cheia de rasgos e rompimentos. Daquelas quebras grotescas e bizarras, transgressoras e flatulentas. Lembra – em aparência – uma revista erótica velha, de páginas coladas, pelos a mostra e looks estrategicamente constrangedores. Dizem que é uma narrativa inspirada em uma HQ punk e subversiva dos anos 70. É tão bom saber como era o “ir longe demais” na cabeça de um diretor- arrombador-de-portas-repressivas como Pedro. Cócegas na pupila. Sem parar. Pedro zueiro – ele pode.

35mm de trasheira, de deboche explícito. uma narrativa pontilhada, sem eira nem beira. gente com ousadia e laquê. gente entrando e saindo – sei lá de onde. Rir de doer.

A maconha de apartamento, o concurso de ereções, a cena de pissing, o piti [em modo grave] da esposa barbada, a banda espancando o estuprador errado e todo aquele mau gosto generalizado.

PedroPitorescoPop & suas chicas-barraqueiras-polvilhantes. O furor kitsch da chanchada. O descompromisso de um filme b. Tudo isso e mais um pouco de exagero. Um empolgante e excêntrico papelão!
Pedro pode.

Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência

pombo
Mostra, meu filme 14. Enxergar a arte, inclusive por dimensões externas, pode ampliar as possibilidades do nosso entendimento. É por isso que gosto de entender um filme também pela temperatura da plateia e por seu comportamento. Ontem, assistindo a um dos filmes mais consagrados dessa Mostra, notei que o perfil do público era um pouco diferente dos que encontrei em outras sessões. Era um público que se exagerava nas risadas. Eram risos altos e prolongados, que muitas vezes me pareciam forçosos e até irônicos. Senti que parte desses risos eram altamente ostensivos. Era como se alguns estivessem ali tentando mostrar que estavam entendendo mais do que os outros o humor sofisticado da história. A outra parte do público se dividia entre os que riam de algumas situações de uma forma mais discreta e outros que riam copiosamente porque tinham certa intimidade com aquela trilogia ou com o humor do diretor – muito comparado com Monty Phyton – e realmente achavam aquilo muito engraçado. Esse relato não é propriamente uma crítica a nenhuma das partes retratadas. É que foi justamente essa condução indireta da plateia que me ajudou a compreender melhor o próprio filme.

“ Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência” já atraiu pelo nome exótico e gigante inversamente proporcional às escolhas econômicas do diretor. Roy Andersson utiliza um minimalismo altamente perfeccionista para que suas pequenas esquetes sejam vistas com precisão e limpeza. A câmera possui um distanciamento que nos transforma em “pombos’ em pleno exercício de observação; é estática como um galho de árvore. As situações são um pouco surreais e os personagens [ todos meio losers ] possuem um tempo de ação mais lento e por vezes repetitivo. Cada cena parece nos congelar de nossa própria frieza. Uma série de situações banais acontecem para que o nosso sadismo e humor maldoso venham a tona e também para que caiamos na armadilha final.

As cores frias e os rostos pálidos estão ali funcionando como assombrações existindo em meio as desimportâncias da vida. As tomadas parecem experimentar a nossa capacidade de zombar dos personagens até que acontece então um riso último, altamente chocante. Esse riso não é nosso. É então que se inverte a nossa relação com o filme. É como se a cena final propositalmente colocasse animais e humanos em uma situações simbologicamente parecidas em sequencia, para que o riso da primeira se transforme em constrangimento na segunda. É uma catarse diferente, que nos deixa encolhidos em nossas perversões. É como se o diretor dissesse: – Ué, mas vocês não estavam rindo até agora, que caras são essas?

“Um pombo…” cumpre com excelência ao que se propõe: faz com que o cinema ria por último, e muito melhor.

 

Brincante

Mostra, meu filme 11.
Eu olhava ao redor e o sorriso parecia um novo idioma estabelecido. A nação-plateia-entregue-alegre, distraída de atenção, dando piruetas em seus lugares. “Brincante” me lembrou de uma das melhores coisas que já aconteceram na televisão: “Hoje é dia de Maria”, é um parquinho folclórico, cheio de serpentina. Não sei se o que vi foi um documentário com porções de flash mobs mambembes ou um musical urbano com gosto de cordel nordestino ou um circo itinerante estruturando-se em pleno cinema-poema.

