Prazeres Amelie: coleção virtual #1

A partir de hoje, mais uma sessão/invenção pousa aqui no ~Favoritei~; a sessão “coleções virtuais” trará tópicos abertos, que nunca terminam, que serão enriquecidos por mim e por quem quiser contribuir. Começo a coisa toda com mais uma menção ao filme “Amelie Poulain” e seus pequenos prazeres. “Prazeres Amelie” são hábitos cotidianos – ou não- que nos causam algum tipo de prazer, uma sensação boa, um sentido confortável para o momento, talvez o mais famoso seja “estourar o plástico-bolha,”. Listo aqui os meus e os seus, assim que você resolver dividi-los comigo:

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barulho do lápis no papel

textura do talco

lamber a massa de bolo que sobra na batedeira…

brincar de andar em  ângulos de 90º

Tirar o Picles do Big Mac

Cafuné no pulso

Perceber os outros sorrindo prum filme

Sentar em sofás de lojas

Nunca ouvir uma música até o fim

Rasgar pacotes de presentes

Espirrar 3 vezes

Cheiro de sandálias Melissa.

Dar nota pro pé dos outros.

Pedir um trago.

Tomar banho no escuro.

Desenhar na mesa do Viena.

Tirar pele quando estou descascando.

“Tropeçar” dormindo.

Fazer bigode com caneta em fotos de revista.

Morder macarrão al dente.

Passar por uma sequencia de  faróis amarelos

Descascar a cola seca dos dedos

Comer pizza com a mão

Ver filme de terror e dormir com os pés pra dentro da coberta.

Clicar em “inicio” no Orkut/ clicar nas cataporas vermelhas de atualização do Facebook.

Fumacinha de café quente.

Tirar o soro do creme de leite.

Quando eu corrijo o risquinho vermelho do corretor do Word.

Tombo de criança (caem por nada)

Xérox quentinha.

Comer só o recheio das Traquinas e só a cobertura do bolo.

Contar o tempo de uma estação para outra no metrô

Cheiro de esmalte.

Achar guloseima escondida na dispensa.

“Zebras” em Copa do Mundo = quando o time mais fraco ganha.

Puxar a tirinha que abre o pacote de bolacha.

Achar um bombom “Sensação” na caixa de especialidades Nestlé.

Fazer gol olímpico.

Dar rolinho no futebol.

continua…

 

 

Viny Almes: pessoa colecionável #9

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A Flórida não existe. È um arco-iris que se exagera. Que tem cores a mais. A Flórida é feliz, radiante. Flórida é lugar de Viny. Parece o seu satélite existencial. Sua lua fazendo sol.

Ele acha que a maior loucura que ele já fez na vida é sempre a próxima que esta por vir.

Orlando fica na Disney e não ao contrario. É o exemplo de quando um lugar tem mais apelo postal do que a propria cidade que o abriga.

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Viny detesta voley, acha que é esporte de menino puxa-saco de professor.

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Nova York é terra santa, uma SP elaborada, com estrutura. Uma engrenagem que parece não falhar.

Amor para Viny é quando a pessoa se entrosa, é sensível e ainda faz cafuné.

Cape Coral é uma cidade em plena construção, cheia de pântanos. Daqui 100 anos sera a nova Disney.  Sim, Walt Disney não foi levado a serio, quando quis construir um mundo de parques e sonhos em cima de um pântano. Eu não sabia dessa.

Sempre tive certeza que Viny seria um pianista rebelde. Decepção. Viny diz que foi apenas a expressão de uma fase. Viny é conta de multiplicação. Pluriartistico. Também. Tatuado. Lindos desenhos dele.

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Maryland é uma cidade cheia de casas pré-fabricadas. Tudo lá é otimizado, útil, tem pragmatismo de fast-food. Casas e árvores  nutrindo o sonho americano em forma de cimento e mini-naturezas.

95 road ao cortar Maryland foi como materializar o cenário do seu íntimo inspirador. Elegante, solitário, e misterioso ao escurecer e isso o deixa feliz. feliz por ser assim

Brega é quem subestima a moda, acha que moda tem a ver apenas com “se vestir”.

