Um Bonde Chamado Desejo

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Lá vem ela, loira e pálida, trazendo da rua do passado um bonde de sinos dobrados pelo romance ideal. Blanche “sempre dependeu da bondade de estranhos”. Uma serial lover, a mulher-bandeja, a fina toalha que escorrega em sua própria entrega, chora sonhos feitos de chuva de arroz.

O movimento no palco, sempre circular, o giro vital, a luz que é Sol manual e incide sob a escuridão antevendo a loucura. Toca Beirut enquanto reparo encantado nas melancores de cada figurino. Fico hipnotizado por aquele cenário que é tudo o que a mente disser. Jogar Tetris é a infância do arquiteto. Brincar de montar e desmontar. Dimensionar. Quem sabe mesmo uma casa seja muito menor do que a grandeza potencial dos seres.

Rafael Gomes, esse diretor que me alimenta do pouco-muito em tantas mínimas decisões, que sempre beiram a síntese, sem o sensacionalismo de cores e elementos, faz com que a música desafie qualquer regra temporal e caia amortecida como um vestido branco moderninho. Ele que me faz ser um crítico redundante, que me obriga sempre a elogios da melhor espécie. Sabe ser diplomata do tempo, universaliza um tema, atemporaliza um contexto , faz a colagem dos ponteiros, através apenas de uma música ou uma ousada volta de skate. Remenda os flancos temporais sem que a costura denuncie um acidente repara-dor. Abusa do menos e faz com que eu me comporte em minha loucura incontida em cores. É meu diretor de teatro predileto porque sabe fazer uma informação cheia de arabescos virar uma manchete precisa a cada linha. Um dia eu tomo coragem pra ser criativo e te convido pra uma Coca-Cola. Enquanto isso, venho até aqui e daqui não passo.

Eu já fui Stanley no teatro, e não soube controlar a sua/minha força, passei da conta, embriagado pela fúria covarde da soberania rústica do papel. Marlon Brando, Eduardo Moscovis, Eduardo eu. Quanta distância. O Eduardo do meio, o dessa peça, é quase uma sentença para que eu saiba como eu quero morrer. Quero morrer de arte. O Stanley do meio destila um olhar canibal, e uma postura (dês)lapidada da rigidez Kowalski. Não tenta imitar Brando, não teme a própria versão, ao invés de ser prótese, consegue desbastar sua brutalidade, coloca os pés sobre a mesa impingindo através de sua bazuca ocular.

Maria Luiza Mendonça, ou apenas “Maria, a louca”. Onde vende você para que eu possa comprar? Digo, comprar para ter. Sou consumista por você e sua translucidez. Enxergo-te inteira, como quem não vê neblina. O verde das veias, o coração latente de vermelho, um vermelho-abuso, uma tinta que mancha, uma atriz que é também um ateliê. Te vejo como um rascunho cheio de rabiscos caóticos, de quem prende a respiração e mergulha com elegância . Uma atriz sem fórmulas, mas que sabe de todas elas. No palco esquece estrategicamente dos arbustos intelectuais e faz com que a gente sempre se lembre de você. Não sinto saudade da Buba nem da Amanda, sinto saudade de tudo o que de você ainda virá.

E quem era Virgínia Buckowki? Agora eu sei. Formidável em sua Stella, a personagem gangorra, a mulher que se contenta com a horizontal, esquecida de tudo o que de ruim existe na crueldade vertical. Atriz aorta, uma notável porção noturna no giro de estrelas do céu do palco.

A conclusão, aquela rotação entre dois diferentes planetas, somos nós mundos que convivem e ao mesmo tempo giram em sentidos opostos. A discordância dos corpos em 180 graus. Ao fim, parte da plateia em prantos: suspiros de quem muito quis voltar de si e não pode. “Um bonde chamado desejo” é a peça que nos conta que nem tudo é o fim do trilho, às vezes é só o começo da solidão. De algum lugar, Tennessee Williams traga um charuto agradecendo por isso.