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António Nóbrega se espalhava por cada um de nós, avexado de sua graça inofensiva. Um artista olhando em direção ao céu. Sua arte ramificada e enxerida, alcançando impensados pontos de luz. As estrelas assistiam a tudo, a lua-em-calda escorria sua empolgação pimpolha. E a aquarela de cores? Walter Carvalho – o diretor – construiu uma obra- prima, que nos engarrafa de cores-caricias. Uma paleta cheia do azul mais sincero e um laranja festivo. E vocês não sabem do verde aperreado e do rosa-cabra-da-peste.

Da fronteira verdade- ficção, Walter disse em certa entrevista: “(…) essa realidade do documentário passou a me alimentar para a ficção. E quando eu ia para a ficção, chegava carregado, imbuído de realidade. Mesmo que não tivesse a ver com o filme, a realidade estava ali. Isso me levou também a uma característica de trabalhar as soluções criativas sob influência muito forte do documentário, da falta de possibilidade de controle, e vice-versa. Muitas vezes o documentário me levou a tomar soluções tipicamente ficcionais(…)”

O mundo anda precisando de recreios assim, que dançam buliçosos, confeitando a multidão saltimbanca.O cinema pode ser esse pátio, em que a gente gira-gira pra chacoalhar as chorumelas. Mais do que um filme, “Brincante” é um estado de espírito, é a imagem rimando com os nossos olhos em forma de fuzuê dançante, é uma chamativa maçã do amor!

 

Hipóteses para o amor e a verdade

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Mostra, meu filme 5. O grupo “Os Satyros” parece ter o dom etéreo de tocar em tabus absolutamente urgentes, principalmente quando o assunto é a incomunicabilidade, catalisada pela interferência da tecnologia. Sempre que eu assisto a alguma obra do grupo me sinto dentro de um diálogo com alguém que entende por inteiro nossas aflições cálidas atreladas a solidão na cidade – é quase como um autismo em plena interação. A ironia do grupo me remete a uma casa que é sempre mostrada em meio a uma sujeira proposital, como uma afronta, mas também como uma permissão.

Atores-sentinelas, em estado cyborg, o esgoto que não é esgoto, o bizarro de cada um em arranjo com uma desnormatização, tão necessária. Os Satyros possuem uma agressividade acolhedora, é um abrigo existencial e artístico profundo para quem quer ultrapassar os freios da suposta normalidade. O filme “Hipóteses para o amor e a verdade” possui um ritmo interessante, um trajeto experimental, uma montagem competente e estatísticas sobre São Paulo que provam o que já desconfiávamos: falta amor – e em breve faltará água.

Corpos que usam corpos para trocar fluidos. Corpos que pagam para sentirem o calor de outros corpos. Corpos que dizem “eu te amo” no primeiro dia. Corpos que se conhecem fingindo que nunca se viram. Corpos que copiam outros corpos apenas para se sentirem aceitos por um coletivo de corpos. Corpos pacóvios, anestesiados pela artificialidade. Corpos que não olham para outros corpos. Corpos que acham que todos os corpos devem ser iguais.

Nesse boulevard entre teatro e cinema circulam ególatras anônimos, rupturas poéticas, delírios mansos, solidões custosas, falsas celebridades e gente querendo ter razão – por carência. Uma multidão de potenciais suicidas vivenciando a morte antes mesmo da própria morte. É então que a luxuria se veste de remédio ou adiamento.

Sim, faltam asas na Pauliceia desvairada. É tudo culpa da falta de asas

A Tribo

tribe

 

Mostra, meu filme 4. A lente persegue um azul que perfilha os diversos cenários outonais do leste europeu; são enquadramentos precisos e cruéis. Somos avisados pela única legenda que aparece no filme que o mesmo é rodado em linguagem de sinais, os personagens são surdos- mudos, a proposta é descolada, mas o que vem pela frente vai além de uma desculpa maquilada de cinema mudo. As interações, as intenções, os barulhos, os movimentos estão em modo CAPSLOCK, nossos outros sentidos parecem potencializados por um silêncio, que fala alto. Há uma gradação sutil no nível das situações, começando pela irônica cena da confraternização entre alunos e mestres e terminando com o final estarrecedor.