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Conta que há uma lei americana que obriga você a zelar também pela grama do vizinho. O vizinho pode inclusive te denunciar por descuido ao seu jardim.

Viny não quer ir a Londres porque lá chove toda hora.

Viny é isso tudo ai cima. O encontro dos seus desentendimentos em forma de vida, de coisa de não entender.  De lugares de sensações. De sentir-artista.

A casa de Viny vai ser iluminada de suavidade e conforto, cromo-estética, sem lampadas fluorescentes.

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Esse é o dicionario geográfico afetivo de Viny. Lugares e sensações que se revezam e se misturam. Foi em uma viagem de carro, inesquecível, com pai, mãe e irmã, que Viny pensou não querer mais voltar para casa. 3 dias de carro completamente pitorescos, uma viagem pop, um road movie afetivo, uma jornada de Nova York até o Sul da Flórida, passando por matagais perfeitos de reais, estradas delirantes, quilômetros de juntar.

Viny não tem mais paciência com São Paulo. “Vou-me embora vou me embora para a verdadeira América para experimentar a natural essência desse continente”. Viny acha que com os reparos pré-copa instaurou-se uma confusão urbanística, um conjunto de soluções hipócritas. É como se quisessem encaixar um quadrado dentro de um circulo.

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O refúgio de Viny em território paulistano é sua ex-escola Silva Prado – e ele faz sempre questão de falar com orgulho o nome da escola. Na verdade não é bem um refugio, já que Viny diz não quer se esconder de nada. É um lugar que desperta um conforto na memória. Faz um grude de lembranças como a de sua época de teatro no Beto Silveira, época em que seus sonhos ferviam rebeldia.

Viny acha que só temos uma única vaga para abrigarmos um sonho. Acha que eles acontecem um de cada vez, embora sejam mutáveis. Viny acha que um sonho não é estático, acha que ele vai se alterando de acordo com nossos ecos vitais. Mas o lugar é um só. Tum tum.

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Viny já pisou dentro de um sonho. Conheceu a Amy lee – vocalista do Evanescence. Viny diz que ela faz uma música tátil, é uma diva em  forma de cantora-mulher. É generosa: transforma sentimento em música e depois reparte com cada um de nós, são vários primeiros pedaços de bolo. Viny já desenhou e fez um vestido para Amy Lee, já a abraçou, já fez uma tatuagem com o seu autógrafo. Quanto ao vestido, ele foi entregue, usado por ela e postado inclusive em seu Twitter.

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Viny é daqueles que não se sente confortável quando o chamam para jantar. Diz que não come nada. Odeia tomate e sempre comeu pizza feita apenas de massa e queijo. Viny tem mania de dormir de ventilador ligado e num é bem pelo calor. Diz que gosta do barulho.

O filme da vida de Viny é Titanic. É um filme que atingiu a todos. Foi da massa a elite, arrebatou o coração da terra. Sua cena predileta aborda uma escolha. A personagem Rose já está no bote são e salva e resolve pular de volta para o navio para ir atras de Jack, seu amor.

Essa entrevista ficaria mais legal se você a lesse, ouvindo essa banda.

Viny gosta da palavra “inclusive” porque ela não pode ser usada em qualquer lugar. É uma emenda, é palavra de juntar.

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Viny iria se apaixonar por uma banda chamada Goldfrapp e sua música chamada Ooh la la.

Viny parece ter trocado futuro e presente de lugar. Barroco, tem piquetes em seu jeito-protesto, é celebridade de tabloide, de escândalos, simples como um carro sem capô, sofisticado, sim, e é objeto de paparazzi. Se Viny tivesse um superpoder seria o dom de costurar. Viny tem pavor de costureiros, pois eles geralmente agem de má vontade com os estilistas. São antagonistas do mundo da moda. “Todos de mal com a vida”.