“Há todas as espécies de amor neste mundo, exceto o mesmo amor duas vezes.” Fitzgerald

Um livro que é uma peça que sou eu, que é você, que somos todas as histórias.

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Te acho paciente na forma de explicar. Mas você é prolixo para responder perguntas muito simples, você se alonga com sinônimos, é redundante, e eu acho que prolixidade não deve ser obrigatória. E eu odeio o fato de você ser monossilábica deu ter que sempre inventar o assunto que iremos conversar e ser obrigado a ouvir da sua boca que eu toco sempre no mesmo assunto de sempre. Você não faz esforço algum para que tenhamos um assunto novo e ainda me acusa de falta de originalidade. Quando sou prolixo escrevendo, não estou obrigando ninguém a ler. Mas quando você é prolixo falando, eu não posso simplesmente te interromper e pedir para que você seja mais objetivo. Você irá se ofender.

Eu amo conversar com você porque eu sinto que você realmente me ouve, me acompanha com movimentos de sobrancelha e arregala o olhar mostrando envolvimento. Eu sei que eu pago por isso, mas eu queria que você soubesse que você me ouve muito bem, e eu acho que você é assim mesmo com quem não te paga. Você tem uma voz que envolve, um timbre antipático e sensual, e você gesticula com as mãos enquanto fala, e tudo é uma dança linda, ainda mais pelo fato de você usar palavras estratégicas no meio dos seus discursos. Palavras selecionadas como em uma carta de vinhos. Há um buque que interfere na frase toda e se espalha em nós sem enjoar. É uma pena você estar tão longe. Você me desperta ideias novas, gosto de ir escrevendo mentalmente enquanto você fala, e aquela tarde mágica sempre será um cartão postal da nossa história. Uma vez te chamei de poetisa, e eu tenho a certeza disso, você seduz não só por ser linda, você também seduz enquanto fala. Eu jamais abriria mão da sua sabedoria, você diz coisas que a sua geração geralmente não diria.

Sim, tudo o que você escreve é inteligente, e bastante longo e você insere sempre uma citação, metáfora, alegoria pertinente ao assunto, mas eu às vezes me canso um pouco desse excesso. Parece que o seu pensamento borra a escrita, e você usa analogias confusas, e eu sinto falta de você escrever coisas menos rebuscadas, sem nada na frente, dando apenas a mão, sem usar luvas. Você é uma intrusa do tempo, e eu te deixo invadir minha casa, mesmo quando você me cerca com essa curiosidade discreta e ao mesmo tempo sem disfarces.  Eu amo conversar com você, talvez seja a pessoa que eu mais goste de conversar no mundo, a gente se ajuda e troca aprendizados, ninguém economiza no apoio ou no amor. Às vezes noto você tentando me copiar, e é engraçado, porque fica melecado, e você usa alguns termos difíceis e fora de hora, e acaba sendo hermético, e você se reveza em camadas de acesso ao seu pensamento que deixam o leitor um pouco sem saber para onde você está indo. Você é a prova de que uma pessoa quando escreve não necessariamente a mesma quando fala.

Prefiro você falando, mesmo sabendo que quando você não tenta ter um estilo, você escreve muito bem. Você vive se proclamando escritora, a melhor escritora, e tudo o que você escreve é tão sem impacto, você nunca é inovadora, você é só uma pessoa tentando toda hora mostrar que é inovadora. Esse livro brinca com esse fluxo tão legitimo e caótico e belo. Então resolvi misturá-lo aos meus rabiscos, sem que você saiba onde eu termino e ele começa, onde é você e onde sou eu, se é que existe alguém aqui. Você não é descolado, você é apenas uma pessoa insegura tentando o tempo todo mostrar o quanto é descolada. Você da a entender pelas suas implicâncias virtuais, que um bom escritor é principalmente aquele que tem um bom domínio gramatical. Eu discordo, acho que o bom escritor sabe rir inclusive da gramática e brincar com ela. Ser bom em Gramática quer dizer apenas que você é bom de guardar regras, e mais nada. Você tem uma mania grosseira de me interromper com o seu celular ou com alguma piada fora de hora. E isso acontece sempre. Grave não é a falta de um conselho bom. Grave é a falta do ouvido e eu percebo quando ele não está e tenho saudade de quando o nosso assunto nunca acabava.

