E agora?

1) Não se trata mais de debochar de quem tem ido às ruas, mas de tentar entender o que essas pessoas querem de uma maneira prática além dos memes e registros caricatos de quem não sabe o que está fazendo ali. Essa multidão representa de forma legitima, gostem vocês ou não, uma indignação bastante razoável e urgente. Sim, elegeram para purgação um lado que é menos colaborativo, eu disse menos, quando o assunto é privilégio – mas será mesmo que é só por isso? Um governo desastroso que (também) por uma mãozona midiatica é o epicentro de um problema estrutural cheio de tubulações que ainda nem sabemos onde vão chegar. Apropriaram-se de figuras representativas que servem em plano simbólico como uma oferenda oportuna num ritual de guilhotina renovadora. Cabeças (nada inocentes) que estão para serem cortadas em uma hora ingrata(?), em um momento em que o pior pode vir depois. Mas já repararam que o mal pode sempre vir depois, independente da circunstância?
 
2) Ainda assim, é legal questionar as prioridades envolvidas quando o mote escancarado de uma manifestação é o da anticorrupção, ou seja, um mote que se anula por si, uma vez que todo mundo é ESTÉTICAMENTE “contra a corrupção”, inclusive os corruptos. Eu ainda não estou falando de lados, nem de santos, nem de camisas de futebol contaminadas por um símbolo de corrupção recente. Ainda não.
 
3) Penso que o que está acontecendo nesse exato momento seja o reflexo sísmico mais colateral dos Movimentos de Junho de 2013. “Cria-te corvos que te comerão os olhos”. Eles aprenderam direitinho, vocês estimularam e depois esnobaram, subestimaram, se esquivaram do diálogo, caímos num Mackenzie x USP no JUCA . Em algum momento, eu achei a palavra golpe um exagero da esquerda mimada. Mas, ser corrupto institucionalmente (liberar catraca) como resposta a corrupção num dia como o de domingo, é uma atitude no mínimo cínica e oportunista da oposição. Daí alguém vai dizer: então, onde estão os inocentes quando os réus são também os vilões da história? É essa é a questão: nesse momento a trapaça não é mais um elemento surpresa, agora são todos tentando pular do Titanic nos botes que têm pra hoje. O “golpe” já aconteceu, está acontecendo, e de ambos os lados.
 
4) Podemos continuar brincando com fotos e memes e gifs chiques? Eu assim prefiro. Prefiro porque o humor, o alívio cômico para um momento em que o clima e a tensão coletiva vêm interferindo socialmente em nossas relações é a única forma de não cairmos em uma neurose funcional. Acho inocente supor que em um evento com milhões de pessoas, tudo seguirá de maneira uniforme e não vai ter gente extrapolando e fazendo bulshitagens em nome de uma purificação política em que tudo é permitido em nome dos fins. Acho também que a expulsão de Alckmin e Aécio é um bom perímetro para que a esquerda pare de achar que tudo se trata de “choro pelo Aécio”, “amamos o Cunha” ou “creme da Victoria Secret ta uma facada com a alta do dólar então vamos voltar pra Natura”. Como diria Galvão (eca): “não existe mais time bobo nessa copa”.
 
5) Muitos dos que criticam o fla-flu de agora, cultivaram diretamente essa polarização, talvez eu, você. Como? Conversando apenas com quem concorda conosco, criticando apenas o grupo “adversário”, achando que a legitimidade da própria opinião se consolida apenas pelos likes de quem está dentro da sua tenda ideológica, alimentando a lógica dos algorítimos. E será que tem volta? Acho difícil. Tentar o diálogo tem sido uma tarefa quase impossível quando você não se veste de seleção brasileira ou usa um vermelho sem querer, e principalmente agora que o termo “isentão” entrou na moda, todos estão mais ouriçados em se posicionar antes de serem derrubados do muro. Uma saída possível é tentar se informar fora da caixinha, prestar atenção em quem está disposto a examinar criticamente o próprio lado mesmo que vá doer. Orgulho eleitoral ferido não ajuda em nada nessa hora.
 
6) Um grande equivoco da direita é medir as escolhas adversárias por uma pauta só. Quem votou na esquerda, de certo, tinha preocupações menos genéricas do que o andamento da economia, existe nesse novelo muitas minorias buscando alinhamento com propostas SUPOSTAMENTE mais justas e igualitárias e principalmente representativas diante de um congresso conservador e retrógrado. Sim, na prática não foi bem assim, mas achar que alguém vota pra apoiar corrupção por pura luxuria de caráter nessa altura do campeonato é insistir no raso, uma vez que estamos falando de uma contaminação generalizada em que não existem inocentes.
7) Acho triste que o argumento da seletividade tenha virado apenas um cabo de guerra de justificação conveniente. “Se o meu lado está pagando pelo que fez e outro AINDA não, o meu lado passa a automaticamente ser coitado e inocente”. Vocês colocam a seletividade de um equivoco sobreposta ao próprio equivoco. Seletivizar a seletividade. Bonito isso.
 “Não aperte o botão VERMELHO”. Talvez essa frase de filme nunca tenha feito tanto sentido. Mas se mudarmos o botão de cor, o perigo acaba?

Dizem que eu voltei, mas é mentira

Dizem que eu voltei, mas é mentira. Estou agora em dois lugares. Um pouco em cada. Como num elevador eque para metade em um andar, metade em outro. Eu não queria ir embora, digo voltar de lá. E agora a porta emperrou. Não porque a vida cotidiana prática é ruim, mas porque venho de uma fase em que estive rigorosamente contaminado pela lucidez. Tipo saber que o mundo é cruel a cada 3 minutos de timeline, estar rodeado de sociólogos vespertinos que eu mesmo mantenho em meu feed, absorver o pessimismo da realidade e ficar doente dela. Isso tem um custo emocional – seja lá o quanto tem de egoísmo nessa confissão. Em algum momento do ano passado me vesti do desanimo do mundo, acatei a fórmula dos que sempre gozam de informações privilegiadas, aos que nunca se enganam, ou acham que nunca se enganam, que o golpe esta por vir . Não deixei mais ninguém errar perto de mim, justo eu. Qual a vantagem?

