Karina ursa: pessoa colecionável #16

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Sempre que um filme ou novela aborda o universo feminino dentro de uma cadeia, um tipo de personagem acaba se repetindo nesse mosaico de estereótipos. A dona da cela. A dona da cela é aquela presa durona, a líder do cafofo, aquela que impõe certo respeito por sua bravura e é um pouco hostil com quem é nova no pedaço. Ela é a figura a ser conquistada quando tudo o que uma caloura tem, é um aglomerado de dias claustrofóbicos ou entediantes em um ambiente com grades. Consigo imaginar até qual crime fictício ela cometeu. Talvez uma assassina de filmes de terror-pipoca que acontecem em universidades americanas. Aquela que tira a máscara e se revela no final. Estou falando do seu ângulo mais rígido, mas não é só esse, nem de longe. Existem sorrisos marotos que desfazem o seu lado mais arisco, ela aceita o carinho de bom grado e sabe retribuir.

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Você pode chamá-la ursa. Esse é o seu nickname nos universos informais. Sua inteligência é tão exótica quanto caótica. Seu código visual pode fazer com que a gente se precipite e ache que a rigidez das cores enfatize uma possível resistência ao novo. Tim Burton tem culpa no cartório. Ela o tem como ídolo por ter sido um cara que conseguiu entrar no universo da Disney emplacando os seus traços subversivos. É ele que colore o seu jeito de se vestir. Vermelho, roxo, bordô, preto. Mas, o curioso é a falta do branco. Aquele branco gótico e pálido dos personagens mórbidos do diretor. E isso já é a fronteira da diferenciação típica de sua personalidade. Na vida e na arte, existe nela uma mania de se intrometer, de tentar mudar um processo já estabelecido, como se a água de dois rios se confrontassem inevitavelmente. É quase um jeito de manipular, de ter o controle, mesmo que parcial, sobre a realidade e a irrealidade. No fundo ela se sabe manipuladora, inclusive acidentalmente. Na arte, seus desenhos parecem não ter começo nem fim. Há um confronto visual que imprime algo próprio da sua assinatura. A ursa é aquela pessoa que gosta de interferir na mudança, marcar seu território, saber que participou da decisão, manifestar seu poder de intervenção.

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Costuma usar uma frase (“não é que…”) em seus enunciados para justificar e ao mesmo tempo denunciar a sua mania de interferência. Nesse momento ela se entrega e tudo o que realmente importa é o que vem depois do “mas”. “Não é que eu estou reclamando, mas eu acho que esse restaurante é muito caro”. “Não é que eu queira mudar a combinação inicial, mas acho que deveríamos comer sushi e não macarronada”. “Não é querendo me intrometer, mas eu acho que deveríamos nos encontrar mais aqui na minha casa, assim a gente num gasta tanto com restaurante”.  Eu poderia então dizer que a Ursa é uma radio pirata, aquela que de repente faz ruído no meio de uma transmissão das 7 melhores da Jovem Pan.

O mais divertido dessa entrevista é imaginar tudo o que eu não imagino ela fazendo. Ela usando um vestido cor de rosa, por exemplo. Ou quem sabe descobrir que ela conversa com os passarinhos todos os dias da sacada do seu apartamento (confissão real). E quem diria que ela já assistiu novelas e gostava de “quatro por quatro”. Diz que abandonou as novelas porque elas começaram a sublinhar traços exagerados de maldade do ser humano, distanciando o foco no entretenimento leve.

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Se a ursa tivesse uma terceira mão, ela passaria a bunda nos seguranças do metrô da linha amarela. Na realidade ela já faz isso, em horários de pico, gosta desses acidentes calculados, uma mão estrategicamente degustadora de “bundinhas caramelo”. Segundo ela, esse termo é uma piada interna entre amigos para designar uma bunda bem desenhada, agraciada pelas curvas que transbordam por uma calça coladinha.

Ursa gosta da frase motivacional que diz: “um passo em direção ao seu objetivo todos os dias, ao fim de um ano se transforma em 365 passos”. Das vaidades sobre os seus passos, ela se diz orgulhosa do seu emprego, das suas conquistas independentes, do crédito que atualmente recebe pelas suas habilidades de criação. Do emprego anterior carregando bandejas, guarda tendinites, rancores e amores. Aprendeu muito sobre lidar com homo sapiens famintos e também a aceitar que no mundo existem gerentes maliciosos, a ponto de se fazerem de amigos por um longo tempo e de repente te tratarem feito sucata, te jogando aos crocodilos.

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Existe apenas um requisito capaz de fazer a ursa gostar de um livro logo de cara. Ser uma HQ. A identidade visual das Hqs ativa o seu interesse. Ela é capaz de gostar até de um exemplar ruim só por ser uma história em quadrinhos. Na infância, ursa comia punhados de areia vindos de buracos na parede, gostava também de desmontar e remontar brinquedos e o seu cavaleiro do zodíaco predileto era o Shun de Andromeda. É um pouco vidrada na infância adulta, aquela de cultivar molduras infantis de personalidade. Até por isso, sua próxima tatuagem será temática, homenageando “A hora da aventura”. Acho digno, até por que, se eu fosse definir o universo de concepções subjetivas dela, seria o desse desenho. Ele traz criaturas sem eira nem beira, infantilizadas, mas ao mesmo tempo irônicas e bagunceiras. É um universo de crianças que fazem adultices que influencia os adultos a fazerem criancices.

A grande figura de admiração de ursa é a mãe-ursa. É uma figura guerreira dentro de sua luta solitária, além de instruída e muito educada. De sua mãe ela puxou o TOC da arrumação e também a mania de bater o pé na quina das coisas. Outra figura que diz muito sobre quem é a ursa é o seu cãozinho Jack Black. Ele parece meio bravo, meio ogro, mas adora brincar. É daqueles que se intrometem na conversa dos adultos com uma bolinha vermelha querendo forçar a brincadeira. É carente de cutucar o dono ou de derrubar objetos de estimação pra chamar a atenção. Nas horas vagas, Jack gosta de copular com uma lagartixa de pelúcia.

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Olhando rapidamente pra ursa, não é difícil lhe arrumar apelidos que remetam a bichinhos fofos & ferozes do universo do cinema. Eu tenho a certeza de que em outra encarnação ela foi um dos Ewox do Star Wars ou uma das criaturas do filme “Onde vivem os monstros” de Spike jonze ou uma alegoria na linha “L’Enfant Terrible” em plena fúria etílica. A pelúcia que se rebelou, a menina que era cavala na aula de educação física e arrumava briga no handebol até um dia virar discípula de Jedi. A única pessoa capaz de me convencer a ver filmes de super-herói.

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Às vezes eu dou bronca nela, ela não gosta e me aponta o sabre de luz de duas lâminas. Mas as relações humanas não acontecem no isolamento, tudo é sobre como gente se sente perto do outro, e perto dela, eu sinto uma sensação que eu não sinto com quase ninguém: sou um pouco pai. O papo está bom, mas a Ursa está cozinhando um macarrão alho e olho pra mim, e até o aspecto do macarrão é meio ogro, sabe aquela deliciosa gororoba que você taca no prato ao invés de servir? Estava delicioso, muito mesmo. E a gente se despede com um abraço giratório falando de uma próxima vez, um gancho para o próximo filme da franquia. Coming soon.

 

Letícia: pessoa colecionável #15

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Uma bruta aventura em versos, os da autosabotagem. Ainda está cedo, então me estico na cama para não olhar na cara do tempo. Adormeço de ansiedade prolixa. Acordo atrasado e ela já está lá me esperando, cheia de frases que ainda não sabe.  Atraso imperdoável: 40 minutos. Conto a verdade para ela e para mim. Que como quase todo elemento da espécie humana, eu minto sobre atrasos e calculo mal a relação trajeto x tempo. Vou dando margens falsas para que a vítima se acalme, mas quem não está calmo sou. Com medo de que ela, sei lá, vá embora. Então, grito aos remadores que avancem num vocabulário mudo. “Autosabotagem é o mal do século, a verdadeira ruína humana” diria ela, alguns tambores mais tarde.

Letícia acaba de voltar de um encontro de roteiro em Fortaleza com Hilton Lacerda, o exótico e ousado diretor do melhor filme queer do Brasil nos últimos anos-luz: Tatuagem. Enquanto a sorte de cinéfilos sonha em conhecer aquele diretor, meu sonho de conhecer ela é tudo o que importa dentro dessa embarcação junina. Entro no sarau dos Parlapatões e estico os braços para que ela me veja. Pholia e cortejo. Primeiro um beijo na mão direita, depois um abraço de esparramar o Royal das paletas. “Muito prazer, sou seu secretário”. É chegado o instante disfórico. A mulher que rouba frases, rouba canapés em reuniões da esquerda festiva, rouba pequenos objetos que derramam das ingênuas cascatas dos distraídos. Ela vai me indicar um filme coreano chamado “The Chaser”. Prometo que assistirei com Skittles na boca.