A madrugada ia, sem hora pra voltar e estávamos ali, entretidos em alguma conversa existencialista ou alguma DR que eu inventava entre a gente só pra lua continuar nos assistindo. Agora estou lendo esse livro que também é uma peça de teatro. O livro não tem uma capa anunciando o próprio nome. Você deve abri-lo para perguntar. O livro então te obriga a puxar assunto com ele. E você pode abrir em qualquer página já que nele a conexão está na desconectividade. E embora pareçam apenas dois personagens em pensamentos que se misturam, acho que ali existem milhões de personagens. Os pensamentos são um sem fim de pessoas. Sou eu, sou você, que às vezes somos um só e vários outros. Esse livro faz parte de mim, do meu pensamento. E se eu estou aqui escrevendo o que penso, não há separação entre o que penso e o que leio. Os pensamentos não possuem números de página, nem esse livro.

Eu teria que colocar aspas aqui. Aspas. Tem uma coisa que sempre me angustiou. Eu vou tentar explicar. A nossa capacidade de reconhecimento é um espaço cognitivo muito complexo. Eu to querendo dizer que eu posso olhar pro seu rosto, como eu to fazendo agora e amanhã, por exemplo, se eu cruzar com você, eu vou poder te reconhecer. Mesmo que eu não me lembre de onde, o meu cérebro vai acessar a imagem do seu rosto e eu vou me sentir um pouco estranho quando eu perceber que acabei de reconhecer um rosto conhecido. Quando eu falo um pouco estranho, quer dizer que o seu rosto vai me tirar do estado normal de passagem, de rotina, de cotidiano emocional e eu vou acessar algum sentimento diferente de qualquer outro que eu poderia controlar. Tudo isso pelo simples fato de eu olhar pra você e reconhecer o seu rosto. Tudo isso pra falar que de acordo com a profundidade da nossa relação, a cognição do reconhecimento de um rosto aumenta. Quanto mais profunda for a nossa afinidade, mais reconhecível será o seu rosto para mim. Isso quer dizer que no meio de vinte, oitenta, cem mil pessoas, eu vou poder reconhecer o seu rosto assim que meus olhos passarem por você. Por fazer parte das categorias involuntárias da cognição. Isso quer dizer que o extremo disso, seria eu reconhecer o seu rosto em qualquer outro lugar que não seja o seu rosto. Isso quer dizer que o extremo disso, seria reconhecer o seu rosto numa parede branca, num furo nessa parede, na minha mão, numa arvore, no sapato de alguém, num prédio, numa nuvem, na lua e inclusive no rosto de qualquer outra pessoa. E é exatamente isso que sempre me angustiou, se algum dia você reconhecer o meu rosto no rosto de outra pessoa, o que eu vou fazer para você poder me reconhecer de novo? Aspas. Esse texto todo está no livro, na peça, no meu pensamento, fala do meu pai, de um ex-amor, do meu terapeuta e dos autores dele: joão dias turchi e gustavo colombini. E não à toa os autores assinam seus nomes em minúsculo. Isso pode querer dizer muita coisa, inclusive que eles não são os autores. Mas ainda assim preciso dizer o nome desse magnífico livro ou experimento ao qual me sinto cobaia. “Histórias para serem lidas em voz alta”.