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Eu e o Viny fomos colegas de turma no teatro. Lembro-me que no zumbi Orkut  eu escrevi um depoimento para ele, e consegui resgatar fósseis dos meus pensamentos a seu respeito na época. Eu dizia no começo que Viny era metade uma bomba de chocolate, metade uma bomba relógio. Que ele é a unica pessoa no mundo que conseguia ser previsível por ser sempre surpreendente, e que ele tinha o estranho dom de espalhar sentidos por aí. Ele nos encostava pra bem ou pra mal, quase algo sensorial ou uma cerca elétrica com magnetismo.

Nesse “testimunial” eu citei um diálogo do filme Donnie Darko entre o ser fantasiado de coelho e o protagonista, que resumia a minha convivência com o Viny nos tempos de teatro:

O Homem -Por que vc está usando essa fantasia idiota de coelho?
O cabeça de Coelho – Por que vc está usando esta fantasia idiota de humano?”

Com o Viny eu aprendi a ser mais o coelho.

Aldeotas

Aldeotas é assim:

Um resgate poético da memória. Situações que transformam uma relação de dois amigos sem que as definições e “concretisses” da vida atropelem o afeto sem nome.

Gero Levi: menino do olhar ensolarado, do frescor azul, corajoso de ser, que venta suas vontades e extrai mel dos instantes, é casado com as cores

Victor Elias: o amigo que fala com inocência resmungante, que tem olhos detetives, que sonha em chupar limão e conseguir não fazer careta.

As descobertas, as auroras, os planos de fuga, as baladas, e as bolas de chiclete feitas dos sonhos e fôlegos. O amor de uma amizade ou a amizade de um amor nos chegando do jeito mais leve, mais voador, mais lírico. O valor do afeto estendido em versos-varais, sem catálogos limitadores, uma colheita do profundo nosso.

Ver Aldeotas desperta um apetite crônico em nosso jeito de sonhar acordado. Queremos engolir nuvens feito masrhmallow. Queremos ser peixes, ou o próprio azul do mar que navega a vida. Queremos governar formigueiros cheios de bolos imaginários e melecados. queremos inventar palavras novas com as letrinhas das sopas. Queremos voar em balões que avistem micos-leões prateados nos dando tchau.

Aldeotas é uma árvore repleta de amoras bem vermelhas, amoras com cor de amor entre os verdes. Amoras com doçuras que fazem sucos cadentes do pé, que nos despertam a coragem medrosa de cair sem doer. É uma subida sem fim, pro alto do céu, com alguém em baixo pra nos “dar pézinho”.

Aldeotas traz pro meu perto todos os meus longes, me traz pro lado de dentro, e faz sol aqui. 

Capitão Phillips

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Por Eduardo Benesi

Um jogo de liderança envolvendo extremos. “Eu sei lidar com os EUA” diz o sequestrador Somali em dado momento do filme. Talvez essa frase dimensione o jogo de proporções distorcidas que se revezam o tempo todo no novo longa de Paul Greengrass. A liderança pela sedução, a liderança ideológica, a liderança pela força, a liderança pela agressividade,  a liderança pela diplomacia, e note como elas se confrontam, se misturam, se intimidam.

Há um cuidado inteligente em não trazer um ponto ótico unilateral sobre o que virá mais a frente. Somos levados a gênese da situação olhando para o recrutamento dos piratas somalis e a ida pacata do capitão até o porto junto da esposa. Por mais épico que seja a proposta do filme, o diretor não facilita o caminho dos acontecimentos: é convincente quando nos mostra as dificuldades técnicas que os piratas enfrentam para depois de muita insistência dominarem o navio e a tripulação.

Há uma ingenuidade curiosa na obstinação dos personagens africanos, que carregam um heroísmo e uma coragem inocente em relação a ousadia de invadir o navio vindo do Alabama e posteriormente sequestrar o seu capitão.  Fico pensando se aquilo é valentia ou falta de medo. Lembro-me de situações esportivas, em Copas do mundo futebolísticas, seleções africanas derrubando times tidos como gigantes e franco-favoritos. Essa alusão me intriga, me traz a impressão de que o africano entra nas batalhas sem ter nada a perder, se lança ao exito inconsequente como franco-atirador, se entrega a sorte da savana . Frente a isso, o poderio norte-americano naquele contexto ganha uma supremacia distante e quase inválida, irrelevante na hora de intimidar, vemos toda imponência yanke engatinhando “pianinha”, ficando minuscula perto do domínio dos sequestradores.

