Marina Abramovic – the artist is present

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Marina tem uma beleza autêntica, balcânica, possui uma entrega subservente a sua vocação, se coloca como uma folha em branco e se arrisca em extremos, parece testar limites inéditos, traz na experiência da dor, do açoite artístico, novos significados de vida. Uma mulher que não gosta de pertencer a um lugar especifico, prefere ser nômade, gosta de uma sensação batizada de “espaço entre”: é o caráter transitório de uma jornada, é quando já saímos, mas ainda não chegamos. Segundo ela nesse espaço a fertilidade criativa é maior e mais consistente.

No momento em que o ex-companheiro de Marina senta na cadeira de frente pra artista dentro da performance em meio a um publico sôfrego no sexto andar do MOMA, meus olhos aguaram: ali acontecia uma simbiose de sentimentos, o amor parecia se resignificar, um olhar cantava para o outro em silencio; era uma prece entre amor e arte que eu jamais saberia dissertar sobre.

Sempre me interessei pelo tema da “presentificação”.Penso nela como um estado de completa entrega do artista ao momento, como se o mundo de dentro não sofresse interferências, é um desafio a impermanência. Esse documentário perpetra com aprumo os mecanismos da arte performática e junto disso nos faz encostar em uma mulher infinita envolta por um sensível gigantismo energético: sua presença emociona, interage, ultrapassa a tela, e nesse fator o filme vai além de um doc. biográfico. Ele não quer patentear verdades, não tem aquele sermão documental, consegue ser uma investigação permeável sobre uma mulher artista cheia de simplicidade, sem caprichos de celebridade, sem “toalhas brancas” no camarim.

“Marina Abramovic: the artist is present” – é altamente obrigatório aos nossos sentidos.

Assista, sem falta.

A espuma dos dias

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Falávamos eu e uma amiga dia desses sobre um tal “amor com sabor de fruta mordida” cantado por Cazuza. Fiquei com isso na cabeça porque era algo que eu não conseguia pincelar no imaginário, mas que pra mim tinha um sentido dolorosamente poético. enquanto assistia ao belíssimo ~Espuma dos dias~ eu finalmente trazia pra mais perto de mim um significado mais visual dessa ideia. Vi na tela algo como uma maçã do amor que ia perdendo o corante do seu vermelho-abre-alas, vítima das mordidas impiedosas do tempo. O filme é simplesmente um “felizes para sempre” as avessas, se decompõe, colore e depois definha.Isso é mostrado em cores levianas que seguem o curso das emoções e vão perdendo a graça, o nome, o aroma, uma revolução silenciosa.

o diretor Gondry -que tem publicidade no jeito de fazer- engatou uma engenhoca surrealista com jeito de ToyArt e junto trouxe uma caixa de especialidades com os atores mais carismáticos do cinema francês de agora, mirabolantes efeitos especiais propositalmente amadores e uma vitrola com o melhor do jazz bebop dos núcleos artísticos saudosos que habitavam os cafés de Paris. Era lugar comum, para os adeptos ao “Amelismo” -como eu- esperarmos um “Amelie Poulain a paisana” e foi diferente disso: era o sol derretendo, a lua indo ao chão, era poesia dando em árvores, eram minhas expectativas em pleno desmanche-paçoca.

Senti um beliscão antagonizando o amor e o capital, um amor sem botox, bonito, [in]feliz, onírico, subversivo, existencialista e atraente. Amor de FAVORITAR.

Eleutheria

72247_593263804052458_401904839_nMe atrai esse aleatório que permeia o circuito cultural paulistano. Fuji por uma noite do eixo Paulista/Augusta/Centro e fui estacionar nos fundos da ECA na cidade universitária. Foi assim que achei o que podia ser apenas “uma peça de semestre” da EAD: a escola faz-atores-dos-melhores.

Foi difícil não pensar no processo, na construção “sem” referencial, em como, durante 4 meses uma turma colocou algo tão ousado de pé. Era Beckett, era texto imigrante, virgem de Brasil.

“Eleutheria” foi pra mim um quebrar de correntes em termos cênicos.Foi bonito ver atores, tomados, indo além da soma: transcenderam, pude ve-los em plena conta de potenciação artistica.Eleutheria, “liberdade” em grego, “turma 63″ em português.

Absurda, dionisíaca, elétrica, multifocal, nova, claustro-asfixiante, freak, tentadora, necessária, amOral, EADética.

Turma 63 em breve cada vez mais do que isso.

Inquietos

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Ele possui o estranho costume de frequentar funerais de desconhecidos.Ela é viciada em ler livros de ornitologia em busca de aves com hábitos curiosos e está com os dias contados.

Gus Van Sant (o rei das tragédias jovens) retrata essa reação química da forma mais suave e intimista possivel.Apesar de ter uma aura melancólica, “INQUIETOS” é um filme sobriamente feliz sobre a espera pela morte sem apelar para o sentimentalismo, tem atuações honestas, fotografia e trilha que mexem com os sentidos, sem contar figurino e roteiro impecáveis.

A morte nunca foi tão poética.

Cinema é:

Eu acredito que todos possuem um ritual, uma sequencia usual de manias e movimentos que se repetem numa ida ao cinema: o meu é perder o ingresso, achar o ingresso, chegar, tirar o tênis, sentar, sentar não, se espalhar, estou pronto, estou em casa, estou. Não gosto que desconhecidos se sentem ao meu lado. Mexo muito, irrito!