 

Ricardo III

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Sempre me pareceu um tabu não gostar de Shakespeare. Lembro-me que na minha época de formação como ator, isso era um tipo de queixa elíptica. Ninguém ousava se queixar do hermetismo referente á linguagem do dramaturgo inglês. A maioria não entendia, mas fingia que entendeu. Falar mal de Shakespeare no meio teatral era quase como falar mal de Deus perto de um religioso. Quando eu tinha qualquer contato com um texto dele, ficava apavorado, me sentia decorando uma fórmula de física daquelas em que pouco importava o significado do código. Cruzar as letras e associá-las ao termo certo já me parecia mais do que suficiente. 95% dos atores, quando interpretavam um texto shakespeariano, o faziam de maneira declamada – sonolenta – dopada – opaca, em estado zzzzzzumbi. Aquilo foi virando um trauma artístico. Recorri a monstros como Al Pacino ou Paulo Pelegrini, mas ao assisti-los, eu só conseguia me deslumbrar com o fato de ver o quanto aqueles atores assimilavam aquela poesia de forma tão fluida e lúcida. Eu admirava o fato deles terem entendido, mas a Shakespeare, ainda não.

A primeira vez em que me entusiasmei com Shakespeare foi na minha peça de formatura, quando tinha em mãos um personagem – rojão, chamado Ariel, de “A tempestade” e um diretor estratosfericamente excepcional: o gênio Carlos Meceni .Tive muita, mas muita dificuldade de achar diversão naquilo. Até que recorri ao meu recurso mais icônico: a ludicidade. Transformei aquele texto em uma brincadeira com barquinhos de brinquedo, aquilo me tirou do ponto morto, eu soube rir da minha incompreensão e encontrar guarida no tom recreativo. No final, no dia da apresentação, o resultado foi bem menos ruim do que eu esperava, ufa! Nunca mais voltei a Shakespeare, exceto em Londres. Fui ao Globe Theatre, apenas para saber onde era o centro de prática daquele poeta que me complicou a vida por diversas vezes, e que me fazia mentir não para o público, mas para o próprio personagem.

Tudo mudou há algumas semanas atrás, quando vi uma reportagem na Revista da Cultura falando de uma montagem de “Ricardo III” na qual o ator Gustavo Gasparini promovia uma decodificação do texto, através de contornos criativos e de uma linguagem que não afetava em nada a essência da mensagem. Temporada inteira esgotada. Enfrentei a repescagem do Sesc Pinheiros, esperando pra ver se sobrava um ingresso pra mim. Consegui. Tudo já começou de maneira surpreendente, inicialmente, eu me senti em uma aula de cursinho. As aulas de cursinho foram as melhores que tive na vida, porque os professores transformavam assuntos até então chatissimos em teatralizações refrescantes e leves. Imagine que Ricardo III tem trocentos personagens vindos de um contexto histórico de guerra pela coroa inglesa, envolvendo diversas dinastias e nomes repetidos (dois Eduardos, dois Ricardos, dois Thomas) a serem decorados.

Vamos ao exercício de imaginar. Imagine somente um ator interpretando esse elenco todo. Imagine que ele faça com que durante a peça toda, você saiba exatamente quem é quem. Imagine a poesia vestindo a diversão sem ser volúvel. Imagine gente dispersa e hiperativa, que precisa do olhar estimulado a cada minuto, para que a atenção não fuja para pensamentos como “estou com fome”, “não lavei a louça”, “preciso pensar em um tema pra minha aula de escrita”, fisgada apenas pela encenação. Gente como eu. Imagine uma peça em que o ator interrompe os trabalhos no meio para perguntar: “Vocês estão entendendo a peça gente?”. Imagine uma caixinha de surpresas da qual não posso contar o que há dentro. Imagine aplausos intensos e prolongados – aqueles de cansar a palma da mão. Imagine essa peça possivelmente estando em primeira na minha lista de melhores peças assistidas em 2015. Imagine eu fazendo as pazes com o poeta que sempre me intimidou como ator. Imagine apenas imaginar. Imagine eu beijando a mão de Shakespeare, e ele me dizendo: “Amigos?” e eu respondendo “Agora sim, amigos!”. Obrigado Gustavo Gasparini,

As 10 melhores peças de 2014

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Chegou um momento que eu adoro a cada fim de ano. LISTAS. a primeira é sobre as peças de teatro que eu mais gostei em 2014. Levando em conta que estão no meu ranking peças que vi pela primeira vez esse ano, independente do ano de lançamento, e deixando claro aqui que infelizmente perdi “Amigos ouvintes” e “e se elas fossem pra Moscou”, peças muito bem referenciadas pela crítica. eis aqui minhas dez jóias teatrais em um ano fraquíssimo em termos de boas opções.

