Versos de um crime

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Chafurdante

Tensões destiladas

e rebeldes american boys

picos de luxúria
Radcliffe ou Ginsberg
o ex-bruxinho
é cúmplice do beat

um pesadelo com:
anarchist picnics
exile and cunning

uma ogiva de palavras bêbadas
e soluços inarticulados
insônia e ruínas

a pulsão na biblioteca
o tesão pela morte
poema. em glóbulos passados
[ainda quentes]

Kill your darlings – ou –
Versos de um crime
um trago de arder a garganta.

Sob a pele

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faz frio.

Escócia ou um pesadelo ?
não sei o que ela quer, nem de onde vem. enxergo uma fome e apenas isso. um olhar sem coordenadas e faminto. quem é?
Scarlett é uma moldura reinante e sem quadros, vestida, de tão nua.
-só olho pro que eu sei, do que não sei tenho medo.
a fotografia: pingos, pontos, geometria e vertigem. inteligência cenográfica.
a identificação: o relegado homem deformado está a salvo.
a descoberta: ela não tem medo, nem sexo, ela quer descobrir, o que for. a estrada e a sorte.
homens siderados, trilha sonora, cadência, barulhos, irritação, claustrofobia, ereções, cores movediças, entram, afundam, ela não, animalizada ela continua a busca.

pipocas murcham, os clientes saem da sala de cinema, ficam alguns estômagos, curiosos de corajosos.
volúpia. primor. impacto. o indiscernível se rompe.
“Sob a pele” é um achado sem quocientes fáceis, um distúrbio dos melhores.
não se preocupe em entender, UM FILME QUE ultrapassa qualquer entendimento.

Praia do futuro

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01 sensação : faltava mesmo um filme do Wagner Moura sendo dirigido por Karim Aïnouz.


02 sensação : que vontade de atuar de novo.

03 sensação: uma saudade de Berlim.

04 sensação: se 2013 foi ano de Irandhir Santos, em 2014 é a hora e a vez de Jesuíta Barbosa.

O silêncio que se constrói sem artificialidades: Wagner Moura carrega sempre uma mesma feição, mas sem ser o mesmo. É um recuo da maré, longilíneo, que se demora, sem medo do vento que o apressa. Sabe estar, e interpretar é só e isso tudo. A variação sem premências, o ator que entrega suores sinceros, dez segundos de pausa entre uma resposta e outra, nenhum vazio, um rosto que nos absorve e entrega um olhar preenchido. Wagner sempre se atira entre a morte e o poema, e vai longe a cada pulo. Quando o filme é com ele, me sinto um convidado. Sempre insisto que o melhor ator é o generoso, o resto é só a farsa de sorriso no Instagram.

Um filme que tem amor em estado bruto, e tem David Bowie:
“And we kissed, as though nothing could fall
(nothing could fall)
And the shame, was on the other side.”

Eu já tinha boas intuições sobre “Praia do Futuro” e me esbaldei daquela secura poética: um azul preponderante que cobre os vazios dentro de um jogo de não diálogos, personagens que parecem neutralizar os pensamentos limitantes para chegarem a um destino incerto. Um processo de criação todo cheio de negritos, feito a partir de palavras impactantes que em algum momento serviram de alimento para a construção do roteiro.
Um futuro que se anuncia como um corpo que se joga ao mar, sem garantias. Somos sugados por uma trama sobre abandonos, renúncias, e sentimentos ásperos.

Uma história sobre a partida,o depois, e o que resta disso