O velho Tom Hanks está de volta: sua interpretação é inundada de reações precisas. Primeiro a paciência, depois a diplomacia, o altruísmo, a esperança e por fim o desespero. Cada um desses estágios completamente bem desenhado entre rugas e olhares, e é inevitável já ir fazendo apostas levianas, vale estatueta?

Paulistano: que tal um piquenique pra conhecer gente nova, cheio de arte e boas intenções em SP?

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ORGANISMO PIKNIK:  uma reunião deliciosa que acontece desde 2009 e é cheia de boas intenções. Um evento  aberto a todos, que oferece o sabor do encontro bucólico em meio ao caos urbano, em cenários que nos permitem interagir com gente nova de forma colaborativa em espaços públicos. A chamada geralmente acontece no boca a boca ou na fanpage do Facebook, e não ocorrem em uma sede fixa.

A ideia é reunir gente que não se conhece, gente que conhece gente, gente que já se conhece, e junto disso, arte espontânea, interações sociais e sustentabilidade. O último encontro aconteceu no “Parque Augusta”   e a partir dele, houve toda uma discussão voltada a dar sentidos e motivos para que o espaço de área verde não vire alvo do novo frenesi imobiliário na região, e seja engolido pelas incorporadoras canibais.

Tem que trazer postura, ideia, leveza, um prato de doce, ou de salgado, bebidas, generosidade, gratidão, toalhas quadriculadas ou não. Pode trazer peteca, bambolê, rede, incenso,  violão e instrumentos que revelem som e alegria.

Bora pro próximo?

O Fabuloso Destino de Amelie Poulain – Críticas e rabiscos encomendados

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    *Por Frederico Mattos

    Amélie Poulain, com e sem coração

    Amélie Poulain seria um filme lindo, e é, se não fosse trágico. A história é fofa, a história trágica fica oculta na sobreposição de lindas cores e sensações deliciosas que o filme proporciona. Serei o cara chato que expõe o lado difícil da trama dessa francesinha meiga. A relação da menina Amélie com o pai é de uma congelante dor. Ela precisa se colocar numa condição vulnerável de medição cardíaca para seu pai, médico, tocar o seu corpo sedento de carinho paterno. A emoção é tanta que o pai sempre conclui que ela tem problemas cardíacos. E isso restringe a vida da família à poucas viagens e quase nenhuma excentricidade. A mãe, de personalidade conservadora, impositiva e rígida, morre segurando as mãos de Amélie ao ser esmagada pela queda brutal de uma mulher que se suicida. Nesse acidente bizarro morrem três pessoas, a suicida descuidada, a mãe de Amelie e o sentimento da menina Amelie. Desses eventos dramáticos submerge uma pessoa adorável e frágil, que cresce fisicamente, mas que se resguarda a um cotidiano amedrontado de conexão com os homens. Ela vê a vida por entre as cortinas, quase sem opção para reivindicar ou lutar pelos seus sonhos. Como está bloqueada em seus receios terceiriza a felicidade tentando aproximar as pessoas de seus próprios desejos enquanto ela corre de todos. Seu vizinho com ossos de vidro é um reflexo de como Amélie se sente. Ela o ajuda a redescubrir a alegria de viver por meio da ressignificação do personagem de uma pintura. Notem que o homem decadente pinta o mesmo quadro há anos e não consegue sair dos mesmos detalhes, quase uma reprodução obsessiva de alguém que por medo de se espatifar nunca brinca fora do próprio cercado. A outra vizinha beneficiada por Amélie é aquela que está esperando em vão as cartas de um amor do passado. Isso é tão recorrente que o expectador fica rendido, afinal, quem nunca se sentiu preso num tempo que já foi, mas não parte. A mentira benéfica liberou a mulher para si mesma agora que se sentiu amada pôde voltar a sorrir. Na realidade não é tão simples, pois quem se habituou a olhar o mundo sem colorido não desperta desse torpor sem efeitos colaterais. Não preciso nem falar da hipocondríaca colega de trabalho de Amelie. Suas doenças físicas tem fundo puramente psicológico, fruto de uma vida de quem não se sentiu desejado o suficiente. Até a maldade de Amelie vem amortecida pela sua ternura. Ao vingar o patrão azedo do vendedor de frutas sem braço, ela usa seu dom de descobrir as fraquezas do velho e meticulosamente perturba a rotina de um homem previsível e amargurado.