1- Cais ou indiferença das embarcações – Velha Cia: impecável, uma serenata vinda do mar-lampião

2- Não nem nada – Empório Sortido – Calderoni foi longe demais, e foi brilhante em sua ousadia. Uma peça indie tão, mas tão divertida, de irônica

3- Gotas d’agua sobre pedras escaldantes – Empório Sortido – Gilda Nomacce divando, Rafael Gomes tão maduro na direção, e a trilha e o cenário e a cena da dança e…

4- A pior banda do mundo – Amanda Lyra! Gravem esse nome!

5- A última palavra é sempre a primeira – Vertigem – e o meu sonho de atuar no Vertigem cresceu mais e mais depois dessa peça, ou seria um desfile?

6- Vermelho amargo – esse texto é tão imaculado e delicioso, que eu fui vê-los no Sesc só pra conferir se não iam estragar a prosa poética desse mineiro que tanto me inspira na escrita. E num é que mandaram bem?

7- Não fornicarás – Satyros – juro que não foi pelo sexo ao vivo. Os Satyros vão
muito além da nudez. Eles nos ensinam a enxergar no escuro.

8- Genet – o poeta ladrão – sensual, marginal e altamente canastrona.

9- 02 ficções – Hiato – A peça que eu menos gostei da Hiato até hoje, prefiro o Léo Moreira sem muito hermetismo. Sabe quando você não tem coragem de não gostar de uma companhia que você tanto gosta e chama inclusive de predileta? Então, to até meio que me sentindo mal aqui.

10- Não amarás – Satyros – inventividade me ganha, e os Satyros me entendem tanto nesse aspecto. Eles nunca me entediam com suas surpresas.

Não nem nada

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Ir ao teatro envolve uma quebra de timidez receptiva por parte do público. A gente quer brincar, mas como em toda bagunça que já começou, começamos apenas olhando, carentes por alguém que nos chame pra entrar – com a pupila. Não há uma tela de vidro nos separando da ação, nada ali é editado, vemos ali um suor resultante do esforço, uma entrega energética, a verdade no grão do olhar do artista. É preciso que a peça encontre um meio de se comunicar com o público, nos olhe no olho, mesmo que com deboche. Somos interlocutores. Estamos ali para sermos tocados, ponto. Muitos bons diretores que reencenam a exaustão textos antigos de autores “atemporais”, demonstram dificuldade de emanarem a obra para além do palco. Nós da plateia, esperamos por um jogo, queremos entrar sem bater, queremos ser parte, queremos quebrar o nosso tédio através de uma realidade que nos desperte.

Um texto bom, que ultrapassa sua época, não é autosustentável em um espetáculo. Ele depende do hospedeiro, do emissor da mensagem. Nem Tchekhov é capaz de salvar um desastre cênico, e isso envolve muito uma boa direção. Daí que tudo isso é pra dizer que sábado eu presenciei uma grande brincadeira, que conversava com o nosso ridículo de agora, seguia um fluxo fragmentado, e trazia pensamentos acrobáticos cheios de uma ironia gostosa, humorada, poser. Uma brincadeira inventada nesses tempos, nossos, falando uma língua fresca de um jeito que não sei nominar. Não era um stand-up nem uma comédia pastelão, ufa! Eu percebia ali uma quebra narrativa deliciosa, sem uma ordem certa para que os assuntos mudassem, sem uma regra que impedisse duas ou três conversas de acontecerem simultaneamente. Era Vinicius Calderoni estreando triunfal na direção. Era uma fanfarra de 4 atores em estado polissêmico, a vontade conosco, a vontade entre eles e com eles.