Virada de ano. Melhorei um pouco. Cerquei-me de energia juvenil no meu último trabalho. Voltei pra mim, porque os jovens tem esse poder de nos lembrar de que ainda somos jovens. E então parti. Eu e meus últimos restos & versos. Viajar me permite sempre um exame existencial de rotina. Quinze preciosos dias pra fazer um check up nas minhas validades, vaidades, opiniões, vícios, me entregar aos esquecimentos, enxergar coisas que estavam desgastadas, sem manutenção. Me perguntar de mil maneiras o que houve comigo, o que houve conosco?

Primeiro essa noção inevitável de sobrevivência, de que se eu ficar doente sou eu por mim. Existe a solidão e existe ficar doente sozinho. Talvez ficar doente sozinho seja até mais solitário do que a própria solidão. Mas em toda a sua extensão de significado há um tipo de noção que só é notável em condições adversas. Um país com outro idioma, você sem nenhum conhecido, sem ter certeza se tem dinheiro pra pagar um pronto-socorro. E de repente a febre passa, misteriosamente, porque ela precisa passar. Comigo já aconteceu.

Com alguns quilômetros rodados a gente num é mais tão ingênuo assim. E então o mais precioso de tudo são as pequenas inocências que ainda persistem. Ler “push” e puxar ao invés de empurrar. Ver esquilos passando e tirar fotos-baba-ovo de algo que pra eles é tão normal quanto uma pomba pedinte.

Reparar em eventos excepcionais que você ainda está aprendendo a lidar. A “tensão de deslocamento”: o dia de se locomover para outra cidade. Você ainda não consegue administrar a ansiedade de se algo der errado. Não ouvir o despertador, perder o avião, não ter a certeza se sua reserva de hostel está mesmo confirmada.  E então tudo parece um sorvete em que a primeira bola já derreteu. Nesses dias não sei aproveitar e deixar o deslocamento pra lá. A partida em mim ainda é perturbadora. Ou o que eu deixo, sem nem saber o que de fato eu deixo. A partida é um tipo de desapego.

O “dia de rei”. Um dia em que você mesmo ciente de que esta numa viagem cara, parcelada, num lugar em que talvez você nunca mais volte, com dias contados, resolve desmarcar tudo e se dar de presente uma tarde de sono, ou de ócio. Um descanso dourado, em que há uma desespecularização dos valores atribuídos. É quando você abre mão de algo aparentemente valioso e agrega valor a algo aparentemente tolo. Existe nome pra esse sentimento?

(Insisto nisso, em ser alguém que passa a vida se procurando em algum lugar, que tenta entender a duração das eternidades finitas – como se os olhos pudessem correr distantes de mim, engolidos do futuro.)

Aprender a perder o irrecuperável. Você já perdeu algo material em uma viagem? Eu já. O meu tênis predileto. Um que eu jamais irei achar igual. Que não é mais fabricado. Que era de estimação. Que eu esqueci dentro de uma lotação apertada em algum lugar da Colômbia. Alguma lotação que eu não sei o número da placa, a empresa, nem gravei o rosto do motorista. Aprender a perder. Por mais efêmero que isso seja. Perder o orgulho de ostentar pra si a posse de algo. Viajar é também sobre perdas. Os danos de se seguir em frente, porque mais tarde tem algum ganho novo, intangível, eu sei.

A volta. Esse gostinho que fica e que não passa.  A lembrança dos dedos do mar. Dessas coisas que nem aconteceram. Essa saudade não dos fatos em si, mas de como é grande a minha imaginação.

SAWUBONA

A liquidez das relações, ensaiada por Bauman, faz cada vez mais sentido dentro da realidade em que vivemos. Num ano como o de 2015, cheio de crises existenciais, enxergo uma urgência em acharmos um sentido para as nossas sinapses e conexões, uma vez que o sofrimento humano é individual, mas também coletivo.
Essa campanha abrange uma grande metalinguagem: a colaboração em rede, em uma perspectiva virtual, viabilizando uma experiência de investigação presencial sobre a convivência e a possibilidade de colaboração entre comunidades. Nós vemos você! Mas, como essa troca fraternal pode acontecer?

A autoinvenção social, o eu coletivo e todos os talentos pessoais que operam pelo todo. Nessa viagem, o olhar busca um ponto significativo, que passeia entre a partilha e a reinvenção. Entender quase que de maneira antropológica como grupos completamente dissonantes conversam entre si, é um mecanismo de extrema valia para se compreender como se estabelecem os parentescos informais, seja pela gentileza ou pela sobrevivência comunitária. A intersecção de talentos que se misturam ao tempo presente para que um produto transformador aconteça.

Existem tantas maneiras de viajar, e eu acabo de descobrir mais essa: “viajar o outro por nós”, parece estranho colocado assim, mas assim pode ser, podemos ser, juntos.

Quem puder/quiser colabore com esse crowndfunding,
https://beta.benfeitoria.com/sawubona

 

Karina ursa: pessoa colecionável #16

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Sempre que um filme ou novela aborda o universo feminino dentro de uma cadeia, um tipo de personagem acaba se repetindo nesse mosaico de estereótipos. A dona da cela. A dona da cela é aquela presa durona, a líder do cafofo, aquela que impõe certo respeito por sua bravura e é um pouco hostil com quem é nova no pedaço. Ela é a figura a ser conquistada quando tudo o que uma caloura tem, é um aglomerado de dias claustrofóbicos ou entediantes em um ambiente com grades. Consigo imaginar até qual crime fictício ela cometeu. Talvez uma assassina de filmes de terror-pipoca que acontecem em universidades americanas. Aquela que tira a máscara e se revela no final. Estou falando do seu ângulo mais rígido, mas não é só esse, nem de longe. Existem sorrisos marotos que desfazem o seu lado mais arisco, ela aceita o carinho de bom grado e sabe retribuir.