    O que há de ternura no filme é a maneira tímida que Amelie vai rompendo com suas fobias sociais e se aproximando lentamente daquilo que mais teme: o ser amado. A sua maneira idealizada de experimentar a realidade é sua maior prisão, pois tudo o que habita as pessoas é falível e ambivalente. O ideal nunca é humano. Aquele que espera a vida encaixada, o tom perfeito, a cor vibrante, a aceitação dos conservadores e uma decisão sem conflitos internos pode aguardar uma existência frouxa e desmantelada.

    A vida real, que pede coragem na incerteza, verdade mesmo nas mentiras e pureza nos delitos cotidianos, essa sim se realiza num colorido que não existe por si, mas construído na paciência de uma aranha teimosa que tece sua teia anonimamente. O filme de Amélie Poulain retrata nosso medo da conexão humana e oferece soluções criativas para uma possível libertação decisiva.

    * Frederico Mattos: Sonhador nato, psicólogo provocador, autor do livro “Mães que amam demais”. Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva um bonsai, lava pratos, oferece treinamentos de maturidade emocional no Treino Sobre a Vida e se aconchega nos braços do seu amor, Juliana. No twitter é @fredmattos.

Nossa cidade

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Dizem que ele é rabugento e que destrata atores. Dizem que ele mudou, que está mais flexível. Dizem que não é nada disso, que ele é boa gente mas quer almas tomadas em seus espetáculos. O que dizem, a mitologia, a invenção pela mentira repetida.

O mito Antunes. O velho Antunes. Do pouco muito, da economia que amplifica. Do coral de atores, que dizem falas com vozes cantoras. Timbres artesanais, artisticos, vozes-enfeites, palavras -agulhas, potentes de costurar . Cada movimento um estudo, um cuidado, uma precisão.

O texto é uma maquete comportamental de um lugar. Que pega o micro-cotidiano norte -americano e sopra personagens caricatos e ao mesmo tempo naturais em seus contextos sonhadores. Fala da compulsão que vira convulsão. Da melancolia que existe no tédio do tempo vazio. Da emulação a ambição.

A dança que traz a menina fazendo par com o vestido é de rezar um agradecimento. A locução do ator Leonardo Ventura envolve, inclui, entona os acontecimentos. E a estátua da liberdade que ganha medida exata, pequena de longe, que gira pomba em seu eixo de ironias e troféus históricos.

O programa da peça é um livro cheio de citações, de olhares sobre a cidade e a saudade. A cidade que é sonho, a cidade que é pé sofrido.

Citação de Thornton Wilder que vale dividir: “Arte é confissão; arte é segredo contado…Mas arte não é somente o desejo de contar um segredo qualquer; é o desejo de contá-lo e escondê-lo ao mesmo tempo. E o segredo não é nada mais do que o drama inteiro de uma vida interior”.

 

Tatuagem

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O fio condutor de Tatuagem talvez seja a tal liberdade: ela enxuga a alma dos personagens, e funciona como um enxoval  para as intervenções de um grupo de teatro carismático e bagunceiro em meio a opressão da ditadura. A trupe “Chão de estrelas” da alegria decadente, do brilho extrovertido em meio ao amargo que aprisiona.

Irandhir Santos está definitivamente contratado pelo cinema brasileiro; tem agora o visto do nosso olhar, nos ganhou. Junto de João Miguel e Milhem Cortaz forma a trinca dos atores que debutam quase que apenas pela telona, que nos povoam com personagens escolhidos a dedo.