O ~Empório de teatro sortido~ adeja perante o meu entusiasmo. Vocês chegam tão perto de mim que as vezes eu me percebo sentado imitando vocês, dizendo aquelas palavras, atuando em minhas (in)verdades. A cada caixinha que vocês me abrem, vejo o novo entrar leve, com poesias de gostos novos, me sinto tão abastecido de uma euforia sem nome que eu chego a premiá-los em pensamento, passo a achar inclusive que azul e laranja combinam. Às vezes tenho medo do mundo parecer igual à ontem. Vocês me ajudam a continuar achando bons motivos para sair de casa num sábado cheio de ofertas pirotécnicas paulistanas

 

 

 

e escolher me embrulhar por essa comprazia cênica. É estranho como mesmo sem querer, vocês entendem sempre o que eu quero e eu volto.

02 Ficções – Cia Hiato

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” Não se diz que vai morrer. Não há nada de extraordinário em morrer, nada que me torne diferente, nada que eu preciso contar, por isso eu faço uma peça. uma peça que conte que eu vou morrer, sem que eu precise dizer. Quem sabe se alguém me escutar, mesmo que não responda, eu possa me salvar.”
diz o programa da peça

“eu comecei com ficção e descobri o real, mas por trás do real está novamente a ficção.”

Jean-Luc Godard

“02 Ficções” vai garganta a fora, desamarrar todos os laços rígidos da realidade prevista. uma crônica de morte anunciada, um ensaio sobre o ensaio, a previsão do tempo nos enganando, manchete fria. Tem rasura, e o que há por trás das manchas de tinta azul? e se descobríssemos que rasuras são roupas remendadas que escondem parte do coração que se precipitou?

Os atores inteiros, e aquele cenário vupt com cotonetes vitais, e Leonardo Moreira oni-ausente. E a peça é isso: a farsa da ausência, uma homenagem póstuma em desverdade, uma cochia que deixou de timidez.

Sair do esboço, repetições, vocês reparam que a vida repete cenas, mas muda os cenários? não é rascunho, é a vida em si, um falso ensaio.

A Cia Hiato comete adultério, vai além-lua; se suas outras obras possuíam a lucidez da água e um bolero que distribui gaivotas, essa é o mistério de um vinho suave e de fundo uma ópera de desnudas mulheres ou um devaneio de Bowie – astronauta.

até agora não sei eu se foi real ou (terceira) ficção.

Teatro – Festival de Curitiba – Cais ou a indiferença das embarcações

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começou o mergulho:


um arrebento, libelo que se revela de um mar falador. de verão em verão. o sol-ponteiro testemunha as idas e vindas da maré rapsódica.
Em Ilha Grande o amor passeia pelo cais, e o velho barco Sr Evilazio carrega tristezas de outros verões, narra então o mistério e a falência do irrealizado.
O presidiário e a jovem menina, promete o futuro em luz de lampião. Quem jura mente! o amor é só sobrevivimento, ou abalroamento, tantos os perigos que existem, não ha alpendre.
“Cais ou a indiferença das embarcações”, a peça musa de 2013, veio abicar por aqui, toda exibida de prêmios pra festança curitibana.
Luz singela, elenco enfeitoso, argonauta, texto aromático, solução de cachaça com maresia, fora a trilha luxuosa, uma angra cheia de boas noticias do belo.
Eu, quase 30, amarinhado – alguns verões depois de seriamente me envolver pelo teatro, guardo mais essa joia cênica, um porta-retrato de tudo que mobiliza os olhos, um alaúde feito da memoria que se conserva em sopros enamorados.
Mexeu.

As 15 peças de teatro mais fantásticas que vi em 2013.

15- Festa no covil: a narco-literatura mexicana desenvolvida em um contexto cênico chamativo, bem incorporado se tratando de um monólogo, que nos projeta a uma  inocência inusitada, solitária, sincera e ao mesmo tempo áspera.

14- Eleutheria: “liberdade” em grego, “turma 63″ em português. Absurda, dionisíaca, elétrica, multifocal, nova, claustro-asfixiante, freak, tentadora, necessária, amOral, EADética.