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Você pode chamá-la ursa. Esse é o seu nickname nos universos informais. Sua inteligência é tão exótica quanto caótica. Seu código visual pode fazer com que a gente se precipite e ache que a rigidez das cores enfatize uma possível resistência ao novo. Tim Burton tem culpa no cartório. Ela o tem como ídolo por ter sido um cara que conseguiu entrar no universo da Disney emplacando os seus traços subversivos. É ele que colore o seu jeito de se vestir. Vermelho, roxo, bordô, preto. Mas, o curioso é a falta do branco. Aquele branco gótico e pálido dos personagens mórbidos do diretor. E isso já é a fronteira da diferenciação típica de sua personalidade. Na vida e na arte, existe nela uma mania de se intrometer, de tentar mudar um processo já estabelecido, como se a água de dois rios se confrontassem inevitavelmente. É quase um jeito de manipular, de ter o controle, mesmo que parcial, sobre a realidade e a irrealidade. No fundo ela se sabe manipuladora, inclusive acidentalmente. Na arte, seus desenhos parecem não ter começo nem fim. Há um confronto visual que imprime algo próprio da sua assinatura. A ursa é aquela pessoa que gosta de interferir na mudança, marcar seu território, saber que participou da decisão, manifestar seu poder de intervenção.

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Costuma usar uma frase (“não é que…”) em seus enunciados para justificar e ao mesmo tempo denunciar a sua mania de interferência. Nesse momento ela se entrega e tudo o que realmente importa é o que vem depois do “mas”. “Não é que eu estou reclamando, mas eu acho que esse restaurante é muito caro”. “Não é que eu queira mudar a combinação inicial, mas acho que deveríamos comer sushi e não macarronada”. “Não é querendo me intrometer, mas eu acho que deveríamos nos encontrar mais aqui na minha casa, assim a gente num gasta tanto com restaurante”.  Eu poderia então dizer que a Ursa é uma radio pirata, aquela que de repente faz ruído no meio de uma transmissão das 7 melhores da Jovem Pan.

O mais divertido dessa entrevista é imaginar tudo o que eu não imagino ela fazendo. Ela usando um vestido cor de rosa, por exemplo. Ou quem sabe descobrir que ela conversa com os passarinhos todos os dias da sacada do seu apartamento (confissão real). E quem diria que ela já assistiu novelas e gostava de “quatro por quatro”. Diz que abandonou as novelas porque elas começaram a sublinhar traços exagerados de maldade do ser humano, distanciando o foco no entretenimento leve.

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Se a ursa tivesse uma terceira mão, ela passaria a bunda nos seguranças do metrô da linha amarela. Na realidade ela já faz isso, em horários de pico, gosta desses acidentes calculados, uma mão estrategicamente degustadora de “bundinhas caramelo”. Segundo ela, esse termo é uma piada interna entre amigos para designar uma bunda bem desenhada, agraciada pelas curvas que transbordam por uma calça coladinha.

Ursa gosta da frase motivacional que diz: “um passo em direção ao seu objetivo todos os dias, ao fim de um ano se transforma em 365 passos”. Das vaidades sobre os seus passos, ela se diz orgulhosa do seu emprego, das suas conquistas independentes, do crédito que atualmente recebe pelas suas habilidades de criação. Do emprego anterior carregando bandejas, guarda tendinites, rancores e amores. Aprendeu muito sobre lidar com homo sapiens famintos e também a aceitar que no mundo existem gerentes maliciosos, a ponto de se fazerem de amigos por um longo tempo e de repente te tratarem feito sucata, te jogando aos crocodilos.

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Existe apenas um requisito capaz de fazer a ursa gostar de um livro logo de cara. Ser uma HQ. A identidade visual das Hqs ativa o seu interesse. Ela é capaz de gostar até de um exemplar ruim só por ser uma história em quadrinhos. Na infância, ursa comia punhados de areia vindos de buracos na parede, gostava também de desmontar e remontar brinquedos e o seu cavaleiro do zodíaco predileto era o Shun de Andromeda. É um pouco vidrada na infância adulta, aquela de cultivar molduras infantis de personalidade. Até por isso, sua próxima tatuagem será temática, homenageando “A hora da aventura”. Acho digno, até por que, se eu fosse definir o universo de concepções subjetivas dela, seria o desse desenho. Ele traz criaturas sem eira nem beira, infantilizadas, mas ao mesmo tempo irônicas e bagunceiras. É um universo de crianças que fazem adultices que influencia os adultos a fazerem criancices.

A grande figura de admiração de ursa é a mãe-ursa. É uma figura guerreira dentro de sua luta solitária, além de instruída e muito educada. De sua mãe ela puxou o TOC da arrumação e também a mania de bater o pé na quina das coisas. Outra figura que diz muito sobre quem é a ursa é o seu cãozinho Jack Black. Ele parece meio bravo, meio ogro, mas adora brincar. É daqueles que se intrometem na conversa dos adultos com uma bolinha vermelha querendo forçar a brincadeira. É carente de cutucar o dono ou de derrubar objetos de estimação pra chamar a atenção. Nas horas vagas, Jack gosta de copular com uma lagartixa de pelúcia.

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Olhando rapidamente pra ursa, não é difícil lhe arrumar apelidos que remetam a bichinhos fofos & ferozes do universo do cinema. Eu tenho a certeza de que em outra encarnação ela foi um dos Ewox do Star Wars ou uma das criaturas do filme “Onde vivem os monstros” de Spike jonze ou uma alegoria na linha “L’Enfant Terrible” em plena fúria etílica. A pelúcia que se rebelou, a menina que era cavala na aula de educação física e arrumava briga no handebol até um dia virar discípula de Jedi. A única pessoa capaz de me convencer a ver filmes de super-herói.

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Às vezes eu dou bronca nela, ela não gosta e me aponta o sabre de luz de duas lâminas. Mas as relações humanas não acontecem no isolamento, tudo é sobre como gente se sente perto do outro, e perto dela, eu sinto uma sensação que eu não sinto com quase ninguém: sou um pouco pai. O papo está bom, mas a Ursa está cozinhando um macarrão alho e olho pra mim, e até o aspecto do macarrão é meio ogro, sabe aquela deliciosa gororoba que você taca no prato ao invés de servir? Estava delicioso, muito mesmo. E a gente se despede com um abraço giratório falando de uma próxima vez, um gancho para o próximo filme da franquia. Coming soon.

