Transparent

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“Então, você está dizendo que vai se vestir de mulher o tempo todo agora?”, pergunta um dos filhos ao personagem principal. “Não, querido. Durante toda a minha vida eu venho ‘me vestindo’ de homem. Essa sou eu”.

Guardo com zelo a palavra “genial”. No meu lote de superlativos, “genial” tem muita força e carece de critérios cuidadosos enquanto atribuição. Não seria hiperbólico dizer “genial” de boca cheia quando falo da série “Transparent”. Entre as reflexões sobre o diferente, um pianinho regendo os acontecimentos. Às vezes, a música atravessa o concreto de um plano e invade os outros, passeia feito um vento curioso. Adoro quando uma canção perpassa diversos núcleos, como se olhasse pra dentro de cada personagem, com alguma ternura.

Falo também da absurda interpretação fulgurante de Jeffrey Tambor. E de uma atriz-achado: Gaby Hoffman e a sua disponibilidade – aquele tipo que depois de interpretar, lambe os dedos pra não desperdiçar existência. As questões de gênero e das identidades em pleno fluxo de reflexão, tocando no poder opressivo das Metaestruturas e trazendo a tona diálogos antes sufocados. Sobre quando a verdade deixa de ser refém dos imperativos corporais. Um exame sutil e necessário feito para quem questiona as normatividades impostas pelo senso comum. Um retrato sobre espaços subjetivos, que por não serem nossos, deveríamos respeitar.

Chegou o momento em que um Globo de Ouro levanta alguma relevância.

5 motivos para se apaixonar pela personagem Hannah da série “Girls”.

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1- O que vemos sobre a vida de Hannah envolve uma ótica mais crível, já que nos deparamos com a  faceta errante da protagonista, seus transtornos, suas frustrações, sua auto-aceitação.

2- Em quase todos os episódios um ato se repete. Hannah tira a camisa e deixa os seios a mostra. Há um protesto, uma mensagem clara de que se expor sendo alheio ao padrão do corpo magro como ideal de perfeição é um desvio saudável e possível pra quem se sente oprimido ou envergonhado de se mostrar corporalmente.

3- Hannah possui muito da instabilidade da geração “vinte e muitos anos” de agora. Suas atitudes oscilam, suas vontades mudam, e o caminho que ela segue nem sempre parece coerente, mas quem de nós é sempre coerente?

4- Hannah é escritora, e isso acarreta um bando de dificuldades em sua vida financeira, sempre bagunçada. Nem ela, nem as outras personagens são bem resolvidas, e “Girls” fala muito de escolhas e de gente leviana ou indecisa. Hannah é deliciosamente leviana.

5- Hannah desperta nossa sapiossexualidade, já que além de ser bonita e se vestir bem, é acima de tudo interessante, inteligente, criativa, queremos descobri-la, queremos saber pra onde ela vai, queremos ir junto.

 

Latitudes: um filme que entrará em cartaz pela internet e na TV, com Alice Braga e Daniel de Oliveira.

A temática do filme é sobre um casal viajante que se encontra em diferentes pontos do mundo, em “não-lugares” e vivem um romance nômade dividido pelo mapa e por episódios representados cada qual por um lugar onde eles passam.

Tudo surgiu de uma vontade de parceria entre Alice braga, Daniel de Oliveira e o diretor Felipe Braga em viajar o mundo fazendo cinema de um jeito simultâneo, e disso nasceu a ideia do longa que é uma viagem que virou filme, ou um filme que virou uma viagem.

Previsto para o fim de setembro /começo de Outubro.

Confira o trailer:

A menina sem qualidades

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A menina sem qualidades não possui pecados, mas possui apenas um grande defeito: o pouco tempo de duração.

Há tempos não via matéria prima tão interessante pra quem gosta de comportamento humano.Um “Romance de formação”, em versão televisiva. É cruel, profundo e sedutor. Tem diálogos existencialistas, tem Hirsh na alma, nos barulhos, nas músicas e tem um niilismo que se sobrepõe ao próprio niilismo. Possui alcance sobre um vazio informativo dos soturnos personagens que parecem vindos de algum livro de Hermann Hesse.

Sobre quem não sente nada, pra quem não CONSEGUE sentir nada. Uma obra inconfidente sobre o que não suportamos nem falar sobre. Um anti-anestésico, tão real que nos tira do cativeiro ideal.

Um susto de trovão que nos acorda por querer.