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Ela já morou com estranhos. Teve um dia de outono em que alguém trouxe um peru congelado de 4,99. Uma galinhada inesqueçuda. Distraio-me olhando seu urso polar pendurado no pescoço. Quero roubá-lo. Tudo nesse cleptoencontro é sobre roubos e gestos moles. Ela me conta como se libertou dos roubos do tempo. Perder a noção dele foi melhor que rosnar. “ ou você liga o foda-se ou enlouquece”. Mas se pudesse voltar a uma época, qual seria? 1910. Tempo em que existia o cinematografo, o ancestral da filmadora. Era um modo de entretenimento pago para dizer ao público o que as pessoas não tinham a coragem de dizer.

Me ensina um truque sobre como roubar um coração por algumas horas e depois devolver pelo correio. Seduzir é um tipo de insistência que precisa romper a casca do tempo. Desarmar alguém é ir longe, sem perspectiva de final. Vá fundo, converse sem marcar no cronômetro, estique, conte uma dor, e deixe o flavour do incerto ir quebrando o escudo de remoque. Um bom sexo pode acontecer se você conversar com alguém até que se gastem as possibilidades da partida, até que na hora em que tudo o que um pode dizer ao outro é tchau, mas esse tudo, de repente se prolonga por um olhar psicótico. Um rouba calor do outro. O sexo existe em qualquer lugar, agora, ali, em todo canto de cortinas rasgadas, inclusive em Stardust – o planeta Bowie. Mediunidade sexual é saber enxergar hormônios voadores. Teorias selvagens por aerosol. Em Tambaú também tudo disso acontece. Praia nudista, mamonas abundantes e monjas de olhos verdes, sem colírio.

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(Ah, pela primeira vez encontro alguém que também já foi ao Kit Kat Club. Toca aqui.)

(uma lata cai é ela não consegue esticar sua terceira mão para pegar)

Pergunto onde mora o maior amor do mundo. E ela diz que no “passado”. Com susto, digo que me forço a odiar o passado. Acho que o melhor remédio do mundo é rasgar o calendário em pedaços sem volta em frente a uma vela acesa. Ela diz que o passado é um retoque confortável. Que os melhores namoros que teve são aqueles que já acabaram. Já a realidade, essa cheira ao podre da culatra. É um desverde ao contrário essa memória. Verde é o presente, e só voltando casas no tabuleiro o rubor aparece na puberdade idosa do fruto atraente. Não há amores tão bons quanto os que já passaram. É tudo tão lindo, que resolvo presenteá-la com a mais linda declaração de amor ao azul (não) vista pelos meus epicentros. É de Paulo Mendes Campos.

“Quando o cego disse que queria viver em um lugar cuja temperatura oscilasse entre quinze e vinte graus e onde o céu todos os dias fosse azul, ninguém na sala sentiu vontade de sorrir. Nem cheguei a sentir um arrepio de tristeza. Ele falou com a voz clara e cheia de sentido. Entendemos de repente um espaço emocional extraordinário, que desconhecíamos. Céu azul não conhece fronteira de sombra; céu azul é indispensável antes de tudo aos cegos; azul do céu não é cor, mas uma qualidade do mundo, uma luminosidade apreensível por todos os sentidos, fragrância, convivência mais delicada, concerto de sons, transparência do universo.

Nos dias cinzentos, o mundo é mais opaco e mais áspero, as pessoas falam com um timbre mais rouco e aflito; os pássaros não cantam; a brisa é mais úmida, o ar mais pesado.

O cego desejava que todos os dias fossem azuis, precisava dos dias azuis mais do que nós, os distraídos na multiplicidade do mundo, dispersados em tantas sensações supérfluas. Um poeta disse que deus é azul. Não creio. Mas creio nos poetas. Creio no azul. Creio nos cegos.”

Como implodir os parnasianos? Jogue uma bomba no liquidificador e jamais fique sabendo da pesquisa de personalidade mais terrível já feita. Pessoas só se moldam até os 27, depois não se alteram mais psicologicamente. Pesquisas hipocondríacas. Estaríamos todos viciados nelas? Não. A ciência é esse caldo de experimentos que se confrontam e se contradizem. Ufa! A inteligência é apenas um móvel útil. Estamos no papo petisco & pinga, um bar na Praça Roosenvelt. – Mas e São Paulo? A São Paulo dela é um Minotauro. Cidade que atrai, contrai, machuca, é cheia de labirintos, sedutora de Tezeus. Entre eles, uma espada mágica e algum desvelo. Digo eu que São Paulo é a cidade dos anti-heróis. Nós, ela, eu, adoramos o tal “coeficiente de ficção”, a diferença: aprendo a expressão naquele momento. Quase conto que o Sebo “Chama De Uma Vela” fechará dia 12/07, mas deixo pra lá.

Ela antigamente assistia novelas, mas quando a dramaturgia televisiva começou a querer imitar o cinema, se perdeu. Mas e João Emanuel Carneiro? “Bom, ele é uma ótima companhia” casmurra ela. Mas e a menina de Salvador que eu tanto amo ler/sou stalker e que eu sei que você também conhece? Bom, ela ficou muito famosa em Salvador vendendo fanzines a granel na porta do colégio de freira. Depois virou militante de um partido comunista. Nos conhecemos  quando ela se mudou para SP e precisava de um caminhão de mudança. Ela anunciou na internet e eu Indiquei um amigo meu que fez um precinho joia. O que você acha dela? Acho uma pessoa arguta. O que é arguta? Pessoa inteligente e contraditória que sabe polemizar colocando a oposição de suas ideias para duelar num ring.

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A resposta mais incrível vem da pergunta mais pacata. “O que é felicidade pra você?”. “Felicidade é uma novela das 18h com a Maitê Proença que passou em 1996, escrita pelo ManoelCarlos.” Qual o seu guilty pleasure? “Seriados policiais de quinta categoria”. Melhor série da vida? “Twin Peaks”. Por quê? “Porque o assassino é o monstro que existe em todos nós”. Os filmes da vida dela? “E o vento levou”. Já viu 55 vezes. Mas por quê? “Porque sempre que eu vejo a aura épica construída nesse filme eu penso se as pessoas conseguem fazer isso, eu consigo fazer qualquer coisa”. “Os desajustados”. Mas por quê? Porque a Marlin Monroe era o símbolo da neurose humana, completamente angustiada pela imagem de musa que criou-se em cima dela. Fatuidade.

Conto a ela que sinto um tico de inveja dessa coisa de quem trabalha com cinema & ta sempre viajando & nas horas vagas ainda faz poesia. Digo que quero entrar nessa dança das cadeiras, mas que me sinto como a criança tola, que sobra sonâmbula enquanto os outros sentam vangloriosos. Ela me responde com otimismo: “No cinema as pessoas amam muito”. De repente a TV do bar é ligada no futebol num volume que provoca um efeito mute na nossa conversa. Peço para continuarmos no escadão em frente, compro esse prolongamento com um brigadeiro gigante de três tostões. Dividimos. Ela morde. Eu mordo. Mordemos. O resto, deixo dobrado aos Verdugos.

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Ela tem hora, e vai pegar o metrô República. Foi divertido. Tive medo de assustá-la e senti aquela culpa de quando é bom. Sou um ser esgrandalhado e isso é engraçado sem que eu force, mas ao mesmo tempo isso me torna docemente inofensivo, talvez frágil. Contei a ela segredos que só a terapia ouviu, fui picareta, fiz promessas com cartas de copas, incluindo um quadro do meu avô, já quase oferecendo também um diário de Susan Sontag. Fiz um tudo para impressionar, ser tal, albergar. Ela me contou sobre os efeitos psicoativos da Rua Rego Freitas. Percebeu que eu tinha medos e hipermetropia, não subestimou. Contei mais segredos medievais sobre o amarelo das piscinas. Foi um papo cheio de desatinos, folclores e espectros indiscretos. Ainda tenho um vale pizza do Mancini que eu prometo pra próxima vez quando estiver com meu brim pardo – quando contarei sobre o meu passado striper. Chantagem calórica antes de partir pro cinemão e depois rezar um missa.

 

Pessoa colecionável #14 Léo Fabri

 

 

 

 

 

 

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Conheci o Léo sendo atendido por ele na Livraria Cultura. Chamava-me atenção o seu figurino divertido, sua camisa com mangas estampadas com bicicletinhas e as suas incríveis referências na hora de indicar livros. Para a minha tristeza quando disse que queria uma camisa igual à dele, ele me contou que quem as fazia era sua mãe Rute, e apenas para ele e mais ninguém. Sua mãe, além de ser sua estilista pessoal é também sua companheira para assistir novelas mexicanas. Eles adoram tweetar em modo presencial, tecendo comentários humorados e debochando do cafonismo machista de cada cena.

