O amante – Marguerite Duras

406010_503160646396108_1505886060_nUma narrativa sofisticada, mas que ainda assim consegue ser “de casa”, uma história que alterna tempos de um mesmo sujeito, uma escrita capaz de odiar e amar numa mesma frase.

Tenho essa FELIZ mania de querer saber dos livros prediletos de cada um e numa dessas fuçadas tive o FELIZ acesso a uma indicação de Matheus Nachtergaele, FELIZ.

Marguerite Duras é capaz de transformar palavras em polaroides e descrições fotográficas em salgadas solidões. Um livro imagético que fala de um quase-amor vezes úmido, vezes seco, que nos permite sentir o silêncio de um rio ou colorir o que antes era sombra.

Londres

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O londrino vive de uma SOBERANIA DO TEMPO, esse é o seu bem maior. Com uma moeda que paira valorizada, e olhando de camarote o crack do Euro, aqui ela parece ser uma preocupação menor. O que conta mais é a riqueza da tradição, mais importante do que ser rico, é ser nobre. A Inglaterra é um país capaz de conservar um palácio com uma rainha e ao mesmo tempo construir uma olimpíada de ponta com tecnologia sustentável.
      É aqui que o tempo começa, Greenwich “é deus” e o mundo segue sua bíblia meridional . O postal representativo é um relógio (Big Ben), o céu é indeciso (sol e chuva vivem colidindo pra ver quem manda) e a pontualidade é exaltada com orgulho.

O dinheiro inglês parece ser o tempo, não sinto aqui uma necessidade de ostentação, uma tentativa de afirmar riqueza ao mundo (como sinto no império norte-americano), os britânicos não tentam ser algo, eles carregam exclamações e estão muito bem assim. O londrino veste tempo, viaja no figurino como bem entende e por mais que isso pareça superficial, é na escolha visual que entendemos melhor o pensamento desencanado e até por isso elegante que eles têm. Aqui o clichê do “ser diferente é normal” se confirma completamente, toda aberração beira ao comum (eu sei, ainda não fui pra Tokyo), nada chama atenção, vale tudo, mostre o seu tempo, vista-se.

Pisar em solo britânico, significou pra mim, entrar em um país apenas disposto a conhecê-lo com um olhar primário, esquecendo teorias socioeconômicas e olhando pra tudo com a ótica da novidade, aberto a gostar.Londres foi a maior caixa com surpresas dentro, que eu já abri na vida. Quem sabe um dia eu volto para um chá.

Tudo pelo poder

imagesSim, chegou a vez de Ryan Gosling.
Sim, Clooney como ator TBM é ótimo diretor.
Sim, já vimos esse filme antes e presumo que não foi num filme.
Conspiração, manipulação, reviravoltas. DICA : separe seu chiclé com sabor de duração prolongada.
Enredo: campanha presidencial dos EUA com direito a” estagiária dedicada“… todo mundo fazendo juz a  Maquiavél .Todos abdicando de balanços morais e freios éticos, de olho no próximo andar.Um game de sobrevivência em que todos são “vilões” e sendo assim NINGUÉM É.
Existem vilões? ou existem meias-verdades?
Ali, honesto é quem assume suas trapaças.Um fode com o outro e no fim trocam tapinhas nas costas e, o pior : pergunte a alguém que já viveu isso e PROVAVELMENTE você ouvirá que isso FAZ PARTE do jogo coorporativo. Todo mundo está no “PICS”. Não existem ofendidos. Gente ruim? ou apenas Gente?

Elena

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Uma voz de dentro, que parece pisar descalça na grama, distribuindo jardins e ofélias. Há algo de bucólico nas pausas contemplativas, um descompasso em relação à pressa da cidade. A fala, às vezes , parece silenciar em respeito aos olhos. O timbre envolve, sopra e muda de receptor sem nos avisar. Não há ofensas, ele nos conduz por toda a melodia das belas imagens e, às vezes, ele se confunde em gerações; existe uma triangulação entre a mãe, Petra e Elena ,que mesmo postumamente lembrada, parece pensar alto em potes de poema.
Não consigo dizer que “Elena” é um documentário,  e posso até teorizar sobre uma quebra interessante na estrutura documental; é a memoria versando lindas ameixas em forma de palavras. Não importa quantas flores foram colocadas no texto, na exposição dos fatos, já que arte é quando o real não é obrigatório.
Somos infiltrados do lado de dentro de um suicídio e as sensações são muitas: um calor de inverno, algumas plumas levando dores que choram pela ida sem volta, mulheres boiando em lavandas e tristezas molhadas de hortelã, e os sonhos que vão da valsa à escuridão.
E o olhar da mãe? O tempo todo distante, longe muito daqui, parece engolido de saudade, tomado pela falta.
“Elena” é morte e vida dialogando na beleza do lamento de um piano que beija-flor e ausência em belos solos de não esquecer.Lindo assim.

Holy Motors

      imagesyO cinema em estado de embriaguez, a arte em auto-exploração, um clima inaugural, um escape do trivial, um diretor, uma fantasia bizarra, um filme que seleciona quem assiste, que exige a nossa criatividade e um descompromisso com porquês.
Doses surpreendentes de Eva Mendes e Kylie Minogue, uma interpretação genial e arrebatadora – o nome dele é James Lavant- economia de diálogos e abuso de expressões. Um filme que não existe, um filme de ouvir falar. Abdução?