 

O favor flutuante

Preciso de algo urgente, é o tipo de favor com data, e até por isso deixo a pessoa a vontade pra dizer não. A pessoa diz que pode, que tudo bem, ou às vezes nem isso, não diz, ou diz “tá” e você num tem certeza se ela aceitou, e pior: fica sem graça de perguntar novamente.

E então você espera, a pessoa não te da mais satisfação sobre o favor e você fica sem graça de cobrar. Pior, a pessoa nunca mais dá notícias sobre o favor e você tem que se virar nos trinta porque a demora prejudicou o seu problema mais ainda.

Então, um belo dia, você pergunta, e a pessoa da uma justificativa qualquer, aquela que não importa o por quê. Tudo o que importava era o “não” inicial, o “não” que não atrapalha ninguém, o não de “não posso” aquele que é difícil de dizer pra quem é querido, mas que é a melhor coisa que você pode fazer por quem depende de um favor com data.

O tipo de demanda que precisava do favor e não da promessa. Nos últimos meses me prejudiquei por diversos episódios assim, de gente que prometeu por prometer, ou porque não soube como dizer não ( eu entendo essa parte, oh se entendo) e que me prejudicou mais por ter dito sim. O sim que é sagrado, o sim que não flutua. Precisar do outro, tão bom quanto difícil.

O ato de pedir demanda toda uma arte, mas dizer sim também é, e isso precisa de comprometimento, não do favor displicente.

Mais amor POR FAVOR.

Juliana Cunha e a faísca do ódio produtivo

Sou leitor dessa moça de longa data. E isso nem é importante. O importante é que a figura Juliana Cunha me desperta uma colateretalidade esquisita, faz com que eu concorde com ela mesmo que o que ela defenda diga a respeito a mim – e não seja bom. Acho ela forçosamente polêmica, tacanha, mimada, inteligentíssima, articulada, valente. Temos amigos em comum e ouço versões diferentes sobre ela. Assim como ouvimos de Caetano Veloso. Um gênio antipático e subversivo. E  existe ela, e sua escrita maligna, intolerante, justiceira, sarcástica aos justiceiros.

Como Facundo disse dia desses, o que importa é o palco, a dramaticidade humana, isso é a graça, independente da razão, independente da razão (2 vezes)… E ela é craque nisso. É aquela pessoa que pega algo consagradinho pelos descolados, silenciosa observa os aplausos, e entra no fim da festa batendo uma palminha irônica e devagar, cheia de um veneno capaz de levar a baixo os confetes dantes ajogalhados na cerimônia. A ironia de tudo: ela é descoladinha, nas palavras, nos enfeites, na feição arisca, é uma hipster anti-hipsters; nada mais comum.

Juliana é minha grande figura de influência na internet, não por estar sempre certa, mas por me parecer altamente paradoxal e niilista, como Woddy Allen. É por essa figura que sou fascinado, essa moça que na ficção me parece uma artista anti-social, que odeia o próprio interlocutor, mas não subestima a sua importância, na verdade subestima, e pra mim essa é a graça. Aquela moça que soltava todas as suas garras no programa “Cacete armado”, que incomodava os coronéis de Salvador e as freiras de Soterópolis e que passou a incomodar a internet gourmet brasileira, com suas desconfianças de progressista radical e o seu jeito ogro de zineira blasê.

Se você for descolado e tiver muitos likes, algum dia será alvo dela, é um território inevitável e eu nem acho tão ruim assim, é como um batizado, um vestibular simbólico em que o ódio talvez tenha algo de produtivo. Imagino que ela provavelmente leria esse texto cheia de tédio, preguiça e indiferença, e isso é irrelevante. Relevante é existirem Julianas, mulheres que nos influenciam e nos fazem pensar sem pedir permissão. Existem cercadinhos interessantes na internet e isso é o que ainda me faz ficar, gosto de pisar nas terras desse cercado quase como um forasteiro abobado, esse cercado de Juliana, em que ninguém está a salvo, ninguém é unanimidade, nem Juliana.

 

Letícia: pessoa colecionável #15

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Uma bruta aventura em versos, os da autosabotagem. Ainda está cedo, então me estico na cama para não olhar na cara do tempo. Adormeço de ansiedade prolixa. Acordo atrasado e ela já está lá me esperando, cheia de frases que ainda não sabe.  Atraso imperdoável: 40 minutos. Conto a verdade para ela e para mim. Que como quase todo elemento da espécie humana, eu minto sobre atrasos e calculo mal a relação trajeto x tempo. Vou dando margens falsas para que a vítima se acalme, mas quem não está calmo sou. Com medo de que ela, sei lá, vá embora. Então, grito aos remadores que avancem num vocabulário mudo. “Autosabotagem é o mal do século, a verdadeira ruína humana” diria ela, alguns tambores mais tarde.

Letícia acaba de voltar de um encontro de roteiro em Fortaleza com Hilton Lacerda, o exótico e ousado diretor do melhor filme queer do Brasil nos últimos anos-luz: Tatuagem. Enquanto a sorte de cinéfilos sonha em conhecer aquele diretor, meu sonho de conhecer ela é tudo o que importa dentro dessa embarcação junina. Entro no sarau dos Parlapatões e estico os braços para que ela me veja. Pholia e cortejo. Primeiro um beijo na mão direita, depois um abraço de esparramar o Royal das paletas. “Muito prazer, sou seu secretário”. É chegado o instante disfórico. A mulher que rouba frases, rouba canapés em reuniões da esquerda festiva, rouba pequenos objetos que derramam das ingênuas cascatas dos distraídos. Ela vai me indicar um filme coreano chamado “The Chaser”. Prometo que assistirei com Skittles na boca.