O filme possui uma proposital falta de censura, é um cinema de cores valentes, trazendo uma biografia “não-autorizada” sobre o mundo subversivo pernambucano em tempos de censura. Bundas, nus frontais de todos os jeitos, sexo quase explícito, gritarias e protestos. Hilton Lacerda começa trazendo dois pólos representativos opostos que em certo momento se encontram, se apaixonam, se corrompem: o quartel e a liberdade de ser, juntos, algemados pelo romance entre Fininha e Clécio.

Tatuagem tem néctar tropicalista, tem diálogos que enxergam nossos pomares profundos, abusa de ser alegre mesmo quando nos rostos, a purpurina escorre salgada. A liberdade é mostrada inclusive quando ela própria se contradiz: na pulada de cerca de Fininha, fato que desagrada a Clécio que até ontem era a favor dos relacionamentos livres. A tal liberdade que fica tão bonita quando é discurso, quando não é de cá.

Um filme inteligentemente brasileiro, cheio de folclore, ternura e esmalte borrado. Que traz o natural das descobertas em meio a arames farpados, que quebra regras, que traz um piscante- pedaço-barulhento de Recife.

“Tatuagem” é ferozmente leviano. Um biotônico do desbunde, hora político, hora poético, hora os dois.

É filme de ser livre.

 

Liz: pessoa colecionável #8

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Liz: tão frágil cinéfila, tão forte pessoa, ou os contrários?. Gente de sabedoria baiana-geminiana. Afeto e pimenta. Compreensão refinada da realidade, axé cérebro. Sorte pra quem conhece. Presente de horóscopo. Só assim pra mainha do céu ter feito gente assim, tão não sei mas é bom. Liz tem cara de que era folgosa com a areia quente de Salvador. Geralmente, Liz usa o sarcasmo contra os predadores, é como um “gatilho sem disparar”. Liz é de ouvir gente, e mesmo falando bastante, tem a sabedoria dos ouvidos mansos. Liz também ama ficar sozinha, é capaz de sair antes de algum lugar, só pra despistar uma companhia, e nada contra os outros, mas as vezes a solidão pede atenção.

Gente de gêmeos: “gente comunicativa, se mistura fácil, tem jeito-jeitão”. Liz não quer aquele papo de duas caras, bipolar, ambiguo. Tem tatuagem do Laranja Mecânica porque é um filme que flamba poesia junto de uma violência sintomática. Que fala da vilania como fruto de uma falha da sociedade. Porque é um presente agonizante vindo do fotografo-profeta-diretor Stanley Kubrick. Falando nele, Liz acha que a trilha do filme “2001 – uma odisséia no espaço” beira a perfeição porque as musicas parecem ler a movimentação dos objetos de cena, essa sincronia se revela em variações sonoras simultâneas a das imagens.

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Liz já mentiu pros outros que viu Matrix. Mas ela agora já viu. Gosta de cinema subversivo, coisas do diretor de Kids e Ken Park: juventude, sexo, violência social, hedonismo, poesia. O que eu mais admiro em Liz é a falta de preconceito com o simples. Isso vale pra humor em foto popular de moldura brega, dessas compartilhadas aos montes no Facebook. Liz sabe extrair o melhor desse tipo de sabedoria. Disse que aprendeu isso com irmão, Gabriel, uma pessoa erudita que a ensinou a enxergar a iconoclastia das coisas, e que tem essa coragem de absorver a sagacidade do que é tido como cultura de plebe. Ai se as pessoas soubessem que ser interessante é uma questão apenas de ser autêntico. Lembro-me de Liz comprando filmes trasheira de R$9,90 no posto BR. Ela jura que muitos deles são incríveis, e o mais legal deles é “A freira e a tortura”. Eu veria esses filmes só porque a Liz viu.

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Liz me da de presente versos íntimos de Augusto dos Anjos:

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!”

Gosto mais da leitura de Liz sobre o poema do que do próprio poema. Não saberei reproduzir. Mas lembro exatamente da sensação de quando eu achei isso. É como se o poema fosse uma certeza sobre a ingratidão vinda do outro. Sim, seremos decepcionados por nossas expectativas. Assinado: Niilismo. Liz não acredita em fantasmas e até por isso odeia ser marcada em fotos do feice sem estar presente. Assinado: Niilismo dois. Liz se acha ranzinza quando escreve, mas ela sabe que escreve bem. Contei pra ela.