“Holy Motors” chegou na surdina, se alojou no esconderijo -não secreto- do cinema bom chamado Reserva Cultural, e virou a sensação da crítica e um delírio cinéfilo. Todos mexeram em suas listinhas de melhores do ano de 2012; eu também.

Classificação : Inclassificável

Um lugar qualquer

imagesCAQ3I4X7Diz a lenda que ” Um lugar qualquer” venceu Veneza porque  Sofia Copolla (diretora) é ex namorada da também lenda Quentin Tarantino (presidente do juri).Eu NÃO DIRIA.

Diz um amigo, que filmes com imagens de piscina no cartaz, tem boas chances de serem bons.

Os temas recorrentes na obra de Copollinha (isolamento, TÉDIO, solidão na multidão) estão presentes da forma mais simples e conquistadora possível.

Pra quem gosta de ação, passe longe!

Pra quem gosta das coisas simples, dos pequenos gestos, da Elle Fanning <3 e de açúcar na medida.

É IMPERDÍVEL e Excelente!

A menina sem qualidades

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A menina sem qualidades não possui pecados, mas possui apenas um grande defeito: o pouco tempo de duração.

Há tempos não via matéria prima tão interessante pra quem gosta de comportamento humano.Um “Romance de formação”, em versão televisiva. É cruel, profundo e sedutor. Tem diálogos existencialistas, tem Hirsh na alma, nos barulhos, nas músicas e tem um niilismo que se sobrepõe ao próprio niilismo. Possui alcance sobre um vazio informativo dos soturnos personagens que parecem vindos de algum livro de Hermann Hesse.

Sobre quem não sente nada, pra quem não CONSEGUE sentir nada. Uma obra inconfidente sobre o que não suportamos nem falar sobre. Um anti-anestésico, tão real que nos tira do cativeiro ideal.

Um susto de trovão que nos acorda por querer.

Indomável sonhadora

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Acordar, dormir, sorrir, chorar, olhar, cheirar, piscar, doer, comer, comer não, se alimentar.
Tudo é primitivo, tudo é simples, a vida se divide entre quem tem o coração batendo e quem parou de “tumtumzar”. Esperar pela tempestade sem medo. É como se a água fosse um agente de transição que vai ditar um rumo, um caminho, mas que não é esperada como uma catástrofe. Ela às vezes é o próprio ar daqueles seres e, sem ela não há respiração. Ninguém quer ser “salvo”, o mundo real sim, é um cativeiro, os personagens possuem uma consciente selvageria no jeito de interagir com a natureza e parecem estar felizes assim, sem interferência, aceitando o que universo tem para oferecer.
Real é uma palavra que não se aplica dentro do contexto do filme, pois ao contrário de outros ótimos exemplos de refúgios imaginários como “O labirinto do fauno” , “Pi” e “ Onde vivem os monstros”, não existe uma dicotomia entre mundos. Tudo faz parte de uma ambientação só. Não há separação, o real é o olhar da protagonista, é o real dentro daquela realidade e isso está além desses rompimentos.
Macunaíma indie, uma Amelie-terceiro-mundista, nada disso: Hushpuppy !Tem um olhar cheio de acordes, por vezes parece um bichinho acuado, outras uma guerreira valente e quando se faz necessário é uma deusa mirim dona de uma sabedoria capaz de intimidar monstros só com o olhar. Esses monstros -observou um amigo- parecem o conteúdo atroz da própria menina, eles são uma alegoria soturna do nosso pior lado, um anúncio do que é humano e portanto cruel, degradante, um anti-espelho.
E a cena do “colo”?  que faz nosso mundo parar, que desmorona todas as nossas armaduras. Preparem-se! É uma das mais lindas cenas que o cinema já brilhou, uma cantiga visual.
Indomável sonhadora não vulgariza a lágrima, é um recanto poético com versos antropofágicos. É descomplicador, cintilante, uma aventura folclórica que faz com que o essencial fique VISÍVEL aos olhos. BRILHA NO ESCURO.

Bom Retiro 958 metros

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A sensação é de um novo batismo cultural.

O grupo ~Teatro de vertigem~ faz isso com a gente. Não sabemos se estamos sendo levados ou apenas nos acompanhando. É  como um sonho consciente. É puro assombro  a capacidade que esse grupo tem de transgredir e elevar o nosso olhar a novos andares de deslumbramento. Fazem do espaço público – e privado –  palcos experimentais que ganham vida, que parecem pensar em voz alta.

Foi assim que pude ouvir o Bom Retiro contando a sua história, se desfazendo em lágrimas, mostrando sua alma por trás das fábricas de costura, da sujeira e dos imigrantes que lá residem. Presenciei uma sessão de exorcismo ao consumo, uma revolta de manequins e diversas críticas cênicas desalienantes que nos libertam das nossas lobotomias cotidianas.

“Bom Retiro 958 metros” é como um portal que depois de ultrapassado nos tira da condição de espectadores e nos leva pra setores mágicos do coração paulistano. É artigo de colecionador, é um irradiador de catarses, é pra guardar na encarnação.

Vale cada passo, cada metro, cada SENTImetro com S.