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Ela já morou com estranhos. Teve um dia de outono em que alguém trouxe um peru congelado de 4,99. Uma galinhada inesqueçuda. Distraio-me olhando seu urso polar pendurado no pescoço. Quero roubá-lo. Tudo nesse cleptoencontro é sobre roubos e gestos moles. Ela me conta como se libertou dos roubos do tempo. Perder a noção dele foi melhor que rosnar. “ ou você liga o foda-se ou enlouquece”. Mas se pudesse voltar a uma época, qual seria? 1910. Tempo em que existia o cinematografo, o ancestral da filmadora. Era um modo de entretenimento pago para dizer ao público o que as pessoas não tinham a coragem de dizer.

Me ensina um truque sobre como roubar um coração por algumas horas e depois devolver pelo correio. Seduzir é um tipo de insistência que precisa romper a casca do tempo. Desarmar alguém é ir longe, sem perspectiva de final. Vá fundo, converse sem marcar no cronômetro, estique, conte uma dor, e deixe o flavour do incerto ir quebrando o escudo de remoque. Um bom sexo pode acontecer se você conversar com alguém até que se gastem as possibilidades da partida, até que na hora em que tudo o que um pode dizer ao outro é tchau, mas esse tudo, de repente se prolonga por um olhar psicótico. Um rouba calor do outro. O sexo existe em qualquer lugar, agora, ali, em todo canto de cortinas rasgadas, inclusive em Stardust – o planeta Bowie. Mediunidade sexual é saber enxergar hormônios voadores. Teorias selvagens por aerosol. Em Tambaú também tudo disso acontece. Praia nudista, mamonas abundantes e monjas de olhos verdes, sem colírio.

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(Ah, pela primeira vez encontro alguém que também já foi ao Kit Kat Club. Toca aqui.)

(uma lata cai é ela não consegue esticar sua terceira mão para pegar)

Pergunto onde mora o maior amor do mundo. E ela diz que no “passado”. Com susto, digo que me forço a odiar o passado. Acho que o melhor remédio do mundo é rasgar o calendário em pedaços sem volta em frente a uma vela acesa. Ela diz que o passado é um retoque confortável. Que os melhores namoros que teve são aqueles que já acabaram. Já a realidade, essa cheira ao podre da culatra. É um desverde ao contrário essa memória. Verde é o presente, e só voltando casas no tabuleiro o rubor aparece na puberdade idosa do fruto atraente. Não há amores tão bons quanto os que já passaram. É tudo tão lindo, que resolvo presenteá-la com a mais linda declaração de amor ao azul (não) vista pelos meus epicentros. É de Paulo Mendes Campos.

“Quando o cego disse que queria viver em um lugar cuja temperatura oscilasse entre quinze e vinte graus e onde o céu todos os dias fosse azul, ninguém na sala sentiu vontade de sorrir. Nem cheguei a sentir um arrepio de tristeza. Ele falou com a voz clara e cheia de sentido. Entendemos de repente um espaço emocional extraordinário, que desconhecíamos. Céu azul não conhece fronteira de sombra; céu azul é indispensável antes de tudo aos cegos; azul do céu não é cor, mas uma qualidade do mundo, uma luminosidade apreensível por todos os sentidos, fragrância, convivência mais delicada, concerto de sons, transparência do universo.

Nos dias cinzentos, o mundo é mais opaco e mais áspero, as pessoas falam com um timbre mais rouco e aflito; os pássaros não cantam; a brisa é mais úmida, o ar mais pesado.

O cego desejava que todos os dias fossem azuis, precisava dos dias azuis mais do que nós, os distraídos na multiplicidade do mundo, dispersados em tantas sensações supérfluas. Um poeta disse que deus é azul. Não creio. Mas creio nos poetas. Creio no azul. Creio nos cegos.”

Como implodir os parnasianos? Jogue uma bomba no liquidificador e jamais fique sabendo da pesquisa de personalidade mais terrível já feita. Pessoas só se moldam até os 27, depois não se alteram mais psicologicamente. Pesquisas hipocondríacas. Estaríamos todos viciados nelas? Não. A ciência é esse caldo de experimentos que se confrontam e se contradizem. Ufa! A inteligência é apenas um móvel útil. Estamos no papo petisco & pinga, um bar na Praça Roosenvelt. – Mas e São Paulo? A São Paulo dela é um Minotauro. Cidade que atrai, contrai, machuca, é cheia de labirintos, sedutora de Tezeus. Entre eles, uma espada mágica e algum desvelo. Digo eu que São Paulo é a cidade dos anti-heróis. Nós, ela, eu, adoramos o tal “coeficiente de ficção”, a diferença: aprendo a expressão naquele momento. Quase conto que o Sebo “Chama De Uma Vela” fechará dia 12/07, mas deixo pra lá.

Ela antigamente assistia novelas, mas quando a dramaturgia televisiva começou a querer imitar o cinema, se perdeu. Mas e João Emanuel Carneiro? “Bom, ele é uma ótima companhia” casmurra ela. Mas e a menina de Salvador que eu tanto amo ler/sou stalker e que eu sei que você também conhece? Bom, ela ficou muito famosa em Salvador vendendo fanzines a granel na porta do colégio de freira. Depois virou militante de um partido comunista. Nos conhecemos  quando ela se mudou para SP e precisava de um caminhão de mudança. Ela anunciou na internet e eu Indiquei um amigo meu que fez um precinho joia. O que você acha dela? Acho uma pessoa arguta. O que é arguta? Pessoa inteligente e contraditória que sabe polemizar colocando a oposição de suas ideias para duelar num ring.

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A resposta mais incrível vem da pergunta mais pacata. “O que é felicidade pra você?”. “Felicidade é uma novela das 18h com a Maitê Proença que passou em 1996, escrita pelo ManoelCarlos.” Qual o seu guilty pleasure? “Seriados policiais de quinta categoria”. Melhor série da vida? “Twin Peaks”. Por quê? “Porque o assassino é o monstro que existe em todos nós”. Os filmes da vida dela? “E o vento levou”. Já viu 55 vezes. Mas por quê? “Porque sempre que eu vejo a aura épica construída nesse filme eu penso se as pessoas conseguem fazer isso, eu consigo fazer qualquer coisa”. “Os desajustados”. Mas por quê? Porque a Marlin Monroe era o símbolo da neurose humana, completamente angustiada pela imagem de musa que criou-se em cima dela. Fatuidade.