A cabeça ainda dói bastante, os olhos ainda sangram em memória, o estômago está depauperado. Filmes como o ucraniano “A gangue” geralmente comportam plateias altamente especializadas em levar surras do cinema. É gente, que como eu, talvez pense que um filme pode nos ensinar sobre a dor em todas as suas variadas modalidades, até nas mais brutais, aquelas que nos atravessam e tocam em nosso profundo mais abissal.

É um filme de espaços que vão se encolhendo dentro de uma perigosa delinquência em forma de internato. Por trás da superficialidade e exogenia inicial, a câmera vai nos colocando em contiguidade com um mundo soturno, cheio de corredores-portas-quartos-gavetas e mentes pontiagudas. A imprudente violência parece irradiar em progressão, uma metástase impiedosa e interminável. E não é assim que ela é?

Um universo de regras, perversões, hierarquias. A escuridão em estado policromático, aquela, que nos tira da caixinha. É diferente de um filme de terror que geralmente possui um parapeito, uma licença em relação à realidade – trazendo certo conforto diante de qualquer situação bizarra ou atroz. Essa nova linha de filmes vindos de países afetados por algum tipo de crise investem em tomadas chocantes e – quase – palpáveis, nos causando incomodas implosões.

Filmes assim doem, só que de outra forma. É um estado de letargia involuntário. Quando tudo termina, a plateia parece estar sentada na cadeira, mas a grande verdade é que estamos todos ali, jogados ao chão, nos recuperando de um pesadelo em carne viva

O Segredo das Águas

segredodas

Mostra, meu filme 2. O ingresso da sessão acaba na pessoa da frente. Pro meu desespero, uma fila enorme centopeia para fora do Conjunto Nacional – sabe quando você pensa que é o único a ter descoberto aquele filme, só que não? Fecho o olho e imagino o mar japonês do azulado filme de Naomi Kawase indo além dos limites da sala 1, e me buscando feito um milagre-Poseidon, um “milagre da Mostra”. Fico ali na porta, chorão. Os monitores quase se apegam a mim. Sou o cara simpaticamente insistente: chato, mas legal. Persisto com todo o charme que Deus me deu, mas de nada adianta, estão todos jogando no time do “não posso fazer nada, mas eu gosto de você”. Nessa hora uma madame aparece como num passe de mágica, com um ingresso sobrando e o milagre acontece, a correnteza me leva para dentro da matriz da minha vontade.

O filme? Não há o que falar. O mar barulha o não-entendimento e os personagens são peixes tentando respirar fora d’ água. O mar é imenso, e invade a plateia. Estou ali tentando aprender a gostar mais do cinema asiático e o seu cheiro de jardim e o seu vento que toca o nosso rosto, de leve. Me parece ingênuo até quando em sua violência. E há sabedoria também. Quanta. A natureza interage como uma charada, e as frases parecem sempre monumentais de tão simples que são.

“O segredo das águas” me lembrou do tal medo da perda, sobre quem vai e a maré não devolve. Essas mil maneiras que eu NÃO aprendi sobre como lidar com a morte. Não, não sei. E dizem que o maior medo nessa vida, é o dela. O medo da morte às vezes me parece um tipo de solidão. Há quem tenha medo do mar também ou os que não sabem nadar. E Deus? No Panteísmo, Deus e natureza são idênticos. Natureza maiúscula, que protege, alastra, encosta. Dádiva é poder nadar, diz o senhor ancião. Não somos peixes, mas somos. Somos também esse resto de sol. E nesse filme, somos o próprio cinema.

Garota Exemplar

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“A mentira mais frequente é aquela que se conta para si mesmo, mentir para os outros é relativamente a exceção.” Nietzsche


Já te aviso, você será traído, a todo instante, inclusive depois de levantar da cadeira perplexo e sair do cinema injuriado. Você receberá diversas respostas e achará que já entendeu tudo. Não é isso o que a gente espera de um filme de suspense? Fatos, versões, suposições, verdades, argumentos, mentiras e uma conclusão. Pois é. A verdade vai te trair. A verdade, que de tão humana, evapora.

Algumas malcriações a fazer:

001- Tenho muito medo dessas tragédias espetaculosas que vira e mexe acendem na mídia. Mentes sensacionalistas que se julgam no direito de punir o outro como justiceiros implacáveis, até um belo dia o outro provar ser inocente. E se um dia você for julgado por algo que não fez? Minha eterna tentativa de compreensão sobre o mundo talvez explique a minha total intolerância com os peritos vulgares, atiradores de pedra, comentaristas (agressivos) de portais, linchadores alienados, donos da verdade e os que sempre acham que possuem informações privilegiadas sobre as coisas. Acho que todo caluniador deveria ser julgado proporcionalmente à gravidade da suposição levantada por ele.