13- Jacinta: Acompanhar a persistência de Jacinta faz com que a vida doa menos, queremos aplaudi-la pela sua falta de temor em relação ao ridículo, por sua relação com os recomeços, queremos salva-la da crueldade do mundo

12- O Duelo: os autores russos ganham novas paletas, se amarelam em bolhas verdes. Camila Pitanga e elenco dão um show de precisão, trazem a magia do simples, mergulham em embates que ventam arte e profundidade ao som de um mar trabalhador.

11- O desaparecimento do elefante: globais descolados mostrando toda a loucura de Murakami. publicitária, dinâmica, criativa, o surrealismo nos deixando em suspensão. Atuações inesperadas e a arte de rir do absurdo.

10-  Isso te interessa? Cia brasileira: Pude escapar da realidade e estar com eles, ali, num palco infestado pelo arranjo dos nossos nadas existenciais. Fiquei repleto de teatro, de energia vira-lata, de poesia transparente e colorida. Fui roubado de mim por 45 minutos preciosos, e cresci, cresci muito.

9- A dama da água: texturas visuais ousadas que partem de provocações anti-naturalistas em busca de uma certidão do real. Uma peça que através de cores e luzes movimenta nossa percepção sobre as letras de Susan Sontag. Trabalhos corporais impecáveis.

8- Nossa cidade – Antunes Filho: O texto é uma maquete comportamental de um lugar. Que pega o micro-cotidiano norte -americano e sopra personagens caricatos e ao mesmo tempo naturais em seus contextos sonhadores. Fala da compulsão que vira convulsão. Da melancolia que existe no tédio do tempo vazio. Da emulação a ambição.

7-  O Natimorto – um musical silencioso: O texto de Mutarelli já é por si só um primor, porque desvenda de um jeito obsessivo nossas camadas existenciais mais escondidas: cigarros, epifanias, cigarros, epifanias, cigarros. O texto brinca com os atores. Os atores brincam conosco.

6- A última história – Grupo 59:  mais uma certidão coletiva de um admirável trabalho em equipe: atuam em rede, numa ciranda notável que gira por almas voluntárias, disponíveis e tomadas de teatro-tesão. Uma fabriquinha de generosidades cênicas: alguns muito generosos, e outros tantos um pouco mais do que muito generosos. Parecem nos dar de presente a todo tempo.

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5- Em cômodos – Cia mamífera: Um surrealismo de vanguarda, que chega em lugares nossos possíveis, a contralógica das coisas colocada em poemas montáveis. Lapsos cheios de pequenices grandiosas.

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4- A Alma imoral; É uma peça que traz a todo tempo um “desconforto confortável” porque nos deixa expostos, nós- público- somos desnudados, porque trata-se de uma catarse coletiva com quebras de verdades suspeitas; nos libertamos de um jejum existencial. O famoso e sagrado conceito de alma é desnudado ali, sem o menor pudor, é um dicionario envolvente com outra versão dela- de perfume novo. Ali se estabelece uma fábrica de epifanias.

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3-  Bom Retiro 958 metros – Teatro de Vertigem: A sensação é de um novo batismo cultural. Não sabemos se estamos sendo levados ou apenas nos acompanhando. É  como um sonho consciente. É puro assombro  a capacidade que esse grupo tem de transgredir e elevar o nosso olhar a novos andares de deslumbramento. O Bom Retiro ganha vida e dialoga conosco em um tour artístico surpreendente.

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2-Ficção: Cia Hiato–  a Hiato é pra mim o teatro de hoje, eles inovam, e trazem propostas que nos tiram de lugares confortáveis sem muita firula. Nos abraçam, e nos empurram para o essencial das coisas. Dentre todas as geniais [não] realidades de cada ator, Thiago Amoral corta todos os circuitos seguros da tradição cênica e nos banha de emoção dolorida e tátil.