Conto a ela que sinto um tico de inveja dessa coisa de quem trabalha com cinema & ta sempre viajando & nas horas vagas ainda faz poesia. Digo que quero entrar nessa dança das cadeiras, mas que me sinto como a criança tola, que sobra sonâmbula enquanto os outros sentam vangloriosos. Ela me responde com otimismo: “No cinema as pessoas amam muito”. De repente a TV do bar é ligada no futebol num volume que provoca um efeito mute na nossa conversa. Peço para continuarmos no escadão em frente, compro esse prolongamento com um brigadeiro gigante de três tostões. Dividimos. Ela morde. Eu mordo. Mordemos. O resto, deixo dobrado aos Verdugos.

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Ela tem hora, e vai pegar o metrô República. Foi divertido. Tive medo de assustá-la e senti aquela culpa de quando é bom. Sou um ser esgrandalhado e isso é engraçado sem que eu force, mas ao mesmo tempo isso me torna docemente inofensivo, talvez frágil. Contei a ela segredos que só a terapia ouviu, fui picareta, fiz promessas com cartas de copas, incluindo um quadro do meu avô, já quase oferecendo também um diário de Susan Sontag. Fiz um tudo para impressionar, ser tal, albergar. Ela me contou sobre os efeitos psicoativos da Rua Rego Freitas. Percebeu que eu tinha medos e hipermetropia, não subestimou. Contei mais segredos medievais sobre o amarelo das piscinas. Foi um papo cheio de desatinos, folclores e espectros indiscretos. Ainda tenho um vale pizza do Mancini que eu prometo pra próxima vez quando estiver com meu brim pardo – quando contarei sobre o meu passado striper. Chantagem calórica antes de partir pro cinemão e depois rezar um missa.

 

Hoje é segunda-feira, dia de efeito Gregório.

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Toda segunda observo um fenômeno interessante no meu feice. O efeito Gregório. De tardinha, vejo 5 ou 6 compartilhamentos de sua coluna da Folha de inicio de semana. Confesso que mais interessante do que qualquer sacadinha dele, é o impacto que os seus textos superestimados (eu acho) causam na minha timeline. É o “chupa” abre-alas da semana, é a simbólica bateção de panela silenciosa da esquerda festiva.

Seus textos são usados como verdades de esfregar na cara, é como se ele aliviasse o vão de insegurança de um núcleo ideológico altamente vigiado por todos os lados, a esquerda que vira e mexe é botada em cheque pela contradição, a esquerda que não pode nem sonhar com a Flórida ou em usar em público o seu iphone (é que pega mal). Gregório Duvivier é como um dublê político da classe média progressista. Ousa por saber que tem palmas garantidas, e defende um enquadramento confortável, o do privilegiado que aceita negociar: não abra mão de tudo o que é seu, mas aceite discutir a inclusão do outro no seu frigobar. Como ele mesmo disse uma vez: ele não quer deixar de ser rico, ele quer que todos sejam ricos.

Mais engraçado ainda são os apelidamentos dados ao coral de canto gregoriano, dando um tom teen ao sentido difuso dessa reunião ideológica. Esquerda uber, esquerda ciclovia, esquerda Hypness, esquerda gourmet, esquerderia. Fico então imaginando alguma intervenção na Feira Plana do ano que vem. Um duelo de esgrima com espadas vermelhas que acendem com luz natural, em cima de uma slackline. Eu, obvio, estarei lá reforçando alguma estatística hostil da direita Constantina, vendendo zines – quase baratos – com fotos de Gregorio chupando paletas cubanas. Na crise, o negócio é ser politizado e fofo, mas a preço justo.

Inicialmente, isso pode parecer uma crítica ao Gregório, mas é um pouco além disso. Aos leitores mais apressados, isso não é um ataque de um vira-casaca. Posso estar aqui tentando ridicularizar algo que também é comum a mim. No fundo sou eu me olhando de fora. Faço isso que vocês fazem. Repito a sequencia, compartilho e consumo Gregório, Willys, Brum, Sakamoto e Laerte. Ah, e eu também dei voto crítico no PT no segundo turno, sem ser petista. Mas a questão é pensar que essa reunião em torno de um fio condutor não deixa de ser curiosa e até mesmo engraçada.

O fato é que todos nós, diante de um espelho, somos capazes das caretas mais ridículas, e nesse post faço esse exercício parcial de distanciamento apenas usando Gregório como um mártir. Ando com preguiça de me explicar em posts mais polêmicos, mas aos ofendidos, não é um post sobre o Gregório, mas sobre caretas engraçadas pro espelho. É como se eu me olhasse tirando caca de nariz sozinho no elevador, só que horas depois, no vídeo da câmera de segurança. Olhar de fora a sua própria imagem interagindo com o espelho, tentem isso, pode ser mais divertido (e ridículo) do que parece. “Put some farofa”.

D.U.F.F e as referências que os outros dão sobre você

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Uma situação comum. Você adiciona ou é adicionado por uma pessoa desconhecida. Olha nos amigos em comum e pede “referências” pra alguém conhecido sobre essa pessoa. Eu gostaria de ser uma mosquinha para saber qual o tipo de referência é dada sobre a nova pessoa. Claro que isso diz muito sobre quem está dando as referências, e dessa pessoa podem vir os piores tipos de analogias e sinopses sobre o até então desconhecido. O currículo terceirizado é quase uma alienação parental, pode ser assustador e eu quero falar sobre ele, mesmo que isso signifique queimar meu filme.

Uma vez um amigo do acampamento, descobriu que um colega de cursinho dele havia estudado na mesma escola que eu – chamaremos o sujeito sem ser o meu amigo de “espinafre”. Naquele papo de “nossa que mundinho pequeno”  vieram então as referências sobre mim dentro da análise “sutil e bondosa” feita pelo espinafre. Tendo em vista que esse cara era um babaca e também num tinha lá uma boa sinopse no colégio (o feio, zuero, bom de briga e pega- ninguém), ele não podia fazer comentários melhores sobre mim, além do mais, a gente se conhecia apenas de vista, nunca havíamos nos falado. Ele disse ao meu amigo que eu era o “padeiro” do colégio. O cara que assava o pão (as meninas) para os garotos comerem. Talvez ele quisesse dizer que eu era o gordinho, desajeitado, mais amigo das meninas do que dos meninos e que circulava por todos os grupinhos do colégio sem pegar (quase) ninguém, mas estava sempre envolvido nas negociações como cupido, como o que segura vela, como o dono do correio elegante.