Eu enxergo os circuitos de projeção cinematografica de um jeito polarizado. Em São Paulo, por exemplo, temos os cinemas na Paulista que combinam com café esfumaçado e papo cabeça. Nesse nicho não se permite barulho de latinha nem de salgadinho- você será censurado. No outro lado dos pólos existem os cinemas de shopping: eles combinam  com pipoca tamanho grande pra você voltar com o selo e pedir refil valido só uma vez. Ainda no contexto das guloseimas,  gosto de pedir a pipoca misturada: em cima salgada- molhada de muita manteiga extra, e em baixo um pouco da doce-por favor. Uma descoberta que um dia –não- mudou minha vida, foi a de que cinemas de shopping vivem mais de pipoca do que de filmes.

O Meu endereço no cinema? Costumo morar na terceira fileira, contando a partir da tela pra cima, geralmente é lá que fica a estrutura de colocar o pé e que geralmente todo mundo acha que é ruim porque é muito perto. ”sim, eu sei que é próximo da tela moça”.

Preciso confessar algumas coisas:

1-       eu me influencio com filmes mal falados por amigos, mas não com estrelas de jornal; elas geralmente carregam  frustrações e vaidades de critico.

2-        Eu nunca desligo o celular, deixo no “vibra” e eu acho que quase todo mundo faz o mesmo. Desconfio de que no fundo queremos que o celular toque, pra dar medo, pra sentir inverno na barriga.

3-       Eu detesto o Ricardo Darin e tenho um pouco de preguiça da Julie Delpy.

4-       A Cristina Ricci tem cara de feto.

5-       Eu nunca assisti “E o vento levou”.

6-       As vezes vou ao cinema pra pensar, e chego a sair da sala ,ao final, sem nem saber do que o filme se tratava.

7-       A Carey Mulligan é uma Katie Holmes que deu certo.

Qual o tipo de filme que eu mais gosto? Tenho um amigo que diz que um longa é bom quando ele cumpre o que promete. Eu nunca vou comparar uma comedia romântica americana com um filme politico iraniano. Eu gosto de dividir generos em prateleiras muito bem segmentadas: permito-me gostar de um filme de arte europeu e também de um blockbuster milionário de super-heroi. Não gosto de códigos de conduta para cinéfilos, mas adoro favoritar diretores: isso envolve a expectativa pro próximo filme, a deliciosa parte de olhar o conjunto da obra e achar semelhanças entre suas partes, entender um estilo e notar traços biográficos e a forma com que eles refletem sobre o mundo. Às vezes gosto de profundidades e às vezes minha preguiça pede filmes com o descompromisso de uma sobremesa.

Cinema para alguns pode ser só um apanhado técnico feito da junção de fotografia, roteiro, direção de arte, atuações, trilha sonora, efeitos especiais, pôster e estrelas no jornal. Cinema pra mim vai além; é uma espécie de fisiologia, uma unidade elementar nossa que mora longe do corpo, do lado de fora. É como um órgão que da pra se ver bem. Talvéz um olho que ao invés de receber imagens e registros, emana paisagens, luas e entendimentos em pop-up.

Cinema pra mim não é só um capricho de fim de semana.

A Pele que Habíto

Confesso que esperava um terror erótico com chicas sofredoras , o kit kitsh e as cores rasgadas, mas Almodovar nos deu bem mais do que isso. Passou dos limites!

“A Pele que habito “ é pesado, chocante, e rompe c/ barreiras de gênero tanto no campo sexual quanto no cinematográfico sem que isso o torne vulgar ou apelativo, mas sim um grande filme. É como se uma incomoda relação passional com a narrativa nos rodeasse em alguns momentos de forma calculada, dentro do script.

Cheio de personagens perigosos, revelações bizarras ,trilha frenética, tensa e cenas que constrangem. Um filme pra ser odiado com todo amor que temos pelo cinema de Pedro, portanto encarem a frase a seguir como uma provocação: NÃO ASSISTAM!

Barcelona

SAM_0547sIr a Barcelona definitivamente é brincar com fogo. Em poucos dias somos tomados por uma febre que torcemos para ñ passar. Tudo aqui é passional, passamos a condição heterotermos, nos tornamos consoantes do que o ambiente nos provoca. Os catalães são prova disso: ardidos, agitados, impacientes (não falo de caráter , falo da ira, um pecado de todos nós), possuem uma fala tentaculosa, parecem disparar oralmente a queima-roupa, por isso, aqui ser objetivo é a “prova de balas”, eles não nos deixam na mão, vamos aprendendo a arte de “ouvir devagar” . O mar tbm entra na teoria, parece um ataque de nervos, ñ é feito de ondas mas sim de tumulto, é frio, frio de queimar.

Ferver em Barcelona inclui algumas regras: ir a uma manifestação politica feita com batidas de panela, parar no mercado “La Boqueria” pra tomar um dos sucos de cores refrescantes, se deixar levar pela passagem estreita do bairro Gótico, e “ramblar”, ramblar muito, afinal a vida aqui é na calçada, ela é o palco, uma plataforma mambembe. Aqui você mesmo sem querer esbarra no maravilhoso mundo de Gaudí, construímos a partir de então uma admiração pela sua inteligência artística representada em mosaicos, curvas ergonômicas e monumentos reptilizados. Barcelona se veste de Gaudí , Gaudí se despe de Barcelona.Impossível não sentir falta de colecionar fotos kitsch pela cidade, encontrar autênticas chicas-almodovar com voz de cigarro, beliscar tapas e mais tapas, e bater altos papos com o Mediterrâneo.   Barcelona é um lugar para se devorar sozinho,  não traga solidão , traga liberdade, mas cuidado para não se apegar, não ligue no dia seguinte.

Em Barcelona vá embora sem dar tchau.