Conto que a minha livraria predileta é a do Conjunto Nacional por causa das pessoas interessantes e daquele esqueleto de dinossauro. Ele faz uma importante revelação: “aquilo é um dragão e não um dinossauro e o nome dele é “Dragoberto””. Léo também diz que é bastante querido pelos clientes da livraria, principalmente pelas velhinhas que querem apertar sua bochecha. Desconfia que isso aconteça porque ele serve como um sinônimo da meritocracia para a classe média. É como se ele comprovasse a tese dos leitores da Veja & afins, como sendo o “negro vencedor”. Mas há também gentileza genuína. Uma cliente certa vez procurava por um Moleskine temático do Pequeno Príncipe, mas estava perdido na loja. Léo pegou o telefone da cliente para se acaso achasse. Achou não apenas um, mas dois, e reservou ambos. Quando a cliente voltou para buscar a encomenda, deu o segundo caderninho para Léo de presente. “Não foi um presente de agradecimento, foi uma pessoa agradecendo pelo carinho da outra.”

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Léo me parece metódico, possui gestos caricatos e simétricos, é quase um personagem de Wes Anderson. Por falar em cinema, ele sente saudade da revista SET, já mentiu que viu Amelie e não gosta do Nemo. Até hoje tem ressentimentos de um ex-namorado que terminou tudo por SMS. Peço uma frase sem ser da Clarice e ele cita uma do livro de Shaun Tan,“A árvore vermelha”, um dos seus prediletos: “o mundo é uma máquina surda, sem razão e sem sentido”. O grande preconceito de Léo é com quem usa Crocks. Ele se congratula Crokcofóbico assumido. Conta inclusive que uma vez deu cabo do par de crocks do irmão enquanto eles passeavam em uma praia. O irmão nunca soube como aqueles crocks sumiram, mas saberá agora na entrevista. Mas e papete? “Papete só se for do Seninha”.

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Léo não se considera um militante, gosta de olhar pros fatos e narrar a sua percepção. Ele também foi simpático à Maju, mas sabe que nem todos são Maju, muito menos do que todos os #somostodos. Muitos são #somostodosrede globo e o que mais for legal quando o Jornal Nacional disser. A construção do imaginário sempre se baseia na hegemonia padrão. Somos todos seres tentando não parecer preconceituosos, mas tentar não parecer não é não ser. Conta um episodio de uma conhecida que tinha uma filha de cinco anos que xingou a empregada de “macaca”. A mãe ao contar o episodio, disse que deu uma grande bronca na filha para que ela nunca mais fosse racista, mas em nenhum momento mencionou sua preocupação com a empregada. A partir desse pequeno recorte Léo afirma que existe um grande problema no combate ao racismo. Muitas pessoas não são sensíveis de verdade à dor de um negro, elas estão apenas preocupadas em não parecerem preconceituosas socialmente. Essa construção não é nossa, é coletiva, e a gente, sem perceber, se apropria dela.

“A construção do imaginário pode ser compreendida de maneira simples. Vá ao Google Images e jogue palavras como “bandido”, “gay”, “lésbica”, “pobre”, “rico” e você vai achar um padrão que aponta para imagens estereotipadas”. É bom lembrar que essa coletânea de imagens não foi construída por uma só pessoa. Desse conjunto de noções forma-se uma ideia generalizada, que distorce e elege figuras representativas. No ciclo de seminários “Cidades Rebeldes” que aconteceu no Sesc em São Paulo a estudiosa Maria Rita Kehl falou sobre isso e eu pesco um trecho aleatório achado na internet em que ela fala sobre o registro imaginário expresso pelos reality shows:

“O que eu chamo de violência imaginária é aquela que é consequência das configurações subjetivas narcísicas da identificação na imagem, da paranoia que essa identificação na imagem pode trazer. Porque, se eu estou identificado na imagem, se eu existo na imagem, há uma concorrência permanente pela visibilidade, e o corpo se torna muito importante.

A violência do imaginário seria essa violência produzida por uma sociedade que é organizada prioritariamente pela imagem, como é, sem dúvida, a nossa. O que se percebe na ausência de polissemia da imagem, ao menos naquela usada publicitariamente: ela não tem nenhuma abertura de sentido, ela tem um sentido muito imperativo.”

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Léo tem uma fome milenar por teatro infantil, um laço forte com literatura infantil e um pouco mais de um metro e oitenta. Peças trágicas para crianças, que tal? Seu primeiro xodó cardíaco foi “O gato malhado e andorinha sinhá” dirigida por Vladimir Capella, peça que encosta em tensões raciais em moldes alegóricos. “Outra bonita lembrança é da montagem de Branca de neve por Charles Moeller” , diz Léo enquanto vai buscar açúcar na saliva. Na literatura, sua grande perdição é a obra de J.K Rowling, autora de Harry Potter. Não só pela sua capacidade de criar todo um universo coerente em suas histórias, mas pela sua história de superação, já que passou 10 anos escrevendo. Os livros do bruxinho foram seus primeiros lidos em inglês

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Não existem níveis de cultura, existem diferentes experiências culturais. “o conhecimento deve ser uma ponte que nos liga e não um abismo que nos separa”. Léo, por exemplo, já ensinou o diretor teatral Antunes Filho a jogar Nintendo Wii. Era uma exposição na Game Play no segundo andar do Itaú Cultural, no primeiro havia uma instalação de José Celso. Léo não só ensinou Antunes a brincar dentro do jogo “Fatal Frame” como o levou a gritar descontroladamente como se fosse uma criança empolgada de 10 anos.

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Falamos de música e Léo me conta sobre um cantor gospel que é seu xará: Leonardo Gonçalves. Suas canções versam com blues, soul, bossa nova e o seu cd parece seguir uma narrativa teatral, ele praticamente narra uma história na sequencia das músicas. Sublime.

 

Conversamos sobre o tal “racismo por distração”, sobre as camadas por dentro dos equívocos cotidianos que costumamos reproduzir por palavras aparentemente inofensivas como “denegrir”. “O Brasil é racista, o mundo é racista e isso não é mais questão de preconceito, mas de conceito”. Atenta para as diversas políticas públicas regidas ao longo da nossa história em prol de imigrantes europeus em contraste com a cegueira contida na legislação de apoio aos escravos recém-libertos da África. “Fundo do poço é pouco, já chegamos ao pré-sal” diz Léo. Sobre o machismo, Léo acha que na nossa cultura as palavras de munição ofensiva possuem sempre uma relação com ao feminino e não ao caráter: “biba”, “mulherzinha”, “filho da p%$#”. Acha que “respeito é orgânico, é uma obrigação e não uma questão de adesão”.

Léo odeia Londres porque acha uma cidade muito parecida com São Paulo e ele não quer outra São Paulo, quer apenas São Paulo. Morou na cidade do Big Ben e trabalhou no consulado britânico e presenciou diversos episódios de preconceito linguístico, principalmente com quem vinha do Leste Europeu. Morava num bairro bem simples com uma coreana.

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Entrevistar Léo foi mais uma oportunidade para iluminar tudo aquilo que não reconheço em minhas ignorâncias de mundo, e que presente quando ele me falou desse miniconto da “Pequena vendedora de fósforos”. É ele que encerra essa conversa que pra mim foi como desvendar cada detalhe cósmico de uma sala tão cheia de surpresas e acréscimos pra minha ignição humana e que quando terminou foi como se essa linda árvore citada abaixo desvanecesse.

 “Decidiu-se: pegou outro fósforo, esfregou-o na parede e logo ela se fez transparente como se fosse de vidro. Através dela, entreviu uma sala com uma mesa posta. Sobre a toalha imaculada, brilhavam as porcelanas e os cristais. E, no centro, um pato assado, recheado de ameixas e maçãs fumegava ainda, exalando delicioso perfume. Que alegria! De repente, o pato pulou da travessa e veio rolando até ela, com o garfo e a faca enfiados nas costas. Mas… o fósforo se apagou e a parede ficou sendo de novo uma parede fria e escura.

Acendeu um terceiro fósforo e ei-la sentada debaixo de uma árvore de Natal, a mais bela, a mais rica e resplandecente que jamais vira. Nos galhos verdes, as velinhas ardiam aos milhares; fios de ouro e prata entrelaçavam-se; bolas e estrelinhas, assim iluminadas, brilhavam intensamente. Ergueu as mãos, mas… consumido o fósforo, desvaneceu-se a árvore”.

