Magia ao luar

magia

Adoro quando a minha (des)confiança ultrapassa um poster horroroso, um casal de atores protagonistas que não são lá meus preferidos ou a falta de confete para o lançamento de um diretor tão badalado por aqui. Tenho cada vez mais a certeza de que ele costuma fazer filmes essencialmente iguais: é como se ele escancaradamente revisitasse sua própria obra e a melhorasse, fizesse um cafuné lustroso e mudasse algo aqui ou ali, lançando-se de uma interferência irônica, afinal, estou falando de um diretor que gosta de negar Deus em suas travessuras ególatras.

“Da magia ao luar” é quase um déjà-vu, que começa com aquele jazz inócuo que nós adoramos, depois, pequenas surpresas e curvinhas de roteiro sem quepes artificialescos. O gostoso desse longa é que Woody Allen não vem para impressionar. Devagarzinho, vamos sendo conquistados por Colin Firth, seu melhor alter ego desde Larry Davis em “Tudo pode dar certo”. O umbilicante personagem de Firth consegue ser rabugento, alcançando uma caricata arrogância exagerada – quase alérgica ao mundo.

Acho interessante um diretor tão auto-referente assumir o próprio narcisismo. Isso, paradoxalmente nos coloca entre ele e o espelho. E tem o acaso, sempre ele, colocado à prova e junto disso, aquela velha obsessão sua sobre a descrença no mundo metafísico, representado por Emma Stone – que vai bem obrigado. Diálogos cítricos, a Riviera francesa nos piscando lindos cenários e o acabamento caprichado seja nos figurinos ou na direção de arte.

Esse definitivamente não é um dos flops na carreira de Allen, ao contrário, é um prato simples e delicioso, aquela receita de família, que vai se repetir por muitas e muitas vezes, só pra juntar todo mundo, aquele repeteco que atrai entusiastas, de sempre em sempre, sem nunca enjoar.

Oh Captain! My Captain!

robins wiu

 

a infância dos seus olhos sempre me mostrou que a idade era apenas uma invenção cronológica, que a matéria da vida ia além da contagem. eu agradeço muito por quando pulei com você dentro daquela piscina de macarrão, também quando jogamos Jumanji ou enfrentamos o asqueroso Capitão Gancho. uma pena não ter sentado em algum banco pela vida e ter você por acaso ao meu lado, só para conversar por uma horinha sobre algum filme seu.


você sempre será um dos meus melhores amigos no cinema. me ajudou a imaginar o melhor dos mundos: o da aventura.

pela primeira vez, eu acredito em cada um que está se lamentando na própria timeline.

me sinto um garoto perdido.

que saudade Robin Willians

Tudo acontece em Nova York

tdacontece

Ei menina, onde vai você com essa mala? e essas perguntas borradas no seu batom alegrinho ? Injustamente abandonada pela lua impaciente. Sei como é. Não é falta de ar, nem pileque, é apetite por sonhos anoitecidos. Nova York te convida para ficar, há sempre um lugarzinho no chão. O amor basta? Brooklin, cores, lixeiras, ombros leves. é filme mumblecore, ou indie pobrinho, ou bom-barato-bonitinho. Qual a cor da solidão? Proposta com carinho, luzes fofas e a trilha é feita com brinquedos que viram canções. O desligado músico anticapitalista com filha pra sustentar chama estranhos pra comer em sua casa. Ser fútil ou se importar? São poucos os sorrisos. Nova York cobra caro. Sonhos espetam? O peixinho laranja de 50 dólares morre no sofá azul de brinquedo. No museu a cobra quer comer ratinhos, é arte!

~Tudo acontece em Nova York.~ um filme que a gente quer bem, uma festa que dura até tarde. Olheiras, buzinas, charminho, perfume doceazedo. Me cubra por favor porque de noite faz frio. Me cubra dessa colcha bordada de jardins e vermelitude. Não se esqueça dos meus pés para que os monstros não venham. Onde eu posso me esconder? Só mãos quentes protegem. Desça pela saída de emergência. a felicidade mentiu, fuja, pule a cada 3 degraus, é mais rápido assim. Não pare pra amarrar o tênis. Nova York não tem pretéritos. Me ouça-veja-escute-note-ame-machuque-encante. Que a música nos invada, e que a memória fique assim, quieta, e que só exista o já.

dias especiais não são todos os dias. mas têm dias que são lindos filmes. <3

Juntos e misturados

juntos

Torcer dando risada. Você se envolve tanto, que gargalha copiosamente homenageando o momento. O riso torna-se uma conexão, uma súbita confirmação do afeto pelo instante. Não confunda engraçado com agradável. O agradável depende muito do que você [não] espera. Eu esperava uma comédia romântica com sacadas leves, coadjuvantes repetitivos e carismáticos, conflitos criativos e que claro, no final eles ficassem juntos.


Passaram-se 10 anos desde que ele começou a conquistá-la todos os dias, e aquele casal eternizou-se pela química, pela ideia do filme, pela magia do Havaí. De fato, existem laços que se eternizam no cinema, as juras que nos convencem em definitivo. Você simplesmente pensa que aqueles personagens continuaram juntos, assim que o filme acabou. Para nossa alegria [ou ódio], apostaram novamente em um romance entre Drew Barrymore e Adam Sandler. Os anseios não são mais os mesmos, eles já estão na faixa dos 40 e dessa vez as crianças contribuem bastante para a liga narrativa. E essa mistura de gerações mesclada a uma aventura encantada pela África do Sul e as maravilhas do complexo hoteleiro Sun City, fazem com que a empolgação, o riso, o romance e o cheiro da “manteiga Cinemark” existam dentro de nós durante 2 horas.

“Juntos e Misturados” é – dentro do glossário da desprofundidade – o filme dessas férias. Aquele capaz de salvar uma sexta-feira sem planos, de forma a inflamar nosso entusiasmo por sua maciez climática . Nos coloca no banco da frente de uma viagem inesquecível em família, que da memória nunca se apagará, Como é bom torcer por eles novamente. Ver o seu casal tiozão predileto ser feliz para sempre mais uma vez.

Eu sei exatamente o que procuro de um filme, e nesse eu quis comprovar se passados todos estes anos eu ainda era capaz de me entreter com a divertida previsibilidade de uma comédia romântica norte-americana. E essa resposta faz mais sentido quando no dia seguinte o meu humor parece estar ressuscitado, depois de uma longa temporada ausente.