Mas não vou aqui me vitimizar demais, já que eu dei muitos beijos na boca atrás da quadra descoberta, contrariando diametralmente o tal estigma. Só que ele em partes tinha razão: eu era realmente muito mais o “amigo da galera” do que uma potencial beldade de pôster ou par pra formatura. A questão é que “ficadas” na época não eram minha prioridade, no fundo eu aprendi que elas não podiam ser minha prioridade, afinal a quem caberia o papel do padeiro? É como se eu estivesse mesmo resignado a esse papel. Aquela tarefa que vai sobrando, e acaba sendo “veladamente’ designada a alguém e misteriosamente esse alguém acaba sobrando com o tal papel nas mãos. Se essa pessoa então for idealista como eu, ela vai viciar nessa brincadeira de juntar casais e ver cenas de amor acontecendo ao vivo e a cores como se fosse um diretor vendo o próprio filme vingar. Vai se achar útil para a humanidade, porque o d.u.f.f, como todo terráqueo, quer ser alguma coisa, se sentir importante em algo, e acreditem: sempre existe alguém que se aproveita disso.

Uma vez em uma eleição da sala fiquei em décimo sétimo no ranking de meninos mais bonitos. Tinham 21 candidatos, isso quer dizer que eu era o quarto mais feio. Mas que bom que eu deixei a adolescência e fui transformando essas supostas características que me tornavam menos atraente a meu favor. Acho que além das mudanças naturais nos meus traços no pós-adolescência, a principal mudança foi interna: a confiança. Embora eu me ache bem bonito e interessante (odeio falsa modéstia), mesmo quando estou mais cheinho, e tenha trabalhado na fase adulta (teatro, terapia, cinema e amigos encorajadores) todas essas inseguranças, eu não fujo a regra da oscilação. Não é todo dia que eu me acho “o cara”, na verdade eu quase nunca me acho o cara, eu geralmente prefiro não achar nada e deixar o público elencar os adjetivos como quiserem. Mentira: às vezes eu decido o que a outra pessoa vai achar de mim antes mesmo dela achar algo e assim fecho várias portinhas.

Tudo isso passou pela minha cabeça graças a um filme que vi numa tarde dessas de Cinemark na semana passada. Tudo bem que é mais um besteirol americano. Tudo bem que tem aquela velha fórmula da comédia romântica, do baile de formatura, das patricinhas que trolam os nerds. Tudo bem mais uma vez a gordinha ser a piada do filme. Não, não está tudo bem. E é por isso que esse filme me agradou, por esse leve desvio de percurso. Ele é bonitinho pela ideia, pelo tema aparentemente bobinho, mas que faz todo sentido do mundo para quem já foi um d.u.f.f ou o “padeiro”. “D.u.f.f” significadesignated ugly fat friend” ou em português claro: o/a amigx designadx feix e gordx. Aquela pessoa que até é enturmada, até é descolada, mas que as pessoas geralmente chegam perto para usá-la como ponte de conexão sexual com as amigas lindas e unânimes. E isso é um fato, não sei se por ter sido um adolescente bem inseguro e precisar chamar atenção nem que seja o cara que sai na foto com a celebridade e ganha os likes não por estar na foto, mas pela celebridade. Por muito tempo me comportei como a Marlene Mattos (a da Xuxa). Eu sempre andei com gente muito bonita, mas bonita mesmo, só que antigamente isso obedecia a um padrão limitante. Hoje eu ando com muita gente linda, mas de todos jeitos, cores e formas e eu sou uma delas, não sou mais o auxiliar (só na vida profissional), e demorei muito tempo para me livrar do papel da árvore na peça de teatro.

Mas, seria o conceito de “D.u.f.f” mais um daqueles rótulos desnecessários para sublinhar a ideia de um agrupamento dentro de uma narrativa? Acho bastante provável, mas quem sabe  às vezes dar nome aos males, não é uma forma de identificar uma mesma situação comum a um grupo e fazer com que ele se mobilize caso tal situação lhe seja incomoda? No filme, a personagem, assim como todos os duffs, não sabe que é uma, e quando descobre quais são as suas “referências” na vida social do colégio, acaba ficando magoada. Ela gosta de um menino popular, mas vive gaguejando e pagando micos quando tenta falar com ele. É então que traça um plano para deixar de ser uma duff. E a estratégia, claro, caminha para a velha adequação, aquela de atingir a expectativa do outro ao invés de gostar do que se é. E claro, da errado, já que o menino vai entrando em seu jogo, aceita jantar com ela, mas no fim das contas, ela não era o foco, era mais uma vez a potencial ponte de ligação para as amigas beldades.

É então que a moral da história se revela: ela descobre que já que é a esquisita, deveria lapidar sua esquisitisse, ser a esquisita mais interessante dentro da sua própria identidade. Trabalhar dentro das suas particularidades todo o potencial para que ela finalmente descubra algo que a gente leva anos pra aprender: “o outro gosta de quem se gosta”. Não é simples, não é fácil, mas é o que temos para hoje, para amanhã, ou para sempre. Eu demorei muito tempo para entender o que uma amiga dizia sobre eu ser uma pessoa dourada, sobre todos nós sermos pessoas douradas. Às vezes nos disfarçamos de lama para não nos mostrarmos preciosos, porque ser precioso assusta os outros e então eles passam a vida tentando nos fazer acreditar que não podemos ser dourados. Um belo dia, quando a gente limpa essa lama e aprende a discordar inclusive das normas do espelho, o ouro aparece e brilha muito, e a gente descobre que ele estava lá o tempo todo, mas a gente por medo, fingia que não.