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Liz flerta com uma religião poética-existencial-filosófica. É Sartriana: acha que a essência é posterior a existência. Liz tem manias profanas. Confessa que gosta de arrumar sua gaveta de calcinhas dobrando todas as abas para frente. Gosta de losangos. Liz se lembra de um de seus primeiros momentos de intimidade com mulheres, foi aos 10 anos, folheando uma revista, viu uma mulher bonita e deu um selinho nela, na página. Liz tem sorrisos que não cobram serviço. O abraço dela vem com um prazerzinho Yakult. Gostosinho que de tão bom, passa depressa, de já foi. Liz é uma joaninha amarela que de vez em quando me aparece com a sorte do vento. É amiga de por acasos de terças-feiras, em portas de livrarias, com pintinhas de rápidas prosas. Um eterno pra depois que a gente quer pra agora. Liz gosta de mashups: sobreposições musicais capazes de misturar o agora com o depois, que encaixam o instrumental de uma música com o vocal de outra. Liz gosta de João Brasil:

Peço que Liz descreva as suas pessoas colecionáveis.  Ela me fala de um antigo amigo cromático. O Luis. Porque ele se expressa com feições e bicos, é um girassol de angelical, e isso o deixa sábio e sensual. Tem a Anne que foi um porto seguro em sua chegada na selva paulistana, foi um acolhimento quase marsupial. A coisa mais especial em Anne é sua sinceridade não calculada. É um tipo de transparência feita de rompantes espontâneos, sem ensaios, de largar empregos milionários porque não tem sorrido. Anne é uma festa de quando“dançam as ilhas sobre o mar”. E tem a amiga cujo apelido é Fê~Liz (de Fernanda). Equação de juntar: reparem que o apelido dela é a outra metade – da laranja – que junto com o nome Liz completa a palavra feliz. Uma Amizade sufixal no meio de um mundo com “milhões de vasos sem nenhuma flor”. Liz também colecionaria Erika Lust, uma diretora sueca que faz filmes pornôs artísticos voltados para mulheres. Um trailer:

Liz tem historias curiosas que envolvem amor, ódio e cinema. Histórias que dariam manchete de entrevista no Jõ Soares, ou retórica de um livro de Lourenço Mutarelli – o guru literário de Liz. “Hoje eu vou conversar com a menina cinéfila que já foi demitida por causa do Quentin Tarantino”. E tem história que envolve o escritor de tudo isso. Eu. Estávamos eu e Liz brigados, era época de Mostra. Ano 2012. Nos encontramos por acaso, sozinhos, na fila do filme “ Lawrence anyways” de um diretor que ela me apresentou na Mostra do ano anterior: Xavier Dolan. Liz descobriu Dolan pra mim. Sou fã dos dois. E foi naquela fila que fizemos as pazes. Na fila do cinema. O cinema nos ficou de bem. Viva Dolan:

Liz tem ciúme de ex namoradas usando roupas que são suas e que não foram devolvidas na hora da partilha material. Partilhas; Liz já me disse certa vez que toda separação de casal envolve também a partilha dos amigos. Sim, os amigos de certa forma escolhem com quem do casal eles vão “ficar”, e mesmo que sem querer, são quase obrigados a isso, a ter que escolher com quem vão sem possibilidade de sorteio ou par ou impar. Mas pra onde vai, Liz leva a Bebel: uma gata exibida, voyer, um lindo documento afetivo das mudanças e andanças de Liz, Bebel é parte de dentro, é talvez o alterego de Liz. Bebel tem feice: é Bebel Agata de A-gata.

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Liz como diretora faria um documentário fake inspirado em Catfish, uma série que promove interações entre casais que não se conhecem pessoalmente. Usaria uma câmera bem subjetiva. Deixaria o espectador tonto. Liz é espectadora de pular uma cadeira de distancia dos outros, não desligar o celular porque usa o bloco de notas para anotar sacadas e inspirações. Papel e caneta também estão na lista de equipamentos obrigatórios no escurinho. O trailer predileto de Liz é do filme Mr Nobody.

