Nós somos as melhores

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Existem mostras de cinema que possuem uma especificidade importante: a do rompimento pelo experimento. É incomodo você sair da sala sem saber se gostou ou não de um filme e não raro, isso acontece. Só que ao mesmo tempo, saímos impregnados por um odor de novidade, suplantamos inéditos territórios da nossa percepção, aprendemos novos conceitos, seja sobre o tempo, as cores ou sobre as relações.

O ~~indie festival ~~ me provoca dúvidas no paladar visual. É um transe legal, uma sensação de sempre experimentar pratos novos sem me perder na obrigação binária do “gostei” ou “não gostei”. Ali, somos um substrato a serviço do novo, somos então a própria experiência. Mas, ir ao cinema é também tudo o que vem antes ou depois. Falo desse encontro de pessoas curiosas em um mundo freak chamado Cinesesc . Uma cópula de olhares que por vezes são reações químicas, por outras seguem a velha lógica do desprezo. Olhos que dançam juntos durante o tempo de uma canção e depois vão embora, ruando pelos uivos da Augusta.

Esse ano, um filme em especial recebeu diversos aplausos do meu afeto. Um filme que lembrou do meu lado bobo, direto da infância rebelde. De como as respostas da vida eram fáceis e simples. O mundo acabava e recomeçava em um vapt vupt altamente inocente. Eu dominava o mundo apenas com uma espada de led azul do Star Wars e me sentia transgressor quando mascava aquele chiclete ácido que exigia resistência e coragem. Seu sabor inaugural era ardido, mas depois que você passava do level tumultuado, vinha um gostinho agradável de qualquer chiclete – com o plus da língua roxa. Em “Nós somos as melhores” a infância é bagunceira, hiperativa e a câmera entende isso. Diálogos e situações geniais entre 3 meninas – na faixa dos 13 anos – que odeiam a aula de educação física e querem ser punks. Discursos frágeis, humorados e subversivos sobre o mundo e uma cena de abraço tão linda que eu desconfio ser o abraço mais lindo que eu já vi no cinema. Eu veria esse filme só por esse abraço de dois segundos – mas também por todo o resto. Um divertido indie sueco que abriga o diferente em meio aos desajustes de infância.

Gostoso é quando a gente se percebe não mais rindo do filme, mas de nós mesmos. Fazia tempo que – comigo-, não acontecia.

 

Bem-vindo a Nova York

bemvindo

“Bem-vindo a Nova York” é um filme hiperbólico, de tema asqueroso, mas que por outro lado oferta uma relevante qualidade. Seu teor é uma irrupção das mais pesadas, mas isso não o torna necessariamente apologético. Um filme que fala de preconceito, não é necessariamente preconceituoso. Ele pode falar, por exemplo, de uma situação que envolve o nazismo sem ser nazista, assim como é perfeitamente possível acontecer o processo inverso: um filme que supostamente quer falar sobre a escravidão, derrapar em alguma nuance racista “sem querer”, ou um longa fofo que fala sobre homofobia se mostrar elitista. Acho necessário esse tipo de licença temática para que o choque aconteça e a gente entenda uma obra enquanto objetivação. O tabu acaba escondendo em baixo do tapete temas que justamente por isso, intimidam as pessoas para um debate.
A primeira coisa que me chama atenção nesse longa é a atuação de Gerard Depardieu – ator que eu particularmente não gosto-, mas que se saiu muitíssimo bem no papel de agente da economia mundial sem escrúpulos. O grande acerto do longa é conseguir nos forçar uma proximidade de câmera com o protagonista de modo a olharmos aspectos tortos de sua personalidade que incrementam e tornam mais complexo seu arquétipo principal de vilão-estuprador. As olhadas que ele da para câmera (com e sem fala) são recursos fabulosos, que nos provocam e nos colocam quase que dentro de um desconforto. É como se saíssemos da posição passiva enquanto público e nos sentíssemos obrigados a tomar partido da situação.

A construção feita por Gerard possui sutilezas, como as rosnadas pulmonares que trazem um aspecto animalizado ao psicopata, ou o silêncio gélido, debochado e irônico que o personagem passa a apresentar após ser descoberto como criminoso pela polícia e pela mídia. Ele não quer ser salvo, não possui freios morais e tão pouco demonstra qualquer disposição em deixar de praticar seus abusos. Abel Ferrara constrói uma trama quase inextricável, parece não estar preocupado com uma resolução que vingue a nossa revolta, já que mesmo preso, o protagonista continua tomado por sua onipotência. O diretor mostra um mundo grotesco de forma realista deixando por nossa conta uma sentença moral ou uma improvável imparcialidade. Sem dúvida, o “vou vomitar e já volto” de 2014.

Não nem nada

naonem

Ir ao teatro envolve uma quebra de timidez receptiva por parte do público. A gente quer brincar, mas como em toda bagunça que já começou, começamos apenas olhando, carentes por alguém que nos chame pra entrar – com a pupila. Não há uma tela de vidro nos separando da ação, nada ali é editado, vemos ali um suor resultante do esforço, uma entrega energética, a verdade no grão do olhar do artista. É preciso que a peça encontre um meio de se comunicar com o público, nos olhe no olho, mesmo que com deboche. Somos interlocutores. Estamos ali para sermos tocados, ponto. Muitos bons diretores que reencenam a exaustão textos antigos de autores “atemporais”, demonstram dificuldade de emanarem a obra para além do palco. Nós da plateia, esperamos por um jogo, queremos entrar sem bater, queremos ser parte, queremos quebrar o nosso tédio através de uma realidade que nos desperte.

Um texto bom, que ultrapassa sua época, não é autosustentável em um espetáculo. Ele depende do hospedeiro, do emissor da mensagem. Nem Tchekhov é capaz de salvar um desastre cênico, e isso envolve muito uma boa direção. Daí que tudo isso é pra dizer que sábado eu presenciei uma grande brincadeira, que conversava com o nosso ridículo de agora, seguia um fluxo fragmentado, e trazia pensamentos acrobáticos cheios de uma ironia gostosa, humorada, poser. Uma brincadeira inventada nesses tempos, nossos, falando uma língua fresca de um jeito que não sei nominar. Não era um stand-up nem uma comédia pastelão, ufa! Eu percebia ali uma quebra narrativa deliciosa, sem uma ordem certa para que os assuntos mudassem, sem uma regra que impedisse duas ou três conversas de acontecerem simultaneamente. Era Vinicius Calderoni estreando triunfal na direção. Era uma fanfarra de 4 atores em estado polissêmico, a vontade conosco, a vontade entre eles e com eles.

O ~Empório de teatro sortido~ adeja perante o meu entusiasmo. Vocês chegam tão perto de mim que as vezes eu me percebo sentado imitando vocês, dizendo aquelas palavras, atuando em minhas (in)verdades. A cada caixinha que vocês me abrem, vejo o novo entrar leve, com poesias de gostos novos, me sinto tão abastecido de uma euforia sem nome que eu chego a premiá-los em pensamento, passo a achar inclusive que azul e laranja combinam. Às vezes tenho medo do mundo parecer igual à ontem. Vocês me ajudam a continuar achando bons motivos para sair de casa num sábado cheio de ofertas pirotécnicas paulistanas

 

 

 

e escolher me embrulhar por essa comprazia cênica. É estranho como mesmo sem querer, vocês entendem sempre o que eu quero e eu volto.