Zoraya: pessoa colecionável #13

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Ponto cruz. Linha por linha. Tesoura sem ponta. Flandrina elegância. O olhar dessa mulher é capaz das mais gentis gravuras . Tecido liso de passar a palma e sentir a existência sem muito susto, um colinho, tudo isso de bom tem ali. Ela nunca arranha, ao invés, traz quindins e manda presentes via correio.  Pessoa colecionável, analógica fada madrinha, nobre de outros tempos – de quando não sei. Sei que diante dela, nosso medo do mundo desaparece por instantes, não há orfandade em nossos despedaços. Há pessoas que naturalmente conferem se todos estão bem cobertos durante a noite.

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What A Difference A Day Makes. Sua quote predileta também é nome de canção. Que valor um dia tem? Um dia. Apenas um dia. Para ela, um dia de existência não pode ser tratado como rascunho fajuto, um dia é toda uma vida em plena potência de sentido, todo dia é d, todo dia é dia de acordar de bem com a penteadeira. Abro suas gavetas e puxo um dia triste: o dia quando soube que a mãe não voltava mais. Remexo em um dia lamentável: o dia da morte de seu ídolo, Ayrton Senna. Amenizo e peço um dia leve: o dia em que ela e a melhor amiga Mônica comeram macarrão feito na água fria. Fuço em um dia encantado: o dia em que Hannah, sua filha, foi pedida em casamento no fundo do mar de Bombinhas. Desvendo um sonho: o dia em que será avó. “Um dia”: agora eu entendo seu chamego por esse filme.

O lado mais curioso de alguém quase sempre é o paradoxo, somos isso, um discurso tropeçando na ação . O dela é ser católica sem acreditar em deus. É que a religião não é apenas crença, é também um laço de memória, é sinapse familiar de quando nascem flores de dentro do rio. A religião pode ser só uma colagem entre corações, um cotidiano de se lembrar, sem que a crença interfira no remédio. O paradoxo é cheiroso quando duas coisas discordantes cabem no mesmo lugar e a gente deixa de tentar entender.

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Ela nunca se esquece da primeira viagem para Buenos Aires. Foi uma quebra de paradigma. Já tinha uma prévia sinopse dos hermanos: é que muitos frequentam o litoral de Santa Catarina. A maioria vem do interior da Argentina e possui hábitos mais rústicos, como falar alto, sacudir a toalha em cima das pessoas, gerando certa hostilidade por parte dos catarinenses. Zoraya veio com o olhar possivelmente contaminado pelo senso comum, mas ao chegar, logo mudou de ideia, viu uma cidade interessante, com gente lendo por todo canto e muita riqueza cultural. Outra viagem pra eternidade foi a ida a Gramado com a família. 15 dias pela serra gaúcha, sem reservas prévias, paradas não programadas, hospedagens de última hora. A ida pela serra, a volta pelo litoral.

Todo mundo tem um lugar de fora que parece estar dentro, um amuleto afetivo que acalma os pés e nos protege não sei do que. Aquele canto em que a gente se sente bem, confortável, e não sabe que horas são. O de Zoraya é a ponte Hercílio Luz, que liga a ilha ao continente de Floripa. Conta que em sua televisão existe uma emissora local que ao encerrar sua programação, coloca imagens dessa ponte com os carros passando e junto disso, uma trilha sonora. Zoraya gosta de ficar olhando a ponte, inclusive pela tela da TV. Talvez seja uma espécie de descanso, ou ponto de pouso para reflexão uma notívaga.  Estar a sós é como a glória do algodão. Penso em qual música combinaria com essa descrição, escolho uma valsa.

A conversa e a bateria do Galaxy vão aos poucos acabando, descubro nas badaladas finais que minha câmera do Skype não estava ligada, e então uma grande metáfora se projeta no epílogo: Zoraya sempre me viu, mas nessa noite, apenas eu vi Zoraya, quase um momento “Her”.

Deixo aqui, a raspa da panela, uma lista de frases/momentos que meu marca-texto capturou, junto de algumas fotos que dizem muito dos seus corações guardados.

1- Atritos ideológicos: “Existem momentos em que você deve dar espaço para o outro mesmo discordando dele. Não cabe todo mundo no mesmo lugar ao mesmo tempo.”

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2-   Uma habilidade: escrever textos longos pelo Smartphone.

3-   Uma impossibilidade: camping, vida de acampamento, banheiros coletivos, prefere um bom almocinho com as amigas.

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4-   Uma estranhabilidade : comer arroz frio na porta da geladeira.

5-   Um filme de repetir:  “Sex and the city”. “O jeito como ela perdoa ele, apesar de tudo”, explica.

6-   A cena mais sensual do cinema: a primeira transa entre a mulher e o amante em “Infidelidade”. “A barriga trêmula da protagonista em meio ao rito do primeiro encontro dos corpos”.

7-   Seus filmes inesquecíveis; aqueles em que a poesia carrega a morte com brandura: “A Partida” ou “A vida é bela”.

8-   Uma paixão: livros de culinária. Cozinhar é um tipo de companhia. “Ninguém resiste ao meu macarrão ao frango com cerveja preta”, ameaça.

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Zoraya de despede, sobe então em sua carruagem e vai embora levando o seu condão. Desaparece de repente, minimizada em alguma janela do mundo Windows deixando uma absoluta certeza: fadas existem no outono.

 

 

Hélio Leites: pessoa colecionável #12

Meu encontro com Hélio Leites

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A pessoa colecionável número 12 é especial, é uma honraria, um sonho realizado. Esse jovem senhor chamado Hélio Leites me encantou com este vídeo, há dois anos, e a única coisa que eu sabia é que ele morava em Curitiba onde dava vida aos seus pequenos inventos poéticos em seu ateliê.

Tinha apenas uma informação: disseram-me que ele possuía uma barraca pimposa na Feira do Largo da Ordem aos domingos, ali perto das cercanias da Praça Tiradentes. E lá fui eu com meu cavalo de pano mais rápido do mundo em busca do grande dia de folia em busca do tetéio senhor encantado. Era dia chuvoso, pingos caiam do céu, mas nada atrapalhava , eu logo o vi com seus cabelos brancos, seu topete prolongado, seu casaco com peças teatrais penduradas, e seu carisma que mais parecia um conjunto de tentáculos animados, gentis, bilus, atraentes.

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Vitória: pessoa colecionável #11

Vitória foi pra mim uma ambivalência curiosa. Engraçado como a percebo pelas fotos, antes a menina que tentava parecer interessante em poses, e hoje uma Luna de margarida,  uma sobreposição que enfeita o papel, sem fazer papel, só sendo e sendo, linda sendo, sem pose, e bela.

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Vitória produz pães de mel deliciosos, ecológicos, corretos, possuem ingredientes que não agridem. Simplificando ela foi parar em Dublin depois de vender muitos deles e hoje produz alimentos sem histórias tristes pra contar. Sem leite, sem ovos, só mágica, farinha , good vibrations. Recentemente inaugurou o Marvelous veggie, confort food ao seu dispor, o melhor dos gostos da hedo-Irlanda – entregamos de bicicleta.

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Lentes escuras, sempre, e depois a nudez de um olhar com pupilas que chovem, olhos escorridos, que hoje sabem pra onde; Vitória não cria mais patinhos feios. Também lentes de câmeras que parecem latas de sardinha. Vitória é como eu, é capaz sim de comprar um livro porque a capa é bonita. É frenética, uma Lolita que corre andando, é uma janela com asas que cansou de ser sexy, tem  preguiça de modernidade,  tem o “ãh” de gente distraída, e as vezes parece atropelada pela sua mente atlética, que corre purpuras maratonas.

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~Vicky~ não conhece christina mas já foi a Barcelona, e não viu inteiro o filme de Woddy Allen. Vejo a gente num filme, sim, eu de aviador de relógio marrom e camisas malucas/coloridas das criações de 70 e ela com botinhas escocesas e meias indolentes e vulgares com uma faixa de arabescos azuis nos cabelos. No bolso balas coloridas, daquelas que parecem vidro. Vitória é a típica mocinha que sobreviveria a um filme de terror anos 90, enfrentaria o psicopata com gás de pimenta, passaria por cima de sua fragilidade, aprenderia  a se defender no durante. Tipo uma donzela autodidata que é salva pelo próprio carma do bom passado, uma anti-Courtney Love.

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O filme em que ela lembra de mim é~ Submarine~ e eu acho ele tão nosso. Um longa que submerge nas neuroses adolescentes, afiadas neuroses, e de pulo em pulo é interrompido pela falta de linearidade das coisas, excêntrico, profundo, e sacadinho em seus predicados. Acho que nele existe uma linha de perigo, que se inflama e que ultrapassa os sinais de segurança, e nós somos isso, somos mistérios irreveláveis e relevantes, e a soma do que fomos sem decidir, somos a parte azul do fogo  -a que não queima- somos simpáticos mistérios sem cartas na manga.

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Vitória hoje degusta a vida comemorando êxitos com guacamoles e tortilhas, é movida a restaurantes mexicanos que toquem de música ambiente solitude bliss de Tame Impala, isso é ter alma gentil. Sua culinária de emergência envolve um cuscuz feito com tabule, vegetais e azeitonas, além de tomate seco.Vitória tem mania de tomate seco.