Pergunto qual o tipo de música capaz de levantar os ânimos de Liz e surpresa: ela fala de Bethoven, Vivaldi, as 4 estações. Adoro as surpresas de Liz: elas vem sempre com uma naturalidade despretensiosa. Já fez por exemplo coleção de casca de cigarras. Liz conta do desnudamento das cigarras, diz que quando elas se desfazem de sua antiga capa, a casca que fica mantem o seu formato corporal intacto, inclusive na parte de encaixar as patas. Cigarras deixam de pistas de seus antigos vestidos. Liz deixou para trás os seus dreads, durante o corte houve choro, sofrimento, e tocou “Love by Grace” da Lara Fabian – só que não.

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Das memórias de Salvador, Liz me conta de uma passagem secreta para chegar a Cidade baixa : um recuo na orla que da acesso ao mar sem que pra isso você passe por áreas mais arriscadas. Você  atravessa o MAM (Museu de arte moderna) que fica no Solar da União, e existe uma saida que da na parte da praia que fica embaixo do Pier, um lugarzinho pra viver amores de fim de tarde. Liz acha que São Paulo é uma cidade pequena de tão grande e queria um atalho que desse em Istambul só pra ir em um show de música turca regional, “trocaria a eternidade por essa noite”. Diz que ali perto, em Israel existem raves que misturam música com cinema, e a minha vontade de conhecer Tel – Aviv cresce em um sagrada progressão geométrica.

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Tem gente que acha que Salvador é linda, mas tem gente que acha horrorosa. Liz acha  Salvador bonita para se visitar e perigosa para se morar. Os dois juntos. Conta que existe uma certa maquiagem por parte das autoridades para esconder as favelas das paisagens postais, jogar o “feio” para baixo do tapete. Em contra partida há um esforço para que a mobilidade urbana ganhe um caráter mais justo: lá, existem vias exclusivas  para carros que tenham mais de uma pessoa, é um mecanismo moderno – em termos de lei – que da preferencia a caronistas.

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Liz acha que relacionamento aberto é possível em um namoro, mas sem que haja um rosto dentro disso. “Com a identidade vem a insegurança”. Acha que o ato em si deve ser permitido e previamente negociado, mas sem que hajam conversas e detalhamentos sobre a situação. Liz quer ter um relacionamento aberto com Barcelona, trabalhar por lá com animação um tempo e depois sair tirando lasquinhas do mundo.

Ego. Inverto os papéis e peço para Liz falar de mim, ela diz que sempre que vê uma obra de um grafiteiro inglês chamado Bansky, venho eu. A partir do que já existe, ele inventa uma continuação sua através de intromissões poéticas. Ele interage com o que antes era estático. Liz acha que eu tenho uma visão louca do universo, que eu muitas vezes crio um laço com coisas que em um primeiro momento parecem desimportantes, e essa perspectiva lúdica diverte e ao mesmo tempo desperta reflexão.

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10 foto-motivos para você ir a Florença;

Porque você deveria ir a Florença, em dez foto-motivos:
Florença tem senhoras e senhores de terno andando elegantes em suas bicicletas pelas praças, e tem um fim de tarde nostálgico, pulsante, um céu que desperta saudade.

Florença é capaz de tornar irresistíveis os tons esverdeados:

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e de tão bonita passa rápido.

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e lá tem casas que guardam saudades enfeitadas: vermelhas, amarelas.

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Ir com o seu pai a Florença e deixar ele ser italiano, brincar de ser.

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O meu olhar é pincel. É cena de quadro. É fácil.

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Um carrossel de presente, sem querer, tirei do embrulho, sem dar voltas, olhei, olhei.

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se sua mãe estiver com você em Florença, tire foto feito filho babão.

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Tire foto da gravata mais linda que você já viu. gravata que seduz de linda e de cara.

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tire uma soneca na praça, não tenha medo do chão, mereça.

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A Toscana nos enfeita. do que é belo. é do belo que falo.

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