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1-Cantata para um bastidor de utopias: Que delícia! Foi amor a primeira cantiga. A Cia do tijolo me tirou inúmeros sorrisos fáceis com seu capricho no lirismo descomedido, suas provocações cantantes com um jeito do que não faz mal. Olham em nossos olhos, se/nos emocionam, oferecem o peito pra se/nos libertarem. Nos deitam em uma serenata poética cheia de pólvora politica e algodão doce.

 

* Torçam pra que cada uma dessas peças voltem, valem muito a pena, mudam um dia, um humor, uma vida. Lembrando que só estão na lista espetaculos que  eu vi pela primeira vez em 2013.Por isso a ausência de “Aldeotas” e “Música pra cortar os pulsos”. Não, eu ainda não assisti “Cais ou da indiferença das embarcações”.

 

 

Aldeotas

Aldeotas é assim:

Um resgate poético da memória. Situações que transformam uma relação de dois amigos sem que as definições e “concretisses” da vida atropelem o afeto sem nome.

Gero Levi: menino do olhar ensolarado, do frescor azul, corajoso de ser, que venta suas vontades e extrai mel dos instantes, é casado com as cores

Victor Elias: o amigo que fala com inocência resmungante, que tem olhos detetives, que sonha em chupar limão e conseguir não fazer careta.

As descobertas, as auroras, os planos de fuga, as baladas, e as bolas de chiclete feitas dos sonhos e fôlegos. O amor de uma amizade ou a amizade de um amor nos chegando do jeito mais leve, mais voador, mais lírico. O valor do afeto estendido em versos-varais, sem catálogos limitadores, uma colheita do profundo nosso.

Ver Aldeotas desperta um apetite crônico em nosso jeito de sonhar acordado. Queremos engolir nuvens feito masrhmallow. Queremos ser peixes, ou o próprio azul do mar que navega a vida. Queremos governar formigueiros cheios de bolos imaginários e melecados. queremos inventar palavras novas com as letrinhas das sopas. Queremos voar em balões que avistem micos-leões prateados nos dando tchau.

Aldeotas é uma árvore repleta de amoras bem vermelhas, amoras com cor de amor entre os verdes. Amoras com doçuras que fazem sucos cadentes do pé, que nos despertam a coragem medrosa de cair sem doer. É uma subida sem fim, pro alto do céu, com alguém em baixo pra nos “dar pézinho”.

Aldeotas traz pro meu perto todos os meus longes, me traz pro lado de dentro, e faz sol aqui. 

Nossa cidade

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Dizem que ele é rabugento e que destrata atores. Dizem que ele mudou, que está mais flexível. Dizem que não é nada disso, que ele é boa gente mas quer almas tomadas em seus espetáculos. O que dizem, a mitologia, a invenção pela mentira repetida.

O mito Antunes. O velho Antunes. Do pouco muito, da economia que amplifica. Do coral de atores, que dizem falas com vozes cantoras. Timbres artesanais, artisticos, vozes-enfeites, palavras -agulhas, potentes de costurar . Cada movimento um estudo, um cuidado, uma precisão.

O texto é uma maquete comportamental de um lugar. Que pega o micro-cotidiano norte -americano e sopra personagens caricatos e ao mesmo tempo naturais em seus contextos sonhadores. Fala da compulsão que vira convulsão. Da melancolia que existe no tédio do tempo vazio. Da emulação a ambição.

A dança que traz a menina fazendo par com o vestido é de rezar um agradecimento. A locução do ator Leonardo Ventura envolve, inclui, entona os acontecimentos. E a estátua da liberdade que ganha medida exata, pequena de longe, que gira pomba em seu eixo de ironias e troféus históricos.

O programa da peça é um livro cheio de citações, de olhares sobre a cidade e a saudade. A cidade que é sonho, a cidade que é pé sofrido.

Citação de Thornton Wilder que vale dividir: “Arte é confissão; arte é segredo contado…Mas arte não é somente o desejo de contar um segredo qualquer; é o desejo de contá-lo e escondê-lo ao mesmo tempo. E o segredo não é nada mais do que o drama inteiro de uma vida interior”.