002- “She may not be what she may seem/ Inside her Shell”. Elvis Costello deve estar aos prantos. Seria hoje em dia a canção “she” um love song falído?

003- O “jogo da vida” -aquele da infância – acaba de sofrer desvios, o tabuleiro vai se rebelar e novas curvas aparecerão, o sonho americano vai se desmanchar em retalhos, sujos de sangue.

004- Ben Affleck só serve para ser Ben Affleck. É apenas um sorriso amarelo que faz com que a gente se pergunte: – onde se escondeu o sal do mundo?

005- O casamento (nem todos) às vezes é só uma festa a fantasia que se prolongou. A pessoa veste sonhos frágeis e exige que a outra se vista deles também. A outra também veste o seu sonho, porque o mundo é feito de trocas que precisam parecer justas. Um dia a fantasia começa a feder, a brincadeira de se fantasiar começa a ficar cansativa, já não tem mais a graça de antes e da preguiça de colocar a fantasia na máquina de lavar. Você transpira e está sufocado e quer apenas trocar de roupa sem desagradar, e talvez nessa hora, para alguns casais seja tarde demais.

Garota exemplar é um filme comburente, traiçoeiro e grandioso. Uma fraude catártica, um choque térmico. É coisa de quem manja adaptar um roteiro e levar uma plateia ao delírio. Já vimos isso em “Seven”, “Clube da luta” ou em “Benjamin Button” e para tanto, existe no mundo um diretor chamado David Fincher. Ele nos lança um carretel cheio de anzóis temáticos e nos fere com suas sutilezas geniais e frenéticas.

Um filme em que a gente morre várias vezes. Que fala daquele monte de mentiras que a verdade nos conta. Piromania level hard.

Vai ver, repito: VAI VER.

Era uma vez em Nova York

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Ca estou eu, falando novamente sobre ele. Percebi ultimamente que costumo falar do cinema como uma entidade ou uma pessoa ou religião. Sou um pouco metalinguístico também – adoro, por exemplo, falar de Facebook no Facebook. Antes de escolher um filme, tenho o hábito de evocar uma lista mental de restrições contendo tipos ou gêneros que não aprecio: filmes de época, de guerra e que não tenham o Ricardo Darin. Mas, apesar disso, não sou preso a essas negações, gosto de me desobedecer. Eu nunca soube na verdade como uma crítica de cinema deveria ser. Mas quando escrevo sobre filmes, gosto de escrever sobre mim, fazer um autoexame de sensações, me atentar sobre um lado bom, sobre como eu enxergo o mundo, sobre o que me levou a gostar. Eu não quero uma verdade cristalizada por uma analise técnica, eu quero que o meu olhar se transforme em uma vontade de ver por parte de quem lê.

“Era uma vez em Nova York” foi uma daquelas exceções que a gente se concede porque tem muita gente referenciada falando bem. E pra mim, esse é o radar mais oportuno de um cinéfilo, sempre. É um filme acessível, invernal, que nos apresenta um trajeto previamente delineado. Sabemos onde tudo vai parar e isso nos causa um efeito ansiolítico. É um enredo simples, bem contado, sem firulas, mas que rende alguns nós na garganta. Marion é uma personagem nublada, que não sorri, parece ter vergonha de si mesma. Comete atitudes maquiavélicas por obstinação, não por má- índole. Joaquin Phoenix interpreta um homem tão passional quanto calculista. Funciona como um segundo roteirista do filme, sem que percebamos, ele é um condutor narrativo oculto – e eu não posso falar mais sobre isso.

O que importa você saber sobre esse longa é que ele segue a receita do melodrama, mas desvia diametralmente do clichê em seu final. Nos desperta sentimentos opacos sugeridos por sua fotografia escurecida e cuidadosa, sem contar aquele plano deslumbrante, de encerramento. Às vezes bruscos, às vezes “sujos”, os sentimentos estão ali, contraditórios, entre o desastre e a redenção – não sei ao certo. Não é o melhor filme de 2014, mas em um ano em que a maioria dos filmes têm sido medianos, é uma opção considerável.