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Falamos de pecados: a gula de Vitória é ice cream, a ira são as quebras de expectativa, e de luxúria um bom pornozinho gay, e ela é vaidosa de sua autonomia (morar sozinha ouvindo Devendra, ter seu negócio, pá). Agora decidiu que quer ir a farra com Paris Hilton, em uma pvt caseira “I wanna take you home, bitch”, virá coroada de diamantes, e depois  quer ir a praia de maio laranja e missangas valiosas. Paris aceitaria tudo em troca de um picolé sabor blue ice, acho.

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Vitória me convida para tomar um chá em sua casa do futuro, as paredes serão de Lego, e ela seria torta como em Alice. Em seu reino o som ambiente viria do aplicativo Spotify que usa o seu humor do dia pra tocar alguma música bem das decentes. Terá um relógio no banheiro, e uma torneira com chá mate na cozinha, um piano no quarto e de estimação um lagarto tricolor. Cortará a cabeça de quem trouxer baixo astral, chorume, e picadeiros desanimados. Benditos serão aqueles que estarão em seu mural de fotos – fundo predileto dos seus selfies.

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A vida em Dublin é tipo assim: compras pela loja virtual TIGER.IE, porres e vaquinhas. Na night, drinks ousados no Bernard Schall e seus dois andares. Depois, ressaca, maquiagem borrada, e novos agitos no work mens que toca the killers e cositas mas. Também tem o “The George” daqueles que promovem misturas de públicos e possui shows cheios de glitter e atitude cor de rosa cantada por quem mudou de RG. A Button Factory é coisa de louco ferver: é festança do pessoal da facul de cinema. Tem a Grand social: um espaço com shows alternativos , brechós e hamburguers e dogues sendo servidos pela balada.

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Das mentiras que quero contar sobre Vitória tem o fato dela [quando pequena] tocar a campainha dos vizinhos e depois sair correndo. Ela sabe das vantagens de ser invisível, sabe trazer mistério ao dia, é inimiga dos mordomos, porque mordomos sempre sabem de tudo, sabem quem foi, sabem que ela esconde ser vampira. Vitória também já se suicidou algumas vezes sem me contar, também sei que foram ameixas envenenadas, algo que só Tim Burton explica.

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De tudo, desse dia no Centro cultural Vergueiro, no jardim suspenso envolto por pauliceias desvairadas guardo e rimo empolgado esse dia, com coração e cadeado.

e aqui, o nosso trailer:

 

Priscilla: pessoa colecionável #10

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“The dog days are over, the cat days are coming.” Priscilla é uma primeira dama plebeia, é uma faca afiada de verdades, é a mulher da Catuaba, é um manequim em que tudo veste bem, sua canção de ser exala elétrons, vivos, e carne – com sangue, carne mal passada. Acho ela visceral, exótica, mexicana, perigosa, quase uma das apoteóticas mulheres dos filmes Bs de Robert Rodriguez. Eu não conseguiria limitar Priscilla ao tipo “musa de um diretor só”. É daquelas que está em disputa, por vários diretores, é uma leoa que devora quantos leões quiser, leoa não, mulher gato, a mulher gato paulistana em uma entrevista bombástica, com sabor, com malagueta, com brilhantes vermelhos e batom ardido. Não pode ser ao acaso, que bem hoje – “sexta feira 13″ – dia de maltrato a gatos, esteja acontecendo essa antologia poética sobre uma heroína dos felinos.

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Meu terapeuta diz que influenciamos diretamente na forma do outro olhar para algo. Somos capazes de corrigir deformações sentimentais, somos placas de publicidade capazes de inverter desafetos. Quero dizer com tudo isso, que muitas vezes já passei a gostar de alguém ou de algo,  porque algum amigo meu falava incansavelmente bem do objeto relatado. Dei o braço a torcer. Priscilla me fez prestar mais atenção nos gatos. Quando pequenos nos colocam chips que nos injetam a rejeição aos pequenos felinos. É só prestar atenção na letra de “Atirei o pau no gato”. Gatinhos são tidos como antagonistas dos cães, como metidos e frios. Essa entrevista é uma quebra de paradigmas em relação ao mundo miaiu. Resolvi então não apenas entrevistar a Priscilla mas os seus gatos também, fui conhecê-los pessoalmente, observá-los e principalmente ser observado. E não pode ser por acaso, que hoje “sexta feira 13″ – dia de comum maltrato a gatos – eu esteja dando os retoques finais dessa antologia poética sobre uma heroína dos felinos.

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Essa é a nega. Priscilla define assim:  “a nega sou eu”. a  nega é arredia, fresca, ciumenta e de não me toques. É uma passarela em cores noturnas, a nega é gata leonina, é o próprio espelho.

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Priscilla é Kitsh. É dada as excentricidades estratégicas e aos descombinados propositais. O que no outro pode soar brega, em Priscilla é a coragem de ser, é um resgate de um pop de antes, que de maneira subversiva traz orgasmos estéticos, é um mulherão que veste Melissa. Priscilla é quando a caligrafia ultrapassa as linhas de um papel amasso. Ela passa o farol vermelho. Pinguins de geladeira, estampas exageradas, anões de jardim, quadros de palhaço, amor estampado, Almodóvar. Pedro já chamou Priscilla às pressas para um filme, mas ela recusou porque estava muito ocupada no hotel para gatos onde trabalha.

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Esse é o Brancão. Ele escolheu o Wa (marido de Priscilla) como dono. É vesgo de olhos azuis, carismático, alegre, bobão, conquista fácil, se mistura, apanha dos outros gatos e não reclama.

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Para Priscilla o amor é como um gato vira-lata. Acha que cães não são conquistáveis, já chegam lambendo ao mundo. O gato precisa ser convencido. Há um rito de sedução para se ter acesso a ele. Matemática afetiva: são 5 gatos, um marido e a própria vida. 5+1=1 = Priscilla tem 7 vidas, 7 amores, Priscilla se ama pra caralho, é o seu amor número 1, está inclusa, é leonina.

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Essa é a Safira. Ela é um enigma:  misteriosa, mora praticamente na casa do vizinho, não se mistura com os outros gatos, não entra em casa, dorme no quintal, tem alma boemia, nunca tem hora pra voltar.

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Se pudesse inventar algo um dia, Priscilla criaria um lava rápido para humanos, acha gostoso o processo de limpeza dos carros. Gostaria de se infiltrar no meio daquelas esponjonas gigantes giratórias e se perder com sua sandália Melissa nos embalos dos jatos de água com sabão ao som de Billy Idol – dancing with myself – a música da sua vida.

Esse é o Mingau, foi a Priscilla que fez o seu parto. Era o ultimo de sua leva, e nasceu de bunda. É romântico, sentimental, falante, descolado. Ele foi escolhido por causa de sua barbicha.

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Priscila não gosta de receber gente em casa.  Casa é pra onde a gente foge quando não ta afim de olhar pra cara de gente.  Se essa gente entra em casa, pra onde fugir de gente? Priscila aceita convidar gente pra jantar com a condição do mesmo ter hora para acabar, moderno assim. É daquelas que quando a visita passa da cota e diz que está indo embora, não pede pra  “ficar mais um pouco” por educação.

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Priscila ja sentiu inveja de tatuagens alheias. Lembra de uma que tinha um balão com um gato dentro sendo segurado por um segundo gato. Priscila já mentiu que viu Grease nos tempos da brilhantina e nunca provou tomate seco porque acha seu aspecto feio. Priscila é “alcoolatra” por maquiagens mas tem o habito de não inaugurá-las por dó.

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Priscilla tem uma sinceridade que dispensa palavras, possui um jeito de repelir o que não lhe agrada que é mais forte do que ela, é um movimento involuntário, quase um peixe beta em fúria colorida. Priscilla é de sentir  ódio a primeira vista. Não tem paciência de ir a shows  musicais nem com gente que despeja problemas nos outros.  Não gosta de coisas subentendidas, prefere o explicito.  É declarado o seu ódio por beringela, Chico Buarque, Janis joplin e pelo Kurt Cobain; mas ela ama colocar azeitonas em tudo.

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Os prazeres Amelie de Priscila são: pisar em folhas secas, ficar sozinha em casa ouvindo Jonny Cash com seus gatos,  abrir um shampoo novo,  rasgar cartelas de eletrônicos zero bala, receber encomendas do “Submarino” pelo correio, ver que chegou. O TOC de Priscilla é repetir caminhos, acha que se fizer diferente, algo ruim vai lhe acontecer.