Joquei – Matilde Campilho

joquei

 

Talvez você tenha razão Matilde: o ace no Ping-Pong talvez seja a e-x-a-t-a definição do amor. A bolinha pinga na superfície do oponente sem encontrar resistência, relutância, ela ultrapassa o escudo sem permissão. Mesmo que o oponente tente, a velocidade do golpe parece aliada ao mistério do ar e não há o que fazer, a raquete resiste em vão. Os olhos perderam para o inevitável da distração.

Seu livro Jóquei possui a calmaria dos portos de chegada, há um novo registro no quebrar de regras ou de ondas. Um pensamento que mal se acaba e já é sobreposto por outro, que vem com pressa calma, tintando e bordando com capricho um atropelamento gentil e irregular. Anacolutos que acendem diversas tomadas de percepção, não sabemos quando você volta atrás, nem como você atravessou a rua. Você está onde seu corpo foi, como alguém que se assiste sem entender as regras de trânsito, como um cinema sem edição nem paradeiro. Ou uma criança que conta uma história sem organizar o fluxo de ideias, sem tomar cuidado para que o outro se sinta confortável como ouvinte.

Talvez a vida possa ser engraçada como um teste de Nicolas Cage para fazer o Batman, não sei. Sei apenas que as ondas mais inesperadas atacam nossos rostos quando ainda estamos nos recuperando do ultimo caldo. Estamos ainda de olhos fechados e o sal marrom invade nossas narinas e pirateia o controle nasal. Enquanto isso, Lisboa e Rio de Janeiro se beijam em um banco sem encosto, a três quadras do Arpoador. Alguns presenciam a cena enquanto outros apenas passam sem nem perceber a rima, estão entretidos com a liquidação de frutas cultivadas com métodos da América Central. Sei que o observador é também observado por alguém. Alguém que sabe dos fiapos de roupa residuais esquecidos em umbigos artesianos.

Matilde, quero lhe confidenciar um segredo. Não sei cortar frutas muito pequenas. Tento ser artista com a faca, mas ela sempre rouba partes aproveitáveis e reduz a extração das fatias uteis ao paladar. Uma fruta sem meu corte poderia ser muito maior. Eu jogo partes importantes fora e tenho dó, sinto culpa, estrago tudo com violência. Passei a vida prestando atenção no que me diziam sobre o lado difícil, foi assim que nunca soube nada sobre o fácil. O fácil talvez tenha um gosto de kiwi amarelo, não sei, estou chutando. Fácil é pensar que você talvez nem exista.

Eu uso muito a palavra talvez, porque gosto da incerteza. Usar talvez é  talvez uma forma de dizer que posso mudar de ideia e que eu não decido pelas coisas, elas é que se decidem enquanto as observo. Talvez seja o meu disfarce de humilde. Esse disfarce me deixa mudar de ideia, é mais leve do que a certeza. A certeza nos agarra e não quer soltar, exige que a gente brigue por ela e eu não gosto de tomar murros de graça. Um murro na cara é como uma tatuagem que a gente se arrepende. O talvez tem um pouco de surpresa dentro, é uma porta encostada, da pra desviar do murro. Ter certeza pode ser apenas uma pirraça moral, é pra quem não confia num inocente portão e prefere morar em um condomínio por achar que o mundo anda perigoso demais.

Outra coisa é que as canetas sempre acabam na minha mão. Sabe o último ato da última tinta? Aquela que falha no meio do rasbico. Depois que uma caneta acaba, sempre tentamos reanimá-la e então rabiscamos o branco sem enxergar o caminho da tentativa, mas ficam cicatrizes no papel. A vida é cheia desses papeis com riscos legitimados pela força e não pela tinta. Mas será que achar que as canetas sempre acabam em mim não é um tipo de mania de perseguição? Sei apenas que reparo bem em qual palavra a caneta acaba, isso talvez seja mais revelador do que a minha Lua em Leão. Quando a tinta para de sangrar e o azul cessa no papel, parece que algo se cala como uma tosse de interrupção, talvez essa seja a grande vírgula do escritor. E tenho mais indagações. Por que as professoras do colégio usam canetas de tinta vermelha para corrigir as provas? Não seria algo sádico fazer observações hostis com cores passionais? Como se a cor do sangue ameaçasse o pobre do aluno, como se o vermelho tivesse uma permissão imperativa sobre o azul. Talvez exista uma hierarquia no mundo das cores sem que a gente saiba. Não sei. Talvez. No mundo humano, isso acontece, as pessoas infelizmente inventam isso para a cor de pele. Aliás, a cor de pele é a cor mais preconceituosa da cartela do lápis de cor.

Seu livro me desperta uma amnésia e uma dissimulação pra lá de interessante. Muitas vezes eu finjo que entendi o que você quis dizer e eu sei que você me perdoa por isso. Nos livros isso é permitido. Um livro não tem uma caixa de comentários com gente mal educada sem noções básicas de interpretação de texto. Já na parte da amnésia existe também uma porção de coisas que não sei, aprendo e esqueço de novo, como a tartaruga do Nemo. As regras do impedimento no futebol por exemplo. Eu sempre sei, mas na hora h esqueço e jamais conseguirei explicar para alguém por mais fácil que isso seja. E eu não quero saber como é o certo, eu posso aprender quando necessário e então esquecer depois. Existem palavras que a gente sabe o que querem dizer sem que a gente saiba explicá-las. Eu não sei nenhum poema de cor, mas tenho aqui dentro uma coleção deles, e isso importa mais pra mim, me importa a sensação da epifania e não o que ela é.

Jóquei é até então o maior alvoroço literário do meu ano, é do tipo que só vai parar em mãos de gente especial. E eu pouco me importo se você for apenas mais um ser cheio de ego lendo mais um elogio entre tantos sentado na privada matinal. Fingir que você não existe me acalma um tanto e disso finjo que não existo também. A beleza da literatura está nesse cruzamento de inexistências, é um duelo sem mãos. Em algum lugar do espaço-tempo a gente se encosta, mesmo sem existir, sem que eu te agradeça por nada, sem amor com nota fiscal, e isso talvez seja a própria filosofia do amor. Talvez.