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Esse é o Tigrão. Priscila define Tigrão em uma frase: “ O Tigrão é o meu dono, ele me escolheu”.  Tigrão é o mais carente da turma, e o mundo faz mais sentido quando ele deita no peito de Priscila. Tigrão tem alma enfermeira, ele cuida, deposita afeto, olha no olho de um jeito profundo, olha na alma, nos atravessa, chega a assustar. Quando Priscila está de cama, ele também fica, e só levanta quando ela levanta.

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Priscilla só aceitaria pousar nua um dia se o cenario do ensaio fosse nas locações de Kill Bill. Com o dinheiro compraria um ap na Rua dos Pinheiros,  um mini cooper pra passear com o Wa e abriria um abrigo para gatos dentro de um sítio, para caberem todos eles.untitl477jed

Esse é o Wa, o último dos gatos de Priscila. Prisicila diz que ele a ensinou a gostar de Tarantino. Segundo Pri, a coisa mais especial no marido é o poder que ele tem de “des-negativar” a vida. “ O Wa nunca deixa o mundo acabar”. Acho Wagner um Silvio Santos da vida real:  uma pessoa populista, que gosta de falar, de conquistar a massa e ao mesmo tempo ser empreendedor, de jogar aviãozinho pra platéia, e ter um tom de piada no jeito de comunicar que traz familiaridade, que aproxima.

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Priscilla diz que o presente que mais gostou de ganhar na vida foi essa entrevista. Fico me achando.Peço uma frase sem ser da Clarice e ela me diz uma muito boa: “Eu não gosto de frases prontas”. Priscilla não lembra do nome do seu livro predileto: ele é de la de trás, na infância, é sobre uma gata cega que narrava a vida de seus donos. Tinha sentidos aguçados.

 

 

 

Priscila quer um dia ir ao México participar de uma festa do dia dos mortos, no dia de “finados” deles. É uma festa que mistura caveiras com doces temáticos. As caveiras representam a morte e o açúcar a doçura. Priscilla adora tudo que tenha motivo de caveira e na parte do açúcar ela não resiste a torta de limão.

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Viny Almes: pessoa colecionável #9

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A Flórida não existe. È um arco-iris que se exagera. Que tem cores a mais. A Flórida é feliz, radiante. Flórida é lugar de Viny. Parece o seu satélite existencial. Sua lua fazendo sol.

Ele acha que a maior loucura que ele já fez na vida é sempre a próxima que esta por vir.

Orlando fica na Disney e não ao contrario. É o exemplo de quando um lugar tem mais apelo postal do que a propria cidade que o abriga.

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Viny detesta voley, acha que é esporte de menino puxa-saco de professor.

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Nova York é terra santa, uma SP elaborada, com estrutura. Uma engrenagem que parece não falhar.

Amor para Viny é quando a pessoa se entrosa, é sensível e ainda faz cafuné.

Cape Coral é uma cidade em plena construção, cheia de pântanos. Daqui 100 anos sera a nova Disney.  Sim, Walt Disney não foi levado a serio, quando quis construir um mundo de parques e sonhos em cima de um pântano. Eu não sabia dessa.

Sempre tive certeza que Viny seria um pianista rebelde. Decepção. Viny diz que foi apenas a expressão de uma fase. Viny é conta de multiplicação. Pluriartistico. Também. Tatuado. Lindos desenhos dele.

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Maryland é uma cidade cheia de casas pré-fabricadas. Tudo lá é otimizado, útil, tem pragmatismo de fast-food. Casas e árvores  nutrindo o sonho americano em forma de cimento e mini-naturezas.

95 road ao cortar Maryland foi como materializar o cenário do seu íntimo inspirador. Elegante, solitário, e misterioso ao escurecer e isso o deixa feliz. feliz por ser assim

Brega é quem subestima a moda, acha que moda tem a ver apenas com “se vestir”.

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Conta que há uma lei americana que obriga você a zelar também pela grama do vizinho. O vizinho pode inclusive te denunciar por descuido ao seu jardim.

Viny não quer ir a Londres porque lá chove toda hora.

Viny é isso tudo ai cima. O encontro dos seus desentendimentos em forma de vida, de coisa de não entender.  De lugares de sensações. De sentir-artista.

A casa de Viny vai ser iluminada de suavidade e conforto, cromo-estética, sem lampadas fluorescentes.

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Esse é o dicionario geográfico afetivo de Viny. Lugares e sensações que se revezam e se misturam. Foi em uma viagem de carro, inesquecível, com pai, mãe e irmã, que Viny pensou não querer mais voltar para casa. 3 dias de carro completamente pitorescos, uma viagem pop, um road movie afetivo, uma jornada de Nova York até o Sul da Flórida, passando por matagais perfeitos de reais, estradas delirantes, quilômetros de juntar.

Viny não tem mais paciência com São Paulo. “Vou-me embora vou me embora para a verdadeira América para experimentar a natural essência desse continente”. Viny acha que com os reparos pré-copa instaurou-se uma confusão urbanística, um conjunto de soluções hipócritas. É como se quisessem encaixar um quadrado dentro de um circulo.

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O refúgio de Viny em território paulistano é sua ex-escola Silva Prado – e ele faz sempre questão de falar com orgulho o nome da escola. Na verdade não é bem um refugio, já que Viny diz não quer se esconder de nada. É um lugar que desperta um conforto na memória. Faz um grude de lembranças como a de sua época de teatro no Beto Silveira, época em que seus sonhos ferviam rebeldia.

Viny acha que só temos uma única vaga para abrigarmos um sonho. Acha que eles acontecem um de cada vez, embora sejam mutáveis. Viny acha que um sonho não é estático, acha que ele vai se alterando de acordo com nossos ecos vitais. Mas o lugar é um só. Tum tum.

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Viny já pisou dentro de um sonho. Conheceu a Amy lee – vocalista do Evanescence. Viny diz que ela faz uma música tátil, é uma diva em  forma de cantora-mulher. É generosa: transforma sentimento em música e depois reparte com cada um de nós, são vários primeiros pedaços de bolo. Viny já desenhou e fez um vestido para Amy Lee, já a abraçou, já fez uma tatuagem com o seu autógrafo. Quanto ao vestido, ele foi entregue, usado por ela e postado inclusive em seu Twitter.

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Viny é daqueles que não se sente confortável quando o chamam para jantar. Diz que não come nada. Odeia tomate e sempre comeu pizza feita apenas de massa e queijo. Viny tem mania de dormir de ventilador ligado e num é bem pelo calor. Diz que gosta do barulho.

O filme da vida de Viny é Titanic. É um filme que atingiu a todos. Foi da massa a elite, arrebatou o coração da terra. Sua cena predileta aborda uma escolha. A personagem Rose já está no bote são e salva e resolve pular de volta para o navio para ir atras de Jack, seu amor.

Essa entrevista ficaria mais legal se você a lesse, ouvindo essa banda.

Viny gosta da palavra “inclusive” porque ela não pode ser usada em qualquer lugar. É uma emenda, é palavra de juntar.

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Viny iria se apaixonar por uma banda chamada Goldfrapp e sua música chamada Ooh la la.

Viny parece ter trocado futuro e presente de lugar. Barroco, tem piquetes em seu jeito-protesto, é celebridade de tabloide, de escândalos, simples como um carro sem capô, sofisticado, sim, e é objeto de paparazzi. Se Viny tivesse um superpoder seria o dom de costurar. Viny tem pavor de costureiros, pois eles geralmente agem de má vontade com os estilistas. São antagonistas do mundo da moda. “Todos de mal com a vida”.

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Eu e o Viny fomos colegas de turma no teatro. Lembro-me que no zumbi Orkut  eu escrevi um depoimento para ele, e consegui resgatar fósseis dos meus pensamentos a seu respeito na época. Eu dizia no começo que Viny era metade uma bomba de chocolate, metade uma bomba relógio. Que ele é a unica pessoa no mundo que conseguia ser previsível por ser sempre surpreendente, e que ele tinha o estranho dom de espalhar sentidos por aí. Ele nos encostava pra bem ou pra mal, quase algo sensorial ou uma cerca elétrica com magnetismo.

Nesse “testimunial” eu citei um diálogo do filme Donnie Darko entre o ser fantasiado de coelho e o protagonista, que resumia a minha convivência com o Viny nos tempos de teatro:

O Homem -Por que vc está usando essa fantasia idiota de coelho?
O cabeça de Coelho – Por que vc está usando esta fantasia idiota de humano?”

Com o Viny eu aprendi a ser mais o coelho.

Liz: pessoa colecionável #8

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Liz: tão frágil cinéfila, tão forte pessoa, ou os contrários?. Gente de sabedoria baiana-geminiana. Afeto e pimenta. Compreensão refinada da realidade, axé cérebro. Sorte pra quem conhece. Presente de horóscopo. Só assim pra mainha do céu ter feito gente assim, tão não sei mas é bom. Liz tem cara de que era folgosa com a areia quente de Salvador. Geralmente, Liz usa o sarcasmo contra os predadores, é como um “gatilho sem disparar”. Liz é de ouvir gente, e mesmo falando bastante, tem a sabedoria dos ouvidos mansos. Liz também ama ficar sozinha, é capaz de sair antes de algum lugar, só pra despistar uma companhia, e nada contra os outros, mas as vezes a solidão pede atenção.

Gente de gêmeos: “gente comunicativa, se mistura fácil, tem jeito-jeitão”. Liz não quer aquele papo de duas caras, bipolar, ambiguo. Tem tatuagem do Laranja Mecânica porque é um filme que flamba poesia junto de uma violência sintomática. Que fala da vilania como fruto de uma falha da sociedade. Porque é um presente agonizante vindo do fotografo-profeta-diretor Stanley Kubrick. Falando nele, Liz acha que a trilha do filme “2001 – uma odisséia no espaço” beira a perfeição porque as musicas parecem ler a movimentação dos objetos de cena, essa sincronia se revela em variações sonoras simultâneas a das imagens.

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Liz já mentiu pros outros que viu Matrix. Mas ela agora já viu. Gosta de cinema subversivo, coisas do diretor de Kids e Ken Park: juventude, sexo, violência social, hedonismo, poesia. O que eu mais admiro em Liz é a falta de preconceito com o simples. Isso vale pra humor em foto popular de moldura brega, dessas compartilhadas aos montes no Facebook. Liz sabe extrair o melhor desse tipo de sabedoria. Disse que aprendeu isso com irmão, Gabriel, uma pessoa erudita que a ensinou a enxergar a iconoclastia das coisas, e que tem essa coragem de absorver a sagacidade do que é tido como cultura de plebe. Ai se as pessoas soubessem que ser interessante é uma questão apenas de ser autêntico. Lembro-me de Liz comprando filmes trasheira de R$9,90 no posto BR. Ela jura que muitos deles são incríveis, e o mais legal deles é “A freira e a tortura”. Eu veria esses filmes só porque a Liz viu.

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Liz me da de presente versos íntimos de Augusto dos Anjos:

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!”

Gosto mais da leitura de Liz sobre o poema do que do próprio poema. Não saberei reproduzir. Mas lembro exatamente da sensação de quando eu achei isso. É como se o poema fosse uma certeza sobre a ingratidão vinda do outro. Sim, seremos decepcionados por nossas expectativas. Assinado: Niilismo. Liz não acredita em fantasmas e até por isso odeia ser marcada em fotos do feice sem estar presente. Assinado: Niilismo dois. Liz se acha ranzinza quando escreve, mas ela sabe que escreve bem. Contei pra ela.

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Liz flerta com uma religião poética-existencial-filosófica. É Sartriana: acha que a essência é posterior a existência. Liz tem manias profanas. Confessa que gosta de arrumar sua gaveta de calcinhas dobrando todas as abas para frente. Gosta de losangos. Liz se lembra de um de seus primeiros momentos de intimidade com mulheres, foi aos 10 anos, folheando uma revista, viu uma mulher bonita e deu um selinho nela, na página. Liz tem sorrisos que não cobram serviço. O abraço dela vem com um prazerzinho Yakult. Gostosinho que de tão bom, passa depressa, de já foi. Liz é uma joaninha amarela que de vez em quando me aparece com a sorte do vento. É amiga de por acasos de terças-feiras, em portas de livrarias, com pintinhas de rápidas prosas. Um eterno pra depois que a gente quer pra agora. Liz gosta de mashups: sobreposições musicais capazes de misturar o agora com o depois, que encaixam o instrumental de uma música com o vocal de outra. Liz gosta de João Brasil:

Peço que Liz descreva as suas pessoas colecionáveis.  Ela me fala de um antigo amigo cromático. O Luis. Porque ele se expressa com feições e bicos, é um girassol de angelical, e isso o deixa sábio e sensual. Tem a Anne que foi um porto seguro em sua chegada na selva paulistana, foi um acolhimento quase marsupial. A coisa mais especial em Anne é sua sinceridade não calculada. É um tipo de transparência feita de rompantes espontâneos, sem ensaios, de largar empregos milionários porque não tem sorrido. Anne é uma festa de quando“dançam as ilhas sobre o mar”. E tem a amiga cujo apelido é Fê~Liz (de Fernanda). Equação de juntar: reparem que o apelido dela é a outra metade – da laranja – que junto com o nome Liz completa a palavra feliz. Uma Amizade sufixal no meio de um mundo com “milhões de vasos sem nenhuma flor”. Liz também colecionaria Erika Lust, uma diretora sueca que faz filmes pornôs artísticos voltados para mulheres. Um trailer:

Liz tem historias curiosas que envolvem amor, ódio e cinema. Histórias que dariam manchete de entrevista no Jõ Soares, ou retórica de um livro de Lourenço Mutarelli – o guru literário de Liz. “Hoje eu vou conversar com a menina cinéfila que já foi demitida por causa do Quentin Tarantino”. E tem história que envolve o escritor de tudo isso. Eu. Estávamos eu e Liz brigados, era época de Mostra. Ano 2012. Nos encontramos por acaso, sozinhos, na fila do filme “ Lawrence anyways” de um diretor que ela me apresentou na Mostra do ano anterior: Xavier Dolan. Liz descobriu Dolan pra mim. Sou fã dos dois. E foi naquela fila que fizemos as pazes. Na fila do cinema. O cinema nos ficou de bem. Viva Dolan:

Liz tem ciúme de ex namoradas usando roupas que são suas e que não foram devolvidas na hora da partilha material. Partilhas; Liz já me disse certa vez que toda separação de casal envolve também a partilha dos amigos. Sim, os amigos de certa forma escolhem com quem do casal eles vão “ficar”, e mesmo que sem querer, são quase obrigados a isso, a ter que escolher com quem vão sem possibilidade de sorteio ou par ou impar. Mas pra onde vai, Liz leva a Bebel: uma gata exibida, voyer, um lindo documento afetivo das mudanças e andanças de Liz, Bebel é parte de dentro, é talvez o alterego de Liz. Bebel tem feice: é Bebel Agata de A-gata.

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Liz como diretora faria um documentário fake inspirado em Catfish, uma série que promove interações entre casais que não se conhecem pessoalmente. Usaria uma câmera bem subjetiva. Deixaria o espectador tonto. Liz é espectadora de pular uma cadeira de distancia dos outros, não desligar o celular porque usa o bloco de notas para anotar sacadas e inspirações. Papel e caneta também estão na lista de equipamentos obrigatórios no escurinho. O trailer predileto de Liz é do filme Mr Nobody.

Pergunto qual o tipo de música capaz de levantar os ânimos de Liz e surpresa: ela fala de Bethoven, Vivaldi, as 4 estações. Adoro as surpresas de Liz: elas vem sempre com uma naturalidade despretensiosa. Já fez por exemplo coleção de casca de cigarras. Liz conta do desnudamento das cigarras, diz que quando elas se desfazem de sua antiga capa, a casca que fica mantem o seu formato corporal intacto, inclusive na parte de encaixar as patas. Cigarras deixam de pistas de seus antigos vestidos. Liz deixou para trás os seus dreads, durante o corte houve choro, sofrimento, e tocou “Love by Grace” da Lara Fabian – só que não.

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Das memórias de Salvador, Liz me conta de uma passagem secreta para chegar a Cidade baixa : um recuo na orla que da acesso ao mar sem que pra isso você passe por áreas mais arriscadas. Você  atravessa o MAM (Museu de arte moderna) que fica no Solar da União, e existe uma saida que da na parte da praia que fica embaixo do Pier, um lugarzinho pra viver amores de fim de tarde. Liz acha que São Paulo é uma cidade pequena de tão grande e queria um atalho que desse em Istambul só pra ir em um show de música turca regional, “trocaria a eternidade por essa noite”. Diz que ali perto, em Israel existem raves que misturam música com cinema, e a minha vontade de conhecer Tel – Aviv cresce em um sagrada progressão geométrica.

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Tem gente que acha que Salvador é linda, mas tem gente que acha horrorosa. Liz acha  Salvador bonita para se visitar e perigosa para se morar. Os dois juntos. Conta que existe uma certa maquiagem por parte das autoridades para esconder as favelas das paisagens postais, jogar o “feio” para baixo do tapete. Em contra partida há um esforço para que a mobilidade urbana ganhe um caráter mais justo: lá, existem vias exclusivas  para carros que tenham mais de uma pessoa, é um mecanismo moderno – em termos de lei – que da preferencia a caronistas.

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Liz acha que relacionamento aberto é possível em um namoro, mas sem que haja um rosto dentro disso. “Com a identidade vem a insegurança”. Acha que o ato em si deve ser permitido e previamente negociado, mas sem que hajam conversas e detalhamentos sobre a situação. Liz quer ter um relacionamento aberto com Barcelona, trabalhar por lá com animação um tempo e depois sair tirando lasquinhas do mundo.

Ego. Inverto os papéis e peço para Liz falar de mim, ela diz que sempre que vê uma obra de um grafiteiro inglês chamado Bansky, venho eu. A partir do que já existe, ele inventa uma continuação sua através de intromissões poéticas. Ele interage com o que antes era estático. Liz acha que eu tenho uma visão louca do universo, que eu muitas vezes crio um laço com coisas que em um primeiro momento parecem desimportantes, e essa perspectiva lúdica diverte e ao mesmo tempo desperta reflexão.

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Divimary : pessoa colecionável # 7

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Mari possui uma exuberância provençal, tem uma elegância francesa. Sua beleza tem toques de canela,  sua postura não forçada pode se confundir com arrogância num primeiro bater de olhos, mas ela dança delicadamente para quem abre sua caixinha de música, com cuidado. Mari é feita com especiarias, existe um pêssego perfume em seu afeto, é o desafio dos cravos, é daquelas que sabe que é o medo que prejudica os vícios. Mari tem uma rebeldia soft, quer distância da felicidade culpada, Mari fugiu do convento com fones de ouvido. Corra Mari! Corra! Mari agora usa óculos para enfrentar os parnasianos.

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Manias fotográficas. Quem não as tem? Regina Duarte tem mania por fotos com nuvens, gosta de flagrar formatos, tenta ler o céu. Eu tenho mania de tirar fotos das igrejas e seus silêncios, e também de cerejeiras. Manias que descobrimos sem querer, obsessões, repetições, que viram coleções. Mari tem mania de fotos com chapéu. Por isso resolvi fazer uma coletânea desses clicks para enfeitar essa entrevista. Junto disso, uma seleção de fotos de uma outra diva que parece ter essa mesma mania, e que por acaso é adorada por mim e por Mari. Mari gosta da Zoey Deschannel em “New Girl” pelo seu humor simples, pelas sacadas e porque ela transforma dramalhão em leveza. Gosto de Zoey Deschannel em “500 dias com ela” porque ela inverte papéis, joga pro espaço a coisa da mocinha frágil das comédias colegiais americanas e segue suas vontades mais sinceras, assume o poder na relação, des-generaliza o domínio masculino. Gosto também do seu corte de cabelo e vivo pedindo pra Mari copiá-lo.

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Superlativos. Amo superlativos. Fantástica. Incrível. Sublime. Divi. Mari. Uma mulher, um adjetivo que vem antes do próprio substantivo. O gelado da cerveja na garganta quem tem sede, o doce recente da maçã que já não é mais verde. A espuminha fresca de um suco de laranja que acabou de existir,  a fumaça cheirosa do café coado a pouco, ou o quente confortável do durante do abraço.

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Mari é musa do Juventus, muleca, travessa, mulher da Mooca. Urbana da Rua Javari. Uspiana vinda da Paes de Andrade. Mari é de furar programa em dia de chuva e de tomar sol no Banespa em dia de calor. Tem mania de provar armação de óculos na Endossa, gosta de molduras fofas em editores de fotos, de deixar o Ipod no modo aleatório, e de dividir comigo o risoto de pera com gorgonzola do Caspita na Augusta. Mari tem mãe que cozinha com amor. Mãe que tudo fica bom. Mãe do meu nhoque favorito. Que faz cafuné nos amigos da Mari.

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Um ídolo? Wagner Moura. Porque ele é uma figura que reúne todos os valores que ela importantiza. É desapegado ao dinheiro, faz o que ama e por isso faz com competência, é “foférrimo” e é pra casar  em cerimonia simples, sem imprensa e só com os chegados. Mari me conta como seria seu plano para conquistá-lo. Diz que se aproximaria dele na amizade, entre papos e butecos na Augusta, diz que o convidaria para comer o noque da sua mãe num domingo as 14h e eles brigariam de vez em quando, mas depois fariam as pazes.  Dispensariam viver em Elysium. Uma praia, um bom humor, e uma rede para dois bastariam.

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Mari ,além de pedagoga, é  também  DJ não praticante. Toca cheia em lua, é daquelas que dançam sozinhas pros Strokes. ~DJ-vimary~. Sonho com esse dia. Sonho com essa pista. O set de Mari seria sucesso, insisto. Mari estaria vestida de dona de bordel e seu olho teria lápis preto e atrevimento borrado. Mari ousaria o melhor do Indie, arriscaria um Lisztomania do Phoenix, mas não se esqueceria dos Mutantes de se perder por aí. Beberia cerveja aos poucos e com confiança, sorriria seu batom pra pista e abraçaria o clichê: colocaria Florence, e de olhos fechados jogaria os braços ao norte e junto de todos dançaria “Dog Days are over” em palmas de dois, em clima alegre de festival. Receberia propostas indecentes, e bilhetes na cabine. Recusaria. Daria bola pro carinha legal, que veio sem pretensão, que chegou sem pressa e lhe sorriu “sem querer” no meio de uma balada bem elétrica: rebel rebel, David Bowie. Mari encerraria com uma musica estilo-lúdica-lenta,“The devil in details”, Chemical Brothers.

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Mari tem um coração prefeito, tem um jeito solidário na forma de pensar no mundo do vizinho, governa o seu quarteirão com ética, Tem ímpeto de Maio de 68 e é generosa porque sempre me deixa metade do seu refrigerante porque não aguenta um inteiro. Mari possui porta aberta pras novas ideias, aceita argumentos que a interroguem por dentro, tem ouvido manso e democrático, mas Mari vai mandar no marido. Mari também tem preguiça pra certas violências intelectuais, de gente que paga de politizada, que diminui o outro pra esbanjar sagacidade, que joga no Google pra 5 minutos depois simular que é perito de coisa nenhuma. Mari prefere os que informam aos que agridem. “ Eu escolho muito bem as minhas brigas.” Essa é a sua frase sem ser da Clarice.

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Mari acha que a definição para um “reacionário” ultrapassou o catálogo de elitistas da extrema direita. Ela acha que atitudes como arrogância intelectual também caracterizam ser “reaça”. Que hoje existem atitudes da esquerda que se confundem com a direita. Acredita em fascismos de esquerda.

Mari é sim daquelas que defende que nas redes sociais devemos mostrar nosso melhor lado, mostrar a foto que ficou boa, ser elogioso com o outro quando possível, porque se existe uma borracha, uma abreviação que nos permite sintetizar o que há de bom em nossas vidas, isso deve ser explorado. Do nosso pior ninguém precisa. Mari não gosta do muro das lamentações, de quando sua timeline se transforma em central de desabafos, em RH das frustrações.

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Peço um esconderijo de Mari em SP e ela diz que é impossível se esconder nessa cidade. Diz que de vez em quando ela gosta de se esconder “de” SP. Mari sonha em fugir um pouco pra Amsterdã, namora a modernidade que aquele lugar promete, acha que lá as pessoas devem ser mais desencanadas; param o tempo e dedicam uma tarde para viverem de vinho e queijo no parque. Em sua rota de fuga Mari costuma recorrer as ladeiras e aos sabores de Minas Gerais, gosta do sol que se despede, de quando o dia veste a noite, do momento da troca, de quando o céu está em transição, de quando o azul decide mudar de tom. azul, Ouro, Preto.

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Viagem inesquecível. Uma ida a Floripa com a família, foi um resgate momentâneo de algo que não se repetiria. Floripa lhe permitiu fazer coisas das que ela mais aprecia. Pé na areia, olhos ao mar e peixes de buscar na aldeia. Mari também gosta de ir à Cerro Azul, cidade repetida das novelas de Aguinaldo Silva. Lá desfila com seu chapéu azul, com flores prolongadas, com seu jeito de donzela forasteira que passeia livre em seu “rock santeiro”, e faz carão pras beatas fervorosas. Mari estaria em 4 de cada 5 filmes de Woody Allen, mas prefere não ser descoberta.

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Mari estuda gênero, é mais ativista do que educadora. É menos acadêmica, e mais ecumênica. É auto- pesquisadora, e acha que futebol alimenta o machismo. Mari é sintética, objetiva, mas ta nessas de ter que escrever tese,  de brincar de ser prolixa, de ter que inventar palavra difícil. Mari é de fumar no entre-aulas. Apesar de ser do fundão, é de fazer o trabalho no mesmo dia que o professor pede. É prática, e é amiga que ajuda sem você pedir.

– Mari assina a lista pra mim?

– Já tinha assinado, “meuamô”!

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Meu presente pra Mari é o paradeiro de um Tumblr chamado Music history in gifs  que traça um itinerário histórico da música através de gifs precários, feitos em bits, que traduzem o cerne de algumas bandas. Gostaria que eles fossem colocados em sequencia, no telão daquela balada, em que ela um dia será a DJ